João Carlos Lopes dos Santos
Todas
as profissões são importantes, mas há países, entre eles o Japão, onde se dá mais
importância aos professores, porque formam as futuras gerações, e aos engenheiros, que
em muito ajudam na geração de empregos. No Brasil, ao contrário, o prestígio dessas
profissões anda meio por baixo, o que é uma pena. Para eles e para nós...
Decerto, que tive muitos professores
fantásticos, mas vou citar aqui os que mais me marcaram.
A estratégia do
primeiro mestre
O primeiro foi o meu pai, mas como eu era
muito teimoso não quis aprender muito com ele. Juventude e suas manifestações são
doenças que só o tempo cura. Mas ainda deu tempo de aprender alguma coisa com meu pai,
fosse até por osmose.
Mesmo que você não tenha pai professor, ele
sempre terá o que lhe ensinar e com uma grande vantagem: não haverá de lhe sonegar o
pulo do gato.
Meu pai estudou numa escola, nela lecionou e
foi o seu diretor. Era do tempo em que ser dono da escola não dava para ficar
milionário.
Como em todas as épocas, havia inadimplência
no pagamento das mensalidades escolares. Só que meu pai recebia sempre tudo que lhe
deviam, mas do jeito dele. Por exemplo, um carpinteiro, pai inadimplente, pagava as
mensalidades atrasadas consertando os móveis da escola...
O nome do estabelecimento de ensino era
Ginásio Todos os Santos, nos arredores do Méier, Zona Norte do Rio de
Janeiro, à época, o Distrito Federal. A escola encerrou suas atividades no início da
década de 50, quando meu pai preferiu abrir um escritório de advocacia e passou a
advogar para os pais dos alunos.
Os colégios, como o do meu pai, naquela
época, tinham uma particularidade: os alunos não faziam provas finais na própria
escola, mas sim no tradicional Colégio Pedro II, que também dava o diploma de conclusão
aos alunos. O grande orgulho do meu pai era que todos os seus alunos passavam logo no
primeiro exame.
José Lopes dos Santos Filho, nome inteiro do
meu pai, era professor de Português, Francês e Latim, mas cobria a falta eventual de
qualquer professor, fosse qual fosse a matéria.
O que me impressionava era a estratégia de
ele ensinar. Em todas as segundas-feiras, ele pendurava no lustre da sala de aula uma
cédula que hoje poderia equivaler a uns cinquenta reais. A nota ficava lá a semana
toda pendurada, olhando para a cobiça dos alunos. Aos sábados, tinha a sabatina, o que
hoje nem se ouve mais falar...
A turma de cerca de 40 alunos, aleatória e
semanalmente, era dividida em quatro grupos, que disputavam aquela nota.
O grupo que vencesse a ferrenha
sabatina, obrigatoriamente, ia à cantina do colégio no recreio de sábado gastar
aquele dinheiro, comendo um sanduíche de presunto e tomando um refrigerante. Meu pai era também o dono da
cantina, o que lhe minimizava o valor da liberalidade.
Apenas depois de burro velho é que concluí
que meu pai, malgrado ter sempre lutado com as dificuldades da vida, era um gênio.
A estratégia do
segundo mestre
O segundo mestre que marcou presença na minha
vida foi o meu professor de Ciências no Colégio Dois de Dezembro, também no Méier, nos
anos 1960, quando eu fazia o antigo curso ginasial, hoje rotulado de curso fundamental.
Falo do professor Clóvis Soisson, que também
tinha uma estratégia infalível para ensinar e fazer que os alunos todos aprendessem a
matéria. Médico dermatologista, ele gostava muito de lecionar Ciências. Era gordo,
baixo e muito simpático. Fazia um sucesso danado com as alunas, por conta da sua
extraordinária inteligência e um carisma muito raro de se encontrar. Infelizmente,
acabou morrendo atropelado numa das ruas do Méier.
Na primeira aula do mês, ele dava a matéria
toda e dizia os capítulos do livro que deveriam ser estudados. Nas aulas seguintes, havia
uma espécie de prova oral, ocasião em que cada aluno ia à frente da turma responder as
questões que lhe eram formuladas. Os outros alunos ficavam sentados estudando e só
paravam de ler o livro de Ciências para ouvir as respostas dos colegas que estavam sendo
arguidos.
A princípio, apresentavam-se os voluntários
os melhores alunos da classe. Quando acabavam os voluntários, o professor Soisson
descia o dedo pela lista de presença e sorteava um azarado. Os primeiros sorteados, quase
sempre, eram os que tiravam nota baixa e, na medida em que as arguições iam se
desenvolvendo, as notas dos últimos já ficavam excelentes pudera, já tinham
ouvido a "ladainha" umas vinte vezes...
No final, o toque do mestre. O professor
Soisson chamava aqueles que tinham tirado nota baixa para uma segunda ronda de perguntas.
Desta vez, é lógico, todos ganhavam 10. Vamos supor que um aluno tivesse tirado uma nota
quatro da primeira vez, ele somava aquele quatro com o invariável 10 da segunda chamada,
dividia por dois, e se chegava a uma honrosa nota sete. No final do ano, todos sabiam
Ciências e passavam com excelentes notas.
A estratégia do
terceiro mestre
O terceiro super mestre foi o meu professor de DIP
Direito Internacional Privado , em 1970, na tradicional Faculdade Nacional de
Direito da Universidade do Brasil. Em 1975, lá estava eu de novo fazendo doutorado e
mestrado na área de Direito Privado e, mais uma vez, ele foi meu professor de DIP.
Falo do saudoso mestre Haroldo
Valladão, excelente professor que tinha como estratégia para incentivar os alunos a sua
fama de impedir que os relapsos colassem grau. DIP era uma das matérias do quinto e
último ano do curso de Direito. Na nossa turma, havia uns três ou quatro alunos
repetentes de turmas anteriores, que não tinham se formado pelo fato de o mestre
Valladão os ter reprovados. Imagine não se formar, por não ter passado numa matéria do
último ano...
O esquema era simples. Ele ministrava
belíssimas aulas, lastreadas com piadas de fino humor e no seu livro Material
de Classe de Direito Internacional Privado. Nessa obra, ele colocou compilações de
normas de direito brasileiro e partes dos principais diplomas legais de países
estrangeiros, assim como convenções internacionais, para serem utilizados durante o
aprendizado da disciplina.
Dizia que não tinha o menor constrangimento
de impedir a formatura daqueles que não soubessem a matéria. Obviamente, que os alunos
estudavam e nem pensavam em faltar às suas aulas. Pouquíssimos alunos ficavam reprovados
e todos acabavam sabendo DIP na ponta da língua.
Como é bom lembrar-nos de pessoas
competentes, que nos ajudaram ao longo de nossas vidas.
Quis o destino
Hoje, tenho um filho fisioterapeuta
Carlos Eduardo Lopes dos Santos que lecionou traumato-ortopedia para alunos de
Fisioterapia, na Universidade Estácio de Sá. Seu irmão mais velho
João Carlos Lopes dos Santos Filho formado em Desenho Industrial e depois em
Educação-Física, trabalha como professor nesta área.
Espero que
meus filhos não copiem as artimanhas dos meus mestres, tampouco as dos deles, mas sim que
criem as suas próprias estratégias, objetivando o melhor para os seus alunos e que, por
isso e tudo mais que fizerem, possam ser sempre lembrados como grandes mestres.
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