Dinheiro bem
aproveitado
Malgrado, às vezes, a
sensação de estarmos jogando grana no ralo, o dinheiro mais bem gasto é aquele que
investimos na qualidade do ensino dos nossos filhos. A sensação de estarmos
prodigalizando o vil metal se deve à displicência com que nossos filhos como nós
no passado , via de regra, encaram tais oportunidades. O importante é que alguma
coisa fica.
Neste
momento, me lembro das expressões de puro luxo verbal, que aprendi nas aulas de Latim: "conditiones sine quibus non", "Curricula vitae", "Personae non gratae" e "Campi universitários".
Está estranhando, acha que
aí tem coisa errada?
Ensino de
alto nível
Estudei em bons colégios,
entre eles, no Colégio Marista São José, na Usina da Tijuca, Rio de Janeiro, na época
em regime de internato, de segunda ao sábado. Fiquei lá por quatro anos, de 1956 a 1959.
Embora o bom mesmo fosse ir
para casa nos sábados à tarde, no fundo, estamos aqui falando de um hotel cinco
estrelas. O São José tinha piscina de água corrente, quadras múltiplas para esportes,
três campos de futebol, sendo um gramado e com arquibancada, um cinema para mais de 300
pessoas e uma capela por que não chamá-la de igreja? com a mesma
capacidade. Tudo coisa muito rara nos estabelecimentos de ensino, no final dos anos 1950.
A comida era muito boa. Às
quartas-feiras, além de uma sessão de cinema, tínhamos no jantar frango assado
regado a refrigerante , comida de domingo e de gente rica naquela época, quando se
ouvia: pobre só come galinha, quando um dos dois está doente.
Havia três divisões de
alunos, conforme a faixa etária: menores, médios e maiores. Os refeitórios,
dormitórios, salas de estudos, pátios de recreio, esporte, lazer, na missa de todos os
dias e no cinema de quarta-feira os alunos eram separados por divisões.
Lá, tínhamos filhos de
gente famosa: grandes empresários, profissionais liberais e políticos de todo o país.
Na época, o Distrito Federal era aqui no Rio de Janeiro, o Executivo, com todos os seus
Ministérios, demais escalões e o Legislativo, o Congresso Nacional. O Judiciário,
representado pela magnitude do Supremo, também estava aqui.
Contava-se até com alunos
que eram membros da Família Imperial. Lá estudavam dois príncipes, um deles, Dom Pedro
Carlos de Orleans e Bragança que foi meu colega na divisão dos médios, por uns três
anos; outro, também chamado Pedro, era da divisão dos menores. Meus pais hoje sei
se privaram de muitas coisas, para conseguirem pagar as caríssimas mensalidades.
Filho só dá valor depois...
Aulas de
Latim
Mas o mote desta
crônica é a importância do ensino de uma língua morta chamada Latim, que hoje,
infelizmente, aulas não se têm mais. Ele é a base de todas as línguas chamadas
latinas: Espanhol, Italiano, Francês, Romeno e o nosso Português. O Latim se faz
presente, também, em outras línguas, como o Alemão e o Inglês. Quem quiser conhecer
profundamente os sobreditos idiomas, decerto, terá se aprofundar no Latim.
Darei
apenas dois exemplos: as palavras postergar
e vestíbulo são
Latim puro.
Postergare
(de post, depois + tergu, dorso, costas) quer dizer deixar atrás, lançar
para trás, preterir, desprezar.
Vestibulu quer dizer pátio
de entrada, espaço entre a porta de um edifício e a principal escadaria interior,
átrio. Daí, exame vestibular.
Você nem imagina quantas
palavras fala em Latim...
Tupi or not
Tupi?
O mesmo ocorre com o Tupi
falo do Português falado no Brasil. Vejam os exemplos: Tijuca, Maracanã,
Jacarepaguá, Pará, Paraná, Ceará, Piauí, Itaú, Anhangabaú, Pirapora, Araraquara,
Itapetininga, potiguar, pipoca, tapa, tapioca, carioca, guaraná, mandioca e Ipanema
a palavra da língua portuguesa mais falada no mundo e um amontoado de
palavras que chegaram até à língua portuguesa e ficaram. É por isso que defendo a tese
que, no ensino fundamental, deveríamos estudar o Latim e o Tupi.
Voltando
ao Latim
Tínhamos aula de Latim
diariamente. Além disso, começávamos o expediente escolar, diariamente, assistindo à
missa rezada integralmente em Latim.
Quando algum aluno cometia
qualquer deslize, o castigo era copiar ou, de dicionário na mão, fazer tradução de
textos clássicos latinos. Provavelmente por isso, naquela época, tinha certa má-vontade
com o idioma. Mas os irmãos maristas, grandes mestres, sabiam que alguma coisa iria
ficar.
De fato, alguma
coisa ficou
Se hoje não sou mais
experto em Latim é porque não dei continuidade aos estudos do idioma. Porém alguma
coisa de fato ficou.
Cultura inútil?
De jeito nenhum! Realmente,
até nos meios jurídicos, o Latim está em desuso: dizem que fica pedante usá-lo nas
petições. Também acho, mas por um motivo diferente. As novas gerações, logo após a
minha, deixaram de estudar Latim. Aí, é lógico que, como ninguém entende, fica
pedante.
Mas há
algumas expressões latinas, que se incorporaram definitivamente ao nosso cotidiano. Ao
citá-las, aproveito para explicar aquelas expressões lá do início do texto, que
ninguém tem obrigação de conhecer. Lá, estão os plurais das conhecidas expressões latinas:
Campus universitário
Campi universitários
Conditio sine qua non
conditiones sine quibus non
Curriculum vitae
Curricula vitae
Persona non grata
Personae non gratae
E não me façam outras perguntas a
respeito, porque o meu voo em Latim aterrissa por aqui...