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Tribuna da Imprensa - RJ
23 de novembro de 2002
Amílcar de Castro, o
escultor do instante
O jornalista
Benedito Coutinho entrou no apartamento do senador Gustavo Capanema, na Rua Tamandaré, no
Flamengo, entupido de livros, de alto a baixo. Na sala, o maravilhoso quadro de Portinari,
"A Ceia". Benedito ficou olhando o Cristo, os apóstolos, um a um:
- Senador, esta Santa Ceia só tem onze
apóstolos. É a primeira Ceia que vejo sem Judas.
- Pois é, Benedito. Exatamente aí está a
originalidade deste quadro do Portinari. Ele pintou o instante. Pintou precisamente o
instante em que, mal Judas se retirara, o Cristo disse aos onze apóstolos:
- Enfim, sós.
Como Cecília e Picasso
A arte é isto: o sopro do instante, a
criação do instante, a descoberta do instante, o flagrante do instante. A eternidade do
instante. Por isso nossa Cecília Meireles disse: "Eu canto porque o instante
existe". E o catalão Picasso: "A arte é uma mentira que revela a
verdade".
Morreu mais um gênio do instante. Amílcar de
Castro, o escultor do instante. O genial artista do instante da matéria, do ferro, do
aço, do granito:
"Chego e faço. Desenho na hora. Não há
nada premeditado, porque não estou preso a coisa nenhuma. O desenho é meu alfabeto.
Minha escultura é a maneira que encontrei de escrever no espaço" ("O
Globo").
Guignard e Amílcar
Na Escola de Belas Artes do Parque Municipal
de Belo Horizonte ou na cervejaria Tip-Top, eu os via e ouvia, ainda menino, 20 anos,
desde 1952, Guignard, com quase 60, os lábios cortados e a voz fanhosa, e Amílcar, já
com mais de 30, olhos grandes, cabelos fartos e revoltos, em chopes e conversas
intermináveis, tardes inteiras, falando sobre arte e vida e gente e mundo.
Professor e aluno. Pareciam duas crianças.
Guignard, todo criança, ainda mais criança do que Amílcar, também alma de criança.
Só depois que Benedito Coutinho me contou a conversa com Gustavo Capanema sobre "A
Ceia" de Portinari fui entender como e por que os dois passavam tardes infinitas
tomando chope e falando de arte e vida. Estavam esperando o instante chegar.
No JB e Diário Carioca
O pai, também Amílcar, nosso professor na
Faculdade de Direito e presidente do Tribunal Eleitoral. Amílcar tinha abandonado a
faculdade para buscar o instante. A partir de 52 veio para o Rio, mas sempre estava por
lá.
Mergulhou fundo nos novos ventos que sopravam
novos tempos nas artes, como o Movimento Concretista e o pioneiro Suplemento Dominical do
Jornal do Brasil, criado por Reinaldo Jardim. E inventou o "L" dos anúncios da
primeira página, a partir do qual criou e desenhou a reforma do jornal.
No fim de 65, vindo para o Rio depois da
cassação e da cadeia, nos reencontramos no "Diário Carioca", dirigido pelo
nobre e sábio Prudente de Morais, neto, também desenhando a primeira página, com a
leveza e a beleza de seu traço. Só saía depois que o jornal fechava, a página enxuta,
exata.
E iamos, com outros colegas, para o Real
Astória, no Leblon, onde morávamos em prédios vizinhos, enxugar chopes e madrugadas. E
ele contando a experiência de sua temporada de bolsista no Museu Guggenheim, nos Estados
Unidos, e falando de arte. Sempre esperando o instante.
Um instante de Niemeyer
Depois, voltou para Minas, onde instalou, em
Nova Lima, ao lado de Belo Horizonte, o ateliê de suas esculturas monumentais, que ainda
este ano foram mostradas, no Rio, em duas históricas exposições.
Ontem, com a notícia de sua morte, em Belo
Horizonte (aos 82 anos), os jornais também publicavam a inauguração, em Curitiba, do
Museu do Paraná, mais uma deslumbrante obra-prima do gênio de Oscar Niemeyer, descrita
pelo próprio Niemeyer, também um magistral arquiteto da palavra:
"Lá está o Novo Museu a surpreender a
todos que passam. Uma arquitetura que foge a tudo que viram antes. Toda feita de audácia,
de técnica e de fantasia. O teto aparente, imenso, com 70 metros de comprimento e 15 de
altura, como um grande céu iluminado". É mais um iluminado instante de Niemeyer.
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