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ARTES PLÁSTICAS
ESCULTORA ZÉLIA SALGADO MORRE AOS 104 NO RIO

A artista Zélia Salgado morreu anteontem no Rio, aos 104 anos, em decorrência de um edema pulmonar. Paulistana radicada na capital fluminense, Salgado foi um dos principais nomes da escultura no Brasil, tendo sido professora de Lygia Clark (1920-1988) nos anos 50. Parte importante de sua produção -30 obras- está no acervo do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio.

Revista “Veja-Rio”
12/01/2005

PERFIL

Senhora século XX

Artista celebra 100 anos com exposição

Livia de Almeida

Fotos André Valentim/Strana
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Zélia Salgado: festa de 100 anos na antiga Escola de Belas Artes


Ela foi amiga de infância de Roberto Burle Marx e Lucio Costa. Colega de turma de Cândido Portinari. Indicou um professor de arte para uma principiante chamada Lygia Clark. Durante anos, deu aulas ao lado de Fayga Ostrower no então recém-inaugurado Museu de Arte Moderna. Zélia Salgado fez 100 anos em outubro e tem muitas histórias para contar. Quem visita o Museu Nacional de Belas Artes se surpreende também com uma obra que conta um pouco da história da arte brasileira no século XX e esteve presente nas cinco primeiras Bienais de São Paulo. "Ao lado de Franz Weissman, Zélia foi a primeira escultora abstrata do país", diz Paulo Herkenhoff, diretor do MNBA, diante das linhas sinuosas de Forma de Alumínio. A obra, de 1953, é um dos destaques da retrospectiva que comemora o centenário da artista plástica. Aberta no aniversário da artista, em 9 de outubro, a exposição foi prejudicada pela greve dos servidores do museu. Com o fim da paralisação, os trabalhos de Zélia podem novamente ser vistos, até 31 de janeiro. "Ela faz questão de celebrar a data na Escola", conta Herkenhoff. Para Zélia, o museu continua sendo a Escola de Belas Artes, onde ela estudou a partir de 1924 e conheceu gente como o pintor Cândido Portinari, que a retratou como uma jovem de olhar compenetrado. "Ele era baixinho, puxava de uma perna e vivia pedindo para a gente posar para ele", lembra-se a artista.

 

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Retrato de Olga (1951): etapa na direção de uma pintura abstrata

Zélia mora em um espaçoso apartamento no Parque Guinle, condomínio projetado pelo amigo Lucio Costa, com vista para uma cidade que cresceu demais. Sentada em uma poltrona que ela própria projetou nos anos 40, Zélia fala de memória dos tempos em que habitava uma das únicas casas de Ipanema, na Avenida Rainha Elizabeth – "um areal" –, freqüentava o ateliê dos irmãos Bernardelli em Copacabana e estudava no Colégio Sacré-Coeur de Marie. Foi lá que conheceu Helena, irmã de Roberto Burle Marx, e começou a visitar a casa da família. O amor pela arte a aproximou de Roberto, que viria a se tornar seu melhor amigo vida afora. Tão amigo que ela passou a abater cinco anos de sua idade porque não queria que soubessem que era mais velha que ele. Depois da morte do artista, em 1994, Zélia assumiu a idade. Na casa dos Burle Marx, no Leme, dona Cecília, a mãe, dava lições de canto e piano para Olga, irmã de Zélia, e adorava receber amigos para o almoço. "Às vezes eram mais de trinta pessoas à mesa", conta. Nos anos 40, Zélia ajudava o artista em seu ateliê. "Roberto viajava muito, e então eu tomava conta do curso." Uma de suas jovens alunas foi Lygia Clark. "Ela chegou dizendo ao Roberto que queria aprender a fazer pastel. Ele respondeu que então era melhor ela procurar seu cozinheiro", lembra, rindo.

 

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No MNBA, mais de uma centena de obras revela a arte de Zélia: destaque para sua sofisticada produção tridimensional

 

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Fotos: Divulgação, Paulo Marcos e Fernando Lemos/Strana

No final dos anos 40, Burle Marx incentivou Zélia a mergulhar na produção de esculturas. Enquanto sua obra de pintura segue um percurso clássico de seu tempo, iniciando na figuração e aos poucos se desmanchando em formas geométricas, sua escultura já nasceu abstrata e fruto de uma grande vontade de pesquisar novos materiais. Zélia trabalhou com bronze, metais, mármore e até maciços blocos de pedra. "Aprendi a cortar pedra com Tito Bernutti, um italiano de Carrara que fazia túmulos para o cemitério São João Batista. No primeiro dia, eu me cortei, saiu sangue, foi um horror. Meu marido achava que eu nunca mais ia ter coragem de voltar", conta. Pouco depois, em 1954, Zélia passou em um concurso para professora do recém-inaugurado Museu de Arte Moderna. "Eu e a Fayga passamos. Ela, para dar aulas de teoria, e eu para aulas práticas. A partir daí, ficamos muito amigas", conta. Em 1960, expôs no MAM um conjunto de obras de aço cortado e ondulado, que para Herkenhoff podem ser consideradas suas obras-primas. Elas seriam cedidas anos depois ao Itamaraty, para uma exposição no exterior, e não foram mais vistas. "É uma lacuna inestimável", afirma o diretor do museu.

Podem faltar peças-chave da produção artística de Zélia, mas não histórias. Ela viu Hitler e Mussolini passar de carro bem a sua frente em Roma. Viu também a exposição de arte degenerada na Alemanha. Esteve nas primeiras Bienais de arte do país. Viu Brasília nascer no papel. Fez muitos amigos. "Nunca briguei com ninguém", diz, mansamente. Fica um pouco envergonhada quando lhe chamam atenção para a qualidade de sua obra e sua vida fascinante. "Não fiz nada. Eu apenas sobrevivi a esta viagem", diz. Uma viagem que atravessou um século.