São
Paulo, sexta-feira, 28 de agosto de 2009
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Revista
Veja-Rio
12/01/2005
PERFIL
Senhora
século XX
Artista
celebra 100 anos com exposição
Livia
de Almeida
Fotos
André Valentim/Strana
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Zélia
Salgado: festa de 100 anos
na
antiga Escola de Belas Artes
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Ela foi amiga de infância de Roberto Burle Marx e Lucio Costa. Colega de turma de
Cândido Portinari. Indicou um professor de arte para uma principiante chamada Lygia
Clark. Durante anos, deu aulas ao lado de Fayga Ostrower no então recém-inaugurado Museu
de Arte Moderna. Zélia Salgado fez 100 anos em outubro e tem muitas histórias para
contar. Quem visita o Museu Nacional de Belas Artes se surpreende também com uma obra que
conta um pouco da história da arte brasileira no século XX e esteve presente nas cinco
primeiras Bienais de São Paulo. "Ao lado de Franz Weissman, Zélia foi a primeira
escultora abstrata do país", diz Paulo Herkenhoff, diretor do MNBA, diante das
linhas sinuosas de Forma de Alumínio. A obra, de 1953, é um dos destaques da
retrospectiva que comemora o centenário da artista plástica. Aberta no aniversário da
artista, em 9 de outubro, a exposição foi prejudicada pela greve dos servidores do
museu. Com o fim da paralisação, os trabalhos de Zélia podem novamente ser vistos, até
31 de janeiro. "Ela faz questão de celebrar a data na Escola", conta
Herkenhoff. Para Zélia, o museu continua sendo a Escola de Belas Artes, onde ela estudou
a partir de 1924 e conheceu gente como o pintor Cândido Portinari, que a retratou como
uma jovem de olhar compenetrado. "Ele era baixinho, puxava de uma perna e vivia
pedindo para a gente posar para ele", lembra-se a artista.
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Retrato
de Olga (1951):
etapa na direção de uma pintura abstrata |
Zélia
mora em um espaçoso apartamento no Parque Guinle, condomínio projetado pelo amigo Lucio
Costa, com vista para uma cidade que cresceu demais. Sentada em uma poltrona que ela
própria projetou nos anos 40, Zélia fala de memória dos tempos em que habitava uma das
únicas casas de Ipanema, na Avenida Rainha Elizabeth "um areal" ,
freqüentava o ateliê dos irmãos Bernardelli em Copacabana e estudava no Colégio
Sacré-Coeur de Marie. Foi lá que conheceu Helena, irmã de Roberto Burle Marx, e
começou a visitar a casa da família. O amor pela arte a aproximou de Roberto, que viria
a se tornar seu melhor amigo vida afora. Tão amigo que ela passou a abater cinco anos de
sua idade porque não queria que soubessem que era mais velha que ele. Depois da morte do
artista, em 1994, Zélia assumiu a idade. Na casa dos Burle Marx, no Leme, dona Cecília,
a mãe, dava lições de canto e piano para Olga, irmã de Zélia, e adorava receber
amigos para o almoço. "Às vezes eram mais de trinta pessoas à mesa", conta.
Nos anos 40, Zélia ajudava o artista em seu ateliê. "Roberto viajava muito, e
então eu tomava conta do curso." Uma de suas jovens alunas foi Lygia Clark.
"Ela chegou dizendo ao Roberto que queria aprender a fazer pastel. Ele respondeu que
então era melhor ela procurar seu cozinheiro", lembra, rindo.
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No
MNBA, mais de uma centena
de
obras revela
a
arte de Zélia:
destaque
para
sua
sofisticada
produção
tridimensional
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No
final dos anos 40, Burle Marx incentivou Zélia a mergulhar na produção de esculturas.
Enquanto sua obra de pintura segue um percurso clássico de seu tempo, iniciando na
figuração e aos poucos se desmanchando em formas geométricas, sua escultura já nasceu
abstrata e fruto de uma grande vontade de pesquisar novos materiais. Zélia trabalhou com
bronze, metais, mármore e até maciços blocos de pedra. "Aprendi a cortar pedra com
Tito Bernutti, um italiano de Carrara que fazia túmulos para o cemitério São João
Batista. No primeiro dia, eu me cortei, saiu sangue, foi um horror. Meu marido achava que
eu nunca mais ia ter coragem de voltar", conta. Pouco depois, em 1954, Zélia passou
em um concurso para professora do recém-inaugurado Museu de Arte Moderna. "Eu e a
Fayga passamos. Ela, para dar aulas de teoria, e eu para aulas práticas. A partir daí,
ficamos muito amigas", conta. Em 1960, expôs no MAM um conjunto de obras de aço
cortado e ondulado, que para Herkenhoff podem ser consideradas suas obras-primas. Elas
seriam cedidas anos depois ao Itamaraty, para uma exposição no exterior, e não foram
mais vistas. "É uma lacuna inestimável", afirma o diretor do museu.
Podem
faltar peças-chave da produção artística de Zélia, mas não histórias. Ela viu
Hitler e Mussolini passar de carro bem a sua frente em Roma. Viu também a exposição de
arte degenerada na Alemanha. Esteve nas primeiras Bienais de arte do país. Viu Brasília
nascer no papel. Fez muitos amigos. "Nunca briguei com ninguém", diz,
mansamente. Fica um pouco envergonhada quando lhe chamam atenção para a qualidade de sua
obra e sua vida fascinante. "Não fiz nada. Eu apenas sobrevivi a esta viagem",
diz. Uma
viagem que atravessou um século.