"A pintura é um exemplo de trompe-l'oeil
em si", afirma Manuel Caeiro, que anda pela cidade absorvendo tudo o que vê. Nesta
sua segunda estada no Rio, mais longa do que a primeira em abril do ano passado,
quando expôs na Lurixs ele diz perceber mais a cidade, com uma intensidade maior.
Isso pode ser observado em seus novos trabalhos, que possuem mais luz e nuances de cor, e
onde a perspectiva trabalha de maneira diferente do que nas obras anteriores. "Tem a
ver com o processo de como eu vivi a cidade, os vestígios na memória, e com a própria
obra: tensão e descanso, contraluz x luz", observa.
"Na primeira exposição que fiz no Rio, na
galeria Lurixs, em 2009, os trabalhos mostravam o que eu imaginava da cidade. Agora os
trabalhos são diferentes e mostram de que forma eu interpreto a cidade e como a vivenciei
até agora", explica o artista. "Sofro influências da cidade todos os dias ao
caminhar nas ruas e essa influência cotidiana é refletida no meu trabalho", diz.
"Há uma procura mais ambiciosa, uma repercussão da maneira como eu capto a
realidade sobre o objeto, que é o motivo do trabalho. Agora pude captar mais nuances da
cidade, a fabricação ficou mais elaborada. Quando ando pela cidade é como uma esponja,
tudo é absorvido", explica.
O nome da exposição (de cabeça para baixo, em
inglês) tem a ver com o fato de que as telas podem ser viradas de ponta-cabeça,
invertendo seu plano e sua perspectiva. Manuel Caeiro comenta que suas pinturas podem ser
consideradas abstratas ou figurativas, e que este "meio termo" o agrada.
"As obras sugerem um espaço figurativo, mas quando você entra nelas, está em um
plano abstrato", observa. "São exercícios em que a simulação do quadrado
acaba por se acumular em um plano junto a nós", explica.
Ele cria a pintura diretamente nas telas de linho, e
usa um caderno apenas para anotar suas ideias. A tela é presa diretamente na parede e só
depois de pronta é colocada no chassi. "É um processo puramente mental, em que as
ideias surgem e se realizam através da intuição. Gosto de pensar aquilo que já não
lembro. É aí que a intuição aparece. Intuição é o maior grau de pureza da minha
alma. É ela que dá espaço para que os outros pensem sobre o trabalho. Gosto de
acreditar que as pessoas vão perceber a obra a partir de sua própria intuição, que
vão pensar as coisas que quiserem", diz.
Manuel Caeiro conta que ao ver as "peças
quadrigêmeas", a série "Trompe loeil", pensou que sua solução
estava na escultura "Twins", que fez em alumínio e esmalte sintético, com luz
fluorescente vermelha. São as próprias pinturas em três dimensões, como peças que
reverberam na escultura. "Foi um processo natural de todo esse percurso, e que
acontece no ateliê, tem a ver com os materiais usados, com a seqüência de pensamento
sobre a obra, e acaba quase que gratuitamente". Entretanto, ele ressalta: "Não
sou um escultor, mas um pintor que faz esculturas", complementando que a escultura
foi um prolongamento necessário de sua pintura: "Essas esculturas têm que existir
no processo da própria pintura e são pintadas exatamente da mesma maneira",
observa.
A exposição na Lurixs terá ainda uma série de
desenhos em preto e branco, que são uma espécie de estudo para as pinturas.
Manuel Caeiro segue um princípio construtivista que
investiga as relações entre o desenho, a pintura e a arquitetura. Estruturas pintadas
com um extremo realismo flutuam no fundo branco da tela onde simultaneamente aparecem os
registros ou "sujidades do processo da pintura", como linhas de estudo para a
composição, respingos de tinta, vestígios de solvente etc. As pinturas são inspiradas
em construções que o artista vê na rua. "A minha idéia é fazer um contraponto
entre realidade e abstração", explica. "Pego elementos do dia a dia e trago
para a tela. Transformo algo que aparentemente não tem valor em uma realidade plástica
nobre", afirma.
Serviço: Manuel Caeiro Up Side Down
Abertura: 19 agosto de 2010, às 18h
Visitação: 20 de agosto a 17 de setembro de 2010
Segunda a sexta, das 14h às 19h
Aos sábados, agendamento por telefone
Rua Paulo Barreto 77, Botafogo
22280-010 Rio de Janeiro RJ Brasil
Telefone: 21 2541 4935