
VELHOS TEMPOS - Ferreira Gullar, Lygia Pape,
Theon Spanudis, Lygia Clark e Reinaldo Jardim
Da gravura ao cinema novo, Lygia
experimentou de tudo um pouco
Arte e Lazer - Estadão
03/05/2004 - 19h42
Rio de Janeiro - A artista plástica Lygia
Pape morreu nesta segunda-feira, aos 75 anos, no Hospital São Lucas, em Copacabana, na
zona sul do Rio de Janeiro. Uma das mais importantes artistas brasileiras, representante
do movimento neoconcreto dos anos 50 no Brasil, Lygia estava internada há uma semana,
vítima de um câncer, segundo informações da Globo Online.
Lygia Pape nasceu em Nova Friburgo, no Rio, em
1929, deixa uma obra marcada pelo abstracionismo geométrico e por uma diversificação
exemplar. Uma de suas obras mais instigantes é o Livro Noite e Dia, um conjunto de
365 peças de madeira diferentes umas das outras, em tons que vão do branco ao cinza.
Entre os vários prêmios que recebeu, destaca-se o da Associação Brasileira de
Críticos de Arte, em 1990, com a série Amazoninos.
"Os Amazoninos são peças de ferro em
que eu trabalho como se fossem grandes origamis, tento dar ao ferro a leveza do
papel", disse em entrevista ao Estado. "São e serão sempre uma alusão
à Amazônia e à linha de urucum pintada na parede... como uma linha da vida. A Amazônia
é incrivelmente bela... E forte. O vermelho é uma cor de que gosto muito, está sempre
presente em mim", disse em entrevista sobre a retrospectiva organizada pela Galeria
Milan no seu aniversário de 50 anos de carreira.
Nos anos 50, Lygia aproximou-se dos
concretistas, mas acabou integrando o Grupo Frente e assinando o Manifesto Neoconcreto,
participando em 1958 da exposição internacional de arte concreta, em Zurique, Suíça.
Participou da 3.ª, 4.ª e 5.ª Bienais Internacionais de São Paulo daquele período. Foi
muito amiga de Hélio Oiticica, talvez o maior expoente da arte no período e depois de
sua morte, em 1980, a artista passou a cuidar do acervo do amigo, retomando a produção
artística somente em 1988.
Lygia usou o corpo humano numa série de
trabalhos de 1959, explorando o tato, o olfato e o paladar. No fim dos anos 50 e início
dos 60, iniciou a trilogia de livros de artista, com o Livro da Criação, Livro da
Arquitetura e Livro do Tempo. Em 1967, participou da exposição Nova
Objetividade Brasileira com a Caixa de Baratas e a Caixa de Formigas. Em
1968, no evento Apocalipopótese apresentou seu objeto penetrável Ovo.
Panos perfurados eram o tema da série Divisor, de 1969. Nas décadas de 1980 e
1990, trabalhou com a ilusão dos sentidos o pesado parecia leve e vice-versa.
Lygia envolveu-se também com o Cinema Novo,
cuidando da programação visual de vários filmes, como Vidas Secas, de Nelson
Pereira dos Santos e Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.
Lygia foi mestre em estética filosófica pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi professora da Faculdade de Arquitetura Santa
Úrsula e lecionou na Escola de Belas Artes da UFRJ.
Por vontade da artista, seu corpo será
cremado, sábado, no Caju (zona portuária). Também a pedido dela, haverá uma missa
cantada no Mosteiro de São Bento no sétimo dia de sua morte. "Ela não queria virar
uma instalação, por isso não queria velório. Para ela tudo isso era um saco. Pode
escrever", disse uma das filhas de Lygia, Paula Pape, com quem ela morava.
Paula disse que a mãe era uma pessoa
"pra cima" e até o fim da vida manteve-se ativa, elaborando muitos projetos.
Lygia tinha outra filha, Maria Cristina Pape, e um "filho de estimação",
Ricardo Fortes, que trabalhava com a artista e é o pai de seus dois netos. Ela deixou
viúvo Gunther Pape.

Artista foi uma das integrantes
do movimento neoconcreto nos anos 50, ao lado de Lygia Clark e Hélio Oiticica
Folha de São Paulo
TALITA FIGUEIREDO
DA SUCURSAL DO RIO
DO BANCO DE DADOS
A artista
plástica Lygia Pape morreu no início da noite de ontem, de infecção generalizada.
Vítima de mielodisplasia -doença na medula que afeta a produção de leucócitos e
plaquetas sangüíneas-, ela estava internada havia uma semana no Hospital São Lucas
(Copacabana, zona sul do Rio). Na manhã de sábado, ela foi transferida para o CTI
(Centro de Terapia Intensiva) da unidade.
Pape foi uma das mais importantes artistas brasileiras e
representante do movimento neoconcreto nos anos 50. Ela não gostava de revelar a idade.
Na maioria das biografias constantes dos catálogos de suas exposições, 1929 aparece
como o ano de seu nascimento.
Ela era mestre em estética filosófica pela UFRJ (Universidade
Federal do Rio de Janeiro). A artista será cremada no sábado, no cemitério do Caju
(zona norte do Rio de Janeiro).
No domingo, uma missa cantada no mosteiro de São Bento (centro do Rio) será celebrada em
sua homenagem.
A artista
Lygia Pape nasceu em 1929, em Nova Friburgo, no Rio. Formou-se em
filosofia pela Universidade Federal do Rio e, depois, fez mestrado em estética
filosófica pela mesma UFRJ. Estudou com Fayga Ostrower e Ivan Serpa.
Dedicou-se especialmente à xilogravura, sendo adepta do
abstracionismo geométrico. Para Lygia, a arte era principalmente experiência.
Atuou em dois movimentos artísticos nos anos 50 e 60: o concretismo, marcado pela
abstração geométrica, e o neoconcretismo (em 1957, ela integrou ao Grupo Frente e foi
uma das signatárias do "Manifesto Neoconcreto"), que se rebelou contra os
rigores da arte concreta.
Em 1958,
realizou o "Ballet Neoconcreto" e, em 1960, participou da Exposição
Internacional de Arte Concreta, em Zurique, na Suíça.
No fim dos anos 50 e início dos 60, começou o que seria uma trilogia de livros de
artista composta por "Livro da Criação", "Livro da Arquitetura" e
"Livro do Tempo".
A partir da década de 60, trabalhou com roteiro, montagem e
direção de cinema, tendo feito a programação visual de alguns filmes do cinema novo,
entre eles, "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (1964), de Glauber Rocha.
Produziu, em 1967, o vídeo "La Nouvelle Création". Ainda nos anos 60, produziu
esculturas em madeira e realizou "Livro-Poema", composto de xilogravuras e
poemas concretos.
Em 1971, Pape realizou o curta-metragem "O Guarda-Chuva
Vermelho", sobre o gravurista Oswaldo Goeldi (1895-1961).
Em 1980, recebeu uma bolsa de estudos da Fundação Guggenheim,
em Nova York. Com a morte de Hélio Oiticica, Lygia organizou, com Luciano Figueiredo e
Waly Salomão, o Projeto Hélio Oiticica, destinado a preservar e divulgar a obra do
artista.
Em 1990, recebeu o prêmio da Associação Brasileira de
Críticos de Arte com a mostra Amazoninos e realizou com bolsa da fundação Vitae o
projeto "Tteias", no qual combina luz e movimento. Recebeu, em 1992, o prêmio
Ibeu, do Instituto Brasil-Estados Unidos, pela melhor exposição realizada no ano
anterior. Em 1997, expôs seus trabalhos na galeria Camargo Vilaça, em São Paulo.
Lygia Pape foi professora da Faculdade de Arquitetura Santa
Úrsula de 1972 até 1985 e, desde 1982, lecionava na Escola de Belas-Artes da
Universidade Federal do Rio de Janeiro.
.Uma artista a
serviço da invenção
Morte da carioca Lygia Pape priva arte brasileira de uma de suas grandes renovadoras
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Pilar do Grupo Frente (1956-1957)
e expoente dos movimentos concreto e neoconcreto, a artista plástica Lygia Pape, que
morreu anteontem, aos 75 anos, de parada cardíaca, foi mestra na arte de inventar.
''A invenção me emociona'', costumava dizer. ''Acho que esse
impulso criador é inerente ao homem. É como se ele tivesse necessidade de criar, de dar
um novo significado às formas''.
Nascida em Nova Friburgo, no Estado do Rio, em 1929, e
graduada em Filosofia na UFRJ e mais tarde mestra em Estética Filosófica, Lygia foi
também uma grande anarquista, recusando-se a participar do que considerava status quo.
Evitava mostras em galerias comerciais e criticava o tratamento dado à arte pelos museus.
No auge da juventude, protagonizou momentos de
profunda investigação plástica e participou de inúmeras exposições. Mostrou Tecelares
(xilogravuras) com o grupo Frente no Museu de Arte Moderna no Rio em 1955 e, no ano
seguinte, participou da Exposição de arte concreta no Museu de Arte de São Paulo
e também em Zurique.
Entre 1956 e 57 participou da 1ª
Exposição nacional de arte concreta no MAM de São Paulo e no Ministério da
Educação e Cultura, no Rio. No final dos anos 50 integrou a primeira Exposição
neoconcreta, realizou o Balé neoconcreto e o Livro da criação.
Para Lygia, trabalhar com o espaço real foi
muito mais desafiador do que simplesmente pintar uma tela. E foi como artista neoconcreta
que conseguiu conquistar o equilíbrio perfeito entre o máximo de expressividade e o
mínimo de elementos.
A artista brindou a chegada dos anos 60 com
uma série de projetos de esculturas em madeira, e passou a trabalhar com cinema em 1962.
Fez cartazes, roteiro, montagem e direção. Foi programadora visual de inúmeros filmes,
como Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos, e Deus e o Diabo na terra do sol,
de Glauber Rocha. Seus diretores prediletos foram outros: Rogerio Sganzerla e Julio
Bressane.
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Tetéia nº 7 (1991)
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Lygia produziu
vários curtas-metragens, dentre eles La nouvelle création, com o qual participou
de um festival canadense cujo tema era A terra dos homens. Avessa às normas,
resolveu falar sobre o homem, e não sobre a Terra. Pegou carona na primeira viagem à
lua. O curta, uma espécie de ode ao nascimento, mostra o astronauta como bebê, preso à
mãe pelo cordão umbilical. Nos segundos finais, a tela fica vermelha; ouve-se o choro de
uma criança. Com este curta-metragem, Lygia Pape ganhou o prêmio principal.
O poeta e escritor Jorge Salomão, que teve a
capa de seu segundo livro, O olho do tempo, ilustrado pela artista, conheceu-a por
intermédio de Hélio Oiticica. Dela, guarda a memória de uma mulher elétrica, luminosa.
- Em 1990 fiz um evento de rock e artes
plásticas no Circo Voador e ela participou com a Roda dos prazeres [mesa com
diversos sabores, para apreciação do público]. Ela era uma agitadora, no cinema e
na arte. No fundo, um vulcão a soltar lavas extraordinárias.
A experiência de Lygia com o cinema durou
cerca de cinco anos, e ela voltou às artes plásticas com o espírito renovado. Fazendo
algo até então inédito no país, quiçá no mundo, introduziu ''objetos vivos'' em seu
trabalho.
Em 1967, participa da exposição Nova
objetividade brasileira com as emblemáticas Caixa das baratas e a Caixa de
formigas. As baratas e as formigas de Lygia foram oferecidas ao MAM carioca, na
ocasião em que a instituição havia recebido uma grande verba para novas aquisições e
convidara os artistas para exporem seus trabalhos. Foi, segundo Lygia, ''um gesto crítico
à arte trancada e morta dentro dos museus''. O MAM não adquiriu os trabalhos.
Em 1968, nova surpresa: integrou o evento Apocalipopótese
com o objeto penetrável Ovo, um cubo coberto com uma superfície macia, no qual a
pessoa entra, rompe e, de acordo com a artista, ''nasce''. Nesse momento, ficou evidente o
interesse de Lygia em dar início à produção de obras públicas.
No ano seguinte, com a performance Divisor,
trabalho feito com um pano de 900 metros quadrados, com perfurações para que o público
participe da obra, a artista reafirmou a intenção de popularizar sua arte. ''Queria
fazer naquele momento um trabalho que fosse coletivo, e que as pessoas pudessem repetir
sem que eu estivesse presente'', disse à época.
Lygia, que participou de três (3ª, 4ª e
5ª) Bienais Internacionais de São Paulo, expôs sua produção neoconcreta na galeria
Thomas Cohn e na mostra Modernidade , em Paris. Como bolsista da Fundação
Guggenheim, permaneceu vários meses em Nova York. Com a morte de Hélio Oiticica,
trabalhou na organização de seu acervo, voltando às invenções em 1988.
No início da década de 90, foi premiada pela
Associação Brasileira de Críticos de Arte com os trabalhos da série Amazoninos,
feitos em chapa metálica.
Para a artista, inventar foi sinônimo de
correr riscos, por envolver sacrifício, esforço, sofrimento. A marchande Silvia Cintra,
que acolheu a última exposição da artista no Rio, Projetos em preto e branco,
uma coletiva reunindo outros nomes da contemporaneidade, lamenta sua morte:
- Lygia desmontou a visão modernista da arte.
Ficamos órfãos da maior artista brasileira viva.
O escultor Franz Weissmann, 92 anos, melhor
amigo de Lygia, soube da morte da artista ontem pela manhã. Sua filha, Waltraud, diz que
o pai recebeu a notícia com emoção.
- Lygia era a última amiga viva de papai.
Eram amigos desde a década de 50. É natural que esteja deprimido.
Abalado, o artista Antonio Manuel preferiu
não se manifestar sobre a perda da amiga.
- Estou chocado com a morte de Lygia. Não
tenho o que falar. Apenas que Lygia descanse.
A artista tentou nos últimos anos vencer uma
doença degenerativa na medula. Anteontem, às 18h30, sofreu uma parada cardíaca fatal.
Lygia gostava de sentir-se ''dissolvida no mundo''. Antes de morrer, manifestou às filhas
Paula e Cristina o desejo de que seu corpo fosse cremado.
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