Morre aos 75 anos a artista
plástica Lygia Pape

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Texto:
O Globo Online
03/05/2004 - 19h24

Imagens:
Reprodução


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Lygia e uma de suas instalações


 A artista Lygia Pape morreu às 18h30m de hoje (3 de maio de 2004), no Hospital São Lucas, em Copacabana, zona sul do Rio, onde estava internada há uma semana, vítima de um câncer.

Uma das mais importantes artistas brasileiras, representante, nos anos 50, do movimento neoconcreto brasileiro, Lygia foi eleita personagem do ano de 2002 nas artes plásticas pela equipe do Segundo Caderno do jornal "O Globo".


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T-téia (escultura)

     Sempre ativa, Lygia escondia a idade. Avessa a rótulos, dizia não querer que exigissem dela um comportamento condizente com a faixa etária.

     "Quando você diz que tem 40, 60 ou 80 anos, é posto numa gaveta limitada e eu quero poder ter todas as idades", explicou a artista, em entrevista publicada no jornal "O Globo" no ano passado.

     Mas jurava não ter medo da morte: "Medo? Eu não, tenho é curiosidade! Só vou saber como é quando chegar lá..."

     A passionalidade foi o eixo de seu temperamento e de sua relação com o trabalho e as pessoas. Suas qualidades e seus defeitos derivam deste jeito derramado, aberto e turbulento. Transparente, não mede palavras e é capaz de repreender um parente em público caso considere que ele errou. Nunca deixa para falar depois o que está pensando agora.

     "Não sei me relacionar sem ter paixão. Adoro gente. Não consigo entender as pessoas que vivem sem gostar das outras", disse, em entrevista ao jornal "O Globo".

     A paixão por gente foi o trampolim para a revolução que a artista ajudou a gerar nos anos 60, quando ex-integrantes do movimento neoconcreto transformaram o espectador, antes passivo, numa espécie de co-autor das obras de arte. Trabalhos como "Roda dos prazeres" e "Ovo", ambos de 1968, passaram a só fazer sentido depois que o público os experimentava. Com isso, Lygia e contemporâneos como Hélio Oiticica e Lygia Clark abriram mão do status de gênios pregado aos artistas para se submeter a uma relação de troca.

     Mais de 30 anos depois, a "Ttéia" - que esteve em cartaz no Paço Imperial em 2002 - e a "New house" - instalação montada no Museu do Açude - continuam se abrindo, generosamente, para a participação dos visitantes.


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NOTA BIOGRÁFICA
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VELHOS TEMPOS  -  Ferreira Gullar, Lygia Pape,
Theon Spanudis, Lygia Clark e Reinaldo Jardim


Da gravura ao cinema novo, Lygia
experimentou de tudo um pouco

Arte e Lazer - Estadão
03/05/2004 - 19h42

     Rio de Janeiro - A artista plástica Lygia Pape morreu nesta segunda-feira, aos 75 anos, no Hospital São Lucas, em Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro. Uma das mais importantes artistas brasileiras, representante do movimento neoconcreto dos anos 50 no Brasil, Lygia estava internada há uma semana, vítima de um câncer, segundo informações da Globo Online.

     Lygia Pape nasceu em Nova Friburgo, no Rio, em 1929, deixa uma obra marcada pelo abstracionismo geométrico e por uma diversificação exemplar. Uma de suas obras mais instigantes é o Livro Noite e Dia, um conjunto de 365 peças de madeira diferentes umas das outras, em tons que vão do branco ao cinza. Entre os vários prêmios que recebeu, destaca-se o da Associação Brasileira de Críticos de Arte, em 1990, com a série Amazoninos.

     "Os Amazoninos são peças de ferro em que eu trabalho como se fossem grandes origamis, tento dar ao ferro a leveza do papel", disse em entrevista ao Estado. "São e serão sempre uma alusão à Amazônia e à linha de urucum pintada na parede... como uma linha da vida. A Amazônia é incrivelmente bela... E forte. O vermelho é uma cor de que gosto muito, está sempre presente em mim", disse em entrevista sobre a retrospectiva organizada pela Galeria Milan no seu aniversário de 50 anos de carreira.

      Nos anos 50, Lygia aproximou-se dos concretistas, mas acabou integrando o Grupo Frente e assinando o Manifesto Neoconcreto, participando em 1958 da exposição internacional de arte concreta, em Zurique, Suíça. Participou da 3.ª, 4.ª e 5.ª Bienais Internacionais de São Paulo daquele período. Foi muito amiga de Hélio Oiticica, talvez o maior expoente da arte no período e depois de sua morte, em 1980, a artista passou a cuidar do acervo do amigo, retomando a produção artística somente em 1988.

     Lygia usou o corpo humano numa série de trabalhos de 1959, explorando o tato, o olfato e o paladar. No fim dos anos 50 e início dos 60, iniciou a trilogia de livros de artista, com o Livro da Criação, Livro da Arquitetura e Livro do Tempo. Em 1967, participou da exposição Nova Objetividade Brasileira com a Caixa de Baratas e a Caixa de Formigas. Em 1968, no evento Apocalipopótese apresentou seu objeto penetrável Ovo. Panos perfurados eram o tema da série Divisor, de 1969. Nas décadas de 1980 e 1990, trabalhou com a ilusão dos sentidos o pesado parecia leve e vice-versa.

     Lygia envolveu-se também com o Cinema Novo, cuidando da programação visual de vários filmes, como Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos e Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.

     Lygia foi mestre em estética filosófica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi professora da Faculdade de Arquitetura Santa Úrsula e lecionou na Escola de Belas Artes da UFRJ.

     Por vontade da artista, seu corpo será cremado, sábado, no Caju (zona portuária). Também a pedido dela, haverá uma missa cantada no Mosteiro de São Bento no sétimo dia de sua morte. "Ela não queria virar uma instalação, por isso não queria velório. Para ela tudo isso era um saco. Pode escrever", disse uma das filhas de Lygia, Paula Pape, com quem ela morava.

     Paula disse que a mãe era uma pessoa "pra cima" e até o fim da vida manteve-se ativa, elaborando muitos projetos. Lygia tinha outra filha, Maria Cristina Pape, e um "filho de estimação", Ricardo Fortes, que trabalhava com a artista e é o pai de seus dois netos. Ela deixou viúvo Gunther Pape.


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Artista foi uma das integrantes do movimento neoconcreto nos anos 50, ao lado de Lygia Clark e Hélio Oiticica

Folha de São Paulo
TALITA FIGUEIREDO

DA SUCURSAL DO RIO
DO BANCO DE DADOS

     A artista plástica Lygia Pape morreu no início da noite de ontem, de infecção generalizada. Vítima de mielodisplasia -doença na medula que afeta a produção de leucócitos e plaquetas sangüíneas-, ela estava internada havia uma semana no Hospital São Lucas (Copacabana, zona sul do Rio). Na manhã de sábado, ela foi transferida para o CTI (Centro de Terapia Intensiva) da unidade.

     Pape foi uma das mais importantes artistas brasileiras e representante do movimento neoconcreto nos anos 50. Ela não gostava de revelar a idade. Na maioria das biografias constantes dos catálogos de suas exposições, 1929 aparece como o ano de seu nascimento.

     Ela era mestre em estética filosófica pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). A artista será cremada no sábado, no cemitério do Caju (zona norte do Rio de Janeiro).
No domingo, uma missa cantada no mosteiro de São Bento (centro do Rio) será celebrada em sua homenagem.

A artista

     Lygia Pape nasceu em 1929, em Nova Friburgo, no Rio. Formou-se em filosofia pela Universidade Federal do Rio e, depois, fez mestrado em estética filosófica pela mesma UFRJ. Estudou com Fayga Ostrower e Ivan Serpa.
     Dedicou-se especialmente à xilogravura, sendo adepta do abstracionismo geométrico. Para Lygia, a arte era principalmente experiência.
Atuou em dois movimentos artísticos nos anos 50 e 60: o concretismo, marcado pela abstração geométrica, e o neoconcretismo (em 1957, ela integrou ao Grupo Frente e foi uma das signatárias do "Manifesto Neoconcreto"), que se rebelou contra os rigores da arte concreta.

     Em 1958, realizou o "Ballet Neoconcreto" e, em 1960, participou da Exposição Internacional de Arte Concreta, em Zurique, na Suíça.
No fim dos anos 50 e início dos 60, começou o que seria uma trilogia de livros de artista composta por "Livro da Criação", "Livro da Arquitetura" e "Livro do Tempo".

     A partir da década de 60, trabalhou com roteiro, montagem e direção de cinema, tendo feito a programação visual de alguns filmes do cinema novo, entre eles, "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (1964), de Glauber Rocha.
Produziu, em 1967, o vídeo "La Nouvelle Création". Ainda nos anos 60, produziu esculturas em madeira e realizou "Livro-Poema", composto de xilogravuras e poemas concretos.

     Em 1971, Pape realizou o curta-metragem "O Guarda-Chuva Vermelho", sobre o gravurista Oswaldo Goeldi (1895-1961).

     Em 1980, recebeu uma bolsa de estudos da Fundação Guggenheim, em Nova York. Com a morte de Hélio Oiticica, Lygia organizou, com Luciano Figueiredo e Waly Salomão, o Projeto Hélio Oiticica, destinado a preservar e divulgar a obra do artista.

     Em 1990, recebeu o prêmio da Associação Brasileira de Críticos de Arte com a mostra Amazoninos e realizou com bolsa da fundação Vitae o projeto "Tteias", no qual combina luz e movimento. Recebeu, em 1992, o prêmio Ibeu, do Instituto Brasil-Estados Unidos, pela melhor exposição realizada no ano anterior. Em 1997, expôs seus trabalhos na galeria Camargo Vilaça, em São Paulo.

     Lygia Pape foi professora da Faculdade de Arquitetura Santa Úrsula de 1972 até 1985 e, desde 1982, lecionava na Escola de Belas-Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro.


.Uma artista a serviço da invenção
Morte da carioca Lygia Pape priva arte brasileira de uma de suas grandes renovadoras


Gilberto de Abreu
Fonte: JB Online
5 de maio de 2004

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     Pilar do Grupo Frente (1956-1957) e expoente dos movimentos concreto e neoconcreto, a artista plástica Lygia Pape, que morreu anteontem, aos 75 anos, de parada cardíaca, foi mestra na arte de inventar.

     ''A invenção me emociona'', costumava dizer. ''Acho que esse impulso criador é inerente ao homem. É como se ele tivesse necessidade de criar, de dar um novo significado às formas''.

     Nascida em Nova Friburgo, no Estado do Rio, em 1929, e graduada em Filosofia na UFRJ e mais tarde mestra em Estética Filosófica, Lygia foi também uma grande anarquista, recusando-se a participar do que considerava status quo. Evitava mostras em galerias comerciais e criticava o tratamento dado à arte pelos museus.

     No auge da juventude, protagonizou momentos de profunda investigação plástica e participou de inúmeras exposições. Mostrou Tecelares (xilogravuras) com o grupo Frente no Museu de Arte Moderna no Rio em 1955 e, no ano seguinte, participou da Exposição de arte concreta no Museu de Arte de São Paulo e também em Zurique.

     Entre 1956 e 57 participou da 1ª Exposição nacional de arte concreta no MAM de São Paulo e no Ministério da Educação e Cultura, no Rio. No final dos anos 50 integrou a primeira Exposição neoconcreta, realizou o Balé neoconcreto e o Livro da criação.

     Para Lygia, trabalhar com o espaço real foi muito mais desafiador do que simplesmente pintar uma tela. E foi como artista neoconcreta que conseguiu conquistar o equilíbrio perfeito entre o máximo de expressividade e o mínimo de elementos.

     A artista brindou a chegada dos anos 60 com uma série de projetos de esculturas em madeira, e passou a trabalhar com cinema em 1962. Fez cartazes, roteiro, montagem e direção. Foi programadora visual de inúmeros filmes, como Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos, e Deus e o Diabo na terra do sol, de Glauber Rocha. Seus diretores prediletos foram outros: Rogerio Sganzerla e Julio Bressane.

 


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Tetéia nº 7 (1991)

 

     Lygia produziu vários curtas-metragens, dentre eles La nouvelle création, com o qual participou de um festival canadense cujo tema era A terra dos homens. Avessa às normas, resolveu falar sobre o homem, e não sobre a Terra. Pegou carona na primeira viagem à lua. O curta, uma espécie de ode ao nascimento, mostra o astronauta como bebê, preso à mãe pelo cordão umbilical. Nos segundos finais, a tela fica vermelha; ouve-se o choro de uma criança. Com este curta-metragem, Lygia Pape ganhou o prêmio principal.

     O poeta e escritor Jorge Salomão, que teve a capa de seu segundo livro, O olho do tempo, ilustrado pela artista, conheceu-a por intermédio de Hélio Oiticica. Dela, guarda a memória de uma mulher elétrica, luminosa.

     - Em 1990 fiz um evento de rock e artes plásticas no Circo Voador e ela participou com a Roda dos prazeres [mesa com diversos sabores, para apreciação do público]. Ela era uma agitadora, no cinema e na arte. No fundo, um vulcão a soltar lavas extraordinárias.

     A experiência de Lygia com o cinema durou cerca de cinco anos, e ela voltou às artes plásticas com o espírito renovado. Fazendo algo até então inédito no país, quiçá no mundo, introduziu ''objetos vivos'' em seu trabalho.

     Em 1967, participa da exposição Nova objetividade brasileira com as emblemáticas Caixa das baratas e a Caixa de formigas. As baratas e as formigas de Lygia foram oferecidas ao MAM carioca, na ocasião em que a instituição havia recebido uma grande verba para novas aquisições e convidara os artistas para exporem seus trabalhos. Foi, segundo Lygia, ''um gesto crítico à arte trancada e morta dentro dos museus''. O MAM não adquiriu os trabalhos.

     Em 1968, nova surpresa: integrou o evento Apocalipopótese com o objeto penetrável Ovo, um cubo coberto com uma superfície macia, no qual a pessoa entra, rompe e, de acordo com a artista, ''nasce''. Nesse momento, ficou evidente o interesse de Lygia em dar início à produção de obras públicas.

     No ano seguinte, com a performance Divisor, trabalho feito com um pano de 900 metros quadrados, com perfurações para que o público participe da obra, a artista reafirmou a intenção de popularizar sua arte. ''Queria fazer naquele momento um trabalho que fosse coletivo, e que as pessoas pudessem repetir sem que eu estivesse presente'', disse à época.

     Lygia, que participou de três (3ª, 4ª e 5ª) Bienais Internacionais de São Paulo, expôs sua produção neoconcreta na galeria Thomas Cohn e na mostra Modernidade , em Paris. Como bolsista da Fundação Guggenheim, permaneceu vários meses em Nova York. Com a morte de Hélio Oiticica, trabalhou na organização de seu acervo, voltando às invenções em 1988.

     No início da década de 90, foi premiada pela Associação Brasileira de Críticos de Arte com os trabalhos da série Amazoninos, feitos em chapa metálica.

     Para a artista, inventar foi sinônimo de correr riscos, por envolver sacrifício, esforço, sofrimento. A marchande Silvia Cintra, que acolheu a última exposição da artista no Rio, Projetos em preto e branco, uma coletiva reunindo outros nomes da contemporaneidade, lamenta sua morte:

     - Lygia desmontou a visão modernista da arte. Ficamos órfãos da maior artista brasileira viva.

     O escultor Franz Weissmann, 92 anos, melhor amigo de Lygia, soube da morte da artista ontem pela manhã. Sua filha, Waltraud, diz que o pai recebeu a notícia com emoção.

     - Lygia era a última amiga viva de papai. Eram amigos desde a década de 50. É natural que esteja deprimido.

     Abalado, o artista Antonio Manuel preferiu não se manifestar sobre a perda da amiga.

     - Estou chocado com a morte de Lygia. Não tenho o que falar. Apenas que Lygia descanse.

     A artista tentou nos últimos anos vencer uma doença degenerativa na medula. Anteontem, às 18h30, sofreu uma parada cardíaca fatal. Lygia gostava de sentir-se ''dissolvida no mundo''. Antes de morrer, manifestou às filhas Paula e Cristina o desejo de que seu corpo fosse cremado.