Morre no Rio o pintor gaúcho
Glauco Rodrigues

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Texto:
Folha Ilustrada Online
19/03/2004 - 19h37

Imagens:
Reprodução


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O artista plástico Glauco Rodrigues, 75, morreu hoje (19.03.2004), às 15h, no Hospital Samaritano, em Botafogo, no Rio. Segundo a assessoria do hospital, Glauco foi internado ontem à noite e morreu devido uma insuficiência respiratória. 


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     O artista gaúcho começou a pintar como autodidata em 1945. Em 1949, transferiu-se para o Rio de Janeiro onde freqüentou, por três meses, a Escola Nacional de Belas Artes, participando do Salão Nacional de Belas Artes (menção honrosa).

     Nos anos 50 volta ao Rio Grande do Sul onde se junta ao Clube de Gravura de Porto Alegre, fundado por Carlos Scliar e Vasco Prado, e considerado um marco na história da gravura no Brasil. Em 1962 fez sua primeira exposição individual, na Petite Galerie, no Rio de Janeiro.

     Participou de importantes exposições no Brasil e no exterior, como a Bienal de Veneza de 1964. Em 1987, recebeu o prêmio Golfinho de Ouro Artes Plásticas do Governo do Rio de Janeiro e, em 1999, o Prêmio Ministério da Cultura Cândido Portinari - Artes Plásticas.

     O reconhecimento de sua obra foi registrado em dois livros: "Glauco Rodrigues", de 1989, e "O Arteiro e o Tempo", de 1994, ambos com textos de Luis Fernando Verissimo. A TVE do Rio de Janeiro produziu, em 1989, um vídeo sobre o artista.

SAIBA MAIS
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Painel de Glauco Rodrigues na Fundação Oswaldo Cruz - Rio de Janeiro

Glauco Rodrigues é enterrado no Rio de Janeiro
Fonte: Agência Brasil (Radiobrás) - 20/03/2004

     Rio de Janeiro - Mais de sessenta pessoas, entre admiradores, amigos e familiares, acompanharam o enterro do corpo do artista plástico Glauco Rodrigues no Cemitério São João Batista, em Botafogo. Ele morreu ontem, aos 75 anos de idade, vítima de insuficiência respiratória, no Hospital Samaritano, onde tinha sido internado na quinta-feira, com problemas causados por um câncer de intestino.

     Glauco Rodrigues começou a carreira aos 15 anos. Foi desenhista, pintor, gravador, ilustrador , programador visual e, nos últimos anos, criou grandes painéis em mosaico.

     Ele nasceu em Bagé. Viveu em Roma, mas se considerava um "gauchoca", ou gaúcho carioca, porque escolheu o Rio para viver desde a década de 60. O amor pela cidade ficou registrado em quadros sobre o Carnaval, as praias e as mulatas. Mas sua pintura multicolorida retratou também índios, florestas, frutas, flores e animais.

    Nos anos 50, em Porto Alegre, entrou para o Clube da Gravura, fundado por Carlos Scliar e Vasco Prado. Foi um dos fundadores da revista Senhor, que mudou a história da arte gráfica, ao lado de Scliar e do jornalista Paulo Francis.

     Participou da exposição Opinião 66, no Museu de Arte Moderna do Rio, considerada um dos marcos da arte contemporânea brasileira. O escritor Luis Fernando Veríssimo escreveu dois livros sobre o artista, um intitulado Glauco Rodrigues e o outro O Arteiro e o Tempo, sobre sua dedicação à arte.
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Ninguém pintava, como Glauco, a luz brasileira

O Globo On Line
Quinta-feira, 25 de março de 2004

      O pintor Glauco Rodrigues era de Bagé, interior do Rio Grande do Sul, perto do Uruguai. Morava no Rio desde 1948, com um intervalo de três anos em Roma a partir de 62. De vez em quando voltava a pintar as tranqüilas paisagens da fronteira gaúcha e cenas dos campos de Bagé, no local ou de memória, e eram breves recreios pastorais da sua produção principal, que não podia ser mais cosmopolita. Mas também eram uma maneira do Glauco reiterar sua condição de estrangeiro no desvario carioca e na colorida opulência brasileira, que ele retratava como ninguém mas com um olho de quem não era bem dali, um olho bageense e não-tropical. O próprio rigor técnico da pintura de Glauco era uma forma de não se entregar à loucura, por mais surrealistas que fossem as suas alegorias, e manter um certo recato gaúcho diante do Brasil.

     Quando voltou de Roma, onde experimentara com o abstracionismo, Glauco encontrou o país em plena ditadura, e usou o distanciamento crítico como uma forma de retratá-lo. Comentei esta fase num livro da Salamandra sobre a obra do Glauco que saiu em 1989. Sua volta ao figurativo coincidiu com a sua volta ao Brasil e ele reencontrou o figurativo e encarou o Brasil pós-64 através da metáfora, que é a arte do distanciamento. A metáfora era uma imposição das restrições da época, em que você precisava cuidar como dizia as coisas, mas era também um olho estrangeiro posto sobre os descaminhos da república. Quando se podia escrever pouco sobre a insensatez dominante, Glauco a botou nos seus quadros. Nossa vocação autofágica reafirmada e ao mesmo tempo satirizada, com citações de quadros antigos e a evocação de toda uma memória gráfica nacional. Nosso passado e nosso presente juntos sob o mesmo olhar definidor. A convivência de brasis irreconciliáveis, PMs circulando entre o! s índios e pelas praias do Rio, todos sob a mesma luz, antes de Cabral.

     Ninguém pintava, como o Glauco, a luz brasileira, o modo como ela fica difusa e branca na praia, a alta definição que proporciona às cenas da nossa loucura, ou ilumina os contornos de mulheres e frutas. Mas o olho preza a sua independência crítica acima de todos os prazeres do abandono. Não se entrega à luxúria brasileira, prefere a lucidez à luz. Afinal, a luz é culpada por grande parte do que somos. É a luz do paraíso, e aqui não é o paraíso.

     Depois desta, vieram outras épocas. Há os famosos retratos que fizeram a sua reputação maior. As gravuras, as serigrafias, as moldagens em acrílico. Já se pode escolher uma época favorita do Glauco. Ele morreu na semana passada. Sua obra agora está completa.

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