Ninguém pintava, como Glauco, a luz brasileira
O Globo On Line
Quinta-feira, 25 de março de 2004
O pintor Glauco Rodrigues era de Bagé, interior do Rio
Grande do Sul, perto do Uruguai. Morava no Rio desde 1948, com um intervalo de três anos
em Roma a partir de 62. De vez em quando voltava a pintar as tranqüilas paisagens da
fronteira gaúcha e cenas dos campos de Bagé, no local ou de memória, e eram breves
recreios pastorais da sua produção principal, que não podia ser mais cosmopolita. Mas
também eram uma maneira do Glauco reiterar sua condição de estrangeiro no desvario
carioca e na colorida opulência brasileira, que ele retratava como ninguém mas com um
olho de quem não era bem dali, um olho bageense e não-tropical. O próprio rigor
técnico da pintura de Glauco era uma forma de não se entregar à loucura, por mais
surrealistas que fossem as suas alegorias, e manter um certo recato gaúcho diante do
Brasil.
Quando voltou de Roma, onde experimentara com o abstracionismo,
Glauco encontrou o país em plena ditadura, e usou o distanciamento crítico como uma
forma de retratá-lo. Comentei esta fase num livro da Salamandra sobre a obra do Glauco
que saiu em 1989. Sua volta ao figurativo coincidiu com a sua volta ao Brasil e ele
reencontrou o figurativo e encarou o Brasil pós-64 através da metáfora, que é a arte
do distanciamento. A metáfora era uma imposição das restrições da época, em que
você precisava cuidar como dizia as coisas, mas era também um olho estrangeiro posto
sobre os descaminhos da república. Quando se podia escrever pouco sobre a insensatez
dominante, Glauco a botou nos seus quadros. Nossa vocação autofágica reafirmada e ao
mesmo tempo satirizada, com citações de quadros antigos e a evocação de toda uma
memória gráfica nacional. Nosso passado e nosso presente juntos sob o mesmo olhar
definidor. A convivência de brasis irreconciliáveis, PMs circulando entre o! s índios e
pelas praias do Rio, todos sob a mesma luz, antes de Cabral.
Ninguém pintava, como o Glauco, a luz brasileira, o modo como
ela fica difusa e branca na praia, a alta definição que proporciona às cenas da nossa
loucura, ou ilumina os contornos de mulheres e frutas. Mas o olho preza a sua
independência crítica acima de todos os prazeres do abandono. Não se entrega à
luxúria brasileira, prefere a lucidez à luz. Afinal, a luz é culpada por grande parte
do que somos. É a luz do paraíso, e aqui não é o paraíso.
Depois desta, vieram outras épocas. Há os famosos retratos que
fizeram a sua reputação maior. As gravuras, as serigrafias, as moldagens em acrílico.
Já se pode escolher uma época favorita do Glauco. Ele morreu na semana passada. Sua obra
agora está completa.
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