De Jan van Eyck
a Brueghel e Rubens, os mestres da arte flamenga usaram o óleo em suas pinturas como meio
de retratar com vigor e, às vezes, em profusão de detalhes, o mundo que os rodeava.
Conhecida por sua técnica
excepcional e a inspiração profana de seus temas, a arte flamenga é a que foi produzida
em Flandres entre o século XV e o início do século XVII.
A pintura flamenga deixa
transparecer claramente as mudanças ocorridas no destino de Flandres, país contido numa
estreita faixa entre a França, a Alemanha e os Países Baixos.
Inicialmente, a região
contava com o domínio pacífico, piedoso e próspero dos duques de Borgonha, no século
XV; depois, viveu uma longa e confusa sucessão de crises religiosas e guerras
civis; finalmente, no século XVII, a imposição do poder autocrático dos reis da
França e da Espanha.
Os precursores da escola
flamenga situam-se geralmente em Dijon, a primeira capital dos duques de
Borgonha. Filipe o Audaz, que reinou de 1363 a 1404, estabeleceu a poderosa aliança
flamengo-borgonhesa, que durou mais de um século, e deu início à tradição de mecenato
artístico que duraria quase o mesmo período.
Entre os artistas que
atraiu a Dijon estavam o escultor Claus Sluter, de Haarlem, e o pintor Melchior
Broederlam, de Ypres, em cujas obras de rica textura podem ser vistos os primeiros frutos
do apego ao mundo das aparências, tão característico da escola flamenga.
Filipe o Bom, que reinou de
1419 a 1467, transferiu a capital borgonhesa para Bruges, centro do
comércio de lã ao norte, transformando essa cidade de espírito mercantil em pólo
artístico.
Em 1425, empregou
oficialmente Jan van Eyck como "peintre et valet de chambre". As principais
obras de Van Eyck -- o "Altar de Gent" (1432), a "Madona do chanceler
Rolin" (1432) e o grupo do "Casal Arnolfini" (1434) -- são,
surpreendentemente, o começo e o auge da primeira fase da pintura flamenga.
O historiador da arte
Vasari atribui a van Eyck a invenção da pintura a óleo (com o uso de óleo resinoso
sobre uma base branca). Nesse caso, o invento já se iniciou com o máximo de apuro
técnico, para declinar em seguida, pois não há uma só obra, entre as de seus
sucessores, que mantenha o mesmo brilho das cores em superfícies tão vívidas.
A visão de van Eyck, por
mais estática que seja, também manteve sua força, dando a tudo que foi pintado por ele
um caráter espiritual, a despeito de seu grande interesse pelas aparências.
A geração seguinte,
embora continuasse voltada para o refinamento da textura e o brilho das cores, não tentou
imitar van Eyck, mas procurou aperfeiçoar a estrutura pictórica com base em modelos
italianos.
Em sua obra-prima, a
"Descida da cruz" (1435), Rogier van der Weyden centrou-se na dramaticidade da
cena, ignorando todos os detalhes supérfluos.
Petrus Christus explorou a
estrutura física subjacente de seus temas humanos, conferindo-lhes uma estranha
aparência geométrica.
Dirck Bouts foi o primeiro
pintor flamengo a usar com acerto a perspectiva paralela e a dar a suas figuras
proporções correspondentes ao ambiente que as circunda.
Essas inovações eram,
porém, estranhas ao espírito inicial da tradição flamenga, que entrou em inevitável
declínio, do mesmo modo que as convicções religiosas e a segurança dos cidadãos
flamengos, surpreendidos no final do século XV pela queda da casa de Borgonha e o colapso
econômico de Bruges.
Entre os últimos mestres
dessa fase, Hugo van der Goes ficou louco, enquanto Hans Memling e Gerard David produziram
pastiches melancólicos e às vezes insípidos de obras anteriores.
Mais sintonizadas com a crise espiritual que assolou
a Europa no fim do século XV mostram-se as bizarras alegorias pintadas por Hieronymus
Bosch. Em seu tríptico "O jardim das delícias" (c.1500) a humanidade se
dispersa em bloco do paraíso à perversão e ao castigo, em imagens que representam um
sem-fim de fantasias de gratificação sensual.
O século XVI, turbulento em Flandres, não foi
propício à criação artística e produziu apenas um grande mestre, Pieter Brueghel. O
pintor Jan Gossaert cultivou um estilo italianizado, a que Vasari não poupou elogios, e
Joachim Patinir tornou-se o primeiro de uma longa série de pintores flamengos de
paisagens.
É, porém, nas fortes
cenas em que Brueghel retratou a vida camponesa que melhor se reflete a brutalidade da
época. Influenciado por Bosch e marcado por uma estada de dois anos na Itália, Brueghel
desenvolveu um estilo pujante caracterizado pela solidez estrutural, a exuberância
rítmica e um modo especial de contemplar o grotesco.
O pintor deixou dois
filhos, Pieter II, dito Brueghel o Moço, ou Brueghel do Inferno, assim chamado pelos
temas de danação que pintou, e Jan Brueghel, ou Brueghel de Veludo, que se dedicou a
delicadas naturezas-mortas.
Foi nessa condição que
Jan Brueghel participou do florescente ateliê do grande mestre do barroco flamengo, Peter
Paul Rubens. Este associou a afabilidade e o tato de diplomata a um domínio sem
precedentes da técnica do óleo, criando para os monarcas da França e da Espanha, com os
quais manteve estreitas relações, obras luminosas de grande força e energia.
As primeiras obras de
maturidade, como "A elevação da cruz" (1610), contêm evidências de um
cuidadoso estudo dos mestres italianos Michelangelo, Tintoretto e Caravaggio, embora
tragam sinais de uma vitalidade orgânica autenticamente flamenga.
O estilo alegórico da fase
mais madura de Rubens, exemplificado pelo ciclo de pinturas que relembram a carreira de
Maria de Medici, rainha da França (1622-1625), adequou-se com perfeição aos gostos
ostentatórios da época barroca.
No auge da fama, Rubens
recebeu mais encomendas do que poderia executar sozinho e seu ateliê se tornou um centro
de aprendizagem para muitos pintores flamengos, entre os quais Antoon van Dyck,
menino-prodígio que ficaria famoso como Sir Anthony van Dyck, retratista da corte na
Inglaterra; Frans Snyder, especialista em naturezas-mortas; e David Teniers o Velho e
Adriaen Brouwer, ambos conhecidos sobretudo pelas pinturas de camponeses divertindo-se nos
momentos de ócio.