As
rosas de Lídice
Se me perguntarem porque escrevi estas linhas, fora de data e aparentemente fora de
propósito, só tenho uma resposta: as rosas. Olhava para rosas, quando me lembrei de
Lídice. Eram rosas vermelhas e elas me levaram às rosas rubras brotadas do sangue, da
dor e da paixão dos inocentes, que um dia alguém tingiu
com o branco dos sepulcros.
Pavana
Raramente falava. Quedava-se horas a fio dentro do
bar, olhar distante, as pessoas entrando e saindo, ele travando interminável colóquio
com um não menos interminável copetim. Só abria a boca quando algum violeiro
extraviado, já meio adernando, vinha bater o pinho naquele porto de solidão.
A Batalha da Avaí
De um lado, uma grande padaria, o Perez Cardoso,
garantia a mão, com bolachinha quebrada, duzentão o meio-quilo; do outro, dona Maria
Gorda, que o apelido era até modéstia, escorava tudo com o corpanzil e esconjurava
desgraças e coisas feitas com passes espíritas, de que eram apreciadores muito devotos
os motorneiros da Carris.
O
Vampiro
A noite é sempre sexta-feira, de fadiga ressentida que se troca pelo
sangue das mulheres. Há torrentes de caos rodopiando estilhaços, que me sorvem em fatias
pra dentro de uma lâmina gelada e me desintegram ao vento como um uivo.
Juízes e Jornalistas
Quando se investe contra jornalistas, o alvo maior é
a Justiça. Porque sem a voz do jornalista não haverá quem lembre o pacto da hegemonia
do direito sobre a força. Sem esta lembrança constante e permanente, vãos serão os
esforços do juiz para que
o pacto prevaleça.
A guerra dos tremoços
Lusitanos e hispânicos brigavam em Rio Grande, mas
não era por Rio Grande, era pelo Rio da Prata, que não era de prata mas era de água.
E assim por diante.
Um pássaro e três Joaquins
Acabou se distraindo com o pássaro que cantava na gaiola. Aquele, apesar da
prisão, não padecia grandes preocupações. Casa, comida, sem impostos a pagar, só
tinha a fazer o que fazia
- cantar... cantar... e cantar.