A pequena
aldeia não tinha nenhum pecado a pagar. Situada na bacia carbonífera de Kladno, os dias
ali rolavam como se estivessem pregados em uma roda: eram absolutamente iguais uns aos
outros e se repetiam a cada semana. Os homens trabalhavam nas minas e quando voltavam para
casa, tinham a esperá-los as suas mulheres de aventais bordados e os filhos pequenos.
Por que,
então, Lídice? Apenas porque os nazistas precisavam mostrar toda a crueldade de que eram
capazes para intimidar recalcitrantes. Não era o caso de Lídice, que mal tomava
conhecimento do que se passava além dos seus estreitos limites. Porém, uns dias antes,
em 29 de maio, Reinhard Heydrich, chefe de Segurança do III Reich, que pessoalmente
assumira o protetorado da Boêmia e da Morávia, para acabar com a resistência por parte
dos tchecos, sofreu atentado a bomba. Morreu cinco dias depois, em 4 de junho. Apesar de
nada ter a ver com o atentado, Lídice foi escolhida como exemplo.
Heydrich era
uma figura macabra. Oficial da Marinha alemã expulso por conduta imoral, ingressou na
Gestapo e se tornou o segundo homem da organização, logo abaixo de Himmler. Odiado e
temido pelos próprios nazistas, deles recebeu o apelido de Heydrich, o Verdugo.
Os tchecos,
traídos pelos ingleses e pelos franceses em 1938, perderam o seu território, mas nunca
se submeteram aos alemães. Em 1941, quando Neurath revelou-se incapaz de reprimir as
manifestações dos patriotas tchecos, Heydrich manobrou os cordéis e conseguiu
substituí-lo no Protetorado da Boêmia e da Morávia. Os horrores que ali cometeu, o
terror que infundiu às pessoas, lhe valeram novo apelido: o Carniceiro de Praga.
Sua crueldade
foi vã, como de resto todas as crueldades. A resistência tcheca recrudesceu e dois
patriotas, Jan Kubis e Josef Gabeik, refugiados na Grã-Bretanha, desceram de pára-quedas
perto de Praga, naquele dia, para cometer o atentado. Equipados pelos britânicos,
conseguiram fugir sob a proteção de uma cortina de fumaça e se esconderam na Igreja de
São Carlos Borromeu em Praga, cujos padres davam refúgio a todos os perseguidos pelo
nazismo.
A Gestapo,
para vingar a morte de Heydrich, excedeu-se na selvageria. Segundo um dos relatórios da
organização, apreendido pelos aliados ao término da guerra, 1331 tchecos, que nada
tinham a ver com o atentado, foram imediatamente fuzilados. A Igreja de São Carlos
Borromeu foi cercada, e as 120 pessoas que lá haviam se refugiado, foram massacradas. A
Gestapo, por trágica ironia, ignorava que os dois matadores de Heydrich estavam entre
elas.
As
represálias da Gestapo não pararam aí. Mas de tudo quanto aconteceu naqueles dias, a
civilização guarda com horror a violência praticada contra Lídice. Mal rompera o dia,
em 9 de junho, Lídice foi cercada por um contingente comandado pelo capitão Max Rostock,
e todos os habitantes, homens, mulheres e crianças, foram trancados nos celeiros de uma
pequena fazenda. Ninguém podia deixar a aldeia, mas foi permitido o retorno dos que já
tinham saído naquela manhã. Quando os nazistas chegaram, um menino assustou-se e correu.
Uma velha desesperada tentou escapar pelos campos. Os dois foram abatidos com tiros nas
costas.
No dia
seguinte, começaram os fuzilamentos: todos os homens, maiores de 18 anos no total
de 172 foram executados. Dezenove, que estavam trabalhando nas minas de Kladno, e
sete mulheres que estavam fora da aldeia na ocasião, foram depois conduzidos a Praga,
para serem mortos.
Havia quatro
mulheres grávidas em Lídice. Levadas para uma maternidade em Praga, os bebês foram
mortos ao nascer e elas, encaminhadas para o campo de extermínio de Ravensbrueck, para
onde já tinham sido enviadas as outras mulheres da aldeia.
Liquidada a
população, os nazistas incendiaram a aldeia e depois dinamitaram as ruínas para que
não restasse pedra sobre pedra. Terminada a guerra, o governo tcheco reconstruiu Lídice
como monumento nacional. Mineiros de todo mundo contribuíram para um memorial, cuja parte
maior é constituída por um canteiro de rosas vermelhas.
Dezessete
crianças, das que foram levadas pelos alemães, puderam ser localizadas depois da guerra.
Elas e mais as mulheres que conseguiram sobreviver ao extermínio nos campos de
concentração voltaram para a nova Lídice, onde permanecem algumas ainda estão
vivas como testemunhas da bestialidade nazista. Quem quiser saber mais de Lídice,
pode entrar em contacto com estas pessoas, através da embaixada da Tcheco-Eslováquia.
Se me
perguntarem porque escrevi estas linhas, fora de data e aparentemente fora de propósito,
só tenho uma resposta: as rosas. Olhava para rosas, quando me lembrei de Lídice. Eram
rosas vermelhas e elas me levaram às rosas rubras brotadas do sangue, da dor e da paixão
dos inocentes, que um dia alguém tingiu com o branco dos sepulcros.
Então me
lembrei de uma filha que não me nasceu, de Lídice, dos bebês de Lídice, que nasceram e
não sobreviveram, lembrei-me dos sonhos assassinados em cada dia que deixamos de viver.
Por isso,
escrevi.