As Rosas de Lídice
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button.jpg (1315 bytes)  Lídice, República Tcheca:

detalhe do monumento às crianças assassinadas pelos nazistas.

A mancha verde é um caramelo de hortelã. Visitantes deixam ali brinquedos e guloseimas, em um gesto impotente, como se fosse possível resgatá-las da morte e do sofrimento, tantos decênios após a tragédia.

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Jayme Copstein
copst@terra.com.br
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     Se me tivesse nascido mais uma filha, ela teria se chamado Lídice, dentro da tradição judaica que manda perpetuar o nome daqueles a quem amamos.

     Lídice não é o nome de uma pessoa em particular, mas o de uma aldeia tcheca, de 450 habitantes, que os nazistas arrasaram em junho de 1942, matando todos os homens (191) e deportando as mulheres para os campos de concentração. Das crianças só escaparam as que possuíam as supostas características arianas (olhos azuis, cabelos louros, crânio dolicocéfalo). Foram entregues a famílias alemãs, para serem criadas como verdadeiros alemães, em uma antecipação do que aconteceu recentemente, no regime militar argentino, país aliás, onde muitos criminosos nazistas encontraram refúgio depois da guerra e onde suas lições foram muito proveitosas aos militares que se adonaram do poder.

     A pequena aldeia não tinha nenhum pecado a pagar. Situada na bacia carbonífera de Kladno, os dias ali rolavam como se estivessem pregados em uma roda: eram absolutamente iguais uns aos outros e se repetiam a cada semana. Os homens trabalhavam nas minas e quando voltavam para casa, tinham a esperá-los as suas mulheres de aventais bordados e os filhos pequenos.

     Por que, então, Lídice? Apenas porque os nazistas precisavam mostrar toda a crueldade de que eram capazes para intimidar recalcitrantes. Não era o caso de Lídice, que mal tomava conhecimento do que se passava além dos seus estreitos limites. Porém, uns dias antes, em 29 de maio, Reinhard Heydrich, chefe de Segurança do III Reich, que pessoalmente assumira o protetorado da Boêmia e da Morávia, para acabar com a resistência por parte dos tchecos, sofreu atentado a bomba. Morreu cinco dias depois, em 4 de junho. Apesar de nada ter a ver com o atentado, Lídice foi escolhida como exemplo.

     Heydrich era uma figura macabra. Oficial da Marinha alemã expulso por conduta imoral, ingressou na Gestapo e se tornou o segundo homem da organização, logo abaixo de Himmler. Odiado e temido pelos próprios nazistas, deles recebeu o apelido de Heydrich, o Verdugo.

     Os tchecos, traídos pelos ingleses e pelos franceses em 1938, perderam o seu território, mas nunca se submeteram aos alemães. Em 1941, quando Neurath revelou-se incapaz de reprimir as manifestações dos patriotas tchecos, Heydrich manobrou os cordéis e conseguiu substituí-lo no Protetorado da Boêmia e da Morávia. Os horrores que ali cometeu, o terror que infundiu às pessoas, lhe valeram novo apelido: o Carniceiro de Praga.

     Sua crueldade foi vã, como de resto todas as crueldades. A resistência tcheca recrudesceu e dois patriotas, Jan Kubis e Josef Gabeik, refugiados na Grã-Bretanha, desceram de pára-quedas perto de Praga, naquele dia, para cometer o atentado. Equipados pelos britânicos, conseguiram fugir sob a proteção de uma cortina de fumaça e se esconderam na Igreja de São Carlos Borromeu em Praga, cujos padres davam refúgio a todos os perseguidos pelo nazismo.

     A Gestapo, para vingar a morte de Heydrich, excedeu-se na selvageria. Segundo um dos relatórios da organização, apreendido pelos aliados ao término da guerra, 1331 tchecos, que nada tinham a ver com o atentado, foram imediatamente fuzilados. A Igreja de São Carlos Borromeu foi cercada, e as 120 pessoas que lá haviam se refugiado, foram massacradas. A Gestapo, por trágica ironia, ignorava que os dois matadores de Heydrich estavam entre elas.

     As represálias da Gestapo não pararam aí. Mas de tudo quanto aconteceu naqueles dias, a civilização guarda com horror a violência praticada contra Lídice. Mal rompera o dia, em 9 de junho, Lídice foi cercada por um contingente comandado pelo capitão Max Rostock, e todos os habitantes, homens, mulheres e crianças, foram trancados nos celeiros de uma pequena fazenda. Ninguém podia deixar a aldeia, mas foi permitido o retorno dos que já tinham saído naquela manhã. Quando os nazistas chegaram, um menino assustou-se e correu. Uma velha desesperada tentou escapar pelos campos. Os dois foram abatidos com tiros nas costas.

     No dia seguinte, começaram os fuzilamentos: todos os homens, maiores de 18 anos – no total de 172 – foram executados. Dezenove, que estavam trabalhando nas minas de Kladno, e sete mulheres que estavam fora da aldeia na ocasião, foram depois conduzidos a Praga, para serem mortos.

     Havia quatro mulheres grávidas em Lídice. Levadas para uma maternidade em Praga, os bebês foram mortos ao nascer e elas, encaminhadas para o campo de extermínio de Ravensbrueck, para onde já tinham sido enviadas as outras mulheres da aldeia.

     Liquidada a população, os nazistas incendiaram a aldeia e depois dinamitaram as ruínas para que não restasse pedra sobre pedra. Terminada a guerra, o governo tcheco reconstruiu Lídice como monumento nacional. Mineiros de todo mundo contribuíram para um memorial, cuja parte maior é constituída por um canteiro de rosas vermelhas.

     Dezessete crianças, das que foram levadas pelos alemães, puderam ser localizadas depois da guerra. Elas e mais as mulheres que conseguiram sobreviver ao extermínio nos campos de concentração voltaram para a nova Lídice, onde permanecem – algumas ainda estão vivas – como testemunhas da bestialidade nazista. Quem quiser saber mais de Lídice, pode entrar em contacto com estas pessoas, através da embaixada da Tcheco-Eslováquia.

     Se me perguntarem porque escrevi estas linhas, fora de data e aparentemente fora de propósito, só tenho uma resposta: as rosas. Olhava para rosas, quando me lembrei de Lídice. Eram rosas vermelhas e elas me levaram às rosas rubras brotadas do sangue, da dor e da paixão dos inocentes, que um dia alguém tingiu com o branco dos sepulcros.

     Então me lembrei de uma filha que não me nasceu, de Lídice, dos bebês de Lídice, que nasceram e não sobreviveram, lembrei-me dos sonhos assassinados em cada dia que deixamos de viver.

     Por isso, escrevi.

 
 

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Jayme Copstein
copst@terra.com.br

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