Pavana
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Arlequim
Óleo sobre tela
(1982)

          Pintor:
button.jpg (1315 bytes)  Ado Malagoli
            (1906-1994)

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Jayme Copstein
copst@terra.com.br
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     Soube agora que morreu em uma dessas madrugadas, sentado à mesa de um dos bares em que andou ancorado ao longo da vida. O garçom estranhou a imobilidade e a mão crispada que parecia batucar silêncios sobre o tampo de mármore. Quando o chamou e depois o tocou, viu que ele tinha partido.

     Eu o conheci apenas por um vago apelido de Arico, que nunca descobri se era carinho de mãe arrependida por tê-lo batizado com alguma mal-sonância - será por isso que bebia? - ou se era um dos atalhos que as pessoas tomam diante de um nome comprido e estranho.


     Mas saber apenas o vago apelido não significava que não o conhecesse há muito tempo, desde que, acabando de ser menino, enveredara pelos caminhos da noite, onde a vida é um barco e os insensatos os seus tripulantes. Ele não podia deixar de navegar pelos mistérios de mares tão fascinantes, nos quais as angústias submergem e as ilusões ficam à tona, flutuando para serem sonhadas.

     Raramente falava. Quedava-se horas a fio dentro do bar, olhar distante, as pessoas entrando e saindo, ele travando interminável colóquio com um não menos interminável copetim. Só abria a boca quando algum violeiro extraviado, já meio adernando, vinha bater o pinho naquele porto de solidão. Então acendia olhos de vagalume e coaxava um estranho coro à entonação arrastada do trovador, repetindo apenas as sílabas finais de cada verso: " ‘braço/ ‘nsaço/ ‘eijou / ‘rtão / ‘aição".

     Em uma de suas raras confidências me disse que gostaria de ser personagem, não de um livro como todo mundo, mas de um samba dolente que falasse de saudade e desengano. Como os de Lupicínio Rodrigues.

     Jamais encontrou Lupe, era a sua mágoa. E dos sambistas extraviados, que navegaram por aqueles bares, tenho certeza que nada saiu. Mas, aquela mão crispada, batucando silêncios no tampo de mármore, me faz suspeitar que encontrou o seu samba. E nele entrou para sempre.

 
 

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Jayme Copstein
copst@terra.com.br

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