Mas saber apenas o
vago apelido não significava que não o conhecesse há muito tempo, desde que, acabando
de ser menino, enveredara pelos caminhos da noite, onde a vida é um barco e os insensatos
os seus tripulantes. Ele não podia deixar de navegar pelos mistérios de mares tão
fascinantes, nos quais as angústias submergem e as ilusões ficam à tona, flutuando para
serem sonhadas.
Raramente falava. Quedava-se horas a fio dentro do bar, olhar distante, as pessoas
entrando e saindo, ele travando interminável colóquio com um não menos interminável
copetim. Só abria a boca quando algum violeiro extraviado, já meio adernando, vinha
bater o pinho naquele porto de solidão. Então acendia olhos de vagalume e coaxava um
estranho coro à entonação arrastada do trovador, repetindo apenas as sílabas finais de
cada verso: " braço/ nsaço/ eijou / rtão /
aição".
Em
uma de suas raras confidências me disse que gostaria de ser personagem, não de um livro
como todo mundo, mas de um samba dolente que falasse de saudade e desengano. Como os de
Lupicínio Rodrigues.
Jamais encontrou Lupe, era a sua mágoa. E dos sambistas extraviados, que navegaram por
aqueles bares, tenho certeza que nada saiu. Mas, aquela mão crispada, batucando
silêncios no tampo de mármore, me faz suspeitar que encontrou o seu samba. E nele entrou
para sempre.