A batalha da Avaí
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Andando se pega o bonde
Óleo sobre tela (1992)

    Pintor:
button.jpg (1315 bytes)  Juarez Machado (1941)

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Jayme Copstein
copst@terra.com.br
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     Ah, esse progresso que faz a geografia defunta e mata as velhas ruas. A antiga Avaí, que se encompridava da Faculdade de Direito até o Guaíba, agora é perimetral. Ficou uma quadrazinha de nada, como lápide sem epitáfio.

     Os que a conheceram nos áureos tempos, sabem da batalha que se travou. Porto Alegre inchava pela João Pessoa, crescia pela Três de Novembro, que agora é André da Rocha, corria pela Sarmento Leite, estendia tentáculos pela José do Patrocínio, cercava por todos os lados, mas a Avaí – firme. Não se entregava e ficava virgem e impoluída, que Deus me perdoe, que nesse tempo não se falava de meio ambiente.


     Nem mesmo a Segunda Guerra fez com que se rendesse. De um lado, uma grande padaria, o Perez Cardoso, garantia a mão, com bolachinha quebrada, duzentão o meio-quilo; do outro, dona Maria Gorda, que o apelido era até modéstia, escorava tudo com o corpanzil e esconjurava desgraças e coisas feitas com passes espíritas, de que eram apreciadores muito devotos os motorneiros da Carris.

     O Domingos, que se fantasiava de baiana para os bailes burlescos do Cine Palácio, envenenava que era intercâmbio cultural: troca de passes, passes de bonde, passes-a-mão, passes-muito-bem. Coisas do Domingos, que parava sempre na porta do quiosque, com a desmunheca fechada, apoiando a cabeça na orelha, o pezinho dobrado, falando pra quem passava: "Ai, ai, meu destino é pecar!"

      No fundo, inveja. O Domingos não recebia espíritos - motorneiros até que sim - e dona Maria Gorda dizia que ele era espírito de porco. Muito sim-senhora, horror de maledicência, correção em pessoa, dona Maria Gorda só dava passes em um motorneiro de cada vez. Juntamento, sabe como é, dá sempre bagunça e deus-me-livre incomodar a vizinhança. Era a reserva moral da rua.

     Por tudo isso, a Segunda Guerra podia rugir na Europa, a cidade estender seus tentáculos, não tinha importância. A Avaí não tomava conhecimento. Mesmo porque havia outra guerra, o culpado era seu Fabiano - Fabiano Carpena, um criado para servi-lo, incréu e sapateiro, que vivia para apoquentar a pobre de dona Maria Gorda, que tu é espírita pras tuas nega.

     Um dia, seu Fabiano achou octanas demais em uma garrafa de cachaça, ficou de olhar zarolho, meio-duro, meio-mole, cabeça estaqueada na parede, corpo derreado na banqueta. Corre gente, junta gente, é coração, chama Pronto Socorro, é alma penada, chamaram dona Maria Gorda.

     A rua parou, cheia de sinais-da-cruz. Dona Maria Gorda se concentrou, começou a chiar e a se cuspir, revira-que-te-revira os olhos, balançou os braços e corpo, com a graça de um elefante delirando que é borboleta. De repente, veio um silvo mais forte, todo o mundo se benzeu porque era o guia que baixava, a voz de dona Maria Gorda ressoou cava e espremida:

     - Quem está na máquina, irmão?

     Um zum-zum-zum formigou na boca de todos, não veio resposta, dona Dorva, entendida do assunto, disse que o sofredor era "daqueles", dona Maria Gorda sentiu que era a oportunidade da sua vida, caprichou no repeteco e a voz saiu soturna, com eco, como em filme de terror:

     - Quem está na máquina, irmão?

     De resposta veio o bafio comprido de cachaça e o guincho fininho:

     - Fabiano Carpena, irmã!

     Em seguida, seu Fabiano deu pulo de olimpíada, e arrasou dona Maria Gorda com risada de louco:

     - Te peguei, Maria Gorda! Tu não é espírita coisa nenhuma!

     E com uma gargalhada diabólica, saiu em linha reta, com escalas pelas paredes disponíveis, na direção do quiosque.

     Foi o fim. Dona Maria Gorda, desmoralizada, perdeu o "dona" e virou Maria Gorda. De vergonha, mudou-se pra Vila Caiu do Céu, que agora é estádio do Grêmio. Seu Fabiano tirou a sorte grande, foi ser grã-fino na Independência. Trocou a cachaça pelo uísque e acabou morrendo de cirrose, que é doença de rico. O Perez Cardoso virou indústria grande, botou Coroa na cabeça, e saiu dali sei lá pra onde.

     Sem bolacha quebrada, duzentão o meio-quilo, para agüentar de um lado, sem o corpo de Maria Gorda para escorar do outro, as duas instituições sagradas da rua, a Avaí nunca mais foi a mesma. Os motorneiros viraram motoristas de ônibus, os bondes desapareceram no passado, a cidade invadiu a rua e decretou a sua morte.

 
 

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Jayme Copstein
copst@terra.com.br

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