O
Domingos, que se fantasiava de baiana para os bailes burlescos do Cine Palácio,
envenenava que era intercâmbio cultural: troca de passes, passes de bonde, passes-a-mão,
passes-muito-bem. Coisas do Domingos, que parava sempre na porta do quiosque, com a
desmunheca fechada, apoiando a cabeça na orelha, o pezinho dobrado, falando pra quem
passava: "Ai, ai, meu destino é pecar!"
No fundo, inveja. O Domingos não
recebia espíritos - motorneiros até que sim - e dona Maria Gorda dizia que ele era
espírito de porco. Muito sim-senhora, horror de maledicência, correção em pessoa, dona
Maria Gorda só dava passes em um motorneiro de cada vez. Juntamento, sabe como é, dá
sempre bagunça e deus-me-livre incomodar a vizinhança. Era a reserva moral da rua.
Por tudo isso, a Segunda Guerra podia rugir na
Europa, a cidade estender seus tentáculos, não tinha importância. A Avaí não tomava
conhecimento. Mesmo porque havia outra guerra, o culpado era seu Fabiano - Fabiano
Carpena, um criado para servi-lo, incréu e sapateiro, que vivia para apoquentar a pobre
de dona Maria Gorda, que tu é espírita pras tuas nega.
Um dia, seu Fabiano achou octanas demais em
uma garrafa de cachaça, ficou de olhar zarolho, meio-duro, meio-mole, cabeça estaqueada
na parede, corpo derreado na banqueta. Corre gente, junta gente, é coração, chama
Pronto Socorro, é alma penada, chamaram dona Maria Gorda.
A rua parou, cheia de sinais-da-cruz. Dona
Maria Gorda se concentrou, começou a chiar e a se cuspir, revira-que-te-revira os olhos,
balançou os braços e corpo, com a graça de um elefante delirando que é borboleta. De
repente, veio um silvo mais forte, todo o mundo se benzeu porque era o guia que baixava, a
voz de dona Maria Gorda ressoou cava e espremida:
- Quem está na máquina, irmão?
Um zum-zum-zum formigou na boca de todos, não
veio resposta, dona Dorva, entendida do assunto, disse que o sofredor era
"daqueles", dona Maria Gorda sentiu que era a oportunidade da sua vida,
caprichou no repeteco e a voz saiu soturna, com eco, como em filme de terror:
- Quem está na máquina, irmão?
De resposta veio o bafio comprido de cachaça
e o guincho fininho:
- Fabiano Carpena, irmã!
Em seguida, seu Fabiano deu pulo de
olimpíada, e arrasou dona Maria Gorda com risada de louco:
- Te peguei, Maria Gorda! Tu não é espírita
coisa nenhuma!
E com uma gargalhada diabólica, saiu em linha
reta, com escalas pelas paredes disponíveis, na direção do quiosque.
Foi o fim. Dona Maria Gorda, desmoralizada,
perdeu o "dona" e virou Maria Gorda. De vergonha, mudou-se pra Vila Caiu do
Céu, que agora é estádio do Grêmio. Seu Fabiano tirou a sorte grande, foi ser
grã-fino na Independência. Trocou a cachaça pelo uísque e acabou morrendo de cirrose,
que é doença de rico. O Perez Cardoso virou indústria grande, botou Coroa na cabeça, e
saiu dali sei lá pra onde.
Sem bolacha quebrada, duzentão o meio-quilo,
para agüentar de um lado, sem o corpo de Maria Gorda para escorar do outro, as duas
instituições sagradas da rua, a Avaí nunca mais foi a mesma. Os motorneiros viraram
motoristas de ônibus, os bondes desapareceram no passado, a cidade invadiu a rua e
decretou a sua morte.