O vampiro
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Prostíbulo da Rua Aurora
Óleo sobre tela (1940)

            Pintor:
button.jpg (1315 bytes)  Carlos Scliar
             (1920-2001)

(clique na imagem
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Jayme Copstein
copst@terra.com.br
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     Estas ruas cheias de casas não existem. É inútil argumentar com portas e janelas. O caminho é um só. Deslizamos por ele, noite afora.

     Ela vai ao meu lado, e eu tenho o rosto úmido de beijos. Ou será o orvalho da madrugada? Não sei. Só sei que ela me cobriu o rosto de beijos e agora vai ao lado, fisgada em meu braço tendido. Desespero ou ternura? Também não sei. Agora já estou incapaz de distinguir as coisas.

     Tento acertar o passo. Ela é baixa e gorda, coloca apelo demais no aconchego. Sua anca me bate na coxa, ela se desequilibra.


     Passo-lhe o braço nos ombros, para conseguir cadência. Um... dois... um... dois... Caminhamos dois bonecos desengonçados.

     Tudo ela entende carinho. Me olha lá de baixo, como se eu fosse Deus. Seu olhar brilha em sorrisos de gratidão. Tento corresponder. A culpa me distende o estômago. Faço uma careta. Ela pede licença para existir.

     - M’omor... me amas?

     Tenho a voz esmagada de impossibilidades. Sinto no peito aquela estranha sede de amargo e ferrugem. Preciso resistir. Já bebi demais em sua taça. Só lhe restarão olhos vazios no corpo teimoso de vida.

     Minto que sim com a cabeça. Por que me esqueci de cortar as unhas? Debaixo delas os dedos me coçam. Também preciso ir ao dentista. Com urgência. Meus dentes têm crescido muito nestes últimos dias.

     - M’omor!...

     A voz é gasosa. Sobe retorcida com tons de um cigarro em consumação.

     Ela me sacode:

     - M'omor!... m'omor!...

     Sou mar, ela é um pequeno barco prestes a naufragar. Ou será apenas um rio tortuoso que me busca com sua voz gotejante?

     - Tá surdo?

     Por que me chama? Por que não se afasta e vai desaguar em seus próprios abismos de mármore e alabastro?

     - O rato comeu a língua? Tu não fala...

     Ela é rio, eu sou mar. Os rios são sempre sugados pelo mar.

     - Tu só olha meu pescoço...

     Um obus me estoura o ouvido. Ela ri.

     - Meu pescoço é feio, eu sei. Meu padrasto falava...

     Ondula-se toda num arrepio.

     - Me beija!...

     É preciso que se cale. Ela me entornará no vazio com sua pressa. Minhas boas intenções só acordam com o amanhecer. Por que não espera que ressuscite em mim o homem do Ano Bom?

     - Pelo menos, olha pra mim...

     A noite é sempre sexta-feira, de fadiga ressentida que se troca pelo sangue das mulheres. Há torrentes de caos rodopiando estilhaços, que me sorvem em fatias pra dentro de uma lâmina gelada e me desintegram ao vento como um uivo.

     Um buraco negro se abre, explode em vertigens. Mergulho no vácuo e vou me esvaindo até mais não ser.

 
 

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Jayme Copstein
copst@terra.com.br

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