Passo-lhe o braço nos ombros, para conseguir cadência.
Um... dois... um... dois... Caminhamos dois bonecos desengonçados.
Tudo ela entende carinho. Me olha lá de
baixo, como se eu fosse Deus. Seu olhar brilha em sorrisos de gratidão. Tento
corresponder. A culpa me distende o estômago. Faço uma careta. Ela pede licença para
existir.
- Momor... me amas?
Tenho a voz esmagada de impossibilidades.
Sinto no peito aquela estranha sede de amargo e ferrugem. Preciso resistir. Já bebi
demais em sua taça. Só lhe restarão olhos vazios no corpo teimoso de vida.
Minto que sim com a cabeça. Por que me
esqueci de cortar as unhas? Debaixo delas os dedos me coçam. Também preciso ir ao
dentista. Com urgência. Meus dentes têm crescido muito nestes últimos dias.
- Momor!...
A voz é gasosa. Sobe retorcida com tons de um
cigarro em consumação.
Ela me sacode:
- M'omor!... m'omor!...
Sou mar, ela é um pequeno barco prestes a
naufragar. Ou será apenas um rio tortuoso que me busca com sua voz gotejante?
- Tá surdo?
Por que me chama? Por que não se afasta e vai
desaguar em seus próprios abismos de mármore e alabastro?
- O rato comeu a língua? Tu não fala...
Ela é rio, eu sou mar. Os rios são sempre
sugados pelo mar.
- Tu só olha meu pescoço...
Um obus me estoura o ouvido. Ela ri.
- Meu pescoço é feio, eu sei. Meu padrasto
falava...
Ondula-se toda num arrepio.
- Me beija!...
É preciso que se cale. Ela me entornará no
vazio com sua pressa. Minhas boas intenções só acordam com o amanhecer. Por que não
espera que ressuscite em mim o homem do Ano Bom?
- Pelo menos, olha pra mim...
A noite é sempre sexta-feira, de fadiga
ressentida que se troca pelo sangue das mulheres. Há torrentes de caos rodopiando
estilhaços, que me sorvem em fatias pra dentro de uma lâmina gelada e me desintegram ao
vento como um uivo.
Um buraco negro se abre, explode em vertigens.
Mergulho no vácuo e vou me esvaindo até mais não ser.