Naquele momento, nasceu a civilização. Pela primeira vez, no
confronto entre um criador e suas criaturas, a força de um ser todo-poderoso inclina-se
diante do direito à vida das criaturas indefesas, a despeito de que e,
principalmente, porque ele próprio as tivesse gerado.
Naquele momento também nasceram as nossas
profissões, ambas para lembrar a todos a nós, jornalistas, com suas notícias e
reportagens, aos juízes com suas sentenças, doutrinas e pareceres o pacto que
estabeleceu a hegemonia do direito sobre a força. É este único princípio ético a
reger nossas profissões. Todo o resto é mera interpretação.
E porque assim é, nossas profissões são
conseqüência uma da outra, ainda que nem sempre tenhamos percebido a verdade. Quando se
investe contra jornalistas, o alvo maior é a Justiça. Porque sem a voz do jornalista
não haverá quem lembre o pacto da hegemonia do direito sobre a força. Sem esta
lembrança constante e permanente, vãos serão os esforços do juiz para que o pacto
prevaleça. De igual forma, coagidos os que devem fazê-lo prevalecer, não haverá pacto
a ser lembrado.
A constatação, portanto, de que enfrentamos
os mesmos desafios, indica-nos a certeza de que nosso caminho é um só, que juntos
devemos percorrê-lo para enfrentar os riscos que também nos são comuns, como as
chamadas leis de imprensa que pretendem sufocar a voz do jornalismo com indenizações
milionárias ou reduzir a soberania do Judiciário com artimanhas de controle externo.
São faces da mesma moeda.
No vocabulário da tirania, a palavra maior é
Poder. Nele não cabem os antônimos Liberdade de expressão e Direito.
(*) jornalista