Pode parecer curioso, mas evocações cívico-municipais, como
seria adequado a uma efeméride que se preze, não as tenho. Acho que era a época, o tipo
de ensino que nos davam na escola. Sabíamos mais das andanças de Amundsen no Pólo Sul
do que sobre a própria cidade em que vivíamos.
Eu, pessoalmente, tinha noções muito vagas
do desembarque de Silva Pais naquelas costas, para fundar o presídio de
Jesus-Maria-José, e me vinham de um historiador local, não mais que diletante
bem-intencionado, percebo agora, à distância, que me contava das lutas titânicas dos
portugueses contra os espanhóis pela posse de nossas areias.
Isso me intrigava. A cidade era praticamente
habitada por portugueses, mas a todos eles eu reunia e condensava no Manoel dos Burros,
símbolo que não sei se ainda vale hoje em dia, do bem sucedido homem de negócios.
Depois de anos como carroceiro - daí o nome que ostentava como brasão - prosperou com
uma bodega onde vendia tremoços em gamelas para acompanhamento do vinho tinto em copos.
Era o coroamento de uma notável carreira de comerciante, considerando-se que tudo isso
aconteceu no curto espaço de uma única geração.
De espanhóis, só conhecia, assim mesmo de
vista, o Fuentefria, consertador de guarda-chuvas que tinha loja na rua Uruguaiana, mais
tarde promovida a avenida e rebatizada como Silva Pais em homenagem à data.
Esse Fuentefria viveu e envelheceu como um
homem bem posto, cidadão honorável e exemplar chefe de família, deixando descendência
da qual já não tenho mais notícias. Mas, naquele tempo de infância, ele me confundia,
não por lhe adivinhar mistérios terrificantes nunca trocamos uma palavra, já
disse mas porque o chamavam de guarda-soleiro (naquele tempo guarda-chuvas era
também guarda-sol), eu entendia guarda-soleira e não conseguia ver nenhuma relação
entre guarda-chuvas e portas.
Enfim, se os adultos diziam que era assim, era
porque era assim, não valia à pena discutir. Se discutisse, levava puxão de orelhas, E
se diziam que portugueses e espanhóis para mim, o Manoel dos Burros e o Fuentefria
tinham brigado um dia, era porque tinham brigado. Ficava muito engraçado imaginar
o Fuentefria, escorado atrás de um guarda-chuvas, resistindo galhardamente à artilharia
de tremoços com que o Manoel dos Burros o bombardeava sem trégua nem quartel. Mas o
feriado estava ali de prova, desta guerra dos tremoços.
Quando me contava estas coisas, o historiador
diletante sempre assumia tom de epopéia e a narrativa fluía com chuviscos de cuspe
porque era tocada ao vento de uma boca-corneta que soava tu-turu-tutu. O que, aliás,
despertou os primeiros vagidos do meu inconformismo. A longa prática e por que hei
de ser modesto? a minha reconhecida autoridade em relação a esses inusitados
instrumentos, ensina que bocas-cornetas fazem tó-toró-totó.
Todavia, não parava aí meu inconformismo. O
historiador diletante sempre tomava partido dos portugueses e me confundia cada vez mais.
Lusitanos e hispânicos brigavam em Rio Grande, mas não era por Rio Grande, era pelo Rio
da Prata, que não era de prata mas era de água. E assim por diante.
De minha parte, acabei tomando partido contra
os dois, e com sobradas razões. Se o Manoel dos Burros e o Fuentefria fizeram mesmo a tal
Guerra dos Tremoços, sei lá por quê, que pelo menos a tivessem feito de março a
novembro, para dar feriado na época das aulas. Em fevereiro, era tempo de férias.
Grandes paspalhões! De que adiantava feriado
em tempo de férias?...