A vida estava ficando cada vez pior. Não era fácil pagar as
décimas que lhe tiravam todos os anos da fazenda. Mas era mais feliz que os mineiros,
obrigados a entregar um quinto do ouro que extraíam.
Acabou se distraindo com o pássaro que
cantava na gaiola. Aquele, apesar da prisão, não padecia grandes preocupações. Casa,
comida, sem impostos a pagar, só tinha a fazer o que fazia - cantar... cantar... e
cantar.
*****
Joaquim, o alferes, era também José e estava
licenciado da tropa. Agora fazia viagens freqüentes e punha sua habilidade nas artes
dentárias à disposição de quem precisasse.
As pessoas sempre queriam saber porque se
licenciara. Explicava que fora protesto contra a opressão. Como as pessoas estranhavam
que considerasse opressor o exército colonial português, respondia: "A minha
pátria é o Brasil."
Quando chegou na casa da fazenda, disse que
era um criado às ordens. Em seguida alheou-se a tudo, atraído pelo pássaro.
Joaquim, o fazendeiro, esteve faz-não-faz a
pergunta da licença. Mas desistiu diante do fascínio que o alferes mostrava pelo
pássaro, e o pássaro por ele. A ave ficara estática no poleiro, ambos se olhando
fixamente, ela e o homem.
Era tudo tão estranho... "Será que se
entendiam?", pensou. Logo saiu de suas conjecturas com um grito de protesto: Joaquim,
o alferes, abriu a porta da gaiola. O pássaro atravessou a janela como uma flecha e
ganhou a liberdade do pomar.
"Este já é livre. Em breve todos
também o serão", falou.
Joaquim, o fazendeiro, assustou-se. Se as
idéias daquele homem com relação aos dentes fossem iguais as que nutria a respeito de
pássaros, pobre Sinhazinha!
*****
Joaquim, o coronel, era também Silvério e
enriquecera em negócios de mineração. Depois, afogara-se em dívidas com a Fazenda
Real, como arrecadador de tributos.
A noite ia cheia de estrelas e silêncios.
Estava insone.
Recostado no balaústre da alpendrada, não
conseguia tirar da cabeça o pássaro que ouvira cantar à tarde no fundo do quintal.
Devia estar doente. Pássaros só fazem cantar. Impressionar-se porque um pássaro cantava
à-toa, não era coisa de pessoa sã. Com toda a certeza, eram os nervos. A situação
estava ficando difícil.
A mulher veio saber por que não entrava.
"O senhor Joaquim, meu esposo, não
pretende dormir hoje?
"Ande a deitar-se, mulher. Eu irei mais
tarde."
"Andaram-me cá segredando ao ouvido uns
certos boatos de revolução. Não andará por acaso o senhor meu marido a meter-se em
tais façanhas?"
"Por quem me toma mulher?"
"Razões teria de sobra para desconfiar.
Diz-se à boca pequena que a revolução é feita para não pagar o ouro no Dia da
Derrama. O senhor meu marido está em dificuldades para satisfazer a obrigação."
"Trate vosmecê da casa, que dos
negócios cuido eu. É assunto de homem."
"Faça como entender. Mas o senhor meu
marido não se queixará de mim, que não o botei em cuidados a tempo. Bem melhor andaria
se fosse ter com o vice-rei Barbacena e lhe expusesse o caso, em lugar de se deixar
envolver em tais conciliábulos."
A mulher recolheu-se e Joaquim, o coronel,
ficou pensativo. Lá fora, um grilo arranhou seu berimbau.
*****
Joaquim, o fazendeiro, encontrou o alçapão
vazio. Ao voltar para casa, estava irritado. Aquele maldito pássaro cantava por toda a
fazenda e nada de cair na armadilha. Quando entrou em casa e Sinhazinha veio recebê-lo,
arrenegou com ela.
"A culpa foi toda sua. Não fossem seus
dentes, o maluco do alferes não tinha aberto a gaiola."
Precisava do pássaro dentro da gaiola. No
fundo, identificava-se com ele. Pouco lhe importavam aquelas estrambóticas idéias de
liberdade que muita gente falava. Para si mesmo, o que contava era ter seguros a casa e o
pão de cada dia. O resto eram lérias...
*****
Numa casa da Rua dos Latoeiros, Joaquim, o
alferes, olhava da janela. Nas proximidades, um pássaro cantava em uma árvore próxima.
Não podia vê-lo, para saber se era igual ao outro, que libertara na fazenda. Seriam
irmãos? Quem sabe, primos? Sorriu da infantilidade da idéia.
Os companheiros reclamaram. Que deixasse os
pássaros em paz. Precisavam acertar os pormenores, para que o movimento não tivesse mau
sucesso. Joaquim, o alferes, como se desculpando, apontou a direção de onde vinha o
trinado do pássaro e disse:
"Em breve, todos seremos como ele.
Livres."
*****
Barbacena fitava Joaquim, o coronel, com certa
expectativa. O homem estava enleado e não conseguia falar.
"Então, senhor Joaquim Silvério dos
Reis?"
O coronel não sabia o que fazer com as mãos.
Torcia-as e as retorcia como se fosse cobras.
"Saiba Vossa Excelência, arriscou,
fazendo voltas e titubeios... Saiba Vossa Excelência que sou súdito fiel de Sua
Majestade, a rainha Maria.
Barbacena sentiu enfado.
"Isso tenho como certo, coronel. Todos,
nesta colônia, são súditos fiéis e dedicados à coroa de Portugal. Julgo que não foi
para me afirmar esta lealdade que pretendeu vir à minha presença."
O coronel agitou-se e começou a piscar os
olhos muito depressa.
"É certo que não. Passa-se o caso que
nem todos são súditos tão fiéis como Vossa Excelência imagina."
A preocupação desenhou um vinco na testa de
Barbacena. Seu olhar tornou-se grave, telegrafando uma ordem para que o coronel
prosseguisse.
"Trama-se uma revolução no Brasil,
Excelência!"
"Prossiga."
"Vossa Excelência há de compreender.
Para contar o que sei, Vossa Excelência teria de me dar a certeza de uma recompensa. O
povo me votaria desprezo, depois que eu falasse. Saiba Vossa Excelência que estou
entalado para satisfazer meus débitos com a Fazenda...
Barbacena não fez nem que sim, nem que não.
O coronel sentiu que faltava o chão, mas agora já não podia recuar.
"Um certo Joaquim José da Silva Xavier..."
*****
Joaquim, o fazendeiro, voltou exultante para
casa. Chamou a mulher e lhe mostrou o alçapão. Conseguira apanhar o pássaro.
Sinhazinha ficou alegre porque viu
tranqüilidade nos olhos do seu homem. E com a felicidade das mulheres que nasceram para
ser felizes quando seu homem está contente, disse comovida:
"Vou servir a mesa."
Joaquim, o fazendeiro, transferiu o pássaro
para a gaiola, e ficou à espera que começasse a cantar. O pássaro quedou-se em um
canto, muito jururu.
Joaquim não se importou. Esparramou-se
preguiçoso na cadeira e gracejou:
"Ah! Não queres cantar, ó maroto. Deixa
estar, que o tempo há de te curar a doença."
De súbito, lembrou-se na novidade.
"Sinhazinha, sabe da nova?"
A mulher não podia saber. Continuou emendado:
"Aquele alferes, que tirava dentes, foi
preso no Rio de Janeiro. Imagina que pretendia fazer uma república, cá no Brasil. Vai
ser enforcado."
A mulher ficou calada um tempo, cheia de
espanto.
"Que haveria de dizer, não é mesmo?
Parecia tão inofensivo, apesar da mania de soltar os pássaros."
Depois, foi o ruído dos pratos e o cheiro
gostoso da comida. O pássaro animou-se na gaiola, subiu no poleiro e começou a cantar.
Joaquim, o fazendeiro, espreguiçou-se na cadeira e deixou escapar um rotundo arroto, que
reboou pela sala como o hino nacional da bem-aventurança e da acomodação.
Tudo, agora, ia bem. Não tinha por que se
queixar da vida. Não corriam mais boatos de revolução, Barbacena tinha decretado
anistia para os impostos, que poderia desejar mais?
Em alguns momentos, é verdade, sentia-se pássaro preso. Mas
tinha casa e comida. Não era tudo que pedira a Deus?