A ODISSÉIA DOS "PRACINHAS"
NA ITÁLIA
Começava aqui a Odisséia dos "pracinhas" brasileiros na Itália, com uma série de reveses, proporcionados não pelos inimigos, mas pelos próprios aliados.
Nápoles fica ao Sul da Itália e o campo de batalha estava situado no Norte. O 5º Exército americano combinara de colocar no porto caminhões para transporte dos soldados brasileiros, mas esse comboio não estava ali e só mais tarde se soube que o ponto de encontro seria a 30 quilômetros daquele local, trajeto que os pracinhas tiveram de fazer a pé.
Caminhando em passo de estrada, sem armamento, com fardas semelhantes às dos alemães, os pracinhas foram confundidos com prisioneiros de guerra, mal-entendido que se desfez rapidamente.
No Brasil, o Presidente Getúlio Vargas, há mais de dez anos no poder, vivia a terceira fase de seu governo, a ditadura do Estado Novo, e não escondia sua simpatia pelo nazismo, seja por identidade de pensamento, seja porque Brasil e Alemanha tinham economias complementares.
O Brasil exportava produtos agrícolas e recebia, em troca, armamentos e mecânica pesada, coisa que os EUA relutavam em nos fornecer. O bloqueio britânico aos navios que transportavam mercadoria alemã para o Brasil tornou esse comércio inviável.
Por outro lado, um acordo com os EUA para instalação de bases militares em nosso território dariam ao Brasil uma aparência de terra ocupada, a menos que entrássemos em efetivo na Guerra.
Por último, o clamor popular não deixou outra alternativa senão a de manifestar aos países aliados a nossa condição e desejo de enviar tropas para a luta, ainda que com restrições impostas pelo V Exército americano, que não acreditava no potencial de nossos soldados. Essa opinião mudou muito mais tarde, quando os brasileiros provaram sua capacidade de luta, em pé de igualdade com os demais exércitos.
Não param aí os problemas. O treinamento dado no Brasil aos homens convocados foi rápido e artificial, sendo complementado com o treinamento real recebido na zona de guerra.
Os soldados da FEB foram mandados à Itália com fardamento adequado aos trópicos, quando a guerra se situava nos montes Apeninos, ao norte da Itália, a 1.500 metros de altitude e numa temperatura que, no inverno, chegava a 20 graus abaixo de zero!
Todos esses reveses serviram para marcar o caráter do "pracinha" brasileiro que, antes de vencer o inimigo, teve de vencer aqueles que deveriam lhe dar o apoio de retaguarda.
Não obstante, a participação da Força Expedicionária Brasileira nos campos da Itália foi gloriosa. Monte Castelo está lá para não nos desmentir.
E depois, fizemos prisioneiras duas Divisões alemãs e um resíduo de uma Divisão italiana que permanecia fiel ao Eixo. Foram 17 mil soldados e oficiais, incluindo um general alemão e um italiano.
Foi o senso do dever e o sentimento de honra, que os soldados brasileiros captaram muito bem e souberam por em prática.