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CONHEÇA JOEL SILVEIRA
AOS 86 ANOS
Fonte: JB Online - Caderno B
8 de novembro de 2004


O veneno da víbora

Aos 86 anos, Joel Silveira lança livro
sobre política nacional

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Foto: Cel Lisboa

Paulo Celso Pereira
Especial para o JB

(Esta reprodução contêm apenas
a primeira parte da entrevista)

Aos 86 anos, o sergipano Joel Silveira, conhecido como A Víbora por suas contundentes reportagens, não pode mais ir para a rua. Fica em casa. O apartamento, no edifício Yedda da movimentada Rua Sá Ferreira, em Copacabana, tem sido há meses o único ambiente em que ele circula. Joel tem dedicado seus dias a ver televisão, ao lado da esposa, Iracema, dois anos mais jovem: ''Eu me casei aos 19 anos, então, já fizemos todas as bodas possíveis. Só falta a de césio ou plutônio''.

Na mesa da sala, quatro douradas empadinhas trazidas por Conceição, que trabalha na casa, ficam intocadas. Para beber, Pepsi. ''Uísque é para beber conversando. Beber sozinho é coisa de alcoólatra. Como todos os meus amigos estão no São João Batista, não bebo há muito tempo'', explica. Em pouco mais de duas horas, Joel Silveira, que cobriu a 2ª Guerra Mundial pelos Diários Associados e trabalhou nos principais jornais do país, falou sobre as eleições no Brasil e nos EUA e contou histórias, muitas, sempre saborosas, como deveriam ser as empadinhas que o bom papo não permitiu comer.

Joel, que já lançou dezenas de livros, tanto de ficção quanto de reportagem, acaba de mandar para as livrarias A feijoada que derrubou o governo (Companhia das Letras), com 17 perfis e reportagens sobre a política nacional. Sentado numa poltrona de encosto alto, o repórter traça um panorama do Brasil, sem se incomodar com o barulho do trânsito que entra pela janela e contrasta com o ambiente sereno do apartamento, repleto de livros bem encadernados, em sua maioria em azul e vermelho.

Na estante, ao lado de caricaturas de Manuel Bandeira e Cândido Portinari feitas por Augusto Rodrigues, uma plaqueta do Prêmio Esso de 1975. ''Foi um prêmio honorário'', explica Joel, pela constância na vida de grande repórter. ''Eu nunca me candidatei a nada, com medo de perder. Tenho horror de perder'', resume.

 

- Como surgiu a idéia do novo livro, lançado um ano depois de A milésima segunda noite na Avenida Paulista, pela mesma coleção Jornalismo Literário?

- O Luiz Schwarcz (dono da Companhia das Letras) me perguntou se eu tinha algo para publicar. Respondi que tinha uma tonelada de coisas. Nem sabia o que era mais. Ele pediu para eu mandar tudo o que tivesse para que eles selecionassem lá na editora o que usariam para fazer o livro. Era tanta coisa que eles acabaram montando dois livros e pode até sair um terceiro. Eu já tinha pendurado as chuteiras, mas apareceu a oportunidade e foi bom, porque não ficou na gaveta. É curioso que o primeiro desta coleção tenha sido A sangue frio, do Truman Capote, que é uma obra-prima, mas não sei por que não vendeu aqui. Os meus venderam e o do Capote, que é muito melhor, não. Nos EUA já está na ducentésima edição. Acho que até o Bush, que não lê nada, já leu esse livro.

 

- O senhor entrevistou quase todas as personalidades do Brasil. Quem o senhor gostaria de ter entrevistado e não entrevistou?

- Eu vou contar o meu fracasso. Repórter gosta muito de contar glórias. Eu conto quando me perguntam, mas também gosto de contar meus fracassos. Em 1952, estava em Paris com o Samuel Wainer projetando o semanário Flan, que iríamos lançar aqui. Então, li no jornal que o Hemingway estava em Paris e que toda manhã ele ficava em um bistrozinho, de 9h a 11h, mas me fiz de desentendido. Quando encontrei o Samuel no hotel dele, ele perguntou se eu sabia que o Hemingway estava em Paris e me mandou fazer entrevista com ele. Cheguei às 8h e comecei a beber para tomar coragem: ''O que é que eu vou perguntar a Ernest Hemingway?''. Um vago repórter do Brasil, entrevistar essa sumidade internacional... E fui bebendo para me encorajar. Então, como ele gostava muito de safári, pensei em perguntar se ele já tinha imaginado fazer um safári na Amazônia. Eu vi o homem lá, lendo um jornal que, se não me engano, era de corrida de cavalo. Então tomei o último conhaque, fui ao banheiro, e, quando voltei, o homem tinha ido embora. Mas eu não podia dizer ao Samuel que havia fracassado. Fui para o hotel e disse: ''Samuel você é o sujeito mais mal informado que já vi na minha vida. Hemingway foi embora há três dias, Samuel, ele já está na Espanha. Você me deixa plantado lá naquele cafezinho chato pra nada!''. Olha, mesmo que o Hemingway tivesse me dado uma bofetada, seria um assunto: ''Eu levei uma bofetada de Hemingway''. Esse foi o meu grande fracasso.

 

- O senhor foi correspondente da 2ª Guerra, ao lado de Rubem Braga. Se estivesse atuando, onde gostaria de estar?

- Certamente, em Bagdá. Hoje, há duas grandes entrevistas para qualquer repórter do mundo: uma é com Osama Bin Laden; a outra, com Saddam Hussein. Esses seriam os dois furos espetaculares, porque o assunto é o Iraque, não há dúvida.

 

- A cobertura da guerra foi o fato mais importante de sua carreira?

- A guerra é sempre o maior assunto de qualquer tempo. Numa guerra você conhece as duas faces do ser humano. A boa e a má. Porque o problema da guerra não é ela em si. O pior é o que ela vai deixando por onde passa. Principalmente na Itália, na época da 2ª Guerra, quando os valores foram subvertidos, com pai vendendo filho para poder comprar comida, uma coisa horrorosa. A Itália é um museu, então você vê um monumento que levou mil anos para ser construído acabar de repente com uma bomba. A Itália não é pra guerra. O italiano não é um guerreiro, é um artista. Essa aliança de Mussolini com Hitler foi terrível, mas já está aí recuperada. A reconstrução foi fantástica, mesmo tendo um ladrão como primeiro-ministro. De qualquer maneira funciona. Mas, as eleições vêm aí e o Berlusconi vai cair. Até o Vaticano está contra ele.