Aos 86 anos, o sergipano Joel Silveira, conhecido
como A Víbora por suas contundentes reportagens, não pode mais ir para a rua. Fica em
casa. O apartamento, no edifício Yedda da movimentada Rua Sá Ferreira, em Copacabana,
tem sido há meses o único ambiente em que ele circula. Joel tem dedicado seus dias a ver
televisão, ao lado da esposa, Iracema, dois anos mais jovem: ''Eu me casei aos 19 anos,
então, já fizemos todas as bodas possíveis. Só falta a de césio ou plutônio''.
Na mesa da sala, quatro douradas empadinhas trazidas
por Conceição, que trabalha na casa, ficam intocadas. Para beber, Pepsi. ''Uísque é
para beber conversando. Beber sozinho é coisa de alcoólatra. Como todos os meus amigos
estão no São João Batista, não bebo há muito tempo'', explica. Em pouco mais de duas
horas, Joel Silveira, que cobriu a 2ª Guerra Mundial pelos Diários Associados e
trabalhou nos principais jornais do país, falou sobre as eleições no Brasil e nos EUA e
contou histórias, muitas, sempre saborosas, como deveriam ser as empadinhas que o bom
papo não permitiu comer.
Joel, que já lançou dezenas de livros, tanto de
ficção quanto de reportagem, acaba de mandar para as livrarias A feijoada que
derrubou o governo (Companhia das Letras), com 17 perfis e reportagens sobre a
política nacional. Sentado numa poltrona de encosto alto, o repórter traça um panorama
do Brasil, sem se incomodar com o barulho do trânsito que entra pela janela e contrasta
com o ambiente sereno do apartamento, repleto de livros bem encadernados, em sua maioria
em azul e vermelho.
Na estante, ao lado de caricaturas de Manuel
Bandeira e Cândido Portinari feitas por Augusto Rodrigues, uma plaqueta do Prêmio Esso
de 1975. ''Foi um prêmio honorário'', explica Joel, pela constância na vida de grande
repórter. ''Eu nunca me candidatei a nada, com medo de perder. Tenho horror de perder'',
resume.
- Como surgiu a idéia do novo livro, lançado um
ano depois de A milésima segunda noite na Avenida Paulista, pela mesma coleção
Jornalismo Literário?
- O Luiz Schwarcz (dono da Companhia das Letras)
me perguntou se eu tinha algo para publicar. Respondi que tinha uma tonelada de coisas.
Nem sabia o que era mais. Ele pediu para eu mandar tudo o que tivesse para que eles
selecionassem lá na editora o que usariam para fazer o livro. Era tanta coisa que eles
acabaram montando dois livros e pode até sair um terceiro. Eu já tinha pendurado as
chuteiras, mas apareceu a oportunidade e foi bom, porque não ficou na gaveta. É curioso
que o primeiro desta coleção tenha sido A sangue frio, do Truman Capote, que é
uma obra-prima, mas não sei por que não vendeu aqui. Os meus venderam e o do Capote, que
é muito melhor, não. Nos EUA já está na ducentésima edição. Acho que até o Bush,
que não lê nada, já leu esse livro.
- O senhor entrevistou quase todas as personalidades
do Brasil. Quem o senhor gostaria de ter entrevistado e não entrevistou?
- Eu vou contar o meu fracasso. Repórter gosta
muito de contar glórias. Eu conto quando me perguntam, mas também gosto de contar meus
fracassos. Em 1952, estava em Paris com o Samuel Wainer projetando o semanário Flan,
que iríamos lançar aqui. Então, li no jornal que o Hemingway estava em Paris e que toda
manhã ele ficava em um bistrozinho, de 9h a 11h, mas me fiz de desentendido. Quando
encontrei o Samuel no hotel dele, ele perguntou se eu sabia que o Hemingway estava em
Paris e me mandou fazer entrevista com ele. Cheguei às 8h e comecei a beber para tomar
coragem: ''O que é que eu vou perguntar a Ernest Hemingway?''. Um vago repórter do
Brasil, entrevistar essa sumidade internacional... E fui bebendo para me encorajar.
Então, como ele gostava muito de safári, pensei em perguntar se ele já tinha imaginado
fazer um safári na Amazônia. Eu vi o homem lá, lendo um jornal que, se não me engano,
era de corrida de cavalo. Então tomei o último conhaque, fui ao banheiro, e, quando
voltei, o homem tinha ido embora. Mas eu não podia dizer ao Samuel que havia fracassado.
Fui para o hotel e disse: ''Samuel você é o sujeito mais mal informado que já vi na
minha vida. Hemingway foi embora há três dias, Samuel, ele já está na Espanha. Você
me deixa plantado lá naquele cafezinho chato pra nada!''. Olha, mesmo que o Hemingway
tivesse me dado uma bofetada, seria um assunto: ''Eu levei uma bofetada de Hemingway''.
Esse foi o meu grande fracasso.
- O senhor foi correspondente da 2ª Guerra, ao lado
de Rubem Braga. Se estivesse atuando, onde gostaria de estar?
- Certamente, em Bagdá. Hoje, há duas grandes
entrevistas para qualquer repórter do mundo: uma é com Osama Bin Laden; a outra, com
Saddam Hussein. Esses seriam os dois furos espetaculares, porque o assunto é o Iraque,
não há dúvida.
- A cobertura da guerra foi o fato mais importante
de sua carreira?