"QUE EXPERIÊNCIA TERRÍVEL !"
Sgt. Antonio Maitinguer, da Cia.Policial Militar da1@ Divisão de Infantaria Expedicionária (DIE),
em depoimento a Mercedes Pacheco (Odisséia e Vitória da FEB – 1ª Edição - 1981)


O engajamento

   Após a convocação, seguimos para o Rio de Janeiro num trem da Central do Brasil, comandados pelo major Saldanha da Gama, já falecido. Nossa corporação era composta de 84 elementos, pertencentes à ex-Guarda Civil de São Paulo. Fomos ao Rio para fundar o pelotão da Polícia Militar do Exército, que não existia até aquela data.

    Pouco ou nada tínhamos para aprender, pois conhecíamos ordens de comando, educação física, policiamento, enfim, éramos formados pela Escola de Polícia de São Paulo.

Partindo para o desconhecido

   Saímos do Brasil no navio "General Mann", no dia 12 de julho de 1944 e desembarcamos em Nápoles no dia 26 do mesmo mês. A viagem foi penosa, em condições de blecaute, além do balanço do navio e da comida, que já era comida de guerra.

    Não sabíamos qual era o nosso destino e, após treze dias e treze noites, fomos informados de que desembarcaríamos no dia seguinte no porto de Nápoles, Itália.

No campo de batalha

    Tomei parte em todas as batalhas, pois nosso pelotão era o precursor. Nós fazíamos o reconhecimento das ruas, estradas, pontes, para possibilitar o deslocamento das tropas.

    Num desses deslocamentos, perdemos um grande companheiro, ex-"Classe Distinta"da Guarda Civil, Paulo Emídio Pereira, num desastre com o jipe.

    Num dos cerrados ataques da artilharia alemã, quando estávamos acampados em Porreta-Terme, eu dirigia o jipe conduzindo um comboio de tropas e, ao passarmos nas imediações do nosso Quartel General, vi o soldado Domingos Marcomini, que dirigia o trânsito. Disse-lhe, então: "A cidade está sendo bombardeada, esconda-se rápido!" Meia hora após essa advertência, ao retornar conduzindo outro comboio, encontrei o soldado de bruços, faltando-lhe uma das nádegas. Encaminhei-o ao hospital mais próximo.

    Que experiência terrível! Idioma, costumes, cultura, alimentação, clima, tudo diferente. A saudade apertando no peito. Aguardávamos, ansiosos, as cartas que, muitas vezes, vinham retalhadas pela censura.

O terrível Monte Castelo

   O Monte Castelo tem 11 quilômetros de comprimento e 800 metros de altura. Foi ali que, em 1914, os alemães foram derrotados pelos italianos.

    É uma fortaleza natural. No interior do morro existem crateras, formadas pelas pedras, com tal segurança que propiciaram aos alemães darem as cartas, com ampla visão de tudo, inclusive de nossas posições.

    Que inferno! Quando estávamos mais perto do topo, foi uma loucura. Fogo cruzado, barulho intenso, rios de sangue tingindo a neve, muito frio congelando os pés, o horror congelando a alma, o céu iluminado pelo bombardeio, fumaça preta, enfim, um ápice do "salve-se quem puder". Não consigo esquecer.

A tomada de Monte Castelo

    Nesse ponto apareceu o esquadrão aéreo. Aviões pilotados pelos elementos da FAB (Força Aérea Brasileira), que carregavam tambores cheios de gasolina em estado gelatinoso, envolvendo granadas. Nos piquetes que davam em vários pontos do morro, soltavam os tambores que, ao contato com as pedras, explodiam. Com o fogo, a gelatina combustível derretia e escorria para dentro das casamatas e, então, só víamos os alemães saindo dos buracos, urrando, em forma de tochas humanas. Foi terrível, mas foi assim que limpamos a área.

   Todo um esquema foi montado e, no dia  21 de fevereiro de 1945,  conseguimos retirar do mastro do alto do morro a bandeira nazista e fincar, com muita emoção, o pendão nacional. Recolhemos os prisioneiros e seguimos em direção ao vale do rio Pó até o Passo Blainer, fronteira com a Suiça.

   Para ilustrar este meu depoimento, registro um fato importante. Coube às tropas brasileiras acampadas a 18 quilômetros de Milano, sitiar e prender a temível 148ª Divisão de Infantaria alemã, fazendo 17.449 prisioneiros, sendo dois generais. Apreendemos, também, todo o material de guerra e seus pertences.

Guerra não tem alma, não

  Numa guerra louca como essa, fizemos o certo na dúvida de que poderíamos estar errando e vice-versa. Uma noite, eu montava guarda na Ponte Silas, com ordem expressa de proibir a passagem de civis.

   Pensando na vida, na distância que me separava do Brasil, vi aproximar-se uma velhinha. Andava com dificuldade, arcada, e trazia no braço um cesto. Numa voz cansada, insistia em atravessar a ponte, dizendo morar num casebre na encosta de um morro, do outro lado. Choramingou tanto que acabei cedendo.

    Quando ela havia caminhado uns cem metros, chegou o tenente de ronda e mandou que eu atirasse. Resisti, e ele gritou: "Atire, é uma ordem!" Apoiei o fuzil "Garant", com capacidade para 15 tiros, apontei, acionei o gatilho, e vi a velhinha abrir os braços, caindo de costas.

    Mais tarde, o lugar foi totalmente conquistado por nós e pudemos verificar que o cadáver, em realidade, não era de uma velhinha, mas de uma moça de 23 anos aparentes, espiã a serviço dos alemães. Nas suas vestes encontramos vários croquis designando toda a área ocupada pelas tropas brasileiras.

    Sabe, se eu contar tudo o que vi e senti, não vai dar num capítulo, você vai ter que escrever pelo menos dois livros.

Lembranças da campanha

   Em outra ocasião, quase me tornei assassino de dois agentes do Serviço Secreto Americano. Eu e dois companheiros devíamos encontrá-los em Marano e a senha era o canto de um canário. Lugar montanhoso, uma e meia da manhã.

    No silêncio da madrugada, ouvimos a senha combinada, o trinar de um canário. Permanecemos deitados atrás de uma pedra e, de repente, vimos, bem ali na nossa frente dois homenzarrões com farda alemã, armados até os dentes.

    Senti medo, e um calafrio percorreu minha espinha, Quando me preparava para atirar, um deles falou, em bom português: "Somos quem vocês estão procurando." Dito isso, nos entregaram um tubo metálico para ser encaminhado ao major Rafael de Souza Aguiar. Pediram cigarros e desapareceram.

    Guerra suja! A princípio, os italianos cuspiam em nós, confundindo-nos com os soldados alemães e estes (os alemães) fazendo junto aos italianos a mais sórdida campanha contra nós.

    Em pontos estratégicos, penduravam cartazes mostrando um soldado brasileiro todo equipado, com dentes enormes saltando para fora da boca, comendo uma criança, e com a mensagem: "Atento con brasiliani, qui mangia tutti bambini."

A rádio clandestina

    Outra vez, e meus companheiros percorremos uma distância enorme para encontrar uma rádio clandestina, onde uma voz feminina incitava os italianos contra os brasileiros.

    Em um cabaré e nos misturamos aos outros freqüentadores, fazendo contato com uma italiana, por quem ficamos sabendo que a rádio clandestina funcionava no mesmo prédio onde essa minha nova amiguinha morava.

    Fomos até lá, batemos na porta e, ato rápido, colocamos o fuzil no peito do homem que nos atendeu. Depois, localizamos a locutora (brasileira), o seu amante, (oficial aviador italiano), e por último um outro elemento que lá se achava. Os três foram entregues ao Quartel General em Alessandria, onde ficaram detidos, incomunicáveis.

Depois do namoro, o retorno

   Mas houve, também, momentos de ternura. Eu tinha uma namorada, Alda Pieratini, que estava decidida a casar comigo e vir para o Brasil. Acontece que, então, eu era muito jovem e minha cabeça estava quente com a guerra, pelo que não pensava ainda em casamento.

    Retornar!  Foi a ordem mais gostosa que ouvi em toda minha vida! A guerra acabou e estávamos de volta à terra natal!

    Na altura de Recife, Pernambuco, veio ao nosso encontro um cruzador da Marinha Brasileira. Sua guarnição, perfilada no convés, nos prestou continência de estilo e, em seguida, nos fizeram a escolta até a Baia da Guanabara, no Rio de Janeiro, onde fomos recebidos por uma legião de barcos, recebendo uma salva de tiros, disparados do Forte de Monduba.

    Pisando, novamente, em terras brasileiras, recebemos café e lanches, distribuidos por moças da Legião Brasileira de Assistência.

    Depois de tantos serviços prestados ao meu querido Brasil na luta pela liberdade e democracia, o resultado final é que fomos esquecidos. Esse é o meu maior trauma, a minha grande dor.

voltar ao topo da página