Quando estava na ativa,
Elza começou a cuidar informalmente do arquivo. A partir de 1976, ao ir para a reserva, o
que era diversão virou obrigação mas apenas afetiva. Elza não ganha nada pelo
trabalho.
Das 67 enfermeiras enviadas
à Itália, é a única que ainda cumpre expediente na caserna. Trabalha no Palácio Duque
de Caxias, o antigo Ministério do Exército, no Rio de Janeiro. Ali, cuida do passado de
que participou.
A farda impecável e as 36 medalhas que exibe não
são a roupa do dia-a-dia. Como está na reserva, só pode vestir-se assim em eventos
especiais. "A mais importante é a Medalha de Campanha, dada apenas a quem esteve na
guerra", diz.
Nem todas as
condecorações premiaram feitos militares. Algumas foram fruto de seu talento nas artes.
Elza é escultora e pintora. Levam sua assinatura bustos de personagens caros ao
Exército. O ex-presidente João Figueiredo mereceu um óleo sobre tela. "Éramos
amigos", conta ela, que foi secretária de Figueiredo no extinto Serviço Nacional de
Informações.
Major Elza ingressou no
Exército num tempo em que mulheres só freqüentavam quartel em dias festivos, e no papel
de mãe, esposa ou filha.
"Tinha concluído o
curso de enfermeira e, em 1943, procurei o Exército contra a vontade de meu pai, que
ficou anos sem falar comigo", recorda.
Elza mantém o estilo de
vida inquieto. Ao completar 60 anos, aprendeu a pilotar ultraleve. Agora, octogenária,
sonha fazer um curso de mergulho.
Elza já escreveu
três livros sobre o papel das mulheres na guerra o mais recente, Eu Estava Lá,
chegou às livrarias em 2001.
No cinema, sua história
foi relatada no longa-metragem A Cobra Fumou, de Vinícius Reis, lançado em abril.
Ela facilitou a
realização do documentário, pois é um arquivo ambulante. Coleciona histórias
divertidas, como a de uma cobra que surgiu no acampamento da FEB, para o pânico do
mulherio.
Há também relatos
tristes, entre eles o da morte do grande amor de sua vida no campo de batalha. Era um
tenente americano, Robert Bishop. "Bob morreu numa explosão em 2 de maio de 1945,
nos últimos dias da guerra na Europa", recorda-se Elza, disfarçando a tristeza.
"Estávamos noivos."
Nunca se casou, nem teve
filhos. Vive sem companhia num apartamento da Zona Sul carioca. As fotos antigas são
testemunhas de sua beleza, mas Elza nega que fizesse sucesso entre os soldados: "Os
rapazes nos viam como se fôssemos da família".
Ela foi uma das quatro
primeiras enfermeiras a embarcar para a Itália, em março de 1944. Ao chegar à base
americana em Nápoles, nem patente tinha. "Os americanos nos barravam no restaurante
dos oficiais e no dos soldados, pois não éramos uma coisa nem outra."
Sensibilizado, o comandante da FEB, general Mascarenhas de Moraes, socorreu-as. Ganharam o
posto de segundo-tenente.
Recentemente, Elza recebeu
45 fotos inéditas com imagens das enfermeiras brasileiras na Itália. A coletânea está
exposta numa associação de artistas plásticos da Ilha de Paquetá, no Rio. Em seguida
vai para a salinha do Palácio Duque de Caxias. Para as mãos de quem conhece seu valor.
(MARCEU VIEIRA, DO RIO)
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