Pedroso Horta
pegou de manhã um avião da Nirba numa praia de Santos, chegou a Porto Alegre ao
anoitecer, almoçou em Montevidéu e na noite seguinte estava em Buenos Aires com aquele
rolo imenso de mapas debaixo do braço. Foi para o hotel. De manhã procuraria Prestes.
De repente, um homezinho muito magro, calçado
com botinas de elástico, bate na porta do quarto:
- Sou o comandante Luiz Carlos Prestes. O senhor não é Oscar
Pedroso Horta? Trouxe uma encomenda de São Paulo para mim?
- Não o conheço. Vim a negócios e não trouxe nada para ninguém.
O homenzinho muito magro foi embora. Pedroso
Horta trocou logo de hotel, pegou um táxi e foi ao endereço de Prestes, que Siqueira
Campos lhe tinha dado. Bateu na porta. Alguém abriu. Era exatamente o homenzinho muito
magro, Prestes.
Siqueira Campos se comunicava toda noite com ele, pelo rádio.
Vida de bordel
Quando Siqueira Campos morreu em desastre de
avião em Montevidéu, 1930, voltando de Buenos Aires, aonde fora discutir a revolução
com Prestes, chega a São Paulo a notícia de que o morto era Pedroso Horta. Siqueira
Campos viajara com a carteira de identidade dele. A polícia saiu atrás de Pedroso, que
fugiu para o Uruguai e foi encontrar-se com os oficiais do encouraçado São Paulo,
exilados lá.
Tinham alugado uma casa e comprado um ônibus.
Revezavam-se no chão para dormir, e no volante, para garantir a comida. O chefe do grupo
era o depois almirante Augusto do Amaral Peixoto. Pedroso me contou:
"Não havia mais vaga para mim. Um dos
oficiais me disse que era gigolô da dona de um bordel e ela podia hospedar-me lá. Fui.
Eram oito inquilinas, além da dona. Pus minha mala na sala de visitas, embaixo de um
sofá forrado de veludo vermelho. Durante todo o tempo em que lá estive, nunca deixei de
encontrar, de manhã, um maço de cigarros e uma caixa de fósforos na beira da cama. E
nunca soube quem era a autora do presente.
No almoço, formávamos uma família bem
comportada: a cafetina numa cabeceira, eu na outra, quatro mulheres de um lado, quatro do
outro. Eu procurava ganhar algum dinheiro vendendo entradas de futebol no câmbio negro.
Mas a polícia perseguia muito. Um dia, aflito, fiz uma carta ao Getulio, presidente do
Rio Grande do Sul, expondo minha miséria moral e financeira e pedindo que ele facilitasse
minha volta ao Brasil.
Dez dias depois, recebi um cheque de 20
contos, uma fortuna na época. Nessa noite, elas não funcionaram. Fechei o bordel, abri
champanhas. E todas as oito, mais a cafetina, foram levar-me ao navio, que zarpou à
meia-noite. Elas ficaram no cais dando adeus e jogando beijos. Jamais voltei a Montevidéu
para resgatar minha dívida de gratidão com elas".
Ministro de Jânio
Vitoriosa a revolução de 30, Getulio
convidou Pedroso, que tinha então 22 anos, para cônsul do Brasil em Bordeaux, na
França. Não aceitou. Foi ser diretor da Guarda Civil e diretor de trânsito em São
Paulo. Estourou a revolução de 32, ficou contra.
Um dia, Getulio mandou pedir a Pedroso um
"diário da revolução de 30", que ele tinha escrito e Getulio sabia. Era um
caderno grosso, escrito à mão, que a irmã, sem saber o que aquilo valia, tinha
queimado. Apesar da insistência de Getulio, Pedroso ficou em São Paulo: foi advogado de
Ademar, Hugo Borghi. Uma tarde, toca o telefone:
- Aqui é o governador Jânio. Peço-lhe o obséquio de vir ao palácio.
Pedroso não conhecia Jânio. Jânio estava
brigado com Chateaubriand e queria processá-lo. Como governador, tinha todo o Ministério
Público, mas não confiava. Quis nomear Pedroso assistente do Ministério Público. Não
aceitou. Foi contratado como advogado.
Na hora de pagar, Jânio deu a Pedroso uma
pedra rara: uma carta de amor em caracteres cuneiformes, dada a ele pelo presidente
Chamum, do Líbano. Mais tarde, Chamum contou a Pedroso que a pedra lhe tinha sido dada
pelo rei Farouk, quando ele era embaixador do Líbano no Egito. A pedra sumiu na sala de
visitas de Pedroso.
Depois do processo de Chatô, Jânio convidou
Pedroso para secretário da Justiça, aceitou. Depois, foi para Brasília como ministro da
Justiça e acabou deputado e valente líder da oposição no terror do governo Médici.
Hoje faz 27 anos que ele morreu.