Oscar Pedroso Horta
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Sebastião Nery             
Tribuna da Imprensa-RJ
15 de novembro de 2002


     Siqueira Campos, chefe da conspiração em São Paulo, chamou Oscar Pedroso Horta, redator de "O Estado de S. Paulo" nos primeiros dias de 1930:

     - É preciso renovar os códigos de comunicação entre nós e Prestes, que está em Buenos Aires; trazer de lá um aparelho de rádio mais possante e levar uma série de mapas para ele organizar os planos de levante. Mas não esqueça: são mapas de guerra, privativos das Forças Armadas. Você vai cometer um crime de alta traição à Pátria. Topa?

- Topo.

     Pedroso Horta pegou de manhã um avião da Nirba numa praia de Santos, chegou a Porto Alegre ao anoitecer, almoçou em Montevidéu e na noite seguinte estava em Buenos Aires com aquele rolo imenso de mapas debaixo do braço. Foi para o hotel. De manhã procuraria Prestes.

     De repente, um homezinho muito magro, calçado com botinas de elástico, bate na porta do quarto:

     - Sou o comandante Luiz Carlos Prestes. O senhor não é Oscar Pedroso Horta? Trouxe uma encomenda de São Paulo para mim?

- Não o conheço. Vim a negócios e não trouxe nada para ninguém.

     O homenzinho muito magro foi embora. Pedroso Horta trocou logo de hotel, pegou um táxi e foi ao endereço de Prestes, que Siqueira Campos lhe tinha dado. Bateu na porta. Alguém abriu. Era exatamente o homenzinho muito magro, Prestes.
Siqueira Campos se comunicava toda noite com ele, pelo rádio.

Vida de bordel

     Quando Siqueira Campos morreu em desastre de avião em Montevidéu, 1930, voltando de Buenos Aires, aonde fora discutir a revolução com Prestes, chega a São Paulo a notícia de que o morto era Pedroso Horta. Siqueira Campos viajara com a carteira de identidade dele. A polícia saiu atrás de Pedroso, que fugiu para o Uruguai e foi encontrar-se com os oficiais do encouraçado São Paulo, exilados lá.

     Tinham alugado uma casa e comprado um ônibus. Revezavam-se no chão para dormir, e no volante, para garantir a comida. O chefe do grupo era o depois almirante Augusto do Amaral Peixoto. Pedroso me contou:

     "Não havia mais vaga para mim. Um dos oficiais me disse que era gigolô da dona de um bordel e ela podia hospedar-me lá. Fui. Eram oito inquilinas, além da dona. Pus minha mala na sala de visitas, embaixo de um sofá forrado de veludo vermelho. Durante todo o tempo em que lá estive, nunca deixei de encontrar, de manhã, um maço de cigarros e uma caixa de fósforos na beira da cama. E nunca soube quem era a autora do presente.

     No almoço, formávamos uma família bem comportada: a cafetina numa cabeceira, eu na outra, quatro mulheres de um lado, quatro do outro. Eu procurava ganhar algum dinheiro vendendo entradas de futebol no câmbio negro. Mas a polícia perseguia muito. Um dia, aflito, fiz uma carta ao Getulio, presidente do Rio Grande do Sul, expondo minha miséria moral e financeira e pedindo que ele facilitasse minha volta ao Brasil.

     Dez dias depois, recebi um cheque de 20 contos, uma fortuna na época. Nessa noite, elas não funcionaram. Fechei o bordel, abri champanhas. E todas as oito, mais a cafetina, foram levar-me ao navio, que zarpou à meia-noite. Elas ficaram no cais dando adeus e jogando beijos. Jamais voltei a Montevidéu para resgatar minha dívida de gratidão com elas".

Ministro de Jânio

     Vitoriosa a revolução de 30, Getulio convidou Pedroso, que tinha então 22 anos, para cônsul do Brasil em Bordeaux, na França. Não aceitou. Foi ser diretor da Guarda Civil e diretor de trânsito em São Paulo. Estourou a revolução de 32, ficou contra.

     Um dia, Getulio mandou pedir a Pedroso um "diário da revolução de 30", que ele tinha escrito e Getulio sabia. Era um caderno grosso, escrito à mão, que a irmã, sem saber o que aquilo valia, tinha queimado. Apesar da insistência de Getulio, Pedroso ficou em São Paulo: foi advogado de Ademar, Hugo Borghi. Uma tarde, toca o telefone:
- Aqui é o governador Jânio. Peço-lhe o obséquio de vir ao palácio.

     Pedroso não conhecia Jânio. Jânio estava brigado com Chateaubriand e queria processá-lo. Como governador, tinha todo o Ministério Público, mas não confiava. Quis nomear Pedroso assistente do Ministério Público. Não aceitou. Foi contratado como advogado.

     Na hora de pagar, Jânio deu a Pedroso uma pedra rara: uma carta de amor em caracteres cuneiformes, dada a ele pelo presidente Chamum, do Líbano. Mais tarde, Chamum contou a Pedroso que a pedra lhe tinha sido dada pelo rei Farouk, quando ele era embaixador do Líbano no Egito. A pedra sumiu na sala de visitas de Pedroso.

     Depois do processo de Chatô, Jânio convidou Pedroso para secretário da Justiça, aceitou. Depois, foi para Brasília como ministro da Justiça e acabou deputado e valente líder da oposição no terror do governo Médici. Hoje faz 27 anos que ele morreu.

 
 

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