CAPÍTULO TRÊS

O CAMINHO DA PACIFICAÇÃO

PRUDENTE DE MORAIS - 1894-1898

Paulo Victorino   

    Floriano Peixoto, o Presidente que está terminando seu mandato, e Prudente de Morais, o Presidente eleito e em vias de tomar posse, vieram do mesmo partido e até caminharam juntos nos primeiros tempos da República. Ambos haviam sido candidatos de oposição a Deodoro da Fonseca, nas eleições indiretas que se seguiram à promulgação da Constituição de 1891. Naquela época, todos se lembram, Prudente aceitou o sacrifício de ver queimada sua candidatura ao mais alto cargo da nação, para que se tornasse possível uma composição, elegendo Deodoro (Presidente) e Floriano (vice). Com todo esse passado de afinidades, o resultado das novas eleições presidenciais, dando vitória a Prudente, deveria despertar o maior entusiasmo nos gabinetes do Palácio Itamarati, onde se achava instalada a sede do governo federal.

    Entretanto, nada disso aconteceu. Não era do feitio do marechal animar-se com qualquer acontecimento, por importante que fosse e, no caso da indicação do candidato governista, sua atitude foi de prevenção e desconfiança. Quando sondado por Francisco Glicério a respeito do nome de Prudente, o marechal fez sérias ponderações, alertando que uma vez no governo, Prudente se sentiria fortalecido para perseguir até os seus próprios companheiros de partido. Ainda assim, tranqüilizou o chefe republicano, dando sua garantia pessoal de que o eleito, quem quer que fosse, tomaria posse normalmente, em respeito à Constituição.

    As eleições, efetivamente, se realizaram em 1º de março de 1894 e, conforme o previsto, ganhou o partido governista, com    Prudente de Morais, paulista, e Manuel Vitorino Pereira, baiano, respectivamente para Presidente e vice.  Embora assumindo o compromisso de garantir a posse, o que realmente fez,  Floriano não tomou qualquer iniciativa para facilitar a transição de governo, como costuma acontecer, até mesmo quando o eleito seja um adversário político, que não era o caso.

E deixaram Prudente sozinho

   Nem o próprio eleito imaginava o caminho que teria de trilhar para assumir o cargo e iniciar o seu governo. A desfeita, ou grosseria, que seria o termo mais apropriado, começou em sua chegada ao Rio de Janeiro, por estrada de ferro, num significativo dia de Finados. Nenhuma comitiva oficial para recebê-lo, nem mesmo alguém que, isoladamente, se apresentasse em nome do governo. Nada. Apenas um amigo pessoal, que o ajudou a sair com a bagagem e chegar até o hotel. Mais tarde, um pedido de desculpas. Floriano estava doente e não pôde dar-lhe a atenção que merecia, mas o receberia em audiência quando quisesse. Prudente apressou- se, pois, a enviar um telegrama ao Chefe da Nação solicitando a prometida audiência, tendo como resposta o silêncio total e absoluto.

    A posse se daria no dia 15 de novembro de 1894 e, desde a sua chegada ao Rio, foram duas semanas de isolamento. No dia 15, Prudente e o seu futuro Chefe de Polícia, André Cavalcanti, esperaram, sem sucesso, pela condução oficial, que não apareceu. Às pressas, alugaram uma carruagem, a única disponível no largo do Machado, toda velha e desconjuntada, e foi com isso que o novo Presidente chegou ao Palácio dos Arcos, onde o Congresso estava reunido para empossá-lo, na presença de representantes de vários países amigos, mas com a ausência notada do antecessor. Não houve, pois, a cerimônia tradicional de transmissão de faixa.

    O representante da Inglaterra, presente à solenidade, percebeu de imediato a situação vexatória em que se encontrava o Presidente empossado e ofereceu-lhe a própria carruagem, luxuosa, para fazer o trajeto até a sede do Governo. Um piquete de alunos do Colégio Militar, reunido às pressas, formou a escolta presidencial, emocionando o novo Presidente. Mas, no palácio, também, ninguém o esperava. As portas estavam abertas, à disposição do primeiro que chegasse.    Prudente, então, mandou chamar o chefe-geral da Diretoria dos Negócios do Interior, funcionário de carreira, o qual, no exercício de suas funções, ratificou os primeiros atos do Presidente, inclusive a nomeação do novo Ministro do Interior, com o que o Governo ficou legalmente constituído.

    Contornando as dificuldades, mas já Presidente, organizou o seu ministério, que ficou assim constituído: Guerra, general Bernardo Vasques; Relações Exteriores, Carlos Augusto de Carvalho; Justiça, Interior e Instrução Pública, Antônio Gonçalves Ferreira; Viação e Obras Públicas, Antônio Olinto dos Santos Pires; Fazenda, Francisco de Paula Rodrigues Alves, conterrâneo e amigo fiel, que lhe foi útil, durante parte do governo, até ser substituído por Bernardino de Campos; Marinha, contra-almirante José Alves Barbosa.

Quem era Prudente de Morais

   Prudente José de Morais e Barros, era descendente de uma família de ruralistas da cidade de Itu, onde nasceu em 1841. Embora pertencendo a uma família influente, o que lhe permitiria queimar etapas em sua carreira política, preferiu subir pelo próprio esforço, desde os primeiros degraus, elegendo-se à Câmara Municipal, aos 24 anos, após concluir o curso na Faculdade de Direito de São Paulo. Em 1868, elege-se deputado pela Província de São Paulo pelo Partido Liberal (oposição ao Império).

    Em 1873, com a fundação do Partido Republicano (ainda dentro do período Imperial), adere a essa nova legenda, passando a ser um propagandista e defensor do regime que viria a ser instalado em 1889. Assim, após a Proclamação da República, Deodoro nomeia-o Presidente do Estado de São Paulo. Realizando-se as eleições para a Constituinte, elege-se senador e torna-se o presidente do Senado. Perdeu as eleições indiretas à presidência da República, em 1891, para eleger-se, finalmente, por via direta, em 1894.    Com a instalação de seu governo é que, de fato, começa a influência da aristocracia rural, sobretudo de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, com destaque para os dois primeiros Estados, numa alternância de poder que deu origem à chamada política do "café com leite".

    Observe-se que essa "dobradinha" referia-se à maior influência dos dois Estados na política nacional e não necessariamente à origem dos candidatos. Deodoro e Floriano eram de Alagoas; Hermes da Fonseca, do Rio Grande do Sul; Epitácio Pessoa, da Paraíba; Washington Luís, do Estado do Rio. Por São Paulo, tivemos Prudente de Morais, Campos Sales, Rodrigues Alves e Júlio Prestes, sendo que este último não chegou a tomar posse. Por Minas, os presidentes foram Afonso Pena, Venceslau Brás, Delfim Moreira e Artur Bernardes.

A anistia geral

    Instalado o governo, o problema que se afigurava mais urgente era o da pacificação nacional. No Rio Grande do Sul, a luta entre as duas facções políticas continuava, ameaçando a unidade do país e até a sua soberania, pelo envolvimento indireto das potências vizinhas que, a qualquer pretexto, poderiam intervir, com consequências imprevisíveis, mas fáceis de imaginar, vivas que ainda estavam na memória as guerras cisplatinas e seu trágico desdobramento com a Guerra do Paraguai.

    No Rio de Janeiro, a situação não era menos grave. Floriano Peixoto sobreviveu apenas alguns meses mais, após o término de seu governo, mas o florianismo estava vivo e atuante, incendiado por militares desejosos de um governo forte, no que eram acompanhados pelos positivistas, partidários da centralização de todo o poder nas mãos de um só homem. Uns e outros não eram muitos, no conjunto da população, mas conseguiam fazer barulho, o suficiente para aparentar uma certa força, criando instabilidade e dificultando a consolidação de um governo democrático, com o respeito devido à Constituição e aos poderes instituídos por ela. Havia, ainda os restauradores, com esperanças de restabelecer o Império, extinto há pouco mais de cinco anos e, portanto, mantendo-se ainda como uma ameaça em potencial.

    Urgia, pois, controlar as paixões, criar um ambiente de transigência e uma vontade nacional de buscar o entendimento, tarefa nada fácil, naquele turbilhão de idéias, aspirações e ambições, acrescidas ao regionalismo cerrado, que impedia aos rebeldes enxergar um palmo além das próprias fronteiras para contemplar a realidade de todo o conjunto do país. Iniciando a missão a que se havia proposto, já em 1º de janeiro de 1895, Prudente de Morais assina um decreto, indultando as praças do Exército e da Guarda Nacional que aderiram à revolta contra o governo Floriano. Tratava-se de um gesto de boa vontade para conseguir que os revolucionários, ainda em armas no sul, se dispusessem a negociar. Diga-se, a bem da verdade, que estes também já estavam cansados da guerra e esperavam por um fato novo que lhes desse uma saída honrosa para a entrega das armas.

Fim da Revolução Federalista

    Para o Rio Grande do Sul, segue o general Francisco Moura, com instruções expressas de se manter afastado de Porto Alegre, evitando influências do governo estadual em seu trabalho, o que poderia comprometer a aproximação dos dois lados em conflito. Este preposto não obedeceu as ordens, insistindo em ficar na capital do Estado, e por isso foi substituído pelo general Inocêncio Galvão de Queirós, nomeado comandante da Região Militar, que instalou seu quartel general em Pelotas, ao sul do Estado e distante da capital, procurando atrair para lá os representantes de ambos partidos, a fim de tratar com eles as condições para a paz.

    Já há algum tempo, o almirante Custódio de Melo, vencido na Revolta da Armada e levado até a Argentina por um navio de bandeira portuguesa, havia cruzado as fronteiras e se achava outra vez no Brasil, assumindo o comando da Revolução Federalista, mesmo a contragosto de alguns de seus chefes. Foi uma injeção de ânimo nos revoltosos, escondidos no Uruguai, os quais voltaram, reorganizando as frentes de ataque, sem, entretanto obter sucesso nas suas investidas guerrilheiras. Saldanha da Gama, com setecentos homens, entre guerrilheiros e desertores da Marinha, atravessa o rio Quaraí e põe-se em confronto com as tropas do general Hipólito Ribeiro, numa operação suicida, dado que as proporções em homens e armamentos eram altamente favoráveis às tropas legalistas que defendiam o governador Júlio de Castilhos. O resultado não podia ser mais trágico. Em 1º de junho de 1895, o almirante foi morto a lancetadas e teve seu corpo mutilado. Perdendo o comandante, seus homens foram facilmente dispersados, sem condições de se reorganizar.

    Da outra parte, o governador Júlio de Castilhos, que, ao início havia manifestado seu desejo de chegar a um acordo, agora rompe com o general Galvão de Queirós, ao tomar conhecimento dos termos em que este colocava o armistício e que aquele considerava desonrosos para seu governo. Então, resolve o governador chamar para si a responsabilidade da pacificação e permite o retorno dos exilados, entre eles o líder dos primeiros momentos, Gaspar Silveira Martins.

    Meses depois, em 11 de outubro de 1895, após prolongado e polêmico debate, com vários incidentes entre os parlamentares, o Congresso nacional vota um projeto de Campos Sales, concedendo anistia plena a todos os envolvidos em movimentos revolucionários, colocando fim à guerra que, desde há muito, vinha infelicitando o sul do país. Quanto ao Rio de Janeiro, a agitação prosseguia e tentava abalar os alicerces do governo, vindo a contar, mas tarde, até com a conivência do vice-presidente da República, Manuel Vitorino Pereira.

A questão com Portugal

   Voltemos um pouco no tempo para relembrar o fim da Revolta da Armada, ainda no governo de Floriano Peixoto. Como se recorda, a forte reação do Exército, fiel ao governo federal, impediu o sucesso do movimento e uma parte da esquadra revoltosa se dirigiu ao sul a fim de unir-se ao movimento federalista, ficando uns poucos navios na baía da Guanabara, sendo estes facilmente dominados.

    Na medida em que a tensão foi aumentando, alguns países mandaram navios para a baía, sob o pretexto de proteger seus cidadãos residentes no país. Inevitavelmente, passaram a ter um envolvimento claro e ameaçador no conflito. De um lado, se encontravam os Estados Unidos, que viam na República uma possibilidade de maior aproximação com o Brasil, ampliando, pois, sua área de influência nas Américas. Estes, por conseqüência, se colocavam favoráveis a Floriano. De outro, a Inglaterra, para a qual seria preferível o retorno da monarquia, regime mais compatível com a Europa, facilitando a manutenção da hegemonia britânica que, desde 1807, se fazia bem visível no Brasil. Suas simpatias se voltavam, assim, para os revoltosos, que combatiam o governo republicano. Por último, estava presente Portugal, com quatro séculos de história ligados à nossa terra. Lembremo-nos, além do mais, de que o Brasil, por treze anos, abrigou a sede do reinado; em nosso país, por meio século governou um descendente da família imperial; e aqui, como é natural, se formou numerosa colônia lusitana. Assim, mais do que na defesa de seus cidadãos, foi nesse sentimento de irmandade que uma corveta portuguesa, ancorada na baía, abrigou o almirante Saldanha da Gama e outros combatentes vencidos no choque com as tropas legalistas.

    Foi o bastante. Floriano, impassível, não conseguia ver no gesto, uma colaboração para por fim ao conflito, achando mais que se tratava de uma ingerência indevida de uma potência estrangeira nos negócios brasileiros. O comandante do navio argumentou com o sagrado direito de asilo, reconhecido por todos os países do mundo. Floriano retrucou, alegando que não se tratava de asilados, mas de insubmissos que deveriam ser entregues às autoridades brasileiras para julgamento e punição. As precárias condições de higiene do navio não permitiam manter a bordo, por muito tempo, essa população adicional e, para evitar o pior, o comandante mandou levantar âncoras e seguir para o sul, onde os asilados seriam desembarcados em um país vizinho.

    Já Floriano achava que a intenção portuguesa era colocar os revoltosos perto da outra área de conflito, permitindo o engajamento dos revoltosos à Revolução Federalista, o que realmente acabou acontecendo. Floriano não teve dúvidas em romper relações com Portugal. Este era mais um assunto que Prudente de Morais, agora Presidente, tinha a resolver. Em março de 1895, quatro meses após a posse do novo governo, foram reatadas as relações com Portugal, ficando superado o incidente que, diga-se de passagem, podia de todo ter sido evitado.

Política internacional

   Outros problemas envolvendo disputas territoriais preocuparam, ainda o governo de Prudente e foram resolvidos com a    participação do Barão do Rio Branco, habilidoso em tratar de assuntos internacionais. Entre eles se inclui a invasão da ilha da Trindade pelos ingleses, o caso do território de Missões e a questão do Amapá.

    As ilhas da Trindade foram descobertas em 1501 pelo navegante português João da Nova e estiveram sempre incorporadas ao território brasileiro. Embora de terreno inóspito e impróprio para qualquer atividade produtiva, sua posição dentro do oceano Atlântico é estratégica e isso levou a Inglaterra a invadi-la, assumindo posse no ano de 1895. Sentindo- se ferido em sua soberania, o Brasil, representado pelo ministro do Exterior, Carlos de Carvalho, formalizou um protesto junto ao governo inglês, que não devolveu o território, nem aceitou qualquer proposta de arbitramento. Entrou no assunto, então, o governo português que realizou gestões a favor do Brasil, logrando bons resultados. Pelo Brasil, as tratativas foram levadas a efeito pelo Barão do Rio Branco.

    Quanto ao território das Missões, as disputas vinham já desde o início do século XIX e os inúmeros tratados assinados entre o Brasil e o Uruguai acabaram não sendo obedecidos, principalmente, porque as partes sempre deixaram de levar em conta os interesses dos espanhóis e portugueses residentes nas áreas de conflitos. Agora, o problema foi levado ao arbitramento do presidente dos Estados Unidos, Stephen Grover Cleveland, que em definitivo, considerou o território como sendo brasileiro.

    Restava ainda uma área de litígio que era o Amapá, ocupada por brasileiros mas reivindicada pela França como parte integrante da Guiana Francesa. Os dois países recorreram, desta vez, ao arbitramento do presidente da Suíça e a defesa brilhante do Barão do Rio Branco deu convencimento de que as terras pertenciam ao Brasil, recebendo decisão favorável do presidente suíço.

O problema era o vice-Presidente

   Em novembro de 1896, portanto, há um ano da posse, Prudente de Morais entrega o governo ao seu vice, enquanto convalescia de uma intervenção que sofreu para a retirada de cálculos renais e que o deixou mais enfraquecido do que seria natural para uma operação tão simples. O que se veio a saber mais tarde era que sua resistência estava minada, já, com os primeiros efeitos de uma tuberculose, doença fatal, naqueles tempos em que não se dispunha de recursos técnicos, nem para o diagnóstico, nem para o tratamento.

    Na forma constitucional, em 10 de novembro de 1896, assume Manoel Vitorino Pereira que, mesmo no exercício interino da presidência, achou por bem reformar o ministério e praticar atos administrativos mais consistentes, pois não havia uma previsão clara do tempo em que o titular ficaria afastado. Diplomaticamente, Bernardino de Campos, amigo de Prudente, obteve uma solução intermediária, conseguindo do governante provisório uma lista de candidatos possíveis, para ser submetida ao Presidente que, dentre os vários nomes, indicaria aqueles que desejaria ver no ministério.

    Vitorino era um opositor de Prudente, participando veladamente da agitação promovida por florianistas, positivistas e restauradores e via no afastamento temporário do Presidente a oportunidade para criar uma situação de fato que o levasse à renúncia, tal como havia acontecido com Deodoro no período anterior. Contava, para isso, com o apoio de uma expressiva parcela dos congressistas, com os quais se reuniu, apresentando seu programa de governo, e insistindo em que não seria possível ao país suportar uma paralisia mais demorada naqueles graves momentos da vida nacional.

    Investido de sua missão, vai Bernardino à casa de Prudente. Não foi fácil o trabalho de convencer o Presidente a aceitar a proposta para trocar o ministério. O Presidente enfermo achava que o ato de seu substituto era uma traição que não podia ser aceita. Retrucou Bernardino que a negociação de um novo ministério era o melhor que se podia conseguir naquele momento e que a recusa daria aos seus inimigos o pretexto que estavam procurando para aplicar um golpe de estado. Disse mais que ele, Bernardino, fora convidado para ocupar a pasta da Fazenda, o que lhe permitia acompanhar os acontecimentos e estar atento a uma eventual conspiração. Só assim Prudente concordou em escolher, entre os nomes listados, os que achava melhores para o novo ministério.

    Cabe ponderar que, apesar de sua infidelidade, Vitorino não estava de todo errado quando insistia que era preciso assumir o governo na sua totalidade. Havia tarefas que exigiam inteira dedicação e total mobilidade e, entre elas, estavam os graves acontecimentos que se desenvolviam na Bahia.

A guerra de Canudos

    Foi numa época bem distante que, nos sertões do nordeste brasileiro, onde o rio São Francisco separa os Estados de Pernambuco, Alagoas e Bahia, surgiu Antônio Vicente Mendes Maciel, conhecido simplesmente como Antônio Conselheiro, nascido em 1828 na pequena cidade de Quixeramobim, Ceará. Com mais de sessenta anos, meio louco, como registra a história oficial, encontra na extrema miséria da região, aliada a uma profunda ignorância do roceiro quanto às coisas mais rudimentares da vida, um campo propício para sua pregação política e religiosa. Suas idéias eram um emaranhado quase incompreensivel, misturando um catolicismo caboclo com a profecia da restauração do trono e a volta de D. Pedro II, que, a essa altura, já havia até falecido.

    Era mais uma manifestação do sebastianismo que, séculos atrás, já tinha levado o próprio padre Vieira aos tribunais da Inquisição e que a tradição fez criar raízes profundas e perenes de norte a sul do Brasil, impressionando os homens mais simples, que nunca ouviram falar no rei D.Sebastião, mas que, respeitosos e atemorizados, esperavam o evento de acontecimentos fantásticos que revolucionariam suas próprias vidas. É nesse caldo de cultura que se desenvolvem as idéias de Antônio Conselheiro o qual, reunindo uma pequena multidão de ignorantes e desvalidos da sorte, convenceu-os a acompanha-lo na busca de um paraíso terrestre. Foi assim que, após longa peregrinação, fundaram a comunidade de Canudos ao nordeste da Bahia.

    Uma análise superficial da situação já permitiria ao governador da Bahia, Luís Viana, perceber que esse punhado de fanáticos não se constituía em ameaça ao regime. Seu problema era a fome, a miséria, a desinstrução, a falta de perspectivas com relação ao futuro, a procura de um melhor porvir, já que o presente nada lhes oferecia. A própria pregação de Antônio Conselheiro sobre a restauração da monarquia era vaga, não tendo ele qualquer possibilidade de coordenar forças para uma ação prática. Era um problema social, não era um caso de polícia. Assim não pensou o governador, que tratou de aniquilar sem demora aquele foco de revolta, contando com o apoio do novo governo federal, agora nas mãos do Presidente interino, Manuel Vitorino Pereira, também um baiano e com predisposição para o uso da força, como melhor argumento que o convencimento.

    Se o governo contava com a força, os fanáticos contavam com sua suposta predestinação. As duas primeiras expedições que o governador enviou contra o arraial de Canudos, a partir de 1896, fracassaram. No ano seguinte, foi o governo federal que enviou tropas de reforços, que também foram aniquiladas. Alarmado com a situação, o governo central ordena ao Exército que prepare um contingente especial, com 6 mil homens que, finalmente, consegue tomar e arrasar o arraial, morrendo Antônio Conselheiro e, praticamente, toda a população. De 10 mil habitantes, aproximadamente,  ficaram vivos não mais que 400 prisioneiros, entre velhos, mulheres e crianças. Antônio Conselheiro teve a cabeça decepada e transformada em troféu. Essa última fase da guerra ocorreu já com Prudente de Morais de volta ao governo.

    Da parte do governo, o saldo da guerra também foi estarrecedor. Mais de cinco mil homens morreram nas quatro investidas à cidadela. Os que voltaram, na sua maioria, tiveram que suportar não apenas as seqüelas da guerra, como o abandono das próprias autoridades.

Prudente reassume o governo

    Aflito e angustiado com os rumos que iam tomando as coisas na Bahia, Prudente de Morais, ainda em casa, preocupava-se também com a conspiração em andamento para afastá-lo definitivamente do governo. Não teve dúvidas. No dia 4 de março de 1897, sem aviso prévio apareceu no Palácio, não encontrando o vice. No uso de suas prerrogativas, simplesmente assumiu o governo e mandou entregar a Manuel Vitorino um comunicado de que cessara sua interinidade e que, desde aquele momento, ele não era mais o Presidente em exercício. Assim conta Helio Silva a chegada do Presidente:

    "À saída da estação, toma um carro de praça. A carruagem roda pela cidade, no passo tardo de suas velhas alimárias, no rumo do Catete. A sentinela, surpreendida, alerta a manhã de sol com sua clarinada estridente, chamando a guarda para a continência presidencial. Mas não é o vistoso landau da Presidência que entra, e sim um modesto fiacre de aluguel, descendo dele, magro e ereto, na verticalidade que o caracteriza, Prudente de Morais. Minutos depois, um cabo da guarda leva a Manuel Vitorino o ofício em que o presidente comunica haver reassumido o Governo."

    Aparado, desta forma, o golpe em andamento, o próximo passo era resolver a crise na Bahia e apagar o incêndio que se formara no Rio de Janeiro. Sobre Canudos, já fizemos o relato sucinto no tópico anterior. Quanto ao Rio de Janeiro, o retorno inesperado de Prudente ao Governo trouxe espanto, mas não arrefeceu os ânimos. Durante sua ausência, se formaram brigadas paramilitares com nomes patrióticos, como Brigada Tiradentes, ou Benjamin Constant ou Frei Caneca, ou Deodoro, ou Moreira Cesar. Prudente tinha dificuldades em contê-las. A todo momento, essas milícias fardadas apareciam nas ruas, sendo dissolvidas pela polícia, mas em pouco, voltavam à carga. O presidente se achava no ponto mais baixo de sua popularidade e a desordem parecia totalmente fora de controle, até que um trágico incidente veio reverter a situação.

O atentado

   Em 5 de novembro de 1897, Prudente de Morais, em companhia de seu ministro da Guerra, marechal Carlos Machado Bittencourt, vai ao cais do porto para receber, em pessoa, alguns batalhões que voltavam da guerra de Canudos. Em certo momento, repentinamente, um anspeçada [soldado, aspirante a cabo] aponta uma pistola ao Presidente mas a arma falha no tiro. Então, o ministro da Guerra e mais o coronel Mendes de Morais tentam dominar o rebelde, mas, na luta que se segue, o soldado consegue sacar um punhal, atingindo mortalmente o general Bittencourt.

    A tragédia comoveu a cidade do Rio de Janeiro e a imprensa, que se voltaram, quase unânimes, no apoio ao Governo e ao restabelecimento da ordem. Com o assentimento do Congresso, foi decretado o Estado de Sítio. Calam-se os jornais, desaparecem as milícias. Passeatas se fazem nas ruas, mas, desta vez para dar apoio ao Governo. Alguns políticos da oposição, como o deputado Pinheiro Machado, são presos, ignorando-se novamente a imunidade parlamentar. Francisco Glicério (que indicou Prudente como candidato em 1894) teve de fugir para São Paulo, onde permaneceu escondido. Manuel Vitorino é denunciado à Justiça. Fecha-se o Clube Militar.

    O atentado de 5 de novembro deu ao Presidente os poderes extraordinários de que ele necessitava para ficar acima dos conspiradores e dispor de instrumentos que possibilitassem o esmagamento total do golpe em andamento. A cidade, antes em polvorosa, voltou à paz. Os correligionários rebeldes reaproximam-se do presidente. O Exército, extremamente sensibilizado com a morte do marechal Bittencourt, tomou medidas rígidas para restabelecer a disciplina na sua forma mais ortodoxa, livre da contaminação política e voltando-se exclusivamente para suas atividades profissionais. A última etapa da pacificação nacional teve um preço alto, com o sacrifício de um dos mais valiosos auxiliares do Presidente, mas, finalmente, esse trabalho estava terminado. O país voltou à paz e à ordem. Restava, agora, cuidar das finanças públicas, mas isso é tarefa que só o próximo governo conseguirá realizar.

    A missão a que se propôs o Presidente estava cumprida. Prudente de Morais termina seu mandato e volta para Piracicaba, onde morre, em 3 de dezembro de 1902, vitimado pela tuberculose que o atingira e que foi o ponto inicial de todo o drama por que atravessou o país durante o seu governo.

 
 

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