O céu azul,
com uma multidão de nuvenzinhas brancas, assemelhando-se a um rebanho de carneiros
pastando na imensidão das alturas, jamais faria prever a borrasca pronta a se desencadear
sobre o país a partir de 1918, abalando as estruturas do poder, solapando rapidamente os
alicerces da Primeira República, e fazendo com que, doze anos após, o imenso edifício
viesse a desabar num só golpe, tal e qual um castelo de cartas.
Tudo ia
muito bem. A 1ª Guerra Mundial permitiu restabelecer nossa balança comercial. Renasceu a
indústria nacional, fazendo lembrar os tempos de Mauá, e aumentou a demanda por mão de
obra nas cidades, originando uma nova classe de trabalhadores e desenvolvendo outro tipo
de sindicalismo, mais consistente e organizado. No cenário mundial, os frágeis acordos
entre os Estados, como a Tríplice Aliança e a "Entente Cordiale", origens
distantes do grande conflito, foram substituídos pela Liga das Nações, uma associação
de todos os países em um único e sólido bloco, com um mesmo propósito e um só
pensamento. As novas idéias entusiasmavam os acadêmicos.
O Brasil
contava agora com sua grande oportunidade de se desenvolver e procurar um lugar entre os
mais avançados países do globo. O governo de Venceslau Brás mostrou que era possível
ao Presidente administrar o país com base na lei e no respeito à Constituição, sem se
submeter a forças externas. Que mais faltaria para o país deslanchar rumo ao futuro?
Até
mesmo a transição de governo parecia transcorrer calma e tranquila. Morto Pinheiro
Machado, vítima de mãos assassinas, no atentado ocorrido em 8 de setembro de 1915, a
sucessão voltou ao âmbito da política do café com leite. A bola da vez volta para São
Paulo e o conselheiro Rodrigues Alves é apontado para a sucessão presidencial, sem
quaisquer contestações. Completando a chapa, entra o mineiro Delfim Moreira na
vice-presidência. As eleições transcorrem em clima de paz, no dia 1º de março de
1918, com chapa única, e a posse, conforme a Constituição, estava prevista para 15 de
novembro de 1918.
Fim da
Bonança
Os meses
seguintes mostraram que a realidade não era assim tão colorida. Rodrigues Alves, como
outros tantos, foi vítima da gripe espanhola, que eclodiu em março, logo após as
eleições. Conseguiu recuperar-se desse mal, porém teve agravado o seu estado geral de
saúde e não pode comparecer à posse, em 15 de novembro, assumindo o governo,
provisoriamente, o vice-Presidente, Delfim Moreira.
Ciente
de sua interinidade, o vice confirmou o Ministério escolhido pelo titular, composto dos
seguintes nomes: Relações Exteriores, Domício da Gama; Justiça, Interior e Instrução
Pública, Urbano dos Santos da Costa Araújo; Fazenda. Amaro Cavalcanti, que declinou,
sendo substituído por João Ribeiro; Viação e Obras Públicas, Afrânio de Melo Franco;
Agricultura, Indústria e Comércio, Antônio de Pádua Sales; Guerra, Pandiá Calógeras;
Marinha, Almirante Antônio Coutinho Gomes Pereira. Pela primeira vez, um civil é
empossado no Ministério da Guerra, mas a situação transitória do governo não
aconselhava contestação nos quartéis, ao menos naquele momento.
Rodrigues Alves muda-se de Guaratinguetá para o Rio de Janeiro,
passando a morar numa casa da rua Senador Vergueiro, a mesma em que residira quando
assumiu a Presidência pela primeira vez, de onde mantinha contatos diários com o seu
vice. Por essa razão, a casa ficou conhecida carinhosamente como Catetinho, em alusão ao
palácio presidencial. Quanto ao governo provisório, este foi ironicamente cognominado de
Regência Republicana. O brasileiro não perde sua espirituosidade nem nos momentos mais
difíceis...
Contrariando as previsões mais otimistas, em 17 de janeiro de 1919,
dois meses após o dia em que deveria ter tomado posse, Rodrigues Alves veio a falecer e,
como não havia transcorrido metade do mandato, a Constituição mandava convocar novas
eleições. Sem problemas, dado que Delfim não ambicionava o continuísmo e, por outro
lado, sofria de esclerose, não tendo condições de enfrentar um mandato de quatro anos.
Além disso, sem bases políticas, seu nome havia sido apontado apenas para compor a chapa
e não exatamente para governar.
A nova
campanha presidencial
Encerrou-se,
com este episódio, o curto período de tranquilidade política, iniciado com a escolha do
Conselheiro. O presidente de São Paulo, Altino Arantes insistia em que o novo
candidato também deveria ser paulista, com o que não concordava seu colega, o presidente
de Minas, Artur Bernardes. Por outro lado, o Rio Grande do Sul passou a influir
diretamente, pela figura mais representativa do Estado, o governador Borges de Medeiros,
herdeiro político de Júlio de Castilhos, e tendo à sua volta o mais ferrenho
conservadorismo e provincialismo do extremo sul.
No
desempate, acorda-se em buscar um nome longe das influências sulistas e a escolha recai
sobre um fazendeiro da Paraíba, Epitácio Pessoa. O novo candidato é
um homem de imenso saber político e jurídico. Por sinal que, neste momento, se encontra
na França, participando da Conferência de Paz, que se ocupava em dividir, entre as
nações vencedoras, o espólio dos vencidos, mais especialmente da Alemanha e,
discricionariamente, aplicava aos perdedores as sanções necessárias. O vice, já se
sabe, continua sendo Delfim Moreira, já eleito e empossado no tempo devido.
Perdedor
na Convenção que escolheu o candidato governista, Rui Barbosa parte para uma candidatura
de oposição, apoiado por Nilo Peçanha, e lança-se, uma vez mais, na jornada cívica
pelo país, sabendo, embora, que o jogo da sucessão já estava decidido. Realizadas as
eleições, em 13 de abril de 1919, Epitácio Pessoa recebe 249.342 votos e Rui Barbosa,
118.303 votos.
Apenas
para registro, Rui Barbosa pensou, inicialmente, em puxar o tapete do Presidente eleito,
usando de todo o seu saber jurídico. Apegava-se ele ao fato de que Epitácio fora
aposentado no STF por incapacidade física permanente. Ora, contestava Rui, se ele era
fisicamente incapaz para exercer o cargo de juiz, como poderia ser considerado capaz para
ocupar o mais alto cargo, que é a presidência da República? Afinal, Rui desistiu de sua
retórica e aceitou a vitória do opositor.
A posse
ocorre em 28
de julho de 1919 e, um mês depois, outra morte vem tumultuar o processo.
Desta vez falecia o vice-Presidente, Delfim Moreira, e novas eleições foram realizadas
para escolher seu sucessor, Francisco Álvares Bueno de Paiva, até então senador federal
por Minas Gerais.
Quem era
Epitácio Pessoa
Epitácio Lindolfo da Silva Pessoa nasceu em Umbuzeiro, pequena cidade
ao sul da Paraíba, na divisa com Pernambuco, sendo sobrinho do Barão de Lucena,
político pernambucano e ex-ministro no governo de Deodoro da Fonseca. Estudou na
Faculdade de Direito em Recife e, aos 25 anos, elegeu-se deputado constituinte Foi
ministro da Justiça de Campos Sales, mas renunciou por desentendimentos com o Presidente
que, apesar disso, indicou seu nome para ministro do Supremo Tribunal Federal, onde se
aposentou por incapacidade física, conforme bem lembrou Rui Barbosa.
Na
eleição, encontramo-lo na França, participando da Conferência de Paz, onde defendeu,
com um brilhantismo que faz lembrar Rui, as duas reivindicações básicas do Brasil nas
reparações de Guerra. Uma delas era o dinheiro que o Brasil tinha depositado no Banco
alemão, proveniente da venda de quase dois milhões de sacas de café, depósito esse que
a Alemanha bloqueou quando nosso país lhe declarou guerra. O crédito era incontestável,
mas Inglaterra e França queriam que a indenização se fizesse pela conversão do marco
de após guerra e não pelo marco no dia do depósito. Essa simples questão de câmbio
daria ao Brasil um prejuízo em torno de 90 por cento do valor original. Com a
interferência dos Estados Unidos, o Brasil conseguiu receber a indenização por seu
valor real.
Outra
questão que exigiu grande capacidade de negociação se referia aos navios apresados na
baía da Guanabara, em represália ao afundamento, pela Alemanha, de vários navios
mercantes brasileiros. O Brasil desejava ficar com as embarcações alemãs, mediante
justa indenização, mas Inglaterra e França também tinham interesse de incorporá-las
às suas frotas. Mais uma vez, a mediação dos Estados Unidos levou à vitória das
posições brasileiras.
Aí vem
o Presidente!
Eleito presidente da
República, e faltando quase três meses para a posse, Epitácio, com a família, resolve
ficar na Europa, recebendo homenagens e aproveitando convites que lhe foram feitos por
vários chefes de Estado. Começa, então, uma viagem encantada, como só um príncipe dos
velhos tempos sonharia ter. Primeiro vai à Bélgica, onde é recebido solenemente pelo
rei Alberto e pela rainha Elisabeth, hospedando-se no palácio real. Regressando a Paris,
recebe homenagens na Universidade de Paris e na Câmara de Deputados, além de ter um
encontro com a colônia brasileira ali residente.
Em
seguida, um trem real vem à França especialmente a buscá-lo para uma viagem à Itália,
onde é recebido pessoalmente pelo rei, acompanhado da corte. Aproveitando o ensejo de sua
presença na Península, faz uma visita protocolar ao papa Benedito XV. Voltando a Paris,
é acolhido com pompa e recebe condecorações. Em seguida, um destróier inglês o leva a
Londres, onde é recepcionado pela família real, visita o parlamento e cumpre um extenso
programa.
Um
cruzador inglês o leva, agora, até Lisboa, sendo recebido com entusiasmo pelo presidente
da República, e com reservas pelos monarquistas. Volta, então à França, onde o governo
lhe coloca à disposição um cruzador para levá-lo aos Estados Unidos. O navio fica à
deriva em pleno oceano. Grandes problemas? De maneira alguma. Comunicado por telégrafo, o
governo americano apressa-se em enviar um navio transporte, que recolhe toda a comitiva
presidencial, transportando-a sã e salva para Nova York.
Sua
chegada aos Estados Unidos faria inveja até ao Imperador D. Pedro 2º que, em seus
melhores momentos, jamais tivera tão festiva recepção. O navio "Imperator",
transportando o Presidente eleito e sua comitiva, aproximou-se do porto de Nova York
escoltado por uma esquadra de destróieres americanos, enquanto o forte anunciava a sua
chegada com 21 salvas de canhão, representando os nossos 20 Estados, mais o Distrito
Federal. Cada descarga era correspondida pelos canhões das outras fortalezas.
De
Nova York, segue para o Canadá e, no início de julho, volta a Boston, ainda em tempo de
assistir as comemorações do 143º aniversário da Independência dos Estados Unidos.
Dois dias depois, usando um encouraçado que lhe fora colocado à disposição pelo
governo americano, Epitácio Pessoa retorna, enfim, ao Brasil, fazendo uma escala no seu
Estado natal para receber homenagens dos paraibanos. Prossegue, depois, na viagem,
chegando triunfalmente no Rio de Janeiro, em 21 de julho de 1919, sete dias antes da
posse. Então, navios de guerra do Brasil fazem escolta ao destróier americano, em sua
entrada na baía da Guanabara.
O
Ministério
Anunciando seu
Ministério, o Presidente, já empossado em 28 de julho de 1919, cria o primeiro confronto
com as Forças Armadas, ao confirmar o nome de Pandiá Calógeras, um civil, para ocupar o
Ministério da Guerra. E fez mais, confirmando também outro civil, João Pedro da Veiga
Miranda, para o Ministério da Marinha. Foi o primeiro ministério da República que, ao
seu início, não contou com a participação de militares.
Não
tardou a reação. Logo após escolhido o Gabinete, Epitácio recebe em sua casa a visita
do almirante Antônio Coutinho Gomes Pereira, ex-ministro da Marinha durante interinidade
de Delfim Moreira, o qual manifesta sua preocupação com relação ao estado de ânimo
dos quartéis, conforme depoimento do próprio Presidente:
"Na véspera da minha
posse, às 11h30 da noite, em minha residência, um dos mais prestigiosos generais da
Armada me aconselhava a recuar daquele propósito, para não expor o país às
vicissitudes de um movimento armado. Respondi-lhe como devia: 'Amanhã a imprensa
publicará a nomeação de um civil para a Pasta da Marinha; a Armada, digo mal, os
indisciplinados da Armada que tomem a responsabilidade de perturbar a ordem constitucional
da República pelo fato de não querer o presidente, no uso incontestável de seu
incontestável direito, reconhecer-lhes título de propriedade sobre uma das Pastas do
Governo. Resistirei e veremos como se comporta a nação'. No dia seguinte, com efeito, os
jornais davam a nomeação de dois ministros civis para as Pastas militares."
O
Ministério completo era assim formado: Relações Exteriores, José Manuel de Azevedo
Marques, por São Paulo; Justiça, Interior e Instrução Pública, Alfredo Pinto Vieira
de Melo; Agricultura, Indústria e Comércio, Ildefonso Simões Lopes, pelo Rio Grande do
Sul; Fazenda, Homero Batista, pelo Rio Grande do Sul; Viação e Obras Públicas, José
Pires do Rio, engenheiro paulista; Guerra, João Pandiá Calógeras, por Minas Gerais;
Marinha, Raul Soares, também por Minas Gerais.
Obras do
governo
Sendo de
origem nordestina, e conhecedor dos terríveis problemas gerados pela seca, que
transformava a pobreza em miséria, e a miséria em indigência total, Epitácio Pessoa
cuidou de incluir, pela primeira vez na História da República, um programa sério de
combate à seca. Não foi por acaso que pôs, no ministério da Viação, o engenheiro
Pires do Rio, que já dirigira a Inspetoria de Obras contra as Secas, conhecendo os
métodos empregados até então, que consistiam simplesmente em criar frentes de trabalho
para minorar a tragédia durante os períodos críticos, sem nenhum trabalho de estrutura
para assentar os retirantes em suas cidades de origem.
Infelizmente, muitas das obras iniciadas tiveram de ser interrompidas
pela forte pressão dos barões do café que achavam um desperdício empregar verbas no
cultivo da indigência, quando esse dinheiro, segundo eles, poderia ser melhor empregado
no incremento da cultura cafeeira, gerando maior quantidade de empregos. E com a
interrupção do programa, muitos dos empreendimentos ficaram inacabados, inutilizando os
recursos despendidos.
No que
tange às Forças Armadas, cuidou-se da remodelação do Exército, da reconstrução de
unidades navais e do adestramento do pessoal. Redimindo uma dívida que vinha desde a
Proclamação da República, Epitácio revogou o decreto de banimento da família real,
fazendo trasladar para o Brasil os restos mortais do Imperador Pedro II e da Imperatriz
Tereza Cristina. Uma das grandes obras de urbanização no Rio de Janeiro foi o desaterro
do morro do Castelo com um avanço para o mar, formando uma explanada onde se construíram
as obras para a exposição do 1º Centenário da Independência.
Mas
também cometeu os mesmos erros de seus antecessores. Tentou suspender a sangria de
recursos públicos com a valorização artificial do café, medida corretíssima. Mas,
pressionado uma vez mais pela oligarquia cafeeira, voltou atrás, reavivando o
Convênio de Taubaté, que mantinha uma caixa de conversão com reservas para a
sustentação dos preços. Ao contentar os fazendeiros, desgostou os industriais que, a
esta altura, já tinham um peso político apreciável. Desvalorizou, também, a moeda,
provocando a inflação. O aumento de custo de vida gerou manifestações de rua que foram
reprimidas com violência.
A
sucessão
Depois da
posse, qualquer Presidente tinha de gastar a primeira metade de seu quadriênio resolvendo
questões com os Estados, e a outra metade resolvendo questões com a sucessão
presidencial. Para Epitácio, a primeira parte até que foi simples, resumindo-se a uma
intervenção na Bahia para garantir a posse de seu correligionário, J.J.Seabra, cuja
vitória era contestada pela oposição, liderada por Rui Barbosa.
O
problema maior estava na sucessão, cuja discussão incendiou o ambiente político dois
anos antes das eleições. Lançou-se o nome de Artur Bernardes, governador de Minas,
aceito sem restrições, sofrendo só a oposição feita pelo governador gaúcho, Borges
de Medeiros. Quanto à vice-presidência, Epitácio sugeriu que o nome viesse do nordeste,
o que provocou, desde logo, uma disputa pela indicação, entre J.J.Seabra, da Bahia, e
José Bezerra, de Pernambuco. Epitácio optou por um terceiro nome, o do maranhense Urbano
dos Santos, que já havia sido vice de Venceslau Brás.
Não se
conformando com a solução, um grupo de políticos passou para a oposição, criando um
movimento que ficou conhecido como Reação Republicana, e que lançou como candidatos o
fluminense Nilo Peçanha para Presidente e, para vice, o baiano J.J.Seabra,
que tanta celeuma causara há pouco, para empossar-se no governo da Bahia.
As
cartas de Arthur Bernardes
Nunca uma
campanha republicana se desenvolvera em nível tão baixo e jamais se utilizara de
expedientes tão mesquinhos, nos quais o que menos influía eram os interesses da nação.
O
episódio que mais agitou o período foi o de duas cartas, escritas em junho de 1921 e
atribuídas a Artur Bernardes, nas quais este faz desconsiderações ao Exército e,
especialmente, ao marechal Hermes da Fonseca, ao qual chama de "sargentão sem
compostura". Os envolvidos no rumoroso caso foram os cidadãos Oldemar Lacerda e
Jacinto Guimarães, desconhecidos dos meios políticos, que confessaram, mais tarde, terem
falsificado as missivas, a mando não se sabe de quem, porque a ninguém interessou
investigar; o senador Irineu Machado, que acolheu os dois cidadãos e encaminhou as
cartas, como verdadeiras, para o jornal Correio da Manhã; e o jornalista Mário
Rodrigues, diretor-substituto do jornal, que não só publicou as cartas, como também fez
pesados comentários contra Artur Bernardes.
De
todos, o único a parar na cadeia foi o jornalista. O senador estava protegido por
imunidade parlamentar. Os dois mentores da carta assinaram uma ata, em maio de 1922,
confessando a falsificação. Logo em seguida foram liberados sem que se abrisse
inquérito contra eles, nem tampouco foram julgados, a qualquer tempo, pelo crime
supostamente cometido. Com isso, ficou a desconfiança, sempre presente, de que as cartas
poderiam mesmo ser verdadeiras, e que a confissão teria sido um arranjo político. Se
verdadeiras ou falsas tais cartas, jamais se saberá.
As
eleições presidenciais se realizaram em 1º de março de 1922, com a vitória certa de
Artur Bernardes, mas, a partir daí, os acontecimentos, nas áreas política e militar,
caminharam com a velocidade e a violência de um furacão.
A
questão de Pernambuco
Era governador
de Pernambuco Severino Pinheiro, apoiado por Rosa e Silva e Manuel
Borba. A família de Epitácio Pessoa estava na oposição, apoiando o bloco político de
Estácio Coimbra e Dantas Barreto. Na campanha pela sucessão estadual, os governistas
apoiavam o senador José Henrique Carneiro da Cunha, enquanto a oposição se fixava no
nome do prefeito de Recife, Lima Castro. No apoio à oposição, pretextando a
preservação da ordem, o presidente Epitácio manda o coronel Jaime Pessoa para comandar
as tropas aquarteladas em Recife. Foram, também, requisitadas forças da Paraíba para
reforçar o efetivo pernambucano.
A
campanha desenvolveu-se pelos mesmos caminhos tortos sobre os quais transitavam,
corriqueiramente, as campanhas políticas no nordeste. As tropas iam à rua para manter a
ordem e, na repressão havia tiroteios, invasão de jornais e atos de força que, em pouco
tempo, criaram na população um estado de pânico.
Houve,
então, um incidente maior, que serviu para jogar gasolina no fogo. Uma patrulha
estacionada na entrada da cidade tinha como missão eliminar o governador do Estado, no
caminho ao Palácio, sendo sua referência apenas a descrição do carro que seria usado
pela autoridade. Por uma infeliz coincidência, na hora errada e no lugar errado, passava
outro carro semelhante ao do governador, que foi prontamente fuzilado, matando seu
ocupante, Tomás Coelho, um advogado alheio a qualquer movimento político. Exames
periciais comprovaram que o tiro partiu de uma carabina Mauser, de uso privado das Forças
Armadas.
O motim
Iniciava-se o tumultuado mês de julho de 1922. Contrária às
violências em que, involuntariamente, tinha que se envolver, rebelou-se a jovem
oficialidade de Pernambuco e o tenente Oliveira Leite, em boa fé, enviou um telegrama ao
Ministro da Guerra, denunciando seu superior, o coronel Jaime Pessoa. Em consequência de
seu ato, foi punido com prisão.
Alguns
de seus colegas, sentindo ser inútil qualquer reclamação ao Governo central, fazem um
apelo ao presidente do Clube Militar, marechal Hermes da Fonseca, que vai ao socorro dos
rebelados, enviando-lhes uma mensagem de ânimo, incitando-os à luta, e afirmando que
"os governos passam, e o Exército fica". Interpelado pelo Ministro da Guerra, o
marechal confirma a autoria do telegrama, recebendo voz de prisão e sendo mantido, quase
que incomunicável, no quartel do 3º Regimento de Infantaria, sob o comando do Cel.
Severino Correia. Ato contínuo, seus companheiros assumem, solidariamente a
responsabilidade pelo teor do telegrama e, em represália, o governo manda fechar o Clube
Militar.
O
episódio, no início circunscrito ao Estado de Pernambuco, torna-se agora um problema
nacional, levantando o ânimo da jovem oficialidade em vários pontos do país, sobretudo
no Rio de Janeiro, Paraná e Mato Grosso. Jamais se apurou se as revoltas que se seguiram
foram resultado de uma explosão imanente, ou se eram fruto de uma conspiração há muito
engendrada, cuja senha foi o telegrama de Hermes aos jovens militares pernambucanos.
A
revolta de 5 de julho de 1922
Começa aqui a
rebelião que iria se desdobrar na formação do tenentismo, responsável por todo um
ciclo revolucionário que iria desaguar na Revolução de 1930, com o fim da Primeira
República. O movimento deveria eclodir no Rio de Janeiro, na madrugada de 5 de julho de
1922, com uma operação coordenada, envolvendo a Vila Militar, a Escola Militar e o Forte
de Copacabana, além de outros quartéis isolados. Merece registro, apenas, a 1ª Cia.
Ferroviária, instalada em Deodoro, cujo comando caberia ao capitão Luís Carlos Prestes,
mas que não chegou a entrar em ação, dado que Prestes contraiu tifo, ficando preso ao
leito. Entrariam em armas, também, os quartéis de Curitiba e as guarnições de Mato
Grosso, estas últimas sob o comando do general Clodoaldo da Fonseca, primo-irmão do
marechal Hermes.
No
Paraná o movimento foi abortado desde o início, pela traição de um dos envolvidos no
plano. No Mato Grosso, a sublevação também não teve muito sucesso, e a
rendição foi assinada, sem maiores danos. O grande problema, como não poderia deixar de
ser, foi a cidade do Rio de Janeiro, sede do Governo central, do Clube Militar ora
fechado, e onde se achava o marechal Hermes. Este após 17 horas de prisão, foi
libertado, indo para o hotel onde residia e depois, despistando os que o vigiavam, fugiu e
abrigou-se na chácara de um de seus filhos, Mário Hermes, militar e deputado federal.
A Vila
Militar
Uma
falha nas comunicações levou ao fracasso do levante na Vila Militar, uma das peças
chaves da rebelião. Tinha ficado entendido que, uma vez liberto, o marechal acharia um
meio de se deslocar até aquele local e a sua chegada seria a senha para que os dois
regimentos revoltosos descessem à cidade.
Segundo
um depoimento prestado muito recentemente pelo já então brigadeiro Eduardo Gomes, houve
um mal entendido quanto ao teor da mensagem, achando o marechal que deveria aguardar na
chácara pela passagem dos regimentos, quando lhe seria entregue o comando.
Esse
desentendimento resultou fatal, pois a rebelião, contida a tempo, permitiu que se
reorganizassem as forças leais ao governo, as quais foram, mais tarde, utilizadas na
repressão à Escola Militar.
A Escola
Militar
A rebelião na
Escola Militar contava com um comando selecionado, composto de vários instrutores e tinha
tudo para dar certo. Entre os rebelados estavam Juarez Távora, Odilio Denys, Stênio Caio
de Albuquerque Lima e Edmundo de Macedo Soares. O comando geral coube ao coronel José
Maria Xavier de Brito, veterano da guerra de Canudos e, neste momento, dirigindo a
Fábrica de Cartuchos do Realengo, também envolvida na conjuração. Na operação,
cuidou-se de vigiar o comandante da Escola, general Monteiro de Barros, que foi impedido
de sair de sua casa, após uma troca de tiros. Sob vigia estavam também os soldados
suspeitos de contrariar o movimento.
Na hora
combinada, a Escola saiu em direção à Vila Militar onde, pensavam, já encontrariam um
contingente de rebelados aos quais deveriam se juntar. Ao caminho, receberam um mensageiro
informando que a sublevação naquele local fracassou e a tropa estava de prontidão, sob
o controle dos oficiais leais ao governo.
Para
testar a real situação, os rebelados tiveram a infeliz idéia de disparar alguns tiros
contra a Vila Militar. Foi como atirar pedras a um vespeiro. Unidades formadas em combate
deixaram os quartéis e avançaram no contra-ataque, num confronto que, logo no início
deixou morto o cadete Irapuã Xavier, além de outro que ficou ferido.
Não
havia condições de enfrentamento e a causa estava sabidamente perdida. Em ordem, os
alunos voltaram à Escola por ordens do próprio coronel-comandante Xavier de Brito. No
livro de ocorrências, o tenente Juarez Távora registrou os acontecimentos, segundo sua
própria versão, e os amotinados ficaram no aguardo das consequências. Por volta do
meio-dia houve prisões em massa, sendo os prisioneiros levados para vários locais,
inclusive para a ilha das Cobras.
O Forte
de Copacabana
O mais
grave dos movimentos, nesse 5 de julho, foi o que ocorreu no Forte da Igrejinha, ou Forte
de Copacabana, subordinado ao 1º Distrito de Artilharia da Costa. Era comandante da
Artilharia o General Bonifácio da Costa e o Forte se achava sob o comando do capitão
Euclides Hermes, filho do marechal. Ao raiar do dia, como já vimos, estavam debelados os
movimentos da Vila e da Escola. Muitos dos oficiais que não tinham conseguido se juntar
aos rebelados, mas que faziam parte da conspiração, trataram de buscar abrigo no único
lugar seguro, que, naquele momento, era o Forte. Assim, além de sua população habitual,
achavam-se lá, homiziados, mais de trezentos oficiais e praças.
Cumprindo ordens do ministro Pandiá Calógeras, o General
Bonifácio se dirigiu ao Forte com o capitão José da Silva Barbosa, a quem pretendia
entregar o comando, substituindo o filho de Hermes. Ambos foram presos. Mais tarde, dois
outros tenentes legalistas foram ao Forte ver o que acontecia e um deles, o tenente Mário
Tamarindo Carpenter aderiu à revolta e lá ficou. Mas tarde, outros sessenta militares
que se achavam no Forte do Vigia comunicaram ao seu comandante que estavam aderindo à
revolta. Sequestraram um bonde e foram se juntar aos companheiros de Copacabana.
Iniciou-se a ação armada, primeiro com tiros secos de canhão, apenas
para permitir que a população fugisse. Depois, um novo canhonaço, desta vez com carga
pesada, direcionado ao QG do Exército, mas que caiu na casa ao lado, matando três civis.
O ministro da Guerra, em pessoa telefonou aos rebeldes e repreendeu-os pelo tiro errado
que causou vítimas no edifício ao lado. Não devia ter feito isso. Corrigindo a
posição do canhão, os rebelados mandaram novo tiro, certeiro, que atingiu em cheio o
Quartel General, levando à retirada o ministro e todo o seu Estado Maior.
O mito
dos Dezoito do Forte
Embora
vitorioso, o Forte não podia se sustentar por muito tempo e os chefes tinham consciência
de que a repressão aniquilaria a todos. O capitão Euclides Hermes saiu para parlamentar
com o ministro Pandiá Calógeras. Foi preso. De toda aquele contingente abrigado na
fortaleza, que já não era tão segura, a maioria resolveu se retirar, ficando apenas 28
homens: O 1º tenente Siqueira Campos, o 1º tenente Eduardo Gomes, o 2º tenente Newton
Prado e o 2º tenente Mário Tamarindo Carpenter, mais soldados, praças e alguns civis.
A
reação legalista começou a se fazer sentir, lenta e pesadamente, sobre o Forte, que se
achava cercado e acuado, sem condições de luta contra todas essas forças de terra e de
mar, dispostas a manter a ordem legal. Não adiantava prosseguir, pois a derrota era
apenas uma questão de tempo.
Decidiram, então, ir à rua e marchar sobre o Palácio, de peito
aberto, fazendo um avanço suicida e inconsequente. Dos 28 que se achavam no Forte, apenas
17 se dispuseram ir ao sacrifício. A Bandeira Nacional foi, então, cortada em 18
pedaços (cortar em 17 era muito complicado). Cada um recebeu uma daquelas tiras e o 1º
tenente Siqueira Campos ficou com duas delas. Caminhando pela rua, encontraram um cidadão
gaúcho, Otávio Correia, que se juntou ao batalhão. Completaram-se, assim, os 18 que
caminharam para a morte e que se transformaram nos heróis do Dezoito do Forte.
Sem
proteção, e sem condições de ataque, pouquíssimos sobreviveram. Dos quatro tenentes,
Carpenter morreu na hora, Newton Prado, gravemente ferido, morreu depois. Siqueira Campos,
ferido, sobreviveu e ainda participou de outros movimentos, até 1930, quando morreu
afogado, após voltar de um encontro com Luís Carlos Prestes. O único sobrevivente foi
Eduardo Gomes, que participou do movimento tenentista, na 2ª República tornou-se
Brigadeiro do Ar e fundador da Força Aérea Brasileira. Em 1946 foi candidato à
Presidência da República e, até 1981, quando faleceu, teve participação ativa na vida
política brasileira.
Independência
e morte
Estavam
comprometidas de vez as comemorações dos 100 anos de Independência do Brasil, cujas
festividades vinham sendo ansiosamente aguardadas nos últimos anos. Não havia mais os
cadetes da Escola Militar, com suas fardas imponentes para brilhar na abertura dos
desfiles. Parte da jovem oficialidade, e dos soldados que aderiram a ela, se viu envolvida
em grossos processos judiciais, que ainda se arrastariam por muitos anos, antes de chegar
à anistia geral.
A grande
exposição planejada para o pavilhão na esplanada do Castelo se realizou, mas sem o
mesmo brilho. Os desfiles também aconteceram, mas o que se passava pela cabeça daqueles
jovens, depois de todos os acontecimentos vividos há pouco mais de um mês? Como se
sentia o Governo, incluídos, nessa expressão, também o Senado e a Câmara, caixas de
repercussão da opinião nacional, incluídos ainda a Justiça e o Ministério Público,
envolvidos desenrolar dos processos contra os jovens militares? E como se sentia, toda
ela, a cidade do Rio de Janeiro, depois desses acontecimentos ?
O
movimento de 5 de julho de 1922, marcado pela morte, foi na verdade o nascimento de uma
nova mentalidade, dentro e fora da caserna, gerando a continuidade de movimentos
revolucionários que enfraqueceram as oligarquias dominantes, minando a base de
sustentação dos governos fortes, os quais, a partir dessa data, tiveram conviver com um
poder paralelo que, poucos anos mais tarde, chegaria ao poder.
Quanto a
Epitácio Pessoa, completou seu mandato em 15 de novembro de 1922, sendo, logo após,
nomeado juiz da Corte Permanente de Justiça Internacional de Haia, onde permanece até a
queda da Primeira República, em 1930. Então, retira-se à vida privada e morre, em 1942,
aos 77 anos, vítima do mal de Parkison.