CAPÍTULO NOVE
AS ESTRUTURAS DO PODER
DELFIM MOREIRA E EPITÁCIO PESSOA - 1918-1922

Paulo Victorino

   O céu azul, com uma multidão de nuvenzinhas brancas, assemelhando-se a um rebanho de carneiros pastando na imensidão das alturas, jamais faria prever a borrasca pronta a se desencadear sobre o país a partir de 1918, abalando as estruturas do poder, solapando rapidamente os alicerces da Primeira República, e fazendo com que, doze anos após, o imenso edifício viesse a desabar num só golpe, tal e qual um castelo de cartas.

    Tudo ia muito bem. A 1ª Guerra Mundial permitiu restabelecer nossa balança comercial. Renasceu a indústria nacional, fazendo lembrar os tempos de Mauá, e aumentou a demanda por mão de obra nas cidades, originando uma nova classe de trabalhadores e desenvolvendo outro tipo de sindicalismo, mais consistente e organizado. No cenário mundial, os frágeis acordos entre os Estados, como a Tríplice Aliança e a "Entente Cordiale", origens distantes do grande conflito, foram substituídos pela Liga das Nações, uma associação de todos os países em um único e sólido bloco, com um mesmo propósito e um só pensamento. As novas idéias entusiasmavam os acadêmicos.

    O Brasil contava agora com sua grande oportunidade de se desenvolver e procurar um lugar entre os mais avançados países do globo. O governo de Venceslau Brás mostrou que era possível ao Presidente administrar o país com base na lei e no respeito à Constituição, sem se submeter a forças externas. Que mais faltaria para o país deslanchar rumo ao futuro?

    Até mesmo a transição de governo parecia transcorrer calma e tranquila. Morto Pinheiro Machado, vítima de mãos assassinas, no atentado ocorrido em 8 de setembro de 1915, a sucessão voltou ao âmbito da política do café com leite. A bola da vez volta para São Paulo e o conselheiro Rodrigues Alves é apontado para a sucessão presidencial, sem quaisquer contestações. Completando a chapa, entra o mineiro Delfim Moreira na vice-presidência. As eleições transcorrem em clima de paz, no dia 1º de março de 1918, com chapa única, e a posse, conforme a Constituição, estava prevista para 15 de novembro de 1918.

Fim da Bonança

   Os meses seguintes mostraram que a realidade não era assim tão colorida. Rodrigues Alves, como outros tantos, foi vítima da gripe espanhola, que eclodiu em março, logo após as eleições. Conseguiu recuperar-se desse mal, porém teve agravado o seu estado geral de saúde e não pode comparecer à posse, em 15 de novembro, assumindo o governo, provisoriamente, o vice-Presidente, Delfim Moreira.

    Ciente de sua interinidade, o vice confirmou o Ministério escolhido pelo titular, composto dos seguintes nomes: Relações Exteriores, Domício da Gama; Justiça, Interior e Instrução Pública, Urbano dos Santos da Costa Araújo; Fazenda. Amaro Cavalcanti, que declinou, sendo substituído por João Ribeiro; Viação e Obras Públicas, Afrânio de Melo Franco; Agricultura, Indústria e Comércio, Antônio de Pádua Sales; Guerra, Pandiá Calógeras; Marinha, Almirante Antônio Coutinho Gomes Pereira. Pela primeira vez, um civil é empossado no Ministério da Guerra, mas a situação transitória do governo não aconselhava contestação nos quartéis, ao menos naquele momento.

    Rodrigues Alves muda-se de Guaratinguetá para o Rio de Janeiro, passando a morar numa casa da rua Senador Vergueiro, a mesma em que residira quando assumiu a Presidência pela primeira vez, de onde mantinha contatos diários com o seu vice. Por essa razão, a casa ficou conhecida carinhosamente como Catetinho, em alusão ao palácio presidencial. Quanto ao governo provisório, este foi ironicamente cognominado de Regência Republicana. O brasileiro não perde sua espirituosidade nem nos momentos mais difíceis...

    Contrariando as previsões mais otimistas, em 17 de janeiro de 1919, dois meses após o dia em que deveria ter tomado posse, Rodrigues Alves veio a falecer e, como não havia transcorrido metade do mandato, a Constituição mandava convocar novas eleições. Sem problemas, dado que Delfim não ambicionava o continuísmo e, por outro lado, sofria de esclerose, não tendo condições de enfrentar um mandato de quatro anos. Além disso, sem bases políticas, seu nome havia sido apontado apenas para compor a chapa e não exatamente para governar.

A nova campanha presidencial

   Encerrou-se, com este episódio, o curto período de tranquilidade política, iniciado com a escolha do Conselheiro. O presidente de São Paulo, Altino Arantes insistia em que o novo candidato também deveria ser paulista, com o que não concordava seu colega, o presidente de Minas, Artur Bernardes. Por outro lado, o Rio Grande do Sul passou a influir diretamente, pela figura mais representativa do Estado, o governador Borges de Medeiros, herdeiro político de Júlio de Castilhos, e tendo à sua volta o mais ferrenho conservadorismo e provincialismo do extremo sul.

    No desempate, acorda-se em buscar um nome longe das influências sulistas e a escolha recai sobre um fazendeiro da Paraíba,    Epitácio Pessoa. O novo candidato é um homem de imenso saber político e jurídico. Por sinal que, neste momento, se encontra na França, participando da Conferência de Paz, que se ocupava em dividir, entre as nações vencedoras, o espólio dos vencidos, mais especialmente da Alemanha e, discricionariamente, aplicava aos perdedores as sanções necessárias. O vice, já se sabe, continua sendo Delfim Moreira, já eleito e empossado no tempo devido.

    Perdedor na Convenção que escolheu o candidato governista, Rui Barbosa parte para uma candidatura de oposição, apoiado por Nilo Peçanha, e lança-se, uma vez mais, na jornada cívica pelo país, sabendo, embora, que o jogo da sucessão já estava decidido. Realizadas as eleições, em 13 de abril de 1919, Epitácio Pessoa recebe 249.342 votos e Rui Barbosa, 118.303 votos.

    Apenas para registro, Rui Barbosa pensou, inicialmente, em puxar o tapete do Presidente eleito, usando de todo o seu saber jurídico. Apegava-se ele ao fato de que Epitácio fora aposentado no STF por incapacidade física permanente. Ora, contestava Rui, se ele era fisicamente incapaz para exercer o cargo de juiz, como poderia ser considerado capaz para ocupar o mais alto cargo, que é a presidência da República? Afinal, Rui desistiu de sua retórica e aceitou a vitória do opositor.

    A posse ocorre em 28 de julho de 1919 e, um mês depois, outra morte vem tumultuar o processo. Desta vez falecia o vice-Presidente, Delfim Moreira, e novas eleições foram realizadas para escolher seu sucessor, Francisco Álvares Bueno de Paiva, até então senador federal por Minas Gerais.

Quem era Epitácio Pessoa

    Epitácio Lindolfo da Silva Pessoa nasceu em Umbuzeiro, pequena cidade ao sul da Paraíba, na divisa com Pernambuco, sendo sobrinho do Barão de Lucena, político pernambucano e ex-ministro no governo de Deodoro da Fonseca. Estudou na Faculdade de Direito em Recife e, aos 25 anos, elegeu-se deputado constituinte Foi ministro da Justiça de Campos Sales, mas renunciou por desentendimentos com o Presidente que, apesar disso, indicou seu nome para ministro do Supremo Tribunal Federal, onde se aposentou por incapacidade física, conforme bem lembrou Rui Barbosa.

    Na eleição, encontramo-lo na França, participando da Conferência de Paz, onde defendeu, com um brilhantismo que faz lembrar Rui, as duas reivindicações básicas do Brasil nas reparações de Guerra. Uma delas era o dinheiro que o Brasil tinha depositado no Banco alemão, proveniente da venda de quase dois milhões de sacas de café, depósito esse que a Alemanha bloqueou quando nosso país lhe declarou guerra. O crédito era incontestável, mas Inglaterra e França queriam que a indenização se fizesse pela conversão do marco de após guerra e não pelo marco no dia do depósito. Essa simples questão de câmbio daria ao Brasil um prejuízo em torno de 90 por cento do valor original. Com a interferência dos Estados Unidos, o Brasil conseguiu receber a indenização por seu valor real.

    Outra questão que exigiu grande capacidade de negociação se referia aos navios apresados na baía da Guanabara, em represália ao afundamento, pela Alemanha, de vários navios mercantes brasileiros. O Brasil desejava ficar com as embarcações alemãs, mediante justa indenização, mas Inglaterra e França também tinham interesse de incorporá-las às suas frotas. Mais uma vez, a mediação dos Estados Unidos levou à vitória das posições brasileiras.

Aí vem o Presidente!

  Eleito presidente da República, e faltando quase três meses para a posse, Epitácio, com a família, resolve ficar na Europa, recebendo homenagens e aproveitando convites que lhe foram feitos por vários chefes de Estado. Começa, então, uma viagem encantada, como só um príncipe dos velhos tempos sonharia ter. Primeiro vai à Bélgica, onde é recebido solenemente pelo rei Alberto e pela rainha Elisabeth, hospedando-se no palácio real. Regressando a Paris, recebe homenagens na Universidade de Paris e na Câmara de Deputados, além de ter um encontro com a colônia brasileira ali residente.

     Em seguida, um trem real vem à França especialmente a buscá-lo para uma viagem à Itália, onde é recebido pessoalmente pelo rei, acompanhado da corte. Aproveitando o ensejo de sua presença na Península, faz uma visita protocolar ao papa Benedito XV. Voltando a Paris, é acolhido com pompa e recebe condecorações. Em seguida, um destróier inglês o leva a Londres, onde é recepcionado pela família real, visita o parlamento e cumpre um extenso programa.

    Um cruzador inglês o leva, agora, até Lisboa, sendo recebido com entusiasmo pelo presidente da República, e com reservas pelos monarquistas. Volta, então à França, onde o governo lhe coloca à disposição um cruzador para levá-lo aos Estados Unidos. O navio fica à deriva em pleno oceano. Grandes problemas? De maneira alguma. Comunicado por telégrafo, o governo americano apressa-se em enviar um navio transporte, que recolhe toda a comitiva presidencial, transportando-a sã e salva para Nova York.

    Sua chegada aos Estados Unidos faria inveja até ao Imperador D. Pedro 2º que, em seus melhores momentos, jamais tivera tão festiva recepção. O navio "Imperator", transportando o Presidente eleito e sua comitiva, aproximou-se do porto de Nova York escoltado por uma esquadra de destróieres americanos, enquanto o forte anunciava a sua chegada com 21 salvas de canhão, representando os nossos 20 Estados, mais o Distrito Federal. Cada descarga era correspondida pelos canhões das outras fortalezas.

     De Nova York, segue para o Canadá e, no início de julho, volta a Boston, ainda em tempo de assistir as comemorações do 143º aniversário da Independência dos Estados Unidos. Dois dias depois, usando um encouraçado que lhe fora colocado à disposição pelo governo americano, Epitácio Pessoa retorna, enfim, ao Brasil, fazendo uma escala no seu Estado natal para receber homenagens dos paraibanos. Prossegue, depois, na viagem, chegando triunfalmente no Rio de Janeiro, em 21 de julho de 1919, sete dias antes da posse. Então, navios de guerra do Brasil fazem escolta ao destróier americano, em sua entrada na baía da Guanabara.

O Ministério

   Anunciando seu Ministério, o Presidente, já empossado em 28 de julho de 1919, cria o primeiro confronto com as Forças Armadas, ao confirmar o nome de Pandiá Calógeras, um civil, para ocupar o Ministério da Guerra. E fez mais, confirmando também outro civil, João Pedro da Veiga Miranda, para o Ministério da Marinha. Foi o primeiro ministério da República que, ao seu início, não contou com a participação de militares.

    Não tardou a reação. Logo após escolhido o Gabinete, Epitácio recebe em sua casa a visita do almirante Antônio Coutinho Gomes Pereira, ex-ministro da Marinha durante interinidade de Delfim Moreira, o qual manifesta sua preocupação com relação ao estado de ânimo dos quartéis, conforme depoimento do próprio Presidente:

"Na véspera da minha posse, às 11h30 da noite, em minha residência, um dos mais prestigiosos generais da Armada me aconselhava a recuar daquele propósito, para não expor o país às vicissitudes de um movimento armado. Respondi-lhe como devia: 'Amanhã a imprensa publicará a nomeação de um civil para a Pasta da Marinha; a Armada, digo mal, os indisciplinados da Armada que tomem a responsabilidade de perturbar a ordem constitucional da República pelo fato de não querer o presidente, no uso incontestável de seu incontestável direito, reconhecer-lhes título de propriedade sobre uma das Pastas do Governo. Resistirei e veremos como se comporta a nação'. No dia seguinte, com efeito, os jornais davam a nomeação de dois ministros civis para as Pastas militares."

    O Ministério completo era assim formado: Relações Exteriores, José Manuel de Azevedo Marques, por São Paulo; Justiça, Interior e Instrução Pública, Alfredo Pinto Vieira de Melo; Agricultura, Indústria e Comércio, Ildefonso Simões Lopes, pelo Rio Grande do Sul; Fazenda, Homero Batista, pelo Rio Grande do Sul; Viação e Obras Públicas, José Pires do Rio, engenheiro paulista; Guerra, João Pandiá Calógeras, por Minas Gerais; Marinha, Raul Soares, também por Minas Gerais.

Obras do governo

    Sendo de origem nordestina, e conhecedor dos terríveis problemas gerados pela seca, que transformava a pobreza em miséria, e a miséria em indigência total, Epitácio Pessoa cuidou de incluir, pela primeira vez na História da República, um programa sério de combate à seca. Não foi por acaso que pôs, no ministério da Viação, o engenheiro Pires do Rio, que já dirigira a Inspetoria de Obras contra as Secas, conhecendo os métodos empregados até então, que consistiam simplesmente em criar frentes de trabalho para minorar a tragédia durante os períodos críticos, sem nenhum trabalho de estrutura para assentar os retirantes em suas cidades de origem.

    Infelizmente, muitas das obras iniciadas tiveram de ser interrompidas pela forte pressão dos barões do café que achavam um desperdício empregar verbas no cultivo da indigência, quando esse dinheiro, segundo eles, poderia ser melhor empregado no incremento da cultura cafeeira, gerando maior quantidade de empregos. E com a interrupção do programa, muitos dos empreendimentos ficaram inacabados, inutilizando os recursos despendidos.

    No que tange às Forças Armadas, cuidou-se da remodelação do Exército, da reconstrução de unidades navais e do adestramento do pessoal. Redimindo uma dívida que vinha desde a Proclamação da República, Epitácio revogou o decreto de banimento da família real, fazendo trasladar para o Brasil os restos mortais do Imperador Pedro II e da Imperatriz Tereza Cristina. Uma das grandes obras de urbanização no Rio de Janeiro foi o desaterro do morro do Castelo com um avanço para o mar, formando uma explanada onde se construíram as obras para a exposição do 1º Centenário da Independência.

    Mas também cometeu os mesmos erros de seus antecessores. Tentou suspender a sangria de recursos públicos com a valorização artificial do café, medida corretíssima. Mas, pressionado uma vez mais pela oligarquia cafeeira, voltou atrás, reavivando  o Convênio de Taubaté, que mantinha uma caixa de conversão com reservas para a sustentação dos preços. Ao contentar os fazendeiros, desgostou os industriais que, a esta altura, já tinham um peso político apreciável. Desvalorizou, também, a moeda, provocando a inflação. O aumento de custo de vida gerou manifestações de rua que foram reprimidas com violência.

A sucessão

   Depois da posse, qualquer Presidente tinha de gastar a primeira metade de seu quadriênio resolvendo questões com os Estados, e a outra metade resolvendo questões com a sucessão presidencial. Para Epitácio, a primeira parte até que foi simples, resumindo-se a uma intervenção na Bahia para garantir a posse de seu correligionário, J.J.Seabra, cuja vitória era contestada pela oposição, liderada por Rui Barbosa.

    O problema maior estava na sucessão, cuja discussão incendiou o ambiente político dois anos antes das eleições. Lançou-se o nome de Artur Bernardes, governador de Minas, aceito sem restrições, sofrendo só a oposição feita pelo governador gaúcho, Borges de Medeiros. Quanto à vice-presidência, Epitácio sugeriu que o nome viesse do nordeste, o que provocou, desde logo, uma disputa pela indicação, entre J.J.Seabra, da Bahia, e José Bezerra, de Pernambuco. Epitácio optou por um terceiro nome, o do maranhense Urbano dos Santos, que já havia sido vice de Venceslau Brás.

    Não se conformando com a solução, um grupo de políticos passou para a oposição, criando um movimento que ficou conhecido como Reação Republicana, e que lançou como candidatos o fluminense Nilo Peçanha para Presidente e, para vice,  o baiano  J.J.Seabra, que tanta celeuma causara há pouco, para empossar-se no governo da Bahia.

As cartas de Arthur Bernardes

   Nunca uma campanha republicana se desenvolvera em nível tão baixo e jamais se utilizara de expedientes tão mesquinhos, nos quais o que menos influía eram os interesses da nação.

    O episódio que mais agitou o período foi o de duas cartas, escritas em junho de 1921 e atribuídas a Artur Bernardes, nas quais este faz desconsiderações ao Exército e, especialmente, ao marechal Hermes da Fonseca, ao qual chama de "sargentão sem compostura". Os envolvidos no rumoroso caso foram os cidadãos Oldemar Lacerda e Jacinto Guimarães, desconhecidos dos meios políticos, que confessaram, mais tarde, terem falsificado as missivas, a mando não se sabe de quem, porque a ninguém interessou investigar; o senador Irineu Machado, que acolheu os dois cidadãos e encaminhou as cartas, como verdadeiras, para o jornal Correio da Manhã; e o jornalista Mário Rodrigues, diretor-substituto do jornal, que não só publicou as cartas, como também fez pesados comentários contra Artur Bernardes.

    De todos, o único a parar na cadeia foi o jornalista. O senador estava protegido por imunidade parlamentar. Os dois mentores da carta assinaram uma ata, em maio de 1922, confessando a falsificação. Logo em seguida foram liberados sem que se abrisse inquérito contra eles, nem tampouco foram julgados, a qualquer tempo, pelo crime supostamente cometido. Com isso, ficou a desconfiança, sempre presente, de que as cartas poderiam mesmo ser verdadeiras, e que a confissão teria sido um arranjo político. Se verdadeiras ou falsas tais cartas, jamais se saberá.

    As eleições presidenciais se realizaram em 1º de março de 1922, com a vitória certa de Artur Bernardes, mas, a partir daí, os acontecimentos, nas áreas política e militar, caminharam com a velocidade e a violência de um furacão.

A questão de Pernambuco

   Era governador de Pernambuco Severino    Pinheiro, apoiado por Rosa e Silva e Manuel Borba. A família de Epitácio Pessoa estava na oposição, apoiando o bloco político de Estácio Coimbra e Dantas Barreto. Na campanha pela sucessão estadual, os governistas apoiavam o senador José Henrique Carneiro da Cunha, enquanto a oposição se fixava no nome do prefeito de Recife, Lima Castro. No apoio à oposição, pretextando a preservação da ordem, o presidente Epitácio manda o coronel Jaime Pessoa para comandar as tropas aquarteladas em Recife. Foram, também, requisitadas forças da Paraíba para reforçar o efetivo pernambucano.

    A campanha desenvolveu-se pelos mesmos caminhos tortos sobre os quais transitavam, corriqueiramente, as campanhas políticas no nordeste. As tropas iam à rua para manter a ordem e, na repressão havia tiroteios, invasão de jornais e atos de força que, em pouco tempo, criaram na população um estado de pânico.

    Houve, então, um incidente maior, que serviu para jogar gasolina no fogo. Uma patrulha estacionada na entrada da cidade tinha como missão eliminar o governador do Estado, no caminho ao Palácio, sendo sua referência apenas a descrição do carro que seria usado pela autoridade. Por uma infeliz coincidência, na hora errada e no lugar errado, passava outro carro semelhante ao do governador, que foi prontamente fuzilado, matando seu ocupante, Tomás Coelho, um advogado alheio a qualquer movimento político. Exames periciais comprovaram que o tiro partiu de uma carabina Mauser, de uso privado das Forças Armadas.

O motim

    Iniciava-se o tumultuado mês de julho de 1922. Contrária às violências em que, involuntariamente, tinha que se envolver, rebelou-se a jovem oficialidade de Pernambuco e o tenente Oliveira Leite, em boa fé, enviou um telegrama ao Ministro da Guerra, denunciando seu superior, o coronel Jaime Pessoa. Em consequência de seu ato, foi punido com prisão.

    Alguns de seus colegas, sentindo ser inútil qualquer reclamação ao Governo central, fazem um apelo ao presidente do Clube Militar, marechal Hermes da Fonseca, que vai ao socorro dos rebelados, enviando-lhes uma mensagem de ânimo, incitando-os à luta, e afirmando que "os governos passam, e o Exército fica". Interpelado pelo Ministro da Guerra, o marechal confirma a autoria do telegrama, recebendo voz de prisão e sendo mantido, quase que incomunicável, no quartel do 3º Regimento de Infantaria, sob o comando do Cel. Severino Correia. Ato contínuo, seus companheiros assumem, solidariamente a responsabilidade pelo teor do telegrama e, em represália, o governo manda fechar o Clube Militar.

    O episódio, no início circunscrito ao Estado de Pernambuco, torna-se agora um problema nacional, levantando o ânimo da jovem oficialidade em vários pontos do país, sobretudo no Rio de Janeiro, Paraná e Mato Grosso. Jamais se apurou se as revoltas que se seguiram foram resultado de uma explosão imanente, ou se eram fruto de uma conspiração há muito engendrada, cuja senha foi o telegrama de Hermes aos jovens militares pernambucanos.

A revolta de 5 de julho de 1922

   Começa aqui a rebelião que iria se desdobrar na formação do tenentismo, responsável por todo um ciclo revolucionário que iria desaguar na Revolução de 1930, com o fim da Primeira República. O movimento deveria eclodir no Rio de Janeiro, na madrugada de 5 de julho de 1922, com uma operação coordenada, envolvendo a Vila Militar, a Escola Militar e o Forte de Copacabana, além de outros quartéis isolados. Merece registro, apenas, a 1ª Cia. Ferroviária, instalada em Deodoro, cujo comando caberia ao capitão Luís Carlos Prestes, mas que não chegou a entrar em ação, dado que Prestes contraiu tifo, ficando preso ao leito. Entrariam em armas, também, os quartéis de Curitiba e as guarnições de Mato Grosso, estas últimas sob o comando do general Clodoaldo da Fonseca, primo-irmão do marechal Hermes.

    No Paraná o movimento foi abortado desde o início, pela traição de um dos envolvidos no plano. No Mato Grosso, a  sublevação também não teve muito sucesso, e a rendição foi assinada, sem maiores danos. O grande problema, como não poderia deixar de ser, foi a cidade do Rio de Janeiro, sede do Governo central, do Clube Militar ora fechado, e onde se achava o marechal Hermes. Este após 17 horas de prisão, foi libertado, indo para o hotel onde residia e depois, despistando os que o vigiavam, fugiu e abrigou-se na chácara de um de seus filhos, Mário Hermes, militar e deputado federal.

A Vila Militar

    Uma falha nas comunicações levou ao fracasso do levante na Vila Militar, uma das peças chaves da rebelião. Tinha ficado entendido que, uma vez liberto, o marechal acharia um meio de se deslocar até aquele local e a sua chegada seria a senha para que os dois regimentos revoltosos descessem à cidade.

    Segundo um depoimento prestado muito recentemente pelo já então brigadeiro Eduardo Gomes, houve um mal entendido quanto ao teor da mensagem, achando o marechal que deveria aguardar na chácara pela passagem dos regimentos, quando lhe seria entregue o comando.

    Esse desentendimento resultou fatal, pois a rebelião, contida a tempo, permitiu que se reorganizassem as forças leais ao governo, as quais foram, mais tarde, utilizadas na repressão à Escola Militar.

A Escola Militar

   A rebelião na Escola Militar contava com um comando selecionado, composto de vários instrutores e tinha tudo para dar certo. Entre os rebelados estavam Juarez Távora, Odilio Denys, Stênio Caio de Albuquerque Lima e Edmundo de Macedo Soares. O comando geral coube ao coronel José Maria Xavier de Brito, veterano da guerra de Canudos e, neste momento, dirigindo a Fábrica de Cartuchos do Realengo, também envolvida na conjuração. Na operação, cuidou-se de vigiar o comandante da Escola, general Monteiro de Barros, que foi impedido de sair de sua casa, após uma troca de tiros. Sob vigia estavam também os soldados suspeitos de contrariar o movimento.

    Na hora combinada, a Escola saiu em direção à Vila Militar onde, pensavam, já encontrariam um contingente de rebelados aos quais deveriam se juntar. Ao caminho, receberam um mensageiro informando que a sublevação naquele local fracassou e a tropa estava de prontidão, sob o controle dos oficiais leais ao governo.

    Para testar a real situação, os rebelados tiveram a infeliz idéia de disparar alguns tiros contra a Vila Militar. Foi como atirar pedras a um vespeiro. Unidades formadas em combate deixaram os quartéis e avançaram no contra-ataque, num confronto que, logo no início deixou morto o cadete Irapuã Xavier, além de outro que ficou ferido.

    Não havia condições de enfrentamento e a causa estava sabidamente perdida. Em ordem, os alunos voltaram à Escola por ordens do próprio coronel-comandante Xavier de Brito. No livro de ocorrências, o tenente Juarez Távora registrou os acontecimentos, segundo sua própria versão, e os amotinados ficaram no aguardo das consequências. Por volta do meio-dia houve prisões em massa, sendo os prisioneiros levados para vários locais, inclusive para a ilha das Cobras.

O Forte de Copacabana

    O mais grave dos movimentos, nesse 5 de julho, foi o que ocorreu no Forte da Igrejinha, ou Forte de Copacabana, subordinado ao 1º Distrito de Artilharia da Costa. Era comandante da Artilharia o General Bonifácio da Costa e o Forte se achava sob o comando do capitão Euclides Hermes, filho do marechal. Ao raiar do dia, como já vimos, estavam debelados os movimentos da Vila e da Escola. Muitos dos oficiais que não tinham conseguido se juntar aos rebelados, mas que faziam parte da conspiração, trataram de buscar abrigo no único lugar seguro, que, naquele momento, era o Forte. Assim, além de sua população habitual, achavam-se lá, homiziados, mais de trezentos oficiais e praças.

     Cumprindo ordens do ministro Pandiá Calógeras, o General Bonifácio se dirigiu ao Forte com o capitão José da Silva Barbosa, a quem pretendia entregar o comando, substituindo o filho de Hermes. Ambos foram presos. Mais tarde, dois outros tenentes legalistas foram ao Forte ver o que acontecia e um deles, o tenente Mário Tamarindo Carpenter aderiu à revolta e lá ficou. Mas tarde, outros sessenta militares que se achavam no Forte do Vigia comunicaram ao seu comandante que estavam aderindo à revolta. Sequestraram um bonde e foram se juntar aos companheiros de Copacabana.

    Iniciou-se a ação armada, primeiro com tiros secos de canhão, apenas para permitir que a população fugisse. Depois, um novo canhonaço, desta vez com carga pesada, direcionado ao QG do Exército, mas que caiu na casa ao lado, matando três civis. O ministro da Guerra, em pessoa telefonou aos rebeldes e repreendeu-os pelo tiro errado que causou vítimas no edifício ao lado. Não devia ter feito isso. Corrigindo a posição do canhão, os rebelados mandaram novo tiro, certeiro, que atingiu em cheio o Quartel General, levando à retirada o ministro e todo o seu Estado Maior.

O mito dos Dezoito do Forte

    Embora vitorioso, o Forte não podia se sustentar por muito tempo e os chefes tinham consciência de que a repressão aniquilaria a todos. O capitão Euclides Hermes saiu para parlamentar com o ministro Pandiá Calógeras. Foi preso. De toda aquele contingente abrigado na fortaleza, que já não era tão segura, a maioria resolveu se retirar, ficando apenas 28 homens: O 1º tenente Siqueira Campos, o 1º tenente Eduardo Gomes, o 2º tenente Newton Prado e o 2º tenente Mário Tamarindo Carpenter, mais soldados, praças e alguns civis.

    A reação legalista começou a se fazer sentir, lenta e pesadamente, sobre o Forte, que se achava cercado e acuado, sem condições de luta contra todas essas forças de terra e de mar, dispostas a manter a ordem legal. Não adiantava prosseguir, pois a derrota era apenas uma questão de tempo.

    Decidiram, então, ir à rua e marchar sobre o Palácio, de peito aberto, fazendo um avanço suicida e inconsequente. Dos 28 que se achavam no Forte, apenas 17 se dispuseram ir ao sacrifício. A Bandeira Nacional foi, então, cortada em 18 pedaços (cortar em 17 era muito complicado). Cada um recebeu uma daquelas tiras e o 1º tenente Siqueira Campos ficou com duas delas. Caminhando pela rua, encontraram um cidadão gaúcho, Otávio Correia, que se juntou ao batalhão. Completaram-se, assim, os 18 que caminharam para a morte e que se transformaram nos heróis do Dezoito do Forte.

    Sem proteção, e sem condições de ataque, pouquíssimos sobreviveram. Dos quatro tenentes, Carpenter morreu na hora, Newton Prado, gravemente ferido, morreu depois. Siqueira Campos, ferido, sobreviveu e ainda participou de outros movimentos, até 1930, quando morreu afogado, após voltar de um encontro com Luís Carlos Prestes. O único sobrevivente foi Eduardo Gomes, que participou do movimento tenentista, na 2ª República tornou-se Brigadeiro do Ar e fundador da Força Aérea Brasileira. Em 1946 foi candidato à Presidência da República e, até 1981, quando faleceu, teve participação ativa na vida política brasileira.

Independência e morte

   Estavam comprometidas de vez as comemorações dos 100 anos de Independência do Brasil, cujas festividades vinham sendo ansiosamente aguardadas nos últimos anos. Não havia mais os cadetes da Escola Militar, com suas fardas imponentes para brilhar na abertura dos desfiles. Parte da jovem oficialidade, e dos soldados que aderiram a ela, se viu envolvida em grossos processos judiciais, que ainda se arrastariam por muitos anos, antes de chegar à anistia geral.

    A grande exposição planejada para o pavilhão na esplanada do Castelo se realizou, mas sem o mesmo brilho. Os desfiles também aconteceram, mas o que se passava pela cabeça daqueles jovens, depois de todos os acontecimentos vividos há pouco mais de um mês? Como se sentia o Governo, incluídos, nessa expressão, também o Senado e a Câmara, caixas de repercussão da opinião nacional, incluídos ainda a Justiça e o Ministério Público, envolvidos desenrolar dos processos contra os jovens militares? E como se sentia, toda ela, a cidade do Rio de Janeiro, depois desses acontecimentos ?

    O movimento de 5 de julho de 1922, marcado pela morte, foi na verdade o nascimento de uma nova mentalidade, dentro e fora da caserna, gerando a continuidade de movimentos revolucionários que enfraqueceram as oligarquias dominantes, minando  a base de sustentação dos governos fortes, os quais, a partir dessa data, tiveram conviver com um poder paralelo que, poucos anos mais tarde, chegaria ao poder.

    Quanto a Epitácio Pessoa, completou seu mandato em 15 de novembro de 1922, sendo, logo após, nomeado juiz da Corte Permanente de Justiça Internacional de Haia, onde permanece até a queda da Primeira República, em 1930. Então, retira-se à vida privada e morre, em 1942, aos 77 anos, vítima do mal de Parkison.

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