O ano de
1922 foi um divisor de águas, dentro da Primeira República. Não que a classe política,
de alguma forma, tenha se reabilitado. Os métodos de ação continuavam os mesmos:
eleições fraudadas, dualidade de poderes, interferências do poder central nas unidades
da federação, decretação frequente de estado de sítio, enfim, os mesmos velhos
costumes que iam passando de um governo para outro, transformando a democracia numa
ficção.
Todavia,
o episódio das cartas supostamente escritas pelo candidato à Presidência, Artur
Bernardes, aviltando o Exército e seus oficiais, coloca em marcha um processo
revolucionário que se estende por oito anos, minando as estruturas da República Velha e
provocando sua queda. Não importa se tais escritos são verdadeiros ou falsos. Vale sim
que o episódio é o combustível de faltava para atear fogo ao sistema social vigente, a
busca de outro que contemple, com novas regras, as multidões condenadas a uma vida de
pobreza, por vezes, indigente. Pelo menos, a intenção confessa era essa.
O mentor
de processo, em seu início, foi o ex-Presidente, marechal Hermes da Fonseca,
entusiasmando a jovem oficialidade e motivando-a a empreender as mais rebeldes e
impensadas revoltas, todas elas derrotadas no campo militar, mas trazendo aos governos um
desgaste político irreparável.. Começou por Pernambuco, espalhou-se para o Rio de
Janeiro, Paraná e Mato Grosso. Ao morrer o marechal, a ação tinha já moto próprio,
gerando um movimento guerrilheiro que, durante dois anos e meio, percorreu o país,
para se autodissolver, quando concluiu que os resultados políticos da operação já
estavam alcançados.
Esses
jovens, que promoveram o processo conhecido como tenentismo, atravessaram os anos vinte e
marcaram sua presença nas décadas seguintes. Dois deles, bem mais tarde, foram
candidatos à presidência da República. Eduardo Gomes tornou-se brigadeiro e coube a ele
fundar a Força Aérea Brasileira. Os nomes de muitos outros nos são familiares e
aparecem, ora ocupando ministérios, ora envolvendo-se em acontecimentos mais recentes da
vida nacional. Vale à pena, pois, conhecer o fascinante trajeto do tenentismo e ver como
ele mudou a história do país.
A
campanha eleitoral
Artur
Bernardes já era candidato à presidência da República quando, a 10 de outubro de 1921,
surgem as cartas a ele atribuídas, tendo como destinatário o líder político mineiro
Raul Soares. Todo o escândalo em torno do assunto não impediu o prosseguimento da
campanha eleitoral, como não evitou, também, que Bernardes ganhasse as eleições, que
se realizaram em 1º de março de 1922, derrotando Nilo Peçanha, seu opositor na Reação
Republicana.
O
restante do ano desenvolveu-se em tumulto generalizado, com revoltas militares e prisões
em massa, conforme já foi contado no capítulo anterior. Dentro desse clima tumultuado é
que se deu a posse, na data prevista, ou seja, em 15 de novembro de 1922.
O
vice-Presidente eleito, Urbano dos Santos, morreu dois meses após a eleição.
Aproveitando-se disso, J.J.Seabra, o candidato a vice pela oposição, vai ao Supremo
Tribunal Federal para pleitear sua posse no lugar do falecido, já que ele foi o segundo
mais votado. Só poderia ser, pois havia apenas dois candidatos... O STF negou provimento
ao recurso e a manobra não logrou êxito. Então, foi eleito para o cargo o deputado
Estácio de Albuquerque Coimbra, que era o líder do Governo na Câmara Federal.
Quem era
Artur Bernardes
Artur da
Silva Bernardes nasceu em 1875 em Viçosa, 150 quilômetros a sudeste de Belo Horizonte.
Formado em Direito, inicia sua carreira pública como vereador em sua pequena cidade e
logo demonstra sua capacidade de comunicação e arregimentação política. Torna-se
primeiro deputado estadual e, depois, deputado federal. Destaca-se como secretário de
Finanças do governo de Minas e acaba se elegendo presidente do Estado.
Sua
projeção em nível nacional se dá com a candidatura à presidência da República,
dentro do esquema São Paulo-Minas Gerais, mas enfrenta uma forte oposição, tanto
durante a campanha, como no decorrer de seu quadriênio. Basta lembrar que, dos 48 meses
de governo, 44 se desenrolaram sob estado de sítio, com a suspensão de garantias
constitucionais.
Dois de
seus opositores morrem logo no primeiro ano de governo: o marechal Hermes da Fonseca,
pivô das revoltas militares, e o tribuno Rui Barbosa. Os outros adversários, quando
pôde, ele não perdeu oportunidade de neutralizá-los, de modo a não atrapalhar sua
gestão. Entre eles, Nilo Peçanha, líder da Reação Republicana, e Borges de Medeiros,
que se manifestou contra sua candidatura.
Formou
seu primeiro Ministério com os seguintes nomes: Relações Exteriores, José Felix Alves
Pacheco, piauiense; Justiça, Interior e Instrução Pública, João Luís Alves, mineiro;
Fazenda, Rafael de Abreu Sampaio Vidal, paulista; Viação e Obras Públicas, Francisco
Sá, cearense, que já havia ocupado o cargo na gestão de Nilo Peçanha; Agricultura,
Indústria e Comércio, Miguel Calmon du Pin e Almeida, baiano; Guerra, general Fernando
Setembrino de Carvalho, gaúcho; Marinha, almirante Alexandrino Faria de Alencar, gaúcho.
Este último veio a falecer em 1926, sendo, então substituído pelo almirante Arnaldo
Siqueira Pinto da Luz.
Nilo
Peçanha e a sucessão fluminense
Assumindo a
Presidência, Bernardes sente sua autoridade contestada no outro lado da baía da
Guanabara, no Estado do Rio de Janeiro, quando são eleitos governador e vice,
respectivamente, Raul Fernandes e Artur Leandro de Araújo Costa, ambos apoiados por seu
opositor na campanha federal, Nilo Peçanha. Os candidatos da simpatia do Presidente eram
Feliciano Pires de Abreu Sodré e Paulino de Souza (governador e vice).
Seguiu-se o de sempre. As eleições foram fraudadas, sob o controle
nilista. Então, instalaram-se duas Assembleias Legislativas, cada uma com sua Comissão
de Verificação de Poderes. A primeira reconheceu e empossou Raul Fernandes, nilista; a
segunda fez a mesma coisa com Feliciano Sodré, bernardista. O advogado do primeiro, Assis
Chateaubriand, obtém um habeas-corpus no Supremo Tribunal Federal. Bernardes encaminha o
caso ao Congresso para que este se incumba de referendar um dos nomes, logicamente, o de
sua escolha.
Então,
como ocorressem distúrbios nas ruas de Niterói, o presidente da República decreta
intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro, dissolve as Assembleias Legislativas e
convoca novas eleições, nas quais teve o cuidado de garantir a vitória de seu
preferido, Feliciano Sodré. Estava anulada no Estado, pelo menos em seu governo, a
interferência política de Nilo Peçanha.
Borges
de Medeiros e a sucessão gaúcha
No Rio Grande
do Sul, é exagero falar em sucessão, pois, desde 1898 que Borges de Medeiros vem sendo o
sucessor dele mesmo, permanecendo continuamente no poder, salvo em raros momentos em que
teve de se licenciar, quando, então era substituído pelo vice, por sinal, nomeado pelo
próprio governador.
Na
campanha sucessória de 1922, entretanto, o caudilho teve de enfrentar um forte opositor,
Assis Brasil, que saiu de seu exílio voluntário no Castelo de Pedras Altas, para dar-lhe
combate franco e aberto, numa aliança popular que recebeu o nome de Aliança Libertadora.
As
eleições se deram em 25 de novembro de 1922. De um lado e do outro a fraude foi
utilizada sem cerimônias. Como conta o escritor gaúcho, Mem de Sá, "todos podiam
votar. Podiam e votavam umas dez vezes, em mesas eleitorais diferentes, em municípios
próximos. Os mortos, quisessem ou não, votavam também, engordando as urnas..."
Venceu
Borges de Medeiros, cujo nome foi, a contragosto, chancelado pela Comissão de
Constituição de Poderes, formada pelos deputados Getúlio Vargas, Ariosto Pinto e José
Vasconcelos Pinto. Como não alcançasse os três quartos do eleitorado, conforme mandava
a Constituição, Borges não titubeou em fazer sua interpretação pessoal da Carta. Para
ele, bastava eliminar os eleitores inscritos, mas que não votaram, que o quorum seria
alcançado. E todos os que lhe eram fiéis disseram Amém.
A
revolução gaúcha de 1923
Desta vez, a
reeleição não foi assimilada pacificamente. Estourou uma revolução, com Assis Brasil
ao centro, mas retirando de suas tocas as velhas raposas que dominavam em várias regiões
do Estado, muitas delas vindas da Revolução Federalista de 1893. Destaca-se o general
Honório de Lemes. Ignorante, semianalfabeto, mas com uma habilidade inata para a guerra,
conhecedor da topografia como nenhum outro, o general tinha seu próprio exército,
formado principalmente de lanceiros, homens que ninguém vencia no combate corpo a corpo
ou à pequena distância, até onde alcançassem suas longas e poderosas lanças. E
depois, a degola dos feridos, conforme tradição gaúcha, para que estes não lhes viesse
interceptar o caminho mais tarde.
O grito
de guerra partiu de Passo Fundo, dado pelo deputado Artur Caetano que, em 24 de janeiro de
1923, enviou um telegrama ao presidente da República, informando que estava se
movimentando com 4.000 revolucionários os quais só deixariam as armas quando Borges, por
sua vez, deixasse o poder.
Essa
guerra civil, como conta Batista Luzardo, "alimentada a churrasco, fumo e mate, e
cuja característica foi a mobilidade das unidades em campanha, teve como chefes supremos
Borges de Medeiros, do lado governista, assessorado pelo comandante da Brigada Militar,
Cel. Afonso Emilio Massot, e por vários oficiais de Exército, instrutores; e do lado
revolucionário, Assis Brasil, na liderança teórica, e os caudilhos Honório de Lemes
(fronteira do sudoeste), Leonel Rocha (região norte), Estácio Azambuja (região
centro-sul), José Antônio Neto (Zeca Neto, região sul). Os comandantes republicanos
foram Firmino de Paula, Flores da Cunha, Juvêncio Lemos, Firmino Paim Filho e Claudino
Nunes Pereira."
Reina a
paz nos pampas
Renascia, assim a luta entre os "blancos", donos do poder
desde a Proclamação da República, e os "colorados", sempre na oposição. A
intervenção conciliatória do governo federal não poderia tardar, pois a guerra, tal
como estava colocada, fazendo renascer ódios antigos, não terminaria "enquanto não
tombasse o último gaúcho".
Primeiro, Bernardes envia para o Rio Grande do Sul o ex-ministro da
Justiça, o potiguar Augusto Tavares de Lira que, estranho ao ambiente sul-riograndense,
não obteve êxito. Depois, segue para o sul o próprio ministro da Guerra, general
Setembrino de Carvalho, este sim, gaúcho, conhecedor do estado de espírito dos
contendores e hábil negociador. O trem do general foi estacionado num desvio em Bagé,
bem distante de Borges e de Assis, para evitar influências indesejáveis em sua missão.
Funcionou como importante elemento de ligação entre o general e as partes, o major
Euclides de Oliveira Figueiredo que, em momento crucial, chegou a salvar as negociações,
discutindo com o governador, sem prévia anuência, algumas cláusulas da minuta,
recusadas por este.
Finalmente, em 14 de dezembro de 1923, após onze meses de luta
sangrenta, foi assinada a "Ata de Pacificação do Rio Grande do Sul", que ficou
conhecida como Pacto de Pedras Altas. Tinha dez cláusulas e estabelecia o seguinte: a) O
governador empossado permanece no cargo até o final do mandato; b) não haverá mais
reeleição; c) o vice-Governador, até então nomeado pelo titular, passará a ser eleito
por voto direto; d) a Constituição será modificada para se adaptar às normas federais.
Finalmente, contempla o acordo com uma anistia geral dos revoltosos, selando a
pacificação do Estado.
Contidas
as lutas regionais, ainda que sem eliminar totalmente ódios e prevenções, os
"chimangos" e os "maragatos", talvez sem o saber, estão prontos para
uma investida maior nos próximos anos, que é a derrubada da Primeira República e a
tomada do Poder Central, onde Getúlio Vargas permaneceria, depois, por quinze anos.
Militares
de 1922 são julgados
Desde as
fracassadas revoltas de 5 de julho de 1922, o processo militar contra os vencidos ia se
encaminhando para um desfecho satisfatório a todas as partes. Os militares revoltosos,
presos em quantidade, foram bem tratados na prisão e, depois de algum tempo, receberam
liberdade condicional, enquanto prosseguia o julgamento. A despeito da ação judicial, o
1º tenente Juarez Távora chegou a ser promovido a capitão, fazendo antever que, uma vez
julgados, as penas seriam brandas.
Os
jovens militares até concordavam com as penalidades previstas em lei, mas esperavam ser
capitulados no art. 111 do Código Penal Militar, com aplicação de pena de prisão por
dois anos, sem perda de patente, e com readmissão à ativa do Exército. Para surpresa
geral, porém, o enquadramento se fez pelo art. 107, sendo eles condenados a três anos,
com expulsão do Exército e cassação dos postos e das divisas.
Nessa
situação, não tendo mais nada a perder, os envolvidos passaram para a clandestinidade,
iniciando uma conspiração contra o governo central, procurando atrair sobretudo as
forças militares e estaduais do sul e sudeste do país. As sondagens se fizeram
inicialmente em Ponta Grossa-PR e Florianópolis-SC, onde se estabeleceu contato com os
sobreviventes da guerra do Contestado (1912-1916).
No Rio
Grande do Sul se achava em atividade normal o capitão Luís Carlos Prestes. Como se
lembra, ele não chegara a participar das revoltas de 1922 por estar doente. Assim, não
envolvido no processo, pediu sua transferência para o Batalhão Ferroviário em Santo
Ângelo, onde servia como engenheiro, mantendo a patente de capitão. Osvaldo Cordeiro de
Farias, também em cômoda situação, servia em uma unidade de Artilharia, em Santa
Maria. Havia articulações por toda a corporação com o objetivo de fazer um levante em
data a ser combinada. Para o sul seguiu, também, Juarez Távora que, em momento oportuno,
regressou a São Paulo, onde se achavam seus irmãos Joaquim e Fernando.
A
revolução de 1924 em São Paulo
Em São Paulo,
no bairro do Pari, próximo aos quartéis da Luz, morava Joaquim Távora. Em sua casa,
reuniam-se os principais líderes da conspiração no Estado, entre eles o major Miguel
Costa, comandante da Força Pública, Newton Estilac Leal, Filinto Müller e Diogo de
Figueiredo, este último, irmão de Euclides Figueiredo, que encontramos há pouco como
emissário no Rio Grande do Sul. Os conjurados mantinham contato com as guarnições de
Pouso Alegre, Três Corações e Itajubá, no sul de Minas. Em situação de suspeita
neutralidade ficava o major Bertoldo Klinger, que achava prematuro desencadear um processo
revolucionário apenas com os elementos de que dispunham.
Estávamos em março e o levante em São Paulo deveria ocorrer em 5 de
julho de 1924, dia em que se comemorava o segundo aniversário das revoltas de 1922. Cabia
ao Paraná e Santa Catarina deter o avanço de tropas legalistas pela serra do Mar,
especialmente as que fossem desembarcadas no porto de Paranaguá. O Rio enfrentaria, no
próprio local, as forças governistas, impedindo seu avanço. O Rio Grande do Sul
esperaria seu momento para se manifestar revoltoso. Bloqueios seriam feitos, ainda, na
subida de Santos e no vale do Paraíba, neutralizando-se, assim, de todos os lados, os
reforços que os legalistas pretendessem enviar à capital paulista.
Cabia a
São Paulo o peso maior das manobras, mas algumas pedras surgiram no caminho. O 4º
Regimento de Infantaria de Quitaúna resistia em aderir ao plano. Por outro lado, o major
Klinger, até então neutro, dava sinais de impaciência, podendo inesperadamente
tornar-se um delator, fazendo fracassar a conspiração. Nos outros flancos, tudo parecia
em ordem. O major Miguel Costa comandaria o Regimento de Cavalaria da P.M., apoiado pelo
4º Batalhão de Cavalaria em Santana.
O 2º
Grupo de Artilharia e o 4º R.I., ambos em Quitaúna (zona oeste da Capital paulista),
avançariam até Pinheiros, ficando mais próximos da cidade. Seriam tomados depois o
Palácio dos Campos Elíseos, sede do governo estadual, as estações da São Paulo
Railway e da Sorocabana, ambas no bairro da Luz, a poucos quarteirões da cadeia pública
e dos quartéis da Força Pública. Ao mesmo tempo, se tomaria o telégrafo nacional, no
centro da cidade, e a estação da Central do Brasil, no Brás. O vale do Paraíba se
rebelaria com os 5º e 6º R.I.s, em Lorena e Caçapava, fechando o caminho entre São
Paulo e Rio.
Um novo
nome aparece agora, o do general Isidoro Dias Lopes, já reformado, até então
desconhecido do grande público e até mesmo de alguns setores mais informados, como a
imprensa. Após encontro com ele, Júlio de Mesquita Filho, do jornal O Estado de São
Paulo o descreve como uma "figura pequenina e enxuta de um velho vestido à paisana e
protegido contra o frio, que era intenso, por um sobretudo preto com a gola levantada e
trazendo na cabeça um chapéu de pano preto com a aba descida sobre os olhos. Vinha
fazendo um cigarro de palha. Ao ver-nos, levantou a cabeça, deixando-nos ver dois olhos
verdes e faiscantes de vivacidade e malícia".
Como
lugar-tenente, estava o major Miguel Costa, comandante da Força Pública do Estado de
São Paulo. Outro nome de prestígio, o major Klinger, permaneceu numa duvidosa
neutralidade.
Os
azares do levante
Ao final
da noite de 4 de julho, o general Abilio de Noronha, comandante da 2ª Região
Militar achava-se no Consulado Americano, participando das comemorações do
"Independence Day", quando tomou conhecimento da rebelião a estourar à zero
hora do dia 5. De imediato, dirigiu-se aos quartéis da Força Pública no bairro da Luz
e, chegando antes que os revoltosos, assumiu o comando dos soldados que ali estavam, aos
quais se acrescentava os que chegavam para a mudança de turno.
No Corpo
Escola, o general encontrou o capitão Joaquim Távora, ao qual deu ordem de prisão,
originando um bate-boca entre os dois. Chega, então o general Isidoro Dias Lopes,
comandante da Revolução, que prende o general Abílio e seu Estado Maior fazendo cessar,
momentaneamente, a reação ao movimento. Todo o restante das tropas estava nas ruas
cumprindo, cada uma, a tarefa que lhe foi entregue.
Falhou,
entretanto o bloqueio das tropas legalistas e estas conseguiram se instalar ao leste da
Capital, iniciando o bombardeio à cidade. Numa das missões a que fora incumbido, o
capitão Joaquim Távora saiu gravemente ferido, morrendo dias após. Assim, logo ao
início, a revolução perde um de seus mentores e peça importante no comando.
Sendo
difícil atingir a todos os agrupamentos revoltosos, as forças legalistas, a partir de 12
de julho, passaram a bombardear a população civil, de forma a estabelecer um estado de
pânico, bem como assestaram contra o parque fabril, na zona leste da Capital, visando
destruí-lo. O objetivo era o de provocar a rendição dos revolucionários, obrigando-os
a encerrar a ação para não ver a perda inútil de vidas humanas e a destruição do
patrimônio econômico da cidade.
A
retirada dos civis
Quem viu
as imagens, sempre impressionantes, de retirantes num país em guerra, pode fazer ideia do
que se seguiu. Milhares de pessoas apavoradas caminhavam pelas ruas, transportando como
podiam crianças, velhos e doentes, bem como carregando os poucos pertences que podiam
levar. Esses infelizes seguiam para o outro lado da cidade (zona sul e zona oeste),
invadindo bairros mais distantes, onde os residentes procuravam dar-lhes abrigo e
conseguir o alimento, a essa altura difícil, pela falta de abastecimento.
O
governador Carlos de Campos retirou-se para Guaiauna (Central do Brasil), lugar seguro e
até confortável ao leste da cidade, onde reuniu-se às tropas governistas. O prefeito
Firminiano Pinto permaneceu em seu posto. Juntou-se ao presidente da Associação
Comercial, José Carlos de Macedo Soares e a outros nomes ilustres de São Paulo, tentando
de organizar a sociedade, quanto possível, no socorro emergencial aos desabrigados,
fugitivos dos próprios lares e atirados à rua em pleno inverno.
A tática das
forças legalistas contra a cidade deu certo. Para não causar maiores danos à
população civil, e para evitar que todo o parque industrial fosse destruído, os
revoltosos não tiveram outra solução a não ser a retirada das tropas, o que ainda
pôde ser feito em boa ordem. Controlando parte das ferrovias (Sorocabana e São Paulo
Railway), as tropas seguiram para Itirapina e Bauru. Depois, dispersando-se por vários
itinerários, reuniram-se outra vez às barrancas do rio Paraná, apresando vários
vapores e conduzindo o pessoal, rio abaixo, para a foz do rio Iguaçu, e depois para
Guaíra.
Estamos,
agora, em 26 de setembro de 1924. Ali, nas margens do rio Paraná, os revoltosos aguardam
a definição das lutas que vão se desenrolar no sul do país, de cujo andamento depende
a estratégia a ser traçada para os meses futuros.
Sublevação
no Rio Grande do Sul
No
início de outubro, chegam a Foz do Iguaçu vários elementos de ligação, vindos
do Rio Grande do Sul, entre eles, o tenente Siqueira Campos, um dos sobreviventes dos
Dezoito do Forte; Alfredo Canabarro, representando o general Honório de Lemes, de quem
já ouvimos falar na guerra civil do ano anterior; e Dr. Anacleto Firmo,
representando o lider da Aliança Libertadora, Assis Brasil. Ficou decidido que Juarez
Távora partiria incógnito para o Sul, a fim de estabelecer os contatos
com a resistência civil e, principalmente, na área militar, onde tinha bons
relacionamentos.
Na
madrugada de 29 de outubro de 1924, iniciou-se o movimento revolucionário,
simultaneamente nas guarnições de Uruguaiana, São Borja, São Luís e Santo Ângelo,
acompanhadas depois por Alegrete e Cachoeira do Sul. Em Uruguaiana, chegou, depois, o
general Honório de Lemes, a quem foi entregue o comando da praça.
A luta
prosseguiu por alguns meses, com algumas vitórias e uma série de insucessos, de tal
sorte que, ao findar-se o mês de março de 1925 os rebeldes contavam com um pequeno
contingente, para lutar contra as tropas legalistas, com efetivo dez vezes maior e com
provisão regular de munição e de víveres. Não havia, pois, condições de se
prosseguir na luta, e a decisão foi a de bater em retirada, subindo em direção a Sete
Quedas e Foz do Iguaçu, para encontrar-se com os remanescentes da revolução paulista.
Essa decisão foi tomada num encontro, em São Borja, de três lideranças: o capitão
Luís Carlos Prestes, o tenente Siqueira Campos e o tenente João Alberto. Sendo Prestes o
mais graduado entre os três, coube a ele assumir o comando.
O
encontro das duas frentes
Iniciou-se,
pois, a marcha em busca do novo destino. Em verdade, seria fácil às tropas legalistas
liquidar de vez com os rebeldes, tanto mais que alguns prisioneiros conseguiram fugir e,
ao se apresentarem de volta, deram ao comando legal várias informações sobre o
contingente revoltoso, que, sabemos, era pequeno, estava cansado e praticamente sem
munições.
Seguindo
ao novo destino, um fator influiu a favor dos rebeldes. As tropas legalistas eram do
Exército e este, como se sabe, tinha sérias restrições ao presidente Artur Bernardes,
desde o episódio das cartas apócrifas. Cumprindo sua obrigação, os legalistas atacaram
os focos revolucionários, extinguindo a revolução no sul, mas não pretendiam ir muito
além disso. Apenas, vez por outra, fustigavam os retirantes, quando poderiam simplesmente
massacrá-los. Com isso, deram a eles a oportunidade de uma retirada sem maiores
complicações.
Juntas
as forças de São Paulo e dos Estados sulinos, especialmente do Rio Grande do Sul, ficou
decidido empreender, a partir daquele momento, uma luta de movimentos usando a tática de
guerrilha, mais adequada em face da desproporção de recursos materiais e humanos. Aos
revoltosos, daqui em diante seria difícil renovar homens, armamentos e munição.
Surge a
Coluna Prestes (abra
o mapa)
O general
Isidoro Dias Lopes, comandante da revolução, tinha já idade avançada para dirigir
operações de guerrilha, combinando-se, então, que ele se internaria em um país vizinho
(o local escolhido foi Paso de los Libres, Paraguai), sendo o comando efetivo entregue
então a Miguel Costa. Isidoro permanecia comandante geral mas sem participar da ação
direta.
As
patentes militares dos participantes, a partir deste momento, foram alteradas com
"promoções" para estabelecer uma hierarquia de comando dentro da tropa, e foi
nomeado um Comando Maior, assim constituído: general Miguel Costa, comandante da
Divisão; coronel Luís Carlos Prestes, chefe da Divisão; tenente-coronel Juarez Távora,
sub-chefe; major Paulo Krügger, assistente; capitão Geri Aldo, assistente; capitão
Lourenço Moreira Lima, ajudante-secretário.
Estamos,
então, em 13 de maio de 1925. Mais tarde, objetivando eliminar dissidências entre os
comandados, especialmente, desentendimentos entre gaúchos e paulistas, a Divisão foi
separada em quatro destacamentos, assim comandados: 1º Destacamento, tenente-coronel
Cordeiro de Farias; 2º Destacamento, tenente-coronel João Alberto; 3º Destacamento,
tenente-coronel Siqueira Campos; 4º Destacamento, tenente-coronel Djalma Dutra.
Inicia-se, então, o deslocamento, em direção ao centro-oeste e
nordeste do país, num movimento que duraria até 3 de fevereiro de 1927. Pela sua grande
habilidade tática, Prestes logo se destacou entre os demais. Pela primeira vez na
história da República, um movimento revoltoso apaixonou a opinião pública, que,
geralmente, permanecia alheia a esses acontecimentos. Muitas lendas surgiram, misturando a
verdade histórica e o mito e dificultando distinguir um do outro. A guerrilha ficou
conhecida como Coluna Prestes e seu mentor, Luiz Carlos Prestes recebeu o cognome de
"O Cavaleiro da Esperança".
A longa
marcha pelo Brasil
A
quilometragem feita nessa marcha, contando-se desde a partida do Rio Grande do Sul,
passando pela junção das tropas no rio Paraná, e indo até a desmobilização é
bastante discutida. O historiador José Maria Bello fala em 10 mil quilômetros, o general
Miguel Costa estabelece 16 mil quilômetros e Prestes, mais entusiasmado, chega a falar em
26 mil quilômetros. Mais cautelosos, fiquemos com o primeiro número, que já é uma
caminhada e tanto...
Com
algumas reservas, pode-se estabelecer o seguinte roteiro, desde o sul: Rio Grande do Sul,
Paraná, Paraguai, Mato Grosso, Goiás, norte de Minas, Bahia, Goiás novamente, Maranhão
(atravessando o atual Estado de Tocantins), Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba,
Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Bahia, Piauí, Goiás, e, finalmente, Mato Grosso, onde a
Coluna se dissolveu, buscando asilo na Bolívia. De lá, eles emigram, aos poucos, para a
Argentina, onde seria mais fácil arrumar trabalho para garantir a sobrevivência.
Notas à
margem
Impossível narrar todos os acontecimentos dessa jornada. No nordeste,
o Governo pretendeu conseguir o apoio do Padre Cícero, o qual, acompanhando a euforia da
população, recusou-se a combater os revoltosos. No norte de Minas, a Coluna atraiu as
forças legalistas para as margens do rio São Francisco. E, enquanto estas esperavam que
os guerrilheiros atravessassem o rio para dar-lhes combate, estes já haviam retornado
pelo mesmo caminho, fazendo sua travessia no ponto original.
Em
Arraias-MT, Siqueira Campos entrou em uma igreja, a pretexto de rezar e, usando um papel
amarelado e gasto, desenhou um "mapa do tesouro guardado nos alicerces do
prédio" E colocou-o em um canto qualquer, certo de que, um dia. algum fiel o
encontraria e não resistiria à tentação de derrubar o templo para descobrir a fortuna.
Em Carolina-MA, o bacharel Lourenço Moreira Lima, cartorário, se entusiasmou de tal
maneira que resolveu queimar todos os processos de cobrança de impostos atrasados,
recebendo aplausos dos devedores.
Próximo
a Teresina-PI, Juarez Távora é aprisionado por forças legalistas, ficando
definitivamente fora da campanha. Foi encaminhado para a prisão em um quartel do Rio de
Janeiro, onde tentou uma fuga, sendo recapturado. Foi, então, com dezenas de outros
detidos, colocado em um navio, que ficou à deriva, esperando por novas
instruções. Finalmente, estabeleceu-se como destino final a ilha da Trindade, a mais
isolada de todas as prisões. Entre os companheiros de prisão estava o 1º tenente
Eduardo Gomes, sobrevivente dos Dezoito do Forte.
Washington Luiz assumia a presidência da República. No Rio Grande do
Sul, estourava outra revolta, liderada por Alcides e Nelson Etchegoven, no Regimento de
Artilharia Montada de Cruz Alta, logo sufocada. O ambiente fervilhava por toda parte.
Começara a contagem regressiva para o fim da República Velha.
Um
governo sem obras
Costumava-se dizer na época que Artur Bernardes conseguiu ser o pior
dentre todos os Presidentes que passaram pela República. Por certo não sabiam tudo o que
viria depois... Talvez tivesse razão Epitácio Pessoa quando, em uma reunião de cúpula,
meses após a eleição de 1922, deixou implícita sua opinião de que a renúncia de
Bernardes antes da posse poderia ser uma solução para os males que, naquele momento,
afligiam o Brasil.
Com
efeito, afora a tremenda agitação que cercou todo o quadriênio, não se consegue
encontrar nada de importante que marque a passagem de Artur Bernardes pelo poder. Apenas
ligeiras modificações na Constituição de 1891, restringindo o uso do habeas corpus e
aumentando-lhe o poder presidencial. O que não evitou que, em quase todo o período de
governo, vigorasse um permanente estado de sítio, com a suspensão de garantias
constitucionais. Estabeleceu férias de 15 dias por ano para os trabalhadores mas, na
ausência de uma legislação trabalhista consistente, nada impedia o empregador de
despedir, sem ônus, o empregado que estivesse chegando no tempo de aproveitar esse
direito.
Em 1927,
elege-se senador. Em 1934 faz-se deputado federal para uma Câmara que Getúlio Vargas
fechou três anos depois. Volta a se eleger em 1946 e em 1954 para, em seguida exercer uma
função burocrática na Comissão Nacional do Petróleo, onde morre, logo após, em 1955.
Não deixou saudades.
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