CAPÍTULO ONZE

O CANTO DO CISNE

WASHINGTON LUÍS - 1926-1930

 

    "Governar é construir estradas". Com esta frase, Washington Luís sintetiza sua passagem pela Presidência do Estado de São Paulo, entre 1920 e 1924, quando, findo o mandato, transferiu o poder para Carlos de Campos (Este último viria enfrentar, pouco depois, a revolução comandada pelo general Isidoro Dias Lopes, conforme já foi contado no Capítulo 10).

    Bem antes, em 1921, pouco depois de empossado governador, Washington já tinha seu nome cogitado para a sucessão presidencial de 1926. De acordo com a política do café com leite, em 1914 coube a Minas Gerais ocupar a presidência da República, com Venceslau Brás. Em 1918 foi eleito um paulista, Rodrigues Alves, que morreu sem assumir. Então, o mineiro Delfim Moreira, Presidente em exercício, convocou novas eleições. Os Estados de São Paulo, Minas e, agora, também o Rio Grande do Sul, pelejaram para ter a primazia da indicação. Para baixar a temperatura, que se achava em ponto de fervura, foi acertado o nome do paraibano Epitácio Pessoa, como consenso.

    Tudo isso já foi comentado em capítulos anteriores. Falta acrescentar que, em 1921, para concordar com o lançamento do mineiro Artur Bernardes, os caciques paulistas exigiram que, desde aquele momento, se firmasse um compromisso, aceitando o nome do então governador Washington Luís como candidado à sucessão presidencial de 1926. Com este arranjo, foi possível saber, com uma antecipação de quatro anos, quem seria o príncipe eleito para a sucessão de um governo que ainda nem tomara posse, e nem  sequer tinha começado a campanha eleitoral.

    Chegamos, enfim a 1926. Washington Luís elegeu-se sem enfrentar qualquer oposição. Rui Barbosa, o tribuno das grandes campanhas civilistas havia morrido, e assim também Pinheiro Machado, cuja influência, antes, se fizera sentir em todos os cantos do país. Nilo Peçanha, por sua vez, fora anulado politicamente pela ação do presidente Bernardes. Desta maneira, no pleito ocorrido em 1º de março de 1926, venceu a chapa única, com Washington Luís para Presidente e Fernando de Melo Viana (mineiro) para vice.

    A posse ocorreu em 15 de novembro de 1926. Se não houve aplausos, ocorreu pelo menos alívio geral com a saída de Artur Bernardes, cujo poder plenipotenciário não era mais suportado por ninguém, seja na sociedade civil, na política ou nos quartéis. Seu governo havia sido de tal forma desastrado que qualquer que viesse a substituí-lo, por pior que fosse, deveria trazer uma mudança de ares. Usando uma expressão popular, com a saída de Bernardes, tirou-se da sala o velho e cheiroso bode. Com isso o ar se tornou mais respirável e até dava para suportar as goteiras e rachaduras que comprometiam esse velho casarão chamado Brasil.

Quem era Washington Luís

   Washington Luís Pereira de Sousa nasceu em Macaé, Estado do Rio, em 1869, mas toda sua atividade política esteve ligada a São Paulo. Fez seus primeiros estudos no Colégio Pedro 2º, do Rio de Janeiro, transferindo-se depois para a capital paulista, onde cursou a Faculdade de Direito do largo de São Francisco. Terminado o curso, tornou-se promotor público em Barra Mansa, Estado do Rio, para voltar, mais tarde, a São Paulo, montando um escritório de advocacia na cidade de Batatais. Iniciou a carreira política como vereador e, depois, como prefeito. Exerceu cargos públicos no governo estadual e, em 1914, elegeu-se prefeito de São Paulo. Finalmente, em 1920, assume o governo do Estado, de onde sai para a presidência da República.

    Tinha o porte de um nobre. Vestia-se bem, aparecia em público com freqüência e dava ao seu governo um toque de autoridade aristocrática, uma autoridade que não admitia ser contestada e que também não delegava seus poderes a ninguém. Essa independência começa a se notar já na formação do primeiro Ministério, escolhido por intuição própria, sem interferências políticas.

    Estes foram os auxiliares nomeados: Relações Exteriores, Otávio Mangabeira; Justiça, Interior e Instrução Pública, Augusto Viana de Castelo; Fazenda, Getúlio Dorneles Vargas; Viação e Obras Públicas, Victor Konder; Agricultura, Geminiano Lira de Castro; Guerra, general Nestor Sezefredo de Passos; Marinha, Arnaldo de Siqueira Pinto da Luz. 

Consertando as finanças públicas

   O novo Presidente saiu com uma vantagem sobre seus antecessores, pois teve a oportunidade de iniciar o mandato governando de fato. Nenhuma pendência ficara do quadriênio anterior. Não havia dualidade de Assembléias Legislativas, nem disputas judiciais para a conquista do poder nos Estados. Mudanças na Constituição, formuladas por inspiração de seu antecessor, limitaram o uso do habeas-corpus, de que se lançava mão para defender cargos ou posições.

    O primeiro ato do novo Presidente foi suspender o estado de sítio. Depois, voltou sua atenção para o eterno problema nacional, que é o descontrole das finanças públicas. Epitácio Pessoa (1918-1922) realizara obras por todo o país e, de quebra, mesmo que a contragosto, sustentara os preços do café, dentro do estabelecido pelo Convênio de Taubaté, provocando uma sangria nos cofres públicos. Artur Bernardes (1922-1926) passou os quatro anos de seu governo combatendo movimentos revoltosos, o que ocasionou despesas com armas e munições, bem como com deslocamento de tropas de um ponto a outro do território. O resultado foi que, ao fim de tudo, mais uma vez, o país se achava endividado e inadimplente.

    Com Getulio Dorneles Vargas no Ministério da Fazenda, iniciou-se, então, uma política contencionista para equilibrar o volume de moeda em circulação com as reservas de ouro que lhe serviam de lastro. Foi aprovado no Congresso Nacional o projeto de reforma monetária proposto pelo governo. Em substituição ao padrão real foi criada uma nova moeda, o cruzeiro, cuja circulação começaria quando se tivesse concluído o processo de estabilização.

    Entretanto, vários fatores contribuíram para deter o andamento do plano. Um deles foi proporcionado pelo próprio ministro da Fazenda, Getúlio Vargas, que se afastou do Ministério para concorrer ao governo de seu Estado, o Rio Grande do Sul, onde as mudanças na Constituição puseram fim aos 28 anos de reinado de Borges de Medeiros. Substituído por Francisco Chaves de Oliveira Botelho, prosseguiu-se na aplicação do plano até que, em 1929, sofremos as repercussões do "crack" na Bolsa de Nova York. Essa quebra originou depressão nos Estados Unidos, com reflexos em todo o mundo, atingindo particularmente o Brasil, que dependia, e muito, da importação, tendo como produto de troca quase que tão somente o café.

    O equilíbrio financeiro veio a ser alcançado muitos anos depois, já na Segunda República, após um longo período de crise, que levou a população a um empobrecimento ainda maior, trazendo desemprego em massa e contenção dos salários. Assim, a nova moeda, criada neste quadriênio, só viria a circular, de fato, em 1943.

Café em crise

   A economia nacional sempre se ressentiu de uma política global, com planificação adequada, capaz de criar, dentro do país, uma estrutura suficiente para enfrentar as idas e vindas da economia mundial. Os bons preços encontrados no mercado internacional para nosso produto básico de exportação, o café, criavam a ilusão de uma segurança duradoura e, a cada crise, o governo federal acabava por sustentar o prejuízo dos produtores, às custas do resto do país.

    Essa política de sustentação do café, feita pelo governo central, foi extinta em 1924, quando Artur Bernardes transferiu para os Estados a responsabilidade de estabelecer, cada um por sua conta, um sistema garantidor de preços. São Paulo, principal produtor, criou, então, o Instituto do Café do Estado de São Paulo.

    Nesta nova entidade, vieram a se repetir os mesmos erros do passado. Os produtores, a cada ano, estabeleciam as cotas de exportação e o excedente era estocado. Para garantir a manutenção desses estoques, o Instituto fazia empréstimos no exterior e esse dinheiro, repassado ao Estado, financiava os agricultores, como se o produto tivesse sido, de fato, vendido.

    A mágica era engenhosa, mas ilusória, como todo o trabalho de prestidigitação. A crise mundial de 1929 veio acabar com a farra. Cessou o empréstimo feito por bancos estrangeiros. Os preços, conseguidos, não pelo abastecimento do mercado mas pela especulação, repentinamente, despencaram ao seu nível mais baixo. Como se não bastasse a queda na demanda, naquele momento, tínhamos retidas em estoque 22 milhões de sacas de café, estoques que, é bom lembrar, estavam sendo mantidos com empréstimos bancários.

    Rapidamente, a situação se deteriorou, atingindo os Bancos, repercutindo no comércio e na indústria, causando primeiro demissões em massa, depois falências, depois mais demissões. Era o caos que se instalava, desta vez, sem que se conseguisse enxergar uma luz ao fim do túnel..

    Esse momento, embora sofrido, e até por causa disso, serve como um tratamento de choque para a nação. Habituadas a assistir passivamente os erros e abusos de governos e/ou de classes dirigentes, as vítimas saem agora para a reação, culpando o poder público por todos os males de que padece o país. Surge um sentimento generalizado de revolta, que se espalha e contamina a todos. A crise polariza as correntes de opinião e as centraliza num só pensamento. É o material combustível que se acumula e que, a uma centelha, pode-se inflamar, causando grande incêndio. É nesse estado de espírito, perigoso mas desafiante, que encontramos o Brasil, ao final da década de vinte.

O navio segue seu curso

   As oligarquias permanecem refratárias aos problemas nacionais. O assunto em pauta agora, com a antecedência costumeira, é a sucessão presidencial. O nome que desponta é o do governador de Minas, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, descendente do patriarca José Bonifácio. Professor, advogado, jornalista, com uma carreira política respeitável, ele apresenta quase todos os qualificativos para assumir a presidência da República. Só há um problema, um único problema, mas que se revela o ponto fraco de seu brilhante curriculo. As idéias econômicas de Antônio Carlos seguem o caminho oposto às do Presidente, e a conjuntura, delicada e grave, não aconselha mudar um programa de saneamento que vem dando certo.

    Washington Luís mostra-se inclinado, pois, a escolher um outro paulista, de sua inteira confiança, que possa garantir a continuidade de sua política. As atenções voltam-se para o governador de São Paulo, Júlio Prestes, filho do coronel Fernando Prestes, que havia sido vice-Governador na gestão de Carlos de Campos. O governador tinha, pois, tradição política e estreita convivência com a administração pública. O problema consiste em que ele era paulista e a vez era dos mineiros.

    A decisão foi considerada por Washington Luís uma questão fechada, não sendo passível de entendimentos que contemplassem outras alternativas. Então, por imposição, foram homologadas as candidaturas do paulista Júlio Prestes de Albuquerque, para Presidente, e do baiano Vital Henriques Batista Soares, para vice. Este último já havia sido deputado federal e senador da República e era, no momento, governador de seu Estado.

    Embora não desejassem um enfrentamento direto com o poder central, vários próceres políticos mineiros se fechavam em torno do nome de Antônio Carlos. Em último caso, até aceitariam outra solução alternativa, buscando-se nomes em outros Estados, mas sempre sob orientação e chancela de Minas Gerais.

Leite com churrasco

   Em 17 de junho de 1929, reúnem-se no Hotel Glória, no Rio de Janeiro, de um lado, o deputado José Bonifácio de Andrada e Silva, irmão do governador Antônio Carlos e líder da bancada mineira na Câmara Federal; de outro, o deputado João Neves da Fontoura, representante do governador Getúlio Vargas, e líder da bancada gaúcha na Câmara Federal. Devidamente autorizados por seus respectivos caciques, os dois firmam um pacto político nos seguintes termos:

    a) se o presidente da República indicar o nome de Antônio Carlos, os gaúchos o aceitarão sem restrição; se o Presidente indicar um outro mineiro que não Antônio Carlos, os gaúchos aceitarão, desde que a vice-Presidência caiba ao Rio Grande do Sul; se o Presidente se fixar em nome de outro Estado qualquer, o Rio Grande do Sul lançará sua própria candidatura de oposição, na pessoa de Getúlio Vargas ou na de Borges de Medeiros, comprometendo-se Minas Gerais a aceitar irrestritamente qualquer um dos dois nomes.

    Este acordo ficou conhecido como o Pacto do Hotel Glória e, embora firmado pelos dois líderes de bancada, tinha o pleno assentimento das lideranças políticas nos respectivos Estados, dispostos que estavam a fazer oposição ao governo central, se este insistisse no propósito de impor um nome paulista para a sucessão.

Surge a Aliança Liberal

   Formalizada a candidatura oficial, formou-se logo um bloco de oposição, reunindo as correntes contrárias num enorme saco de gatos que foi batizado como Aliança Liberal. Este bloco lançou as candidaturas do governador gaúcho Getúlio Vargas para Presidente e do governador paraibano João Pessoa, sobrinho de Epitácio, para vice. A Aliança surgiu no Rio de Janeiro em 5 de agosto de 1929, numa grande concentração, à qual compareceu o que havia de mais expressivo na oposição à candidatura oficial.

    A nova frente reunia o apoio de correntes as mais diversas. Por Minas Gerais, tínhamos os ex-Presidentes Venceslau Brás, Epitácio Pessoa e Artur Bernardes; o tenentismo se fazia representar com Juarez Távora, João Alberto, Eduardo Gomes, Juraci Magalhães e outros; no Rio Grande do Sul, "blancos" e "colorados", pela primeira vez, estavam juntos: Borges de Medeiros, João Neves da Fontoura, Osvaldo Aranha, Flores da Cunha, Lindolfo Collor e Batista Luzardo, entre outros, apoiavam seu conterrâneo.

    Claro está que cada um deles tinha motivação própria, tratando-se de uma mistura ocasional, feita ao sabor dos acontecimentos, sem a química que a transformasse numa substância homogênea. Num processo de decantação, todos os elementos apareceriam, de novo, cada um formando sua própria camada. Se Minas Gerais apoiava a candidatura gaúcha e dispensava até a indicação da vice-Presidência, que foi entregue a um paraibano, isso não quer dizer que se contentavam, os mineiros, com um segundo plano na política nacional. Esperavam apenas por um momento para se projetar novamente no cenário com o destaque a que Minas tinha direito.

    Por outro lado, pode parecer estranho que os tenentes se entregassem, repentinamente, às oligarquias que ousaram combater a ponto de sacrificar sua carreira, seu futuro e sua tranqüilidade. É que, por detrás da candidatura oficial, os líderes tenentistas, tanto os que se estavam no país quanto os exilados, retomavam a conspiração revolucionária. Juarez Távora, por exemplo, já fora da prisão, de onde havia novamente fugido, recebeu do general Isidoro Dias Lopes um comissionamento na mesma patente e, nessa condição, articulava a conspiração no norte e nordeste, aguardando a senha para sublevar os quartéis militares.

    O mesmo acontecia no sul do país, até com o conhecimento do governador e candidato a Presidente, Getúlio Vargas, o qual, entretanto, oficialmente, se manifestava contra a rebelião armada, jurava fidelidade ao presidente da República, e proibia os seus correligionários políticos de fazer, nos palanques, qualquer propaganda subversiva. A candidatura Vargas, assim, era uma cortina a encobrir o processo revolucionário que estava em andamento e que, no momento oportuno, deveria eclodir.

Um comício na Esplanada

   A plataforma de governo do candidato deveria ser lida por Getúlio Vargas em recinto fechado, na Capital Federal, com a presença das classes políticas e empresariais que lhe estavam dando apoio. Não havia intenção de se fustigar o presidente da República com uma manifestação popular diante de suas próprias barbas. A capital fora escolhida porque ela era o caldeirão político onde fervilhavam as idéias e criavam-se os fatos políticos.

    A tolice do governo central foi tentar impedir que o ato político acontecesse dentro de seu território. Os locais públicos dependem de alvará de funcionamento e de outras facilidades concedidas pelo governo. Assim, se tornam dependentes do poder público, não lhes sendo conveniente desagradar àqueles que, em última instância, devem recorrer. Foi assim que, por toda a cidade do Rio de Janeiro, não se encontrou um lugar fechado onde realizar a reunião. Decidiu-se, assim, fazer o comício em local aberto, sendo escolhida para a concentração a esplanada do Castelo, local que fora recentemente remodelado para as comemorações do 1º Centenário da Independência.

    Noticiado o comício para o dia 1º de janeiro de 1930, grande multidão se concentrou nas calçadas para dar vivas a Getúlio e João Pessoa, que seguiam em um mesmo carro. Ao chegar na Esplanada o povo que seguia a comitiva se juntou a outra multidão que lá se encontrava para aplaudir o futuro presidente da República.

    Foi assim que um ato solene e restrito se tornou em uma manifestação popular jamais vista por essa geração. Acontecimento semelhante, no Rio de Janeiro, só no longínquo ano de 1820, quando o povo, reunido em frente ao palácio real, exigia que D. João VI assinasse a Constituição Espanhola até que fossem convocadas as cortes de Lisboa para preparar a primeira Constituição da Revolução Liberal portuguesa.

A "Tomada da Bastilha"

   Washington Luís respeitava profundamente Getúlio Vargas que, por sua vez, se dizia fiel ao Presidente, a despeito de estar candidato pela oposição. Havia até um acordo secreto, pelo qual um e outro se comprometiam a respeitar os territórios políticos de cada um. Durante a campanha, Washington proibiria o candidato oficial de visitar o Rio Grande do Sul e, por sua vez, Getúlio não visitaria o Estado de São Paulo.

    Acordos existem para serem rompidos. Convidado por jovens políticos paulistas, Vargas arriscou-se a fazer uma visita protocolar a São Paulo, para ser recebido por líderes oposicionistas, em manifestação singela e reservada. Escolheu-se uma praça, ao lado do Pátio do Colégio, onde não caberia mais de uma centena de pessoas.

    O candidato chega de trem em 3 de janeiro de 1930 tendo, no desembarque, a sua  primeira surpresa. A praça fronteiriça à Estação do Norte achava-se tomada por uma multidão, esperando pelo candidato. Contrafeito, Getúlio atravessa o aglomerado, conseguindo entrar no carro que o levaria ao centro da cidade, assim que o povo se dispersasse. Nada. Ao contrário, o povo seguia entusiasmado, fechando a marcha atrás da comitiva.

    A grande e imprevista passeata seguiu pela avenida Rangel Pestana, o parque D.Pedro e a ladeira general Carneiro, num percurso de aproximadamente dois quilômetros, durante o qual outras pessoas abandonavam as casas ou deixavam as calçadas, juntando-se ao cortejo, que ia se engrossando à medida que chegava a cidade.

    Qual não foi o susto dos políticos reunidos na pracinha, quando viram aquela massa humana, subindo a ladeira em sua direção, logo atrás da comitiva. Pouco acostumados ao contato com o povo, não tinham a menor idéia das reações que se seguiriam ao encontro das duas procissões.

    Chegando, finalmente ao local, com os políticos na praça e o povo tomando a ladeira, alguém tentou inutilmente, pronunciar um discurso de saudação. Outros procuraram, também, discursar, sem qualquer resultado. A multidão, uníssona e constante, gritava uma palavra de ordem, surgida de momento e sem ensaio prévio: "Nós queremos Getúlio... Nós queremos Getúlio".

    Estava registrada a consagração popular da candidatura Getúlio Vargas, de forma imanente, sem qualquer coordenação política e, mesmo, à revelia dos políticos. A campanha fugia às mãos das lideranças, menos às de Getúlio, que tinha um sexto sentido para perceber o nascimento de uma nova corrente, firmada no apoio popular. Tal manifestação de apoio, que se prolongou até sua morte, recebeu o nome de "Queremismo".

    Dentro do Queremismo, Getúlio construiu uma nova maneira de se fazer política, conhecida por "Populismo", que consistia em manipular a opinião pública, dizendo ao povo aquilo que ele quer ouvir e criando a impressão de que o governo está trabalhando com finalidade principal de atender aos seus anseios. No correr dos tempos outros líderes políticos seguiriam a mesma tática, mas não como Getúlio, que, somando seus dois governos, ficou no poder central por quase duas décadas, sendo odiado por muitos, mas venerado pela classe trabalhadora, cognominado por esta como o Pai dos Pobres.

Nas eleições, o de sempre

   Em 1º de março de 1930 ocorreram as eleições e os políticos tiveram sua última oportunidade de falsear os resultados através da fraude. De um e outro lado, repetiu-se, com grande desfaçatez, a operação mistificadora, com os votos "clonados", as atas falsificadas, e os resultados proclamados sem o menor escrúpulo. Era a República destruindo-se a si mesma em atos de corrupção, de pretensa esperteza e de completa deterioração moral.

    O resultado, já previsto, foi a eleição de Julio Prestes. Na oposição, Getúlio se conformara com as regras do jogo e chegara até a aceitar oficialmente a derrota quando, em 26 de julho de 1930 uma notícia percorre as linhas telegráficas, de norte ao sul, colocando em comoção o país inteiro: João Pessoa, o companheiro de chapa de Getúlio fora assassinado em Recife!

    Não se sabia ainda as causas do crime, que tinha motivação na política regional, e com desdobramentos de um crime passional. A primeira impressão causada nos políticos e na opinião pública era que se tratava de contenda ligada à campanha presidencial. Depois, a comoção, transformada em revolta contra o governo federal, foi suficientemente explorada pelos opositores para acelerar o processo revolucionário.

Revolução em marcha

    No sul, os preparativos para a revolução iam adiantados, com Getúlio no centro da conspiração, muito embora ele, com extrema habilidade, mantivesse a aparência de ordem, prosseguindo no seu dia-a-dia como governador do Estado. Para comandar o levante, foi trazido um revolucionário de última hora, o tenente-coronel Góis Monteiro, totalmente estranho ao movimento tenentista. No nordeste, estabelecido em Paraíba, Juarez Távora, com uma patente comissionada de general, fazia as articulações por toda a região.

    A data finalmente acertada era 3 de outubro de 1930. O início estava marcado para as 17h30, já que o expediente nas repartições se encerrava às 17h00, diminuindo a movimentação nesses locais. Por um mal entendido na troca de telegramas cifrados, Juarez Távora entendeu que o sul havia aceito sua sugestão para iniciar o movimento só na madrugada do dia 4, causando com isso uma defasagem de horário que quase põe a perder o levante, por eliminar o efeito surpresa.

    Em Porto Alegre, o movimento sedicioso começou com a Guarda Civil, tomando de assalto o Quartel General da 2ª R.M. e prendendo seu comandante, o general Gil de Almeida. No norte, ainda que com atraso, foram tomadas as praças de Recife e a capital da Paraíba, espalhando-se a rebelião, em seguida, para o restante da região.

    Por ser mais apropriado, este assunto será comentado na segunda parte deste trabalho, dedicado à Segunda República, ou República Nova. Por ora, basta deixar registrado que nos dois flancos, do sul e do nordeste, a revolução se espalhou rapidamente, surpreendendo os próprios líderes. No norte, o comando militar era de Juarez Távora, enquanto que a liderança civil era do Dr. José Américo. No Sul, a revolução seguiu para o Rio de Janeiro comandada pelo general Góis Monteiro e a liderança civil incontestável era a do governador Getúlio Vargas.

    Quando as tropas sulistas se aproximavam do entroncamento de Itararé, onde deveria ocorrer a mais sangrenta de todas as batalhas, no confronto com as tropas legalistas ali acantonadas, chega a notícia surpreendente: Washington Luís renunciara à presidência da República, assumindo o poder uma Junta Militar, chamada de Junta Governativa, formada pelos generais Tasso Fragoso e Mena Barreto, e pelo almirante Isaias de Noronha.

    Encerra-se aqui a primeira parte da História do Brasil Republicano. A nova fase que se inicia muda radicalmente a maneira de se fazer política, alterando os costumes e modificando os métodos empregados. Isso não quer dizer que a nova República seja melhor que o período que a antecedeu. Apenas mudaram-se os hábitos e deslocou-se o eixo de influência, contudo o povo permaneceu afastado das decisões. Na primeira havia corrupção eleitoral, na segunda não havia eleições. A peça teatral intitulada "Um Tiro no Peito" cunhou uma fala reveladora da cidadania cassada: "O povo entra na História pela porta dos fundos". É isso aí.

FIM DA PRIMEIRA PARTE

 
 

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