O presidente
Washington Luís (1926-1930) tinha tudo para ser um monarca. Fosse ele nascido de uma
daquelas dinastias que dominavam a Europa do Século 18, por certo faria boa figura entre
os déspotas esclarecidos. Tinha a finura de um nobre, a inteligência viva e o
raciocínio límpido. Mas era também inflexível em suas decisões. Uma vez determinado o
caminho a seguir para a equação de um problema, não vacilava, não admitia
interferências, não negociava.
Foi com
esse personalismo, próprio de seu temperamento, que ele, no momento em que julgou
oportuno, assumiu a decisão de apresentar, como candidato à sucessão presidencial, o
governador de São Paulo, Júlio Prestes de Albuquerque. por achá-lo em condições
de prosseguir a política econômica iniciada em seu governo, que vinha corrigindo
distorções deixadas pelos governos anteriores.
A
manutenção do plano econômico precisava ser feita com todo rigor para não por a perder
todos os sacrifícios já feitos. Isso tornava-se ainda mais importante, naquele momento,
porque a crise mundial, desencadeada pela quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, atingiu o
Brasil de forma dramática, fechando as portas dos Bancos estrangeiros para novos
empréstimos e paralisando os embarques de café, nosso produto básico de exportação.
Todavia,
sua insistência em considerar questão fechada o nome de Julio Prestes
causou descontentamentos e ocasionou o surgimento de uma candidatura de
oposição, que apresentou, para Presidente, o nome de Getúlio Dorneles
Vargas, governador gaúcho, e para vice, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque,
governador paraibano, ambos contando com o apoio de Antônio Carlos Ribeiro de Andrada,
governador de Minas Gerais. Esse movimento de oposição tomou o nome de Aliança Liberal
e os aliancistas se tornaram a base civil do futuro movimento
revolucionário.
A partir
daí, o ambiente torna-se tenso. Os partidários de uma e outra candidatura fustigam uns
aos outros, gerando violentas discussões que, não raro, descambam para o enfrentamento
físico. Sendo a Câmara Federal uma caixa de ressonância do que acontece nas ruas, não
é de estranhar que tais lutas repercutam no plenário e nos corredores do parlamento, com
acusações mútuas e pedidos de satisfações pela parte que se sente atingida. A
paixão leva ao descontrole, e o descontrole leva à tragédia.
O
problema do quorum na Câmara Federal
Hoje, a facilidade do transporte aéreo permite que deputados e
senadores viajem semanalmente aos seus Estados de origem para um contato com as bases,
retornando à capital federal no início de cada semana. Naquele tempo, isso não era
possível, pois o transporte se fazia principalmente por trem, raramente por rodovia, e,
nos Estados mais longínquos, até por navio. Assim, por razões de ordem prática, o
período legislativo se iniciava somente no mês de maio, para encerrar-se em 31 de
dezembro.
Outro detalhe
característico de nossos parlamentos: no mundo inteiro, a obstrução dos trabalhos é
uma arma das minorias, que se valem desse recurso para retardar a ação da maioria,
geralmente governista, obrigando-a buscar um entendimento com a parte mais fraca. No
Brasil é diferente. É a maioria que, pelas mais diversas razões, usa o recurso da
obstrução.
O final de
1929 veio encontrar o Congresso, sobretudo a Câmara Federal, na efervescência de uma
campanha eleitoral exaltada, que era levada ao plenário na forma de inflamados discursos.
Para evitar que a oposição usasse a tribuna como palanque eleitoral, os governistas
obstruíam a abertura das sessões, negando o quorum para a realização dos trabalhos.
Era comum estar o plenário cheio, mas a contagem de votos atingir apenas 20 ou 30
deputados, aqueles que responderam a chamada.
Os
populares que acompanhavam a campanha de Getúlio Vargas logo se aperceberam disso e
passaram a ir, todas as tardes, à Câmara. Como as galerias estavam interditadas ao
público, a oposição vinha, então, às escadarias, onde realizava comícios, atingindo,
com sua retórica, os candidatos governistas. Era a rotina. A oposição falava, o povo
aplaudia os mocinhos e vaiava os bandidos. Não faltavam os agitadores de plantão,
que, no meio da plateia, provocavam confusão e desordem. Na sacada, em tom de deboche,
alguns deputados governistas sempre acompanhavam o ato.
Assassinato
do deputado Sousa Filho
No dia
26 de dezembro de 1929, num desses comícios, o filho do deputado Luís Simões
Lopes, em inflamado discurso, fez algumas referências irônicas e desairosas sobre o
deputado governista Sousa Filho, arrancando aplausos do público. O parlamentar, que se
achava na sacada, ouviu e não gostou.
Mais
tarde, quando os oposicionistas se recolhiam ao interior do prédio, Souza Filho
interpelou o moço, agressivamente, dirigindo-lhe uma série de impropérios. No ardor da
mocidade, Simões Lopes (filho) rebentou sua bengala nas costas do agressor que, em
revide, sacou de um punhal.
Numa
reação instintiva, Simões Lopes (filho) deu alguns passos atrás mas, tendo sido
interceptado em seu caminho, sabe-se lá por quem, caiu, ficando à mercê do agressor,
pronto para fincar-lhe o punhal. Nesse momento, então, o velho deputado Simões Lopes,
acorrendo ao socorro do filho, sacou de um revolver e deu um tiro certeiro e fulminante no
desafeto. Na confusão, os deputados aliancistas Plínio Casado e Adolfo
Bergamini retiraram do local o agressor e o levaram para lugar seguro.
No dia
seguinte, pela primeira vez em muito tempo, houve quorum na Câmara Federal, para a
sessão de homenagem ao deputado assassinado, cujo velório acontecia no salão nobre.
Apesar de ameaçados, os aliancistas também compareceram, já que Souza Filho era um
grande adversário, mas um bom amigo de todos eles. Em nome da Aliança Liberal, discursou
o deputado Lindolfo Collor, lamentando o acontecimento e enaltecendo a personalidade do
falecido.
O
trágico acontecimento arrefeceu os ânimos da campanha no edifício da Câmara Federal,
mas não diminuiu as atividades de um e outro lado para fazer de seu candidato o escolhido
das urnas. Cinco dias depois, encerra-se o período legislativo e cada um viaja ao seu
Estado para acompanhar as eleições, que ocorreriam em 1º de março de 1930.
O
episódio que mudou a História
Realizadas as eleições, ganha o candidato governista, sem que
houvesse maior contestação pelos adversários. Pelo contrário, Getúlio aceitara a
derrota como normal no jogo do poder e até reconhecera a vitória de Júlio Prestes.
Aparentemente, tudo se encaminhava para a posse, em 15 de novembro de 1930, até
que um incidente da maior gravidade veio tumultuar o processo e desencadear uma série de
acontecimentos, que culminaram com a queda de Washington Luís e o fim da República
Velha.
No dia
26 de julho de 1930, é assassinado o governador da Paraíba e ex-candidato à
vice-Presidência da República, João Pessoa. O mandante era seu desafeto, João Dantas,
um dos caciques da política paraibana. Sua morte trouxe um forte abalo nos meios
políticos e junto ao povo, em todo o país. Cresceu, então, um sentimento de ódio e
revolta contra o governo federal, por se imaginar tratar-se de um crime ligado às
recentes eleições presidenciais. Em realidade, esse desenlace, que já era previsto,
tinha motivos passionais e, também, raízes na política regional, contrariada pela
administração estadual.
A
República de Princesa (Paraíba)
Ao
término do mandato do governador paraibano, João Suassuna, em 1926, João Pessoa assume
o cargo e constata que os cofres do Estado estão vazios, o pagamento a fornecedores não
vem sendo feito, o funcionalismo não recebe seus proventos há algum tempo e o Estado se
encontra-se em situação pré-falimentar.
Com
energia e determinação, o novo governador começa um processo de saneamento financeiro,
combatendo a sonegação e obtendo, assim, de imediato, um desafogo que lhe permitiu
cobrir parte dos salários atrasados e programar o início do pagamento dos
fornecedores. Todavia, essa fúria arrecadadora desagradou aos caciques políticos
do Estado que, como os marajás da antiga Índia, não se achavam na obrigação de
recolher impostos ou, pelo menos, não pretendiam fazê-lo com tamanha religiosidade.
Com
isso, o clima de tensão entre o governador e as forças político-econômicas do Estado
manteve-se tenso durante todo o governo. O ponto de explosão foi atingido em 1929, quando
João Pessoa, já candidato à vice-presidência da República, baixou um decreto que
impedia, no Estado, a reeleição de deputados federais, limitando, assim, a ação de
seus opositores. Como se tal não bastasse, abriu uma odiosa exceção ao seu primo,
Carlos Pessoa, que, este sim, poderia recandidatar-se.
A
sudoeste da Paraíba ficava a pequena cidade de Princesa, feudo do coronel José
Pereira, que controlava, com seu poder e seus jagunços, todo o oeste do Estado, de cima a
baixo. Fraudando o resultado das urnas, mantinha ele não só um elenco de deputados
estaduais como, também, controlava uma pequena bancada na Câmara Federal, conhecida como
os deputados de Princesa. Atingido frontalmente em seus interesses, o chefe
político protesta junto ao governador, sem resultado.
Sentindo-se prejudicado com o resultado das eleições, João Pereira
se rebela e, em 1º de junho de 1930, assina o Decreto nº1,
proclamando a Independência de Princesa, que se considera, a partir de então, separada
da Paraíba. Por consequência, inicia-se uma guerra civil dentro do Estado, que o governo
legal tinha dificuldades de reprimir, pois o ministério da Guerra lhe recusava a compra
legal do material bélico necessário, enquanto seu opositor conseguia armas e munições
no mercado do contrabando.
Enfrentando
João Dantas
Outro chefe
político de prestígio, era João Dantas, que dominava parte do sertão paraibano e tinha
parentesco com o ex-Governador João Suassuna. João Dantas se sentia agastado e
diminuído, e o governador João Pessoa nada fazia para melhorar seu relacionamento com
este poderoso adversário, pelo contrário, não perdia oportunidade para atingi-lo. Foi
assim que, em uma diligência policial, sob um pretexto qualquer, mandou prender
familiares de Dantas, entre eles várias mulheres, provocando indignação, ódio e um
sentimento de vingança.
Algum
tempo depois, a polícia recebeu um comunicado de suposto assalto no escritório de João
Dantas e, comparecendo ao local, constatou que não havia ninguém. Mesmo assim, arrombou
a porta e apreendeu livros, armas e documentos. Muitos dos papéis recolhidos eram
particulares e confidenciais e, entre eles, haviam algumas cartas denunciadoras de um
romance entre João Dantas e a poetisa Anaíde Beiriz, com uma linguagem bastante
escandalosa para a época.
Melhor
é ter bons inimigos do que maus amigos. Pois não é que pessoas ligadas ao Governador,
desejando agradá-lo, fizeram publicar uma dessas cartas na primeira página do Jornal
Oficial do Estado? O romance, até então velado, passou a ser do conhecimento
geral, causando transtornos a João Dantas e obrigando Anaídes a mudar-se para
Pernambuco, onde a repercussão, imaginava-se, seria menor. Mesmo assim, para João
Dantas, tratava-se de uma questão de honra, e como tal tinha que ser tratada. Era só
esperar o momento, que não tardaria.
Confronto
com o governo federal
Voltemos, outra vez, à campanha eleitoral. Sendo candidato a
vice-Presidente pela oposição, João Pessoa não teve escrúpulos em barrar a propaganda
do candidato governista, Julio Prestes, dentro do Estado da Paraíba. Assumiu a direção
dessa campanha o desembargador Heráclito Cavalcanti. Em represália, o governador baixou
um decreto afastando-o de suas funções públicas, sob a alegação de que, ao adotar uma
corrente política, deixou ele de ter a isenção requerida a um juiz. O Presidente da
República, então, manda um telegrama ao desembargador, transmitindo-lhe sua
solidariedade, sendo rebatido pelo governador.
Houve
então as eleições federais, em 1º de março de 1930 e, como se esperava, João Pessoa
conseguiu reverter a seu favor a nova bancada paraibana, graças ao artifício já
mencionado em tópico anterior. Pelo menos aparentemente ele tinha ganho, porque, dentro
do sistema montado pelo presidente Afonso Pena (1906-1910), a votação de cada candidato
deveria ser submetida logo após a uma Comissão de Verificadora de Poderes,
para analisar cada nome, antes de confirmá-lo eleito.
Essa
comissão, formada pelo Presidente da antiga legislatura, mais dois de seus deputados,
analisou com especial carinho os deputados eleitos pelos três Estados que
comandaram a oposição ao governo federal, ou seja, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e
Paraíba. Foram, então, cortados e substituídos todos aqueles nomes que o governo
federal considerou inconvenientes, alterando a seu favor as bancadas dos três Estados.
Coube à
Paraíba uma atenção maior, dado as provocações havidas durante a campanha. Desse
Estado foram cortados praticamente todos os aliados de João Pessoa, enquanto se
considerava legitimamente eleitos os deputados da República de Princesa.
João Pessoa estava duplamente derrotado: perdera a eleição presidencial,
na qual formava a chapa com Getúlio Vargas, e perdera sua bancada na Câmara Federal, com
o corte de todos os seus correligionários.
O
assassinato de João Pessoa
Foi nesse
clima que, em 26 de junho de 1930, João Pessoa viajou a Recife, ao que se sabe, para
visitar um amigo doente e, ao mesmo tempo, manter alguns contatos políticos. Ao fim da
tarde, encontrava-se na Confeitaria Glória, tomando sorvete em companhia do jornalista
Caio de Lima Cavalcanti, quando um desconhecido pára à sua frente e descarrega uma arma
a queima-roupa, fulminando-o instantaneamente.
O
desconhecido, bem como um acompanhante, foram prontamente dominados e presos. O crime,
soube-se depois, teve como mandante João Dantas, que foi recolhido à prisão, onde,
meses depois, apareceu morto. Estava completada a tragédia, em que um crime de natureza
passional se misturava a todo um emaranhado político, envolvendo tramas, violência,
fraude, muita esperteza e, por fim, a justiça feita com as próprias mãos.
Pela
precariedade do telégrafo, a notícia levou algumas horas para se espalhar pelo país,
mas, ao chegar a cada ponto, causava comoção e revolta, criando sempre a idéia de crime
político, ligado às eleições presidenciais. Especialmente na Paraíba, o povo foi às
ruas à caça de adversários de João Pessoa. Muitos tiveram tempo de fugir, outros foram
duramente atingidos. Quase todos tiveram suas casas saqueadas e, depois, incendiadas.
Em São
Borja, no outro extremo do país, conta Alzira Vargas, filha de Getúlio, então com 15
anos: "Uma noite, fomos ao cinema com papai e mamãe, como de costume. Noite de 26 de
julho. Mal havia começado o filme, acenderam-se as luzes e, do palco, alguém comunicou
ao público a dolorosa notícia: 'João Pessoa foi assassinado!' (...) A indignação foi
geral. Nada mais podia impedir a marcha da Revolução. Toda a nação estava
chocada."
A
questão da Presidência já tinha se encerrado, a partir do momento em que Getúlio
Vargas reconheceu sua derrota e a eleição de Júlio Prestes. Agora, reacendiam-se os
ânimos. Os cronômetros eram novamente ajustados e recomeçava, pela ultima vez, a
contagem regressiva para o início da Revolução.
A marcha
da Revolução
Verdade seja
dita, se o assassinato de João Pessoa trouxe novo alento aos revolucionários, na
realidade a conspiração já vinha sendo desenvolvida há bom tempo, antes mesmo de se
realizarem as eleições, cujos resultados, já se sabia, seriam, como sempre foram,
favoráveis ao governo. A derrota nas eleições, com as fraudes do sistema, seria apenas
uma bandeira da oposição, pretextando a renovação dos costumes políticos.
Vejamos
como andava a conspiração. Durante o trajeto da Coluna Prestes (1924-1927) Juarez
Távora, que fazia parte de seu Estado Maior, foi detido no Piauí e, em seguida, remetido
ao Rio de Janeiro, onde ficou prisioneiro, primeiro na ilha de Trindade e, depois, na ilha
das Cobras, de onde conseguiu fugir, viajando incógnito para Montevideu onde devia
encontrar-se com exilados da Coluna. Nessa ocasião, obteve do general Isidoro Dias Lopes
um comissionamento na patente de general e, nessa condição, tratou de chegar
ao nordeste, onde começou as articulações com as forças políticas e militares da
região. Seria ele o comandante da operação no nordeste.
Em Minas
Gerais, havia o apoio furtivo do governador Antônio Carlos, que não queria se
comprometer com um movimento de contestação ao governo federal, antes de ter segurança
de que a ação pudesse trazer um resultado eficaz. Em 7 de setembro de 1930,
Antônio Carlos transfere o governo de Minas a Olegário Maciel, que havia sido eleito, ao
mesmo tempo, presidente do Estado e senador da República. Assim, após assumir o governo
de Minas, Olegário Maciel viaja para o Rio de Janeiro para tomar posse no Senado e, nessa
ocasião, mantém contato com um dos articuladores da revolução, o gaúcho João Neves
da Fontoura, ao qual empenha a palavra de que dará, em seu Estado, toda a cobertura que
se fizer necessária.
No Rio
Grande do Sul estava o núcleo principal da sublevação. Primeiro, porque ali o
governador continuava sendo Getúlio Dorneles Vargas; depois, porque o Estado contava com
um bom número de revolucionários de movimentos anteriores; por fim, porque nos
países limítrofes, Argentina e Uruguai, se encontravam asilados os participantes do
movimento de 1924 e da Coluna Prestes. Aliás, próprio Luís Carlos Prestes
continuava vinha sendo cogitado para assumir o comando da nova revolução, caso em que
seria comissionado, também, na patente de general.
Imprevistos
enfraquecem o comando
No decorrer da
conspiração, que, como dissemos, começara bem antes da morte de João Pessoa, dois
acontecimentos inesperados surpreendem os tenentistas e vem enfraquecer as
articulações na área militar. Embora sem comprometer o movimento em seu conjunto, esses
fatos trouxeram um enfraquecimento na liderança e um abalo junto aos tenentes
comprometidos com a revolta.
No
início de maio, ainda exilado na Argentina, Luís Carlos Prestes comunica sua intenção
de aderir ao comunismo, partindo para a luta revolucionária contra todo o sistema
capitalista e não apenas ao governo Washington Luís. Segundo seu próprio depoimento, a
longa marcha pelo Brasil, comandando a Coluna Prestes, trouxe-lhe a
convicção de que não era possível montar um novo governo, apoiado nas mesmas
oligarquias que controlam cada parte do país.
Preocupados com o rumo em que seguiam as coisas, os
tenentes Siqueira Campos e João Alberto viajam para Buenos Aires e, no
dia 7 de maio de 1930, participam, eles e outros exilados, de uma reunião com Luís
Carlos Prestes, em que este apresenta seu Manifesto Socialista, que iria
divulgar nos próximos dias. Em vão tentaram seus companheiros fazê-lo desistir de seu
propósito e, como ninguém aderisse a suas idéias, a reunião tornou-se de todo inútil
para ambos os lados.
No dia
9, pretendendo voltar rapidamente a Montevideu, os dois tenentes conseguiram um
espaço no avião do Correio Aéreo, que decolou perigosamente, à noite, sem
instrumentos, com cinco pessoas a bordo, mais a carga normal de correio. Não se sabe qual
a causa, o avião caiu nas águas geladas do mar, já em território uruguaio. Dos cinco
passageiros, somente João Alberto conseguiu alcançar a praia. Siqueira Campos sentiu o
choque térmico provocado pela água gelada, teve cãibras e não conseguiu se movimentar,
morrendo afogado.
Perderam-se, pois, de uma só vez, dois elementos de proa na causa
revolucionária, um por deserção e outro por acidente. Prestes foi o artífice da Coluna
que percorreu o Brasil. Siqueira Campos participara de quase todos os movimentos, desde a
Revolta do Forte de Copacabana, em 1922, a qual comandou, em companhia de Eduardo Gomes.
O
levante no Rio Grande do Sul
Depois
de várias datas marcadas e desmarcadas, ficou finalmente decidido que o movimento se
iniciaria no dia 3 de outubro de 1930 às 5h30 da tarde, após o fechamento das
repartições civis e militares, quando o movimento nesses locais se tornava
insignificante. Por uma falha de comunicação, Juarez Távora, no nordeste, entendeu que
a marcha se iniciaria à zero hora do dia 4 e esse mal entendido quase pôs a perder a
revolução.
Neste
ponto, entra em cena um revolucionário de última hora, o tenente-coronel Pedro Aurélio
de Góis Monteiro, cuja biografia assinala uma constante mudança de posições, segundo
suas próprias conveniências. Em 1930, sentindo a fraqueza do governo Washington Luís,
aderiu aos revolucionários; Em 1932, lutou contra a Revolução Constitucionalista, em
São Paulo; Em 1937 aderiu ao golpe de Estado que restabeleceu plenos poderes ao ditador
Getúlio Vargas; em 1945, aderiu a outro golpe, que derrubou o mesmo Getúlio. Neste
momento, porém, em que o movimento revolucionário ia ter início, sua presença era
indispensável, pela patente militar, que lhe dava supremacia de comando.
De sua
parte, o governador Getúlio Vargas cuidava de manter um jogo duplo. No palácio, mantinha
o ritmo de trabalho normal, fazendo com que a rotina parecesse inalterada, tanto no
gabinete, quanto nos quartéis das policias estaduais. Paralelamente, utilizava seus
auxiliares diretos na articulação do movimento, entre eles, o próprio vice-Governador,
Osvaldo Aranha. E, para completar, dava ao comandante da 3ª Região Militar, general Gil
de Almeida, a segurança de estar cuidando da ordem, não havendo qualquer fundamento os
boatos sobre uma possível revolução.
No dia 3
de outubro de 1930, a data fatal para o levante, um acontecimento inesperado facilitou os
preparativos finais. No dia anterior, falecera o grande herói das revoluções de 1893 e
1923, o general Honório de Lemes. Como era de se esperar, os jornais deram destaque e
repercussão a esse fato, desviando, assim, a atenção da população e das autoridades.
Não houve sequer desconfianças quando os alunos das escolas de Porto Alegre foram
dispensados das aulas mais cedo que de costume.
No
palácio, Getulio despachava como se fosse mais um dia de trabalho. Nos bastidores, tudo
estava preparado para o levante. A não ser que surgisse algum outro fato novo e
inesperado, a articulação, muito bem cuidada, oferecia todas as condições de
sucesso.
O Cavalo
de Tróia
Já há algum
tempo, para iludir a vigilância militar, a Guarda Civil do Estado, todas as tardes, ao
encerrar seu expediente, entrava em forma, desfilando em frente ao Quartel General e
prestando continência ao comandante da 3ª Região Militar, general Gil de Almeida.
Diariamente, repetia-se a mesma rotina. Por volta das cinco horas,
encerrava-se o expediente. Às cinco e quinze, pontualmente, o general, de sua janela,
acompanhava a passagem do desfile e se tranqüilizava. Se algum movimento estivesse sendo
articulado em Porto Alegre, por certo que não teria a colaboração do governo estadual.
Naquele
dia 3 de outubro de 1930, no mesmo horário de sempre, as tropas passaram em frente ao QG,
só que, enquanto o primeiro grupo continuava o desfile, o segundo saiu de forma, tomou de
assalto a portaria e invadiu o quartel, aprisionando o General-Comandante.
Em
seguida, ao sinal dado por um foguete, ocorreu o levante nos demais quartéis, que foram
tomados sem maiores dificuldades. Por todo o Rio Grande do Sul, assim como em Santa
Catarina e no Paraná, a revolução obedeceu o horário determinado. Isso só não
aconteceu no nordeste, onde o comando estava nas mãos de Juarez Távora.
Relógios
fora de sincronia
Como no sul, a
articulação também seguia seu curso no norte e nordeste. Ao aproximar-se a data fatal,
já havia um comprometimento, maior ou menor, de quartéis na Bahia, Sergipe, Alagoas,
Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí, Maranhão, Pará e Amazonas.
Toda a região estava, pois fechada e parecia não haver maiores problemas.
Em 25 de
setembro de 1930, Juarez Távora recebeu um telegrama cifrado de Osvaldo Aranha (Rio
Grande do Sul), informando que o início do levante estava marcado para 3 de
outubro, às 5h30 da tarde. A data era ótima, pois nesse dia estavam escalados para o
serviço em suas unidades militares os tenentes Agildo Barata e Juraci Magalhães, ambos
comprometidos, e elementos importantes do esquema na Paraíba, onde se achavam
Juarez e o comando revolucionário.
O
problema estava no horário, pois dificilmente se conseguiria sublevar os quartéis em
plena luz do dia, sendo conveniente que o início acontecesse na calada da noite. Juarez
pretendia iniciar o levante na madrugada do dia 4 e propôs que a data fosse mudada
também no sul do país, todavia foi infeliz na redação do telegrama, que saiu nos
seguintes termos: "ciente pt peço licença iniciar marcha dia 4".
Aí estava o erro. Iniciar o levante é uma coisa, iniciar a marcha é outra totalmente
diferente. A autorização do sul veio, mas referindo-se à alteração do horário para a
movimentação das tropas, que já deveriam estar sublevadas no final da tarde!
Ao fim
do dia 3, havendo chegado ao Recife, onde pretendia acompanhar o início das operações,
Juarez Távora foi surpreendido com a notícia de que o levante já se iniciara no sul e
que o governo federal expediu um alerta a todos os Estados para se prevenirem contra
qualquer alteração de ordem, colocando as tropas em prontidão.
Daí por
diante, tudo correu mais por conta da capacidade de avaliação e iniciativa de cada
comandante. Por sorte, as reações se fizeram atropeladas, mas a tempo certo. Em Recife,
foi destruída a Central Telefônica cortando as comunicações. Depois, retornando a
Paraíba, Juarez encontrou as tropas rebeladas e o povo às ruas. Dos outros Estados,
foram chegando, aos poucos, notícias animadoras sobre o resultado das operações. A
primeira batalha estava vencida.
Do sul,
a marcha para o Rio de Janeiro
No sul,
como vimos, tudo caminhou como o previsto e as praças foram tomadas sem resistência. Em
seguida, formaram-se comboios ferroviários, que subiriam em direção a São Paulo e,
depois, seguiriam ao Rio de Janeiro, para a tomada do poder. De Porto Alegre, as tropas
saíram com o tenente-coronel Góis Monteiro, o governador Getúlio Vargas e o
vice-governador, João Neves da Fontoura. Somente Osvaldo Aranha, teve de ficar, assumindo
o Governo estadual.
De
Uruguaiana, divisa com a Argentina, parte o Destacamento Batista Luzardo. Como
a cidade fica a sudoeste do Rio Grande do Sul, o comboio fez um itinerário diverso, sem
passar em Porto Alegre, ficando de encontrar-se com os demais num entroncamento
ferroviário, já no Estado de São Paulo. O trem seguiu, pois, por Alegrete, São
Gabriel, Santa Maria, Tupanciretã, Júlio de Castilhos, e Cruz Alta, até atravessar a
fronteira com o Paraná, por Iraí.
Parando
na estação em Santa Maria, segundo conta Luzardo, houve uma invasão ao trem pela
entusiasta garotada do Colégio Santa Maria, que queria participar da guerra. Foi um custo
para retirar os alunos e convencê-los de que sua missão, naquele momento era estudar.
Ainda assim, reiniciado o trajeto, descobriu-se mais alguns clandestinos, que foram
deixados na próxima estação, para repatriamento. O trajeto das duas
caravanas, tanto a de Getúlio quanto a de Luzardo, era interrompido, em cada parada, por
multidões que se postavam nas estações, de lenço vermelho ao pescoço, saudando os
revolucionários.
Em Santa
Catarina, no próprio dia 3 de outubro, o general Felipe Portinho havia dominado a
situação a favor dos rebeldes. Blumenau foi instituída capital provisória do Estado,
assumindo, como interventor, o tenente-coronel Arnoldo Mancebo. No Paraná, a luta foi
vencida sob o comando do major (agora comissionado como general) Plínio Tourinho, que há
meses vinha cuidando da articulação e, em 3 de outubro, colocou-se à frente dos
revoltosos. Assumiu o governo o seu irmão, general (da reserva) Mário Alves Monteiro
Tourinho.
Restava, pois,
a grande batalha que deveria ocorrer em São Paulo, no entroncamento de Itararé, onde o
governo federal concentrara a maior parte de suas tropas, para barrar o avanço da frente
revolucionária. A Batalha de Itararé, todos já sabiam, seria a mais dura e sangrenta
dentre todas aquelas de que já participaram os tenentistas, já diremos por
que.
Do
nordeste, a marcha para o sudeste
Voltemos ao
nordeste, onde a situação já era de quase completo domínio, após a perigosa
oscilação causada pela desinteligência quanto aos horários de início do levante. A
esta altura, as notícias que chegavam ao comando indicavam que os revolucionários
dominavam a maior parte da região, devendo-se partir, assim, para o trabalho de
consolidação.
Juarez
Távora, no comando geral do nordeste, nomeia o dr. José Américo de Almeida como
interventor da Paraíba e Chefe do Governo Provisório no norte e nordeste, estabelecendo,
assim, as bases civis do movimento. Isto posto, passaram a ser nomeados os interventores
nos Estados onde a luta estava encerrada, quais sejam: Alagoas, Ceará, Maranhão,
Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe.
Os
interventores, à falta de normas definidas em lei, passaram a governar
discricionariamente. A única orientação, de caráter geral, estava no telegrama enviado
pelo comandante militar, Juarez Távora, ao comandante civil, José Américo, nestes
termos: "(...) Desaconselho dissolução imediata do poder judiciário que,
nesta fase transitória, deverá continuar funcionando normalmente, apenas se reservando o
Executivo Revolucionário o direito de discutir suas decisões contrárias ao espírito da
revolução. Todo Poder Legislativo deve ser considerado inexistente, desde a data do
início da Revolução, como dupla medida, de moralização e economia. Saudações.
General Távora."
Mais
coerente, o interventor do Maranhão, de uma vez, extinguiu o Poder Judiciário, já que,
na prática, ele deixa de existir se as suas decisões tiverem de ser submetidas à
aprovação ou não do interventor.
O beijo
contido por trinta anos
Um
registro à margem da História. Juarez Távora e José Américo seguiam, por trem, de
Recife para Maceió, a fim de resolver problemas surgidos, e, como o tempo era curto,
havia ordem para manter a estrada de ferro desobstruída, a fim de que o carro-de-linha
pudesse transitar sem paradas.
Todavia,
ao aproximar-se da estação de Quipapá, na zona da mata, divisa de Pernambuco com
Alagoas, uma pequena multidão se aglomerava sobre o leito ferroviário, obrigando o
carro-de-linha a parar, para não ocasionar um múltiplo atropelamento. Irritado, Juarez
desce do veículo mas, antes de qualquer reação, uma jovem professorinha, sai da
multidão e diz: "General Juarez, como prova de gratidão do povo desta terra ao
libertador do norte, quero somente dar-lhe um beijo!"
Beijo?
Aquilo era uma revolução, não era uma maratona! Imediatamente o comandante
revolucionário mandou que a linha fosse desobstruída, retomou seu lugar no carro e
prosseguiu a viagem, deixando para trás toda uma população desapontada.
O
incidente ficou martelando em sua cabeça por um longo tempo. Trinta anos depois, tendo de
fazer uma viagem oficial ao nordeste, procurou saber se a professorinha de
Quipapá ainda existia. Existia, sim, morava na mesma cidade e ainda lecionava numa escola
primária.
Foi
assim que, no dia 16 de agosto de 1971, o general Juarez Távora compareceu ao Grupo
Escolar de São Benedito, distrito de Quipapá e, na presença de todos os professores e
alunos da escola, prestou uma homenagem à professora Maria José Ramos, entregando-lhe
uma "Rosa de Prata", condecoração oferecida pelo comando da Escola Superior de
Guerra. A homenagem, na pessoa da professorinha, era estendida "a
todas as professoras primárias que se dedicam à benemérita tarefa de abrir os primeiros
caminhos à inteligência de nossas crianças, no interior do Brasil".
A
Batalha de Itararé
No sul,
os comboios prosseguiam em direção ao Estado de São Paulo, com encontro previsto no
entroncamento de Itararé, divisa entre São Paulo e Paraná, onde a paisagem muda
bruscamente, e a terra fértil cede lugar a um grande penhasco, às margens do rio,
formando uma fortaleza natural, de onde um exército dificilmente seria desalojado. Era
ali, em Itararé, que o governo federal mandara concentrar o maior peso de suas tropas,
esperando a chegada dos rebelados para o ataque fatal.
Já no
dia 3 de outubro de 1930, na hora marcada para o início do levante, a vanguarda
revolucionária, estacionada naquelas imediações, iniciara o ataque, obrigando o
delegado de polícia a pedir reforços nas cidades vizinhas, tanto de São Paulo como do
Paraná. A luta se desenvolveu na forma de guerrilha, enquanto, do lado inimigo, tropas
legalistas iam chegando e tomando posição na fortaleza, sob o comando do general Pais de
Andrade. Ao final, juntaram-se cerca de 2.400 soldados, bem armados e municiados.
A ação
revolucionária tinha de ser muito bem planejada. Os revolucionários possuíam um efetivo
de 4.200 homens, mas faltava armamento leve (armas automáticas), necessário para uma
operação de deslocamento ligeiro. Havia apenas uma arma para cada quinze homens, o que
diminuía consideravelmente seu poder de ataque.
Formaram-se, então, quatro destacamentos, sob o comando geral do
general Miguel Costa, com missões bem definidas. O coronel Silva Junior, bem como Batista
Lusardo (1º e 2º Destacamentos) fariam o ataque pela vanguarda; Flores da Cunha e
Alexandrino Bitencourt (2º e 3º Destacamentos) dariam a cobertura de retaguarda.
O ataque
estava programado para as 12 horas do dia 25 de outubro. Porém, logo ao
raiar desse dia, soa o toque de um clarim e um mensageiro atravessa a linha de combate,
com uma bandeira branca nas mãos levando mensagem para ser entregue ao general Paes de
Andrade. Não era rendição dos revolucionários, pelo contrário, estes é que ordenavam
a rendição incondicional das tropas legalistas.
O
mensageiro era o deputado federal Glicério Alves e a mensagem, logo a seguir confirmada,
dava conta de que Washington Luís renunciara à presidência da República na noite do
dia 24. Estava terminada assim, de forma decepcionante, a Batalha de Itararé, o grande
embate que não chegou a acontecer.
Minas
Gerais na Revolução
A missão de
Minas Gerais, dentro do plano global, se restringia ao próprio Estado e os Estados
limítrofes. Como o governador Olegário Maciel era já um ancião de 75 anos de idade,
essa condição transmitia ao presidente Washington Luís um sentimento de tranquilidade,
todavia, nos bastidores, a conspiração prosseguia intensa.
Ao cair
da tarde de 3 de outubro, iniciou-se o levante, com a prisão do comandante interino
da guarnição federal, que era o tenente-coronel José Joaquim de Andrada, mas a
rendição das tropas não se fez senão depois de uma resistência que durou vários dias
e ocasionou inúmeras baixas de ambos os lados.
Tomada a
praça de Belo Horizonte, o restante do Estado foi sendo rapidamente dominado.
Paralelamente, outros contingentes seguiram para a Bahia, o Espírito Santo e Estado do
Rio de Janeiro, saindo vitoriosos em suas investidas, inclusive pelo fato de que o governo
federal concentrava suas tropas em Itararé, faltando reforços para outros pontos de
luta. Mesmo assim, a renúncia do presidente Washington Luís ainda colheu os
revolucionários de Minas em plena luta.
Epílogo
No nordeste,
um teco-teco revolucionário, comandado pelo aviador naval Djalma Petit, desde o
inicio do levante, vinha sendo usado para jogar folhetos sobre as capitais, anunciando a
tomada da praça e pedindo ao governador que entregasse o cargo. Foi este o único avião
da frota revolucionária.
O mesmo
teco-teco levantou voo, em 27 de outubro de 1930, partindo de Salvador, e levando Djalma
Petit, Juarez Távora, seu secretário, tenente Mirocem Navarro, e o comandante da
Vanguarda Revolucionária, tenente Agildo Barata Ribeiro (que, mais tarde, a exemplo de
Prestes, bandeou-se para o comunismo). Chegaram estes ao Rio de Janeiro no meio de
aplausos de populares.
No dia
30, desembarcam no Rio, também, os revolucionários vindos do sul, tendo à frente seu
líder, Getúlio Dorneles Vargas, que seria empossado como Chefe do Governo Provisório.
Isto já é assunto para um próximo capítulo.
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Horta