CAPÍTULO DOIS
O FIM DA PRIMEIRA REPÚBLICA
A REVOLUÇÃO DE 1930

Paulo Victorino

         No dia 3 de outubro de 1930, a data fatal para o levante, um acontecimento inesperado facilitou os preparativos finais. No dia anterior, falecera o grande herói das revoluções de 1893 e 1923, o general Honório de Lemes. Como era de se esperar, os jornais deram destaque e repercussão a esse fato, desviando, assim, a atenção da população e das autoridades. Não houve sequer desconfianças quando os alunos das escolas de Porto Alegre foram dispensados das aulas mais cedo que de costume. No palácio, Getulio despachava como se fosse mais um dia de trabalho. Nos bastidores, tudo estava preparado para o levante. A não ser que surgisse algum outro fato novo e inesperado, a articulação, muito bem cuidada, oferecia todas as condições de sucesso. 

   O presidente Washington Luís (1926-1930) tinha tudo para ser um monarca. Fosse ele nascido de uma daquelas dinastias que dominavam a Europa do Século 18, por certo faria boa figura entre os  déspotas esclarecidos. Tinha a finura de um nobre, a inteligência viva e o raciocínio límpido. Mas era também inflexível em suas decisões. Uma vez determinado o caminho a seguir para a equação de um problema, não vacilava, não admitia interferências, não negociava.

    Foi com esse personalismo, próprio de seu temperamento, que ele, no momento em que julgou oportuno, assumiu a decisão de apresentar, como candidato à sucessão presidencial, o governador de São Paulo, Júlio Prestes de Albuquerque.  por achá-lo em condições de prosseguir a política econômica iniciada em seu governo, que vinha corrigindo distorções deixadas pelos governos anteriores.

    A manutenção do plano econômico precisava ser feita com todo rigor para não por a perder todos os sacrifícios já feitos. Isso tornava-se ainda mais importante, naquele momento, porque a crise mundial, desencadeada pela quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, atingiu o Brasil de forma dramática, fechando as portas dos Bancos estrangeiros para novos empréstimos e paralisando os embarques de café, nosso produto básico de exportação.

    Todavia, sua insistência em considerar questão fechada o nome de  Julio Prestes    causou descontentamentos e ocasionou o surgimento de uma candidatura de oposição, que apresentou, para Presidente, o nome de   Getúlio Dorneles Vargas, governador gaúcho, e para vice,  João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, governador paraibano, ambos contando com o apoio de Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, governador de Minas Gerais. Esse movimento de oposição tomou o nome de Aliança Liberal   e os  aliancistas se tornaram a base civil do futuro movimento revolucionário.

    A partir daí, o ambiente torna-se tenso. Os partidários de uma e outra candidatura fustigam uns aos outros, gerando violentas discussões que, não raro, descambam para o enfrentamento físico. Sendo a Câmara Federal uma caixa de ressonância do que acontece nas ruas, não é de estranhar que tais lutas repercutam no plenário e nos corredores do parlamento, com acusações mútuas e pedidos de satisfações pela parte que se sente atingida. A   paixão leva ao descontrole, e o descontrole leva à tragédia.

O problema do quorum na Câmara Federal

     Hoje, a facilidade do transporte aéreo permite que deputados e senadores viajem semanalmente aos seus Estados de origem para um contato com as bases, retornando à capital federal no início de cada semana. Naquele tempo, isso não era possível, pois o transporte se fazia principalmente por trem, raramente por rodovia, e, nos Estados mais longínquos, até por navio. Assim, por razões de ordem prática, o período legislativo se iniciava somente no mês de maio, para encerrar-se em 31 de dezembro.

   Outro detalhe característico de nossos parlamentos: no mundo inteiro, a obstrução dos trabalhos é uma arma das minorias, que se valem desse recurso para retardar a ação da maioria, geralmente governista, obrigando-a buscar um entendimento com a parte mais fraca. No Brasil é diferente. É a maioria que, pelas mais diversas razões, usa o recurso da obstrução.

   O final de 1929 veio encontrar o Congresso, sobretudo a Câmara Federal, na efervescência de uma campanha eleitoral exaltada, que era levada ao plenário na forma de inflamados discursos. Para evitar que a oposição usasse a tribuna como palanque eleitoral, os governistas obstruíam a abertura das sessões, negando o quorum para a realização dos trabalhos. Era comum estar o plenário cheio, mas a contagem de votos atingir apenas 20 ou 30 deputados, aqueles que responderam a chamada.

    Os populares que acompanhavam a campanha de Getúlio Vargas logo se aperceberam disso e passaram a ir, todas as tardes, à Câmara. Como as galerias estavam interditadas ao público, a oposição vinha, então, às escadarias, onde realizava comícios, atingindo, com sua retórica, os candidatos governistas. Era a rotina. A oposição falava, o povo aplaudia os  mocinhos e vaiava os bandidos. Não faltavam os agitadores de plantão, que, no meio da plateia, provocavam confusão e desordem. Na sacada, em tom de deboche, alguns deputados governistas sempre acompanhavam o ato.

Assassinato do deputado Sousa Filho

    No dia 26 de dezembro de  1929, num desses comícios, o filho do deputado Luís Simões Lopes, em inflamado discurso, fez algumas referências irônicas e desairosas sobre o deputado governista Sousa Filho, arrancando aplausos do público. O parlamentar, que se achava na sacada, ouviu e não gostou.

    Mais tarde, quando os oposicionistas se recolhiam ao interior do prédio, Souza Filho interpelou o moço, agressivamente, dirigindo-lhe uma série de impropérios. No ardor da mocidade, Simões Lopes (filho) rebentou sua bengala nas costas do agressor que, em revide, sacou de um punhal.

    Numa reação instintiva, Simões Lopes (filho) deu alguns passos atrás mas, tendo sido interceptado em seu caminho, sabe-se lá por quem, caiu, ficando à mercê do agressor, pronto para fincar-lhe o punhal. Nesse momento, então, o velho deputado Simões Lopes, acorrendo ao socorro do filho, sacou de um revolver e deu um tiro certeiro e fulminante no desafeto. Na confusão, os deputados   aliancistas Plínio Casado e Adolfo Bergamini retiraram do local o agressor e o levaram para lugar seguro.

    No dia seguinte, pela primeira vez em muito tempo, houve quorum na Câmara Federal, para a sessão de homenagem ao deputado assassinado, cujo velório acontecia no salão nobre. Apesar de ameaçados, os aliancistas também compareceram, já que Souza Filho era um grande adversário, mas um bom amigo de todos eles. Em nome da Aliança Liberal, discursou o deputado Lindolfo Collor, lamentando o acontecimento e enaltecendo a personalidade do falecido.

    O trágico acontecimento arrefeceu os ânimos da campanha no edifício da Câmara Federal, mas não diminuiu as atividades de um e outro lado para fazer de seu candidato o escolhido das urnas. Cinco dias depois, encerra-se o período legislativo e cada um viaja ao seu Estado para acompanhar as eleições, que ocorreriam em  1º de março de 1930.

O episódio que mudou a História

    Realizadas as eleições, ganha o candidato governista, sem que houvesse maior contestação pelos adversários. Pelo contrário, Getúlio aceitara a derrota como normal no jogo do poder e até reconhecera a vitória de Júlio Prestes.   Aparentemente, tudo se encaminhava para a posse, em 15 de novembro de 1930, até que um incidente da maior gravidade veio tumultuar o processo e desencadear uma série de acontecimentos, que culminaram com a queda de Washington Luís e o fim da República Velha.

    No dia 26 de julho de 1930, é assassinado o governador da Paraíba e ex-candidato à vice-Presidência da República, João Pessoa. O mandante era seu desafeto, João Dantas, um dos caciques da política paraibana. Sua morte trouxe um forte abalo nos meios políticos e junto ao povo, em todo o país. Cresceu, então, um sentimento de ódio e revolta contra o governo federal, por se imaginar tratar-se de um crime ligado às recentes eleições presidenciais. Em realidade, esse desenlace, que já era previsto, tinha motivos passionais e, também, raízes na política regional, contrariada pela administração estadual.

A República de Princesa (Paraíba)

    Ao término do mandato do governador paraibano, João Suassuna, em 1926, João Pessoa assume o cargo e constata que os cofres do Estado estão vazios, o pagamento a fornecedores não vem sendo feito, o funcionalismo não recebe seus proventos há algum tempo e o Estado se encontra-se em situação pré-falimentar.

    Com energia e determinação, o novo governador começa um processo de saneamento financeiro, combatendo a sonegação e obtendo, assim, de imediato, um desafogo que lhe permitiu cobrir parte dos salários atrasados e programar o início  do pagamento dos fornecedores. Todavia, essa  fúria arrecadadora desagradou aos caciques políticos do Estado que, como os marajás da antiga Índia, não se achavam na obrigação de recolher impostos ou, pelo menos, não pretendiam fazê-lo com tamanha religiosidade.

    Com isso, o clima de tensão entre o governador e as forças político-econômicas do Estado manteve-se tenso durante todo o governo. O ponto de explosão foi atingido em 1929, quando João Pessoa, já candidato à vice-presidência da República, baixou um decreto que impedia, no Estado, a reeleição de deputados federais, limitando, assim, a ação de seus opositores. Como se tal não bastasse, abriu uma odiosa exceção ao seu primo, Carlos Pessoa, que, este sim, poderia recandidatar-se.

    A sudoeste da Paraíba ficava a pequena cidade de Princesa, feudo do  coronel José Pereira, que controlava, com seu poder e seus jagunços, todo o oeste do Estado, de cima a baixo. Fraudando o resultado das urnas, mantinha ele não só um elenco de deputados estaduais como, também, controlava uma pequena bancada na Câmara Federal, conhecida como   os deputados de Princesa. Atingido frontalmente em seus interesses, o chefe político protesta junto ao governador, sem resultado.

    Sentindo-se prejudicado com o resultado das eleições, João Pereira se rebela e, em  1º de junho de 1930, assina o    Decreto nº1, proclamando a Independência de Princesa, que se considera, a partir de então, separada da Paraíba. Por consequência, inicia-se uma guerra civil dentro do Estado, que o governo legal tinha dificuldades de reprimir, pois o ministério da Guerra lhe recusava a compra legal do material bélico necessário, enquanto seu opositor conseguia armas e munições no mercado do contrabando.

Enfrentando João Dantas

   Outro chefe político de prestígio, era João Dantas, que dominava parte do sertão paraibano e tinha parentesco com o ex-Governador João Suassuna. João Dantas se sentia agastado e diminuído, e o governador João Pessoa nada fazia para melhorar seu relacionamento com este poderoso adversário, pelo contrário, não perdia oportunidade para atingi-lo. Foi assim que, em uma diligência policial, sob um pretexto qualquer, mandou prender familiares de Dantas, entre eles várias mulheres, provocando indignação, ódio e um sentimento de vingança.

    Algum tempo depois, a polícia recebeu um comunicado de suposto assalto no escritório de João Dantas e, comparecendo ao local, constatou que não havia ninguém. Mesmo assim, arrombou a porta e apreendeu livros, armas e documentos. Muitos dos papéis recolhidos eram particulares e confidenciais e, entre eles, haviam algumas cartas denunciadoras de um romance entre João Dantas e a poetisa Anaíde Beiriz, com uma linguagem bastante escandalosa para a época.

    Melhor é ter bons inimigos do que maus amigos. Pois não é que pessoas ligadas ao Governador, desejando agradá-lo, fizeram publicar uma dessas cartas na primeira página do Jornal Oficial do Estado?   O romance, até então velado, passou a ser do conhecimento geral, causando transtornos a João Dantas e obrigando Anaídes a mudar-se para Pernambuco, onde a repercussão, imaginava-se, seria menor. Mesmo assim, para João Dantas, tratava-se de uma questão de honra, e como tal tinha que ser tratada. Era só esperar o momento, que não tardaria.

Confronto com o governo federal

    Voltemos, outra vez, à campanha eleitoral. Sendo candidato a vice-Presidente pela oposição, João Pessoa não teve escrúpulos em barrar a propaganda do candidato governista, Julio Prestes, dentro do Estado da Paraíba. Assumiu a direção dessa campanha o desembargador Heráclito Cavalcanti. Em represália, o governador baixou um decreto afastando-o de suas funções públicas, sob a alegação de que, ao adotar uma corrente política, deixou ele de ter a isenção requerida a um juiz. O Presidente da República, então, manda um telegrama ao desembargador, transmitindo-lhe sua solidariedade, sendo rebatido pelo governador.

    Houve então as eleições federais, em 1º de março de 1930 e, como se esperava, João Pessoa conseguiu reverter a seu favor a nova bancada paraibana, graças ao artifício já mencionado em tópico anterior. Pelo menos aparentemente ele tinha ganho, porque, dentro do sistema montado pelo presidente Afonso Pena (1906-1910), a votação de cada candidato deveria ser submetida logo após a uma Comissão de Verificadora de Poderes,    para analisar cada nome, antes de confirmá-lo eleito.

    Essa comissão, formada pelo Presidente da antiga legislatura, mais dois de seus deputados, analisou com especial   carinho os deputados eleitos pelos três Estados que comandaram a oposição ao governo federal, ou seja, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba. Foram, então, cortados e substituídos todos aqueles nomes que o governo federal considerou inconvenientes, alterando a seu favor as bancadas dos três Estados.

    Coube à Paraíba uma atenção maior, dado as provocações havidas durante a campanha. Desse Estado foram cortados praticamente todos os aliados de João Pessoa, enquanto se considerava legitimamente eleitos os deputados da   República de Princesa.    João Pessoa estava duplamente derrotado: perdera a eleição presidencial, na qual formava a chapa com Getúlio Vargas, e perdera sua bancada na Câmara Federal, com o corte de todos os seus correligionários.

O assassinato de João Pessoa

   Foi nesse clima que, em 26 de junho de 1930, João Pessoa viajou a Recife, ao que se sabe, para visitar um amigo doente e, ao mesmo tempo, manter alguns contatos políticos. Ao fim da tarde, encontrava-se na Confeitaria Glória, tomando sorvete em companhia do jornalista Caio de Lima Cavalcanti, quando um desconhecido pára à sua frente e descarrega uma arma a queima-roupa, fulminando-o instantaneamente.

    O desconhecido, bem como um acompanhante, foram prontamente dominados e presos. O crime, soube-se depois, teve como mandante João Dantas, que foi recolhido à prisão, onde, meses depois, apareceu morto. Estava completada a tragédia, em que um crime de natureza passional se misturava a todo um emaranhado político, envolvendo tramas, violência, fraude, muita esperteza e, por fim, a justiça feita com as próprias mãos.

    Pela precariedade do telégrafo, a notícia levou algumas horas para se espalhar pelo país, mas, ao chegar a cada ponto, causava comoção e revolta, criando sempre a idéia de crime político, ligado às eleições presidenciais. Especialmente na Paraíba, o povo foi às ruas à caça de adversários de João Pessoa. Muitos tiveram tempo de fugir, outros foram duramente atingidos. Quase todos tiveram suas casas saqueadas e, depois, incendiadas.

    Em São Borja, no outro extremo do país, conta Alzira Vargas, filha de Getúlio, então com 15 anos: "Uma noite, fomos ao cinema com papai e mamãe, como de costume. Noite de 26 de julho. Mal havia começado o filme, acenderam-se as luzes e, do palco, alguém comunicou ao público a dolorosa notícia: 'João Pessoa foi assassinado!' (...) A indignação foi geral. Nada mais podia impedir a marcha da Revolução. Toda a nação estava chocada."

    A questão da Presidência já tinha se encerrado, a partir do momento em que Getúlio Vargas reconheceu sua derrota e a eleição de Júlio Prestes. Agora, reacendiam-se os ânimos. Os cronômetros eram novamente ajustados e recomeçava, pela ultima vez, a contagem regressiva para o início da Revolução.

A marcha da Revolução

   Verdade seja dita, se o assassinato de João Pessoa trouxe novo alento aos revolucionários, na realidade a conspiração já vinha sendo desenvolvida há bom tempo, antes mesmo de se realizarem as eleições, cujos resultados, já se sabia, seriam, como sempre foram, favoráveis ao governo. A derrota nas eleições, com as fraudes do sistema, seria apenas uma bandeira da oposição, pretextando a renovação dos costumes políticos.

    Vejamos como andava a conspiração. Durante o trajeto da Coluna Prestes (1924-1927) Juarez Távora, que fazia parte de seu Estado Maior, foi detido no Piauí e, em seguida, remetido ao Rio de Janeiro, onde ficou prisioneiro, primeiro na ilha de Trindade e, depois, na ilha das Cobras, de onde conseguiu fugir, viajando incógnito para Montevideu onde devia encontrar-se com exilados da Coluna. Nessa ocasião, obteve do general Isidoro Dias Lopes um comissionamento na patente de   general e, nessa condição, tratou de chegar ao nordeste, onde começou as articulações com as forças políticas e militares da região. Seria ele o comandante da operação no nordeste.

    Em Minas Gerais, havia o apoio furtivo do governador Antônio Carlos, que não queria se comprometer com um movimento de contestação ao governo federal, antes de ter segurança de que a ação pudesse trazer um resultado eficaz. Em  7 de setembro de 1930, Antônio Carlos transfere o governo de Minas a Olegário Maciel, que havia sido eleito, ao mesmo tempo, presidente do Estado e senador da República. Assim, após assumir o governo de Minas, Olegário Maciel viaja para o Rio de Janeiro para tomar posse no Senado e, nessa ocasião, mantém contato com um dos articuladores da revolução, o gaúcho João Neves da Fontoura, ao qual empenha a palavra de que dará, em seu Estado, toda a cobertura que se fizer necessária.

    No Rio Grande do Sul estava o núcleo principal da sublevação. Primeiro, porque ali o governador continuava sendo Getúlio Dorneles Vargas; depois, porque o Estado contava com um bom número de revolucionários de movimentos anteriores;  por fim, porque nos países limítrofes, Argentina e Uruguai, se encontravam asilados os participantes do movimento de 1924 e da  Coluna Prestes. Aliás, próprio Luís Carlos Prestes continuava vinha sendo cogitado para assumir o comando da nova revolução, caso em que seria comissionado, também, na patente de general.

Imprevistos enfraquecem o comando

   No decorrer da conspiração, que, como dissemos, começara bem antes da morte de João Pessoa, dois acontecimentos inesperados surpreendem os  tenentistas e vem enfraquecer as articulações na área militar. Embora sem comprometer o movimento em seu conjunto, esses fatos trouxeram um enfraquecimento na liderança e um abalo junto aos tenentes comprometidos com a revolta.

    No início de maio, ainda exilado na Argentina, Luís Carlos Prestes comunica sua intenção de aderir ao comunismo, partindo para a luta revolucionária contra todo o sistema capitalista e não apenas ao governo Washington Luís. Segundo seu próprio depoimento, a longa marcha pelo Brasil, comandando a   Coluna Prestes, trouxe-lhe a convicção de que não era possível montar um novo governo, apoiado nas mesmas oligarquias que controlam cada parte do país.

    Preocupados com o rumo em que seguiam as coisas, os     tenentes Siqueira Campos e João Alberto viajam para Buenos Aires e, no dia 7 de maio de 1930, participam, eles e outros exilados, de uma reunião com Luís Carlos Prestes, em que este apresenta seu  Manifesto Socialista,  que iria divulgar nos próximos dias. Em vão tentaram seus companheiros fazê-lo desistir de seu propósito e, como ninguém aderisse a suas idéias, a reunião tornou-se de todo inútil para ambos os lados.

    No dia 9, pretendendo voltar rapidamente a Montevideu, os dois  tenentes conseguiram um espaço no avião do Correio Aéreo, que decolou perigosamente, à noite, sem instrumentos, com cinco pessoas a bordo, mais a carga normal de correio. Não se sabe qual a causa, o avião caiu nas águas geladas do mar, já em território uruguaio. Dos cinco passageiros, somente João Alberto conseguiu alcançar a praia. Siqueira Campos sentiu o choque térmico provocado pela água gelada, teve cãibras e não conseguiu se movimentar, morrendo afogado.

    Perderam-se, pois, de uma só vez, dois elementos de proa na causa revolucionária, um por deserção e outro por acidente. Prestes foi o artífice da Coluna que percorreu o Brasil. Siqueira Campos participara de quase todos os movimentos, desde a Revolta do Forte de Copacabana, em 1922, a qual comandou, em companhia de Eduardo Gomes.

O levante no Rio Grande do Sul

    Depois de várias datas marcadas e desmarcadas, ficou finalmente decidido que o movimento se iniciaria no dia 3 de outubro de 1930 às 5h30 da tarde, após o fechamento das repartições civis e militares, quando o movimento nesses locais se tornava insignificante. Por uma falha de comunicação, Juarez Távora, no nordeste, entendeu que a marcha se iniciaria à zero hora do dia 4 e esse mal entendido quase pôs a perder a revolução.

    Neste ponto, entra em cena um revolucionário de última hora, o tenente-coronel Pedro Aurélio de Góis Monteiro, cuja biografia assinala uma constante mudança de posições, segundo suas próprias conveniências. Em 1930, sentindo a fraqueza do governo Washington Luís, aderiu aos revolucionários; Em 1932, lutou contra a Revolução Constitucionalista, em São Paulo; Em 1937 aderiu ao golpe de Estado que restabeleceu plenos poderes ao ditador Getúlio Vargas; em 1945, aderiu a outro golpe, que derrubou o mesmo Getúlio. Neste momento, porém, em que o movimento revolucionário ia ter início, sua presença era indispensável, pela patente militar,  que lhe dava supremacia de comando.

    De sua parte, o governador Getúlio Vargas cuidava de manter um jogo duplo. No palácio, mantinha o ritmo de trabalho normal, fazendo com que a rotina parecesse inalterada, tanto no gabinete, quanto nos quartéis das policias estaduais. Paralelamente, utilizava seus auxiliares diretos na articulação do movimento, entre eles, o próprio vice-Governador, Osvaldo Aranha. E, para completar, dava ao comandante da 3ª Região Militar, general Gil de Almeida, a segurança de estar cuidando da ordem, não havendo qualquer fundamento os boatos sobre uma possível revolução.

    No dia 3 de outubro de 1930, a data fatal para o levante, um acontecimento inesperado facilitou os preparativos finais. No dia anterior, falecera o grande herói das revoluções de 1893 e 1923, o general Honório de Lemes. Como era de se esperar, os jornais deram destaque e repercussão a esse fato, desviando, assim, a atenção da população e das autoridades. Não houve sequer desconfianças quando os alunos das escolas de Porto Alegre foram dispensados das aulas mais cedo que de costume.

     No palácio, Getulio despachava como se fosse mais um dia de trabalho. Nos bastidores, tudo estava preparado para o levante. A não ser que surgisse algum outro fato novo e inesperado, a articulação, muito bem cuidada, oferecia todas as condições de sucesso. 

O Cavalo de Tróia

   Já há algum tempo, para iludir a vigilância militar, a Guarda Civil do Estado, todas as tardes, ao encerrar seu expediente, entrava em forma, desfilando em frente ao Quartel General e prestando continência ao comandante da 3ª Região Militar, general Gil de Almeida.

    Diariamente, repetia-se a mesma rotina. Por volta das cinco horas, encerrava-se o expediente. Às cinco e quinze, pontualmente, o general, de sua janela, acompanhava a passagem do desfile e se tranqüilizava. Se algum movimento estivesse sendo articulado em Porto Alegre, por certo que não teria a colaboração do governo estadual.

    Naquele dia 3 de outubro de 1930, no mesmo horário de sempre, as tropas passaram em frente ao QG, só que, enquanto o primeiro grupo continuava o desfile, o segundo saiu de forma, tomou de assalto a portaria e invadiu o quartel, aprisionando o General-Comandante.

    Em seguida, ao sinal dado por um foguete, ocorreu o levante nos demais quartéis, que foram tomados sem maiores dificuldades. Por todo o Rio Grande do Sul, assim como em Santa Catarina e no Paraná, a revolução obedeceu o horário determinado. Isso só não aconteceu no nordeste, onde o comando estava nas mãos de Juarez Távora.

Relógios fora de sincronia

   Como no sul, a articulação também seguia seu curso no norte e nordeste. Ao aproximar-se a data fatal, já havia um comprometimento, maior ou menor, de quartéis na Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí, Maranhão, Pará e Amazonas. Toda a região estava, pois fechada e parecia não haver maiores problemas.

    Em 25 de setembro de 1930, Juarez Távora recebeu um telegrama cifrado de Osvaldo Aranha (Rio Grande do Sul), informando que   o início do levante estava marcado para 3 de outubro, às 5h30 da tarde. A data era ótima, pois nesse dia estavam escalados para o serviço em suas unidades militares os tenentes Agildo Barata e Juraci Magalhães, ambos comprometidos, e  elementos importantes do esquema na Paraíba, onde se achavam Juarez e o comando revolucionário.

    O problema estava no horário, pois dificilmente se conseguiria sublevar os quartéis em plena luz do dia, sendo conveniente que o início acontecesse na calada da noite. Juarez pretendia iniciar o levante na madrugada do dia 4 e propôs que a data fosse mudada também no sul do país, todavia foi infeliz na redação do telegrama, que saiu nos seguintes termos: "ciente pt peço licença iniciar   marcha dia 4". Aí estava o erro. Iniciar o levante é uma coisa, iniciar a marcha é outra totalmente diferente. A autorização do sul veio, mas referindo-se à alteração do horário para a movimentação das tropas, que já deveriam estar sublevadas no final da tarde!

    Ao fim do dia 3, havendo chegado ao Recife, onde pretendia acompanhar o início das operações, Juarez Távora foi surpreendido com a notícia de que o levante já se iniciara no sul e que o governo federal expediu um alerta a todos os Estados para se prevenirem contra qualquer alteração de ordem, colocando as tropas em prontidão.

    Daí por diante, tudo correu mais por conta da capacidade de avaliação e iniciativa de cada comandante. Por sorte, as reações se fizeram atropeladas, mas a tempo certo. Em Recife, foi destruída a Central Telefônica cortando as comunicações. Depois, retornando a Paraíba, Juarez encontrou as tropas rebeladas e o povo às ruas. Dos outros Estados, foram chegando, aos poucos, notícias animadoras sobre o resultado das operações. A primeira batalha estava vencida.

Do sul, a marcha para o Rio de Janeiro

    No sul, como vimos, tudo caminhou como o previsto e as praças foram tomadas sem resistência. Em seguida, formaram-se comboios ferroviários, que subiriam em direção a São Paulo e, depois, seguiriam ao Rio de Janeiro, para a tomada do poder. De Porto Alegre, as tropas saíram com o tenente-coronel Góis Monteiro, o governador Getúlio Vargas e o vice-governador, João Neves da Fontoura. Somente Osvaldo Aranha, teve de ficar, assumindo o Governo estadual.

    De Uruguaiana, divisa com a Argentina, parte o   Destacamento Batista Luzardo. Como a cidade fica a sudoeste do Rio Grande do Sul, o comboio fez um itinerário diverso, sem passar em Porto Alegre, ficando de encontrar-se com os demais num entroncamento ferroviário, já no Estado de São Paulo. O trem seguiu, pois, por Alegrete, São Gabriel, Santa Maria, Tupanciretã, Júlio de Castilhos, e Cruz Alta, até atravessar a fronteira com o Paraná, por Iraí.

    Parando na estação em Santa Maria, segundo conta Luzardo, houve uma invasão ao trem pela entusiasta garotada do Colégio Santa Maria, que queria participar da guerra. Foi um custo para retirar os alunos e convencê-los de que sua missão, naquele momento era estudar. Ainda assim, reiniciado o trajeto, descobriu-se mais alguns  clandestinos, que foram deixados na próxima estação, para   repatriamento. O trajeto das duas caravanas, tanto a de Getúlio quanto a de Luzardo, era interrompido, em cada parada, por multidões que se postavam nas estações, de lenço vermelho ao pescoço, saudando os revolucionários.

    Em Santa Catarina, no próprio dia 3 de outubro, o general Felipe Portinho havia dominado a situação a favor dos rebeldes. Blumenau foi instituída capital provisória do Estado, assumindo, como interventor, o tenente-coronel Arnoldo Mancebo. No Paraná, a luta foi vencida sob o comando do major (agora comissionado como general) Plínio Tourinho, que há meses vinha cuidando da articulação e, em 3 de outubro, colocou-se à frente dos revoltosos. Assumiu o governo o seu irmão, general (da reserva) Mário Alves Monteiro Tourinho.

   Restava, pois, a grande batalha que deveria ocorrer em São Paulo, no entroncamento de Itararé, onde o governo federal concentrara a maior parte de suas tropas, para barrar o avanço da frente revolucionária. A Batalha de Itararé, todos já sabiam, seria a mais dura e sangrenta dentre todas aquelas de que já participaram os   tenentistas, já diremos por que.

Do nordeste, a marcha para o sudeste

   Voltemos ao nordeste, onde a situação já era de quase completo domínio, após a perigosa oscilação causada pela desinteligência quanto aos horários de início do levante. A esta altura, as notícias que chegavam ao comando indicavam que os revolucionários dominavam a maior parte da região, devendo-se partir, assim, para o trabalho de consolidação.

    Juarez Távora, no comando geral do nordeste, nomeia o dr. José Américo de Almeida como interventor da Paraíba e Chefe do Governo Provisório no norte e nordeste, estabelecendo, assim, as bases civis do movimento. Isto posto, passaram a ser nomeados os interventores nos Estados onde a luta estava encerrada, quais sejam:  Alagoas, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe.

    Os interventores, à falta de normas definidas em lei, passaram a governar discricionariamente. A única orientação, de caráter geral, estava no telegrama enviado pelo comandante militar, Juarez Távora, ao comandante civil, José Américo, nestes termos:  "(...) Desaconselho dissolução imediata do poder judiciário que, nesta fase transitória, deverá continuar funcionando normalmente, apenas se reservando o Executivo Revolucionário o direito de discutir suas decisões contrárias ao espírito da revolução. Todo Poder Legislativo deve ser considerado inexistente, desde a data do início da Revolução, como dupla medida, de moralização e economia. Saudações. General Távora."

    Mais coerente, o interventor do Maranhão, de uma vez, extinguiu o Poder Judiciário, já que, na prática, ele deixa de existir se as suas decisões tiverem de ser submetidas à aprovação ou não do interventor.

O beijo contido por trinta anos

    Um registro à margem da História. Juarez Távora e José Américo seguiam, por trem, de Recife para Maceió, a fim de resolver problemas surgidos, e, como o tempo era curto, havia ordem para manter a estrada de ferro desobstruída, a fim de que o carro-de-linha   pudesse transitar sem paradas.

    Todavia, ao aproximar-se da estação de Quipapá, na zona da mata, divisa de Pernambuco com Alagoas, uma pequena multidão se aglomerava sobre o leito ferroviário, obrigando o carro-de-linha a parar, para não ocasionar um múltiplo atropelamento. Irritado, Juarez desce do veículo mas, antes de qualquer reação, uma jovem  professorinha, sai da multidão e diz: "General Juarez, como prova de gratidão do povo desta terra ao libertador do norte, quero somente dar-lhe um beijo!"

    Beijo? Aquilo era uma revolução, não era uma maratona! Imediatamente o comandante revolucionário mandou que a linha fosse desobstruída, retomou seu lugar no carro e prosseguiu a viagem, deixando para trás toda uma população desapontada.

    O incidente ficou martelando em sua cabeça por um longo tempo. Trinta anos depois, tendo de fazer uma viagem oficial ao nordeste, procurou saber se a  professorinha  de Quipapá ainda existia. Existia, sim, morava na mesma cidade e ainda lecionava numa escola primária.

    Foi assim que, no dia 16 de agosto de 1971, o general Juarez Távora compareceu ao Grupo Escolar de São Benedito, distrito de Quipapá e, na presença de todos os professores e alunos da escola, prestou uma homenagem à professora Maria José Ramos, entregando-lhe uma "Rosa de Prata", condecoração oferecida pelo comando da Escola Superior de Guerra. A homenagem, na pessoa da   professorinha, era estendida  "a todas as professoras primárias que se dedicam à benemérita tarefa de abrir os primeiros caminhos à inteligência de nossas crianças, no interior do Brasil".

A Batalha de Itararé

    No sul, os comboios prosseguiam em direção ao Estado de São Paulo, com encontro previsto no entroncamento de Itararé, divisa entre São Paulo e Paraná, onde a paisagem muda bruscamente, e a terra fértil cede lugar a um grande penhasco, às margens do rio, formando uma fortaleza natural, de onde um exército dificilmente seria desalojado. Era ali, em Itararé, que o governo federal mandara concentrar o maior peso de suas tropas, esperando a chegada dos rebelados para o ataque fatal.

    Já no dia 3 de outubro de 1930, na hora marcada para o início do levante, a vanguarda revolucionária, estacionada naquelas imediações, iniciara o ataque, obrigando o delegado de polícia a pedir reforços nas cidades vizinhas, tanto de São Paulo como do Paraná. A luta se desenvolveu na forma de guerrilha, enquanto, do lado inimigo, tropas legalistas iam chegando e tomando posição na fortaleza, sob o comando do general Pais de Andrade. Ao final, juntaram-se cerca de 2.400 soldados, bem armados e municiados.

    A ação revolucionária tinha de ser muito bem planejada. Os revolucionários possuíam um efetivo de 4.200 homens, mas faltava armamento leve (armas automáticas), necessário para uma operação de deslocamento ligeiro. Havia apenas uma arma para cada quinze homens, o que diminuía consideravelmente seu poder de ataque.

    Formaram-se, então, quatro destacamentos, sob o comando geral do general Miguel Costa, com missões bem definidas. O coronel Silva Junior, bem como Batista Lusardo (1º e 2º Destacamentos) fariam o ataque pela vanguarda; Flores da Cunha e Alexandrino Bitencourt (2º e 3º Destacamentos) dariam a cobertura de retaguarda.

    O ataque estava programado para as 12 horas do dia    25 de outubro. Porém, logo ao raiar desse dia, soa o toque de um clarim e um mensageiro atravessa a linha de combate, com uma bandeira branca nas mãos levando mensagem para ser entregue ao general Paes de Andrade. Não era rendição dos revolucionários, pelo contrário, estes é que ordenavam a rendição incondicional das tropas legalistas.

    O mensageiro era o deputado federal Glicério Alves e a mensagem, logo a seguir confirmada, dava conta de que Washington Luís renunciara à presidência da República na noite do dia 24. Estava terminada assim, de forma decepcionante, a Batalha de Itararé, o grande embate que não chegou a acontecer.

Minas Gerais na Revolução

   A missão de Minas Gerais, dentro do plano global, se restringia ao próprio Estado e os Estados limítrofes. Como o governador Olegário Maciel era já um ancião de 75 anos de idade, essa condição transmitia ao presidente Washington Luís um sentimento de tranquilidade, todavia, nos bastidores, a conspiração prosseguia intensa.

    Ao cair da tarde de  3 de outubro, iniciou-se o levante, com a prisão do comandante interino da guarnição federal, que era o tenente-coronel José Joaquim de Andrada, mas a rendição das tropas não se fez senão depois de uma resistência que durou vários dias e ocasionou inúmeras baixas de ambos os lados.

    Tomada a praça de Belo Horizonte, o restante do Estado foi sendo rapidamente dominado. Paralelamente, outros contingentes seguiram para a Bahia, o Espírito Santo e Estado do Rio de Janeiro, saindo vitoriosos em suas investidas, inclusive pelo fato de que o governo federal concentrava suas tropas em Itararé, faltando reforços para outros pontos de luta. Mesmo assim, a renúncia do presidente Washington Luís ainda colheu os revolucionários de Minas em plena luta.

Epílogo

   No nordeste, um  teco-teco revolucionário, comandado pelo aviador naval Djalma Petit, desde o inicio do levante, vinha sendo usado para jogar folhetos sobre as capitais, anunciando a tomada da praça e pedindo ao governador que entregasse o cargo. Foi este o único avião da   frota revolucionária.

    O mesmo teco-teco levantou voo, em 27 de outubro de 1930, partindo de Salvador, e levando Djalma Petit, Juarez Távora, seu secretário, tenente Mirocem Navarro, e o comandante da Vanguarda Revolucionária, tenente Agildo Barata Ribeiro (que, mais tarde, a exemplo de Prestes, bandeou-se para o comunismo). Chegaram estes ao Rio de Janeiro no meio de aplausos de populares.

    No dia 30, desembarcam no Rio, também, os revolucionários vindos do sul, tendo à frente seu líder, Getúlio Dorneles Vargas, que seria empossado como Chefe do Governo Provisório. Isto já é assunto para um próximo capítulo.

LEIA TAMBÉM: Relembrando Oscar Pedroso Horta

Notícias e Informações