CAPÍTULO TRÊS
O NAUFRÁGIO DO "TITANIC"
UM PRESIDENTE É DEPOSTO
"O pensamento até parece coisa à-toa, mas como é que a gente voa, quando começa a pensar..." Este trecho de uma música popular, bastante conhecida, destaca o poder da imaginação para nos transportar, numa fração de segundos, para os lugares mais distantes do universo, colocando-nos, com absoluta segurança, dentro dos recintos mais bem policiados, onde ninguém mais entraria impunemente.
Valendo-nos desse veículo, seguro e rápido, vamos, com o leitor, fazer uma viagem no tempo e no espaço. Estamos agora na madrugada de 24 de outubro de 1930, uma sexta-feira, na cidade do Rio de Janeiro, capital da República. Nas ruas, um movimento desusado de tropas e viaturas militares, bem diferente do dia anterior, quando havia apenas uma calmaria tensa, sinal das grandes tempestades.
Estamos agora em frente ao Palácio Guanabara, onde é total o bloqueio, com soldados fortemente armados, que não permitem a ninguém entrar ou sair do prédio. Usando de nossa faculdade, proporcionada pela imaginação, entramos sem ser vistos ou barrados, subimos ao primeiro andar e passamos à sala de reuniões da presidência da República.
Ao extremo da longa mesa retangular, com sua majestade, se acha sentado o presidente Washington Luís. Nos demais assentos, à sua esquerda e à sua direita, o pequeno ministério (eram apenas sete ministros), mais os chefes do gabinete civil e do gabinete militar.
A Junta Militar
A porta da sala se abre e, sem audiência marcada, entram, eretos e com porte marcial, os generais Tasso Fragoso e Mena Barreto, juntamente com o almirante Isaias de Noronha.
O Presidente se levanta e encara os três visitantes. Todos os ministros, ficam, também, em pé, e voltam-se para o centro da cena, onde se inicia um embaraçoso diálogo entre o general Fragoso e o Presidente:
"O senhor deve compreender", começa o General, "a imensa mágoa com que viemos aqui: o patriotismo nos ditou a atitude que assumimos. Aqui estamos, porém, para fornecer-lhe todas as garantias..."
O Presidente rebate: "Não as preciso. Dispenso-as."
E o General prossegue, ignorando a interrupção: "...porque sua vida esta correndo perigo, e queremos preservá-la."
"Nunca fiz caso da vida e, neste momento, desprezo-a, mais do que nunca", replica o Presidente.
"Neste caso, o senhor responderá por todas as conseqüências", ameaça o General.
"Por todas", conclui o Presidente, com firmeza.
O Presidente trazia ao coldre uma pistola. Os militares, como é natural, também estavam armados. O Presidente, aparentemente sereno, encara com firmeza seus interlocutores que, surpresos, ficam sem saber o que fazer. Por fim, dão meia-volta e se retiram da sala. Todos, então, voltam a sentar-se e a reunião prossegue do ponto em que havia sido interrompida. Na parede, o relógio de pêndulo, marca, segundo a segundo, o tempo que falta para o desfecho do drama.
Este diálogo, e as cenas que se seguem, foram emprestados de uma testemunha viva dos fatos, o então ministro de Relações Exteriores, Otávio Mangabeira.
A interferência do Cardeal
Mangabeira, sentindo inútil a resistência, pede licença, se retira da sala e vai tomar providências que permitam uma saída honrosa a Washington Luís. Tenta ligar para o Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, D. Sebastião Leme, mas as linhas telefônicas estão cortadas. Aceita, então, o oferecimento de Tasso Fragoso, que manda um oficial buscar o Cardeal, mas quem vem em seu lugar é o vigário geral Monsenhor Costa Rego, para inteirar-se do que está acontecendo.
Foi uma inútil perda de tempo. O carro volta ao Palácio São Joaquim, sede da Diocese, enquanto, no Palácio Guanabara, chega o 3º Regimento, comandado pelo coronel José Pessoa, que toma todos os corredores e salas, tornando prisioneiros os ocupantes do prédio. Antes não se podia entrar ou sair; agora, não era nem possível circular de uma sala a outra.
Melhor para nós, que, estando invisíveis, não somos molestados por ninguém. Assim, depois de longo e sofrido tempo, podemos ver o carro militar chegando de volta e trazendo, desta vez, o próprio Cardeal, acompanhado do Monsenhor, já nosso conhecido, e também de D. Benedito, Arcebispo de Vitória, e amigo particular de Washington Luís.
Não subiu direto, o Cardeal. Ficou no saguão, reunido com o Comando Maior, procurando assimilar os fatos e encontrar uma resposta à ansiedade de todos, inclusive a dele mesmo. Os três generais, que procuravam uma solução mais branda para o Presidente, com uma prisão domiciliar na casa de D. Sebastião, foram contrariados pelos demais oficiais, que desejavam prisão em quartel. Por fim, chegaram a uma fórmula, ruim, mas a única admitida pelos militares.
O "Titanic" começa a afundar
D. Sebastião, então, subiu à sala de reuniões e comunicou o resultado das conversações. Washington Luís ficaria preso no Forte de Copacabana; o ministro da Guerra, no Forte São João; e o ministro da Justiça, no Quartel do 1º Regimento da Cavalaria, em São Cristóvão.
"O Presidente abraçou, um por um, os seus ministros, o prefeito, os membros de sua casa civil e militar, os seus filhos, em suma, os que lhe foram companheiros naquela triste jornada. Tinha, no rosto, o custumado sorriso. Não manifestava emoção. Houve, entretanto, mais de um grupo que não conteve as lágrimas. (...) O palácio, iluminado, era um grande navio sossobrando. Aqueles automóveis que partiam, eram como embarcações que conduzissem náufragos à terra."
Uma esponja foi passada sobre o quadro negro, apagando toda a Primeira República e deixando-o pronto para receber uma nova História, a História de uma Revolução Traída.
O fim da Primeira República
Eis como terminou o episódio:
Formou-se uma comitiva de dois carros. No primeiro ia o Presidente deposto, mais o Cardeal Arcebispo, D. Sebastião Leme, o general Tasso Fragoso e o Arcebispo de Vitória, D. Benedito. No segundo, partiam o monsenhor Costa Rego e alguns militares de proa.
Como, a despeito do forte policiamento, ainda assim, se ajuntasse uma pequena massa popular em frente o palácio, as viaturas sairam pelo portão dos fundos, seguindo pelo túnel velho até o Forte de Copacabana. Aquele mesmo local que viu nascer a revolução tenentista, em 1922, com o episódio dos Dezoito do Forte, agora assistia o epílogo, com a prisão do Presidente deposto.
Washington Luís, pouco tempo depois, foi deportado para a Europa, amargando 17 anos de exílio. Só voltou ao Brasil em 1947, quando a Segunda República também já era morta. Ficou residindo em São Paulo, sua terra por adoção, e passou o resto da vida dedicando-se a estudos históricos, havendo publicado um livro e vários trabalhos de pesquisa. Faleceu dez anos depois, com 87 anos de idade.
Crucificado em seu Governo, Washington Luiz, que não era melhor nem pior que os outros que o precederam, carregou sobre suas costas todos os pecados da República Velha, mal começada com um golpe de Estado, mal continuada com um desrespeito sistemático à ordem constitucional, e mal terminada com um novo golpe, que viria implantar 15 anos de ditadura civil. A História que o julgue.
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