CAPÍTULO QUATRO
A REVOLUÇÃO TRAÍDA
GETÚLIO ASSUME E FICA Paulo VictorinoA conspiração contra o governo de Washington Luís era um "segredo de polichinelo". Não se articula um movimento de tamanha amplitude, envolvendo todos os Estados, e com infiltração nos quartéis, sem deixar no ar a fumaça denunciadora de um pavio aceso, marcando o tempo para que o explosivo seja detonado.
Armava-se, como que uma farsa, em que cada um representava seu papel. De um lado, uns fingiam não saber de nada; de outro, os demais fingiam que nada estava acontecendo. Enquanto isso, prosseguiam os preparativos para a revolução, e contatos se faziam até no Rio de Janeiro, nos sítios mais próximos ao poder central.
Com efeito, já a algumas semanas da data marcada para eclosão do movimento, o deputado Lindolfo Collor percorria a Capital Federal, sondando o animo de oficiais graduados para sentir a reação destes em face de um levante.
Nessa missão, chegou ele a conversar com o próprio general Tasso Fragoso, que, mais tarde, seria o chefe da Junta Militar Governativa. Ouviu deste uma negativa, mas colocada no condicional. Não participaria de nenhum movimento, era frontalmente contrário à subversão da ordem, todavia, diante de um fato consumado, não se omitiria, tomando, de sua parte as medidas que julgasse convenientes para o país.
A alto comando não só tinha ciência dos acontecimentos, como se sentia preocupado com o entusiasmo que uma revolução dessa natureza poderia despertar na jovem oficialidade, com sérios prejuízos à disciplina.
Estavam vivas, na memória, as revoltas de julho 1922, com uma inversão total da hierarquia, que é um elemento essencial à vida militar. Naquela ocasião, embora derrotados, os sublevados organizaram os levantes de 1924, em São Paulo e no Rio Grande do Sul; mais tarde, formaram a Coluna Prestes, que durante dois anos e meio percorreu o país, usando, com sucesso, a tática de guerrilhas; e, ainda agora, tinha-se notícia da participação dos "tenentes", associados ao poder civil, no movimento que se organizava.
Desta maneira, entendiam os chefes que, se a tomada do poder fosse inevitável, a iniciativa deveria partir do alto escalão, antes que a situação se degenerasse, contaminando os jovens oficiais. Isso explica, de certa maneira, a ação militar paralela desenvolvida na cidade do Rio de Janeiro, sem qualquer ligação com o movimento revolucionário, o qual, ao fim de outubro de 1930, já havia se disseminado por quase todo o país.
Instalação do novo governo
Ainda que operando em campos opostos, os revolucionários e os legalistas, mesmo sem dar-se à conta, operavam de forma sincronizada, como se houvessem concertado entre si todos os movimentos da operação.
Itararé foi o momento para a ação final. A alta concentração de tropas governistas, de um lado, e o ânimo dos revoltosos para o ataque, do outro, faziam prever que uma batalha sangrenta se travaria, com grandes perdas de vidas humanas e sem proveito nenhum para o país.
Foi assim que, no dia 24 de outubro de 1930, véspera do grande confronto, o general Tasso Fragoso, o general Mena Barreto e o almirante Isaias de Noronha, procederam a deposição do presidente Washington Luís, formando os três uma Junta Governativa, ou Junta Pacificadora, como eles próprios preferiram chamar. Com isso, cessaram as hostilidades nas duas as frentes, a legalista e a revolucionária.
Como providência imediata, visando restabelecer a ordem, foram nomeados os ministros da Guerra, da Marinha e de Relações Exteriores, respectivamente, general José Fernandes Leite de Castro, almirante Isaias de Noronha (componente da Junta) e Afrânio de Melo Franco. Nas demais pastas foram colocados Ministros interinos, apenas para responder pelo expediente, até que um governo efetivo tomasse posse.
A nomeação de um titular para a pasta de Relações Exteriores atendeu a uma necessidade premente, pelos desdobramentos diplomáticos causados pela alteração da ordem constitucional. Tinha ele a missão de estabelecer contato com as embaixadas, desfazendo as preocupações de outros governos e administrando eventuais problemas decorrentes do asilo político oferecido por estas.
Um primeiro incidente já havia ocorrido, quando um navio de bandeira alemã tentou sair da baía da Guanabara, sem autorização, e foi atingido por nossa Marinha de Guerra, originando protestos da Embaixada alemã. Já se vê por aí que a presença de um chanceler, naquele momento, era tão importante quanto a dos ministros militares.
A participação popular
Ao contrário da Proclamação da República, em 1889, quando o povo acompanhou indiferente ao desfile das tropas, desta vez, houve intensa participação popular. Este é o detalhe que diferencia uma revolução de um golpe. Tanto as tropas que desciam do nordeste, quanto as que subiam do sul eram aclamadas em todos os lugares por onde passavam.
No Rio de Janeiro, naquele dia 24 de outubro, antes que os três oficiais generais chegassem ao Palácio Guanabara, uma multidão já se acotovelava na frente dos portões, muitos trazendo lenços vermelhos amarrados ao pescoço. À frente deles, se encontrava o líder socialista e deputado Maurício de Lacerda (pai de Carlos Lacerda, então um simples estudante). Era ele um líder popular, com uma folha de trabalhos apreciável na área trabalhista, artífice de estudos e projetos, alguns dos quais influíram decisivamente nas conquistas operárias da década de vinte.
O próprio general Tasso Fragoso, ao vê-lo em frente ao palácio, pediu-lhe prudência, aconselhando-o a conter o povo, para evitar que este tentasse arrombar os portões e invadir o prédio, o que traria conseqüências imprevisíveis.
Na cidade de São Paulo, quando Getúlio e sua comitiva desembarcaram na Estação da Sorocabana, em fins de outubro, uma multidão o esperava, a maioria com lenços vermelhos ao pescoço. O trajeto até o Palácio dos Campos Elíseos, a cerca de quatro quarteirões, se fez no meio de aclamações. Conta Hélio Silva:
"Bandeiras pelas ruas, colchas e tapetes nas janelas, em todo o trajeto, até o Palácio dos Campos Elísios, cujos portões Aureliano Leite [delegado auxiliar] mandou fechar. Vargas determinou que fossem abertos. O povo invadiu os jardins e exigiu que Getúlio falasse. E ele falou comovidamente."
Esse entusiasmo popular vinha desde a guerrilha da Coluna Prestes (1924-1927), acompanhada com o maior interesse pelas massas; foi tal o respaldo popular, firmado nele, Getúlio Vargas ganhou autoridade moral para exigir sua posse em substituição à Junta Militar que se formou.
As preocupações dos revolucionários
A deposição de Washington Luís veio encontrar a Revolução no seguinte ponto: no Nordeste, a situação estava sob total controle revolucionário, com interventores, quase todos tenentes, nomeados na maioria dos Estados. No Rio Grande do Sul, permaneceu no governo Oswaldo Aranha; no Paraná e em Santa Catarina, dois interventores foram nomeados pelo comando revolucionário.
Em Minas Gerais, continuava o governador Olegário Maciel, fiel à Revolução, e os mineiros prosseguiam a luta no Espírito Santo e no Estado do Rio de Janeiro A grande tragédia fora que o líder revolucionário Djalma Dutra foi morto, por engano, por sua própria sentinela.
Era mais complicada a situação do Estado de São Paulo, onde estava no poder o vice-Governador, Heitor Penteado, mas cujo governo era realmente controlado pelo ex-Governador Júlio Prestes, pivô da insurreição.
A frente revolucionária, sob o comando de Miguel Costa, se achava estacionada em Itararé, divisa de São Paulo com o Paraná, aguardando o momento para o ataque aos legalistas, estes últimos comandados pelo general Pais de Andrade.
Quanto a Getúlio Vargas e Góis Monteiro, respectivamente líderes civil e militar da Revolução, estes se estavam na retaguarda, em Ponta Grossa, Estado do Paraná, aguardando o desfecho dos acontecimentos em Itararé.
A súbita derrubada do Presidente, seguida da posse do Governo pela Junta Militar, causou natural preocupação no comando revolucionário, tanto mais que os novos governantes passaram a editar uma série de medidas, como se houvessem assumido o poder em caráter definitivo.
Faltava só um detalhe
A presença da Junta Militar, naquela conjuntura, tinha um significado importante, pois apresentava a transição como um imperativo de segurança nacional e não como o resultado de um conflito armado. Não era a vitória dos revolucionários contra as tropas legalistas, mas a posse de um governo provisório, que iria pôr em ordem o processo, restaurando a normalidade constitucional.
Aí estava o ponto de discordância entre a Junta Militar e o Comando Revolucionário. Getúlio Vargas perdera para Júlio Prestes as eleições de 1º de março de 1930, dentro de um processo fraudulento, como, aliás acontecera com todas as eleições durante a Primeira República. Desta maneira, queria assumir o poder como Presidente legítimo, esbulhado durante a realização e apuração do pleito.
Já, os militares, até aceitavam sua posse, como fruto da vontade popular, porém, somente na condição de Chefe de Governo Provisório, com o que não concordavam, nem Getúlio, nem Góis Monteiro, nem os demais líderes do movimento.
Osvaldo Aranha, interventor no Rio Grande do Sul, seguiu, de avião, para o Rio de Janeiro e, servindo de almofada entre os cristais, funcionou como intermediário entre as duas frentes, conseguindo, finalmente, o assentimento dos revolucionários às exigências dos militares.
Prevaleceu, assim, o bom senso, e ficou acertado que a posse do chefe máximo da Revolução se daria logo após sua chegada ao Rio de Janeiro, o que demoraria alguns dias, já que ele passaria primeiro pela capital paulista, antes de tomar o trem da Central do Brasil em direção ao Rio.
A situação em São Paulo
Além do tradicional Partido Repúblicano, que elegeu Júlio Prestes e se pôs junto aos legalistas, contra o levante, São Paulo contava agora, também, com o Partido Democrático, formado principalmente por jovens idealistas da classe média, que apoiaram francamente a Revolução e se achavam, assim, com direito de assumir a Interventoria naquele Estado.
Prudentemente, a Junta Militar determinou que o poder fosse entregue, provisoriamente, ao comandante da 2ª Região Militar, general Hastínfilo de Moura, incumbido, também, de nomear um secretariado composto somente de civis, escolhidos dentro do Partido Democrático.
Em seguida, coerentemente, a Junta sondou Francisco Morato, do mesmo partido, sobre seu interesse em assumir a Interventoria. Num ato falho, Morato, embora manifestando interesse no assunto, respondeu que só aceitaria o cargo se contasse com a aprovação de Getúlio Vargas. Este, por sua vez, quando consultado, usou de tática protelatória, respondendo que o assunto seria tratado quando de sua chegada a São Paulo.
Tivesse aceitado imediatamente o oferecimento, Francisco Morato talvez evitasse uma sucessão de acontecimentos desastrosos. Ao protelar a decisão, permitiu que uma agitação desordenada se fizesse em torno do assunto, pondo em choque interesses dos mais variados.
O "tenente" João Alberto tinha notório interesse em assumir o cargo; de por sua vez, Batista Luzardo interferiu junto a Getúlio, propondo o nome de Miguel Costa, comandante, primeiro, da Revolução de 1924; depois, da Coluna Prestes; por fim, da vanguarda das tropas que se achavam, agora, estacionadas em Itararé. Eram, em efetivo, três postulantes, além de outros nomes que circulavam nos bastidores. Destarte, a solução final foi protelada, mais uma vez, para após a sua posse no Governo Provisório.
A posse e as interventorias
No dia 3 de novembro, exatamente um mês após a eclosão do movimento, Getúlio Vargas tomava posse como Chefe do Governo Provisório, recebendo o poder da Junta Governativa.
Entre as inúmeras providencias a serem tomadas, urgia referendar a nomeação dos interventores, feita durante a marcha da Revolução. O governo mineiro, como vimos anteriormente, ficou ao lado da revolução e, em homenagem a essa fidelidade, Olegário Maciel foi o único que, não sendo substituído, permaneceu com o título de Governador (ou Presidente do Estado, que é como se designava na época).
São Paulo, sem definição, estava sendo governado pelo secretariado, civil e paulista, como queriam os democráticos. Getúlio, contemporizando, enviou para lá o "tenente" João Alberto (militar e pernambucano) como seu preposto.
João Alberto, se não era interventor, agia como se assim o fosse. Em 7 de novembro, autorizou o Partido Comunista a instalar sua sede em São Paulo, já que não havia disposição legal em contrário. Dias depois, fundou uma "Legião Revolucionária" para defender os objetivos da Revolução, lançando um manifesto popular, assinado por ele, por Miguel Costa e por Mendonça Lima.
Essas Legiões começavam a ser organizadas em alguns pontos do país, e outro motivo não tinham senão o de conservar o poder dos "tenentes" nos Estados, em detrimento do poder civil, intenção que não faziam por esconder.
Em São Paulo, os Democráticos estavam irritados com tamanha interferência, enquanto que, de sua parte, João Alberto insistia com Getúlio para que apressasse sua nomeação. Do Rio Grande do Sul, Oswaldo Aranha manda ao Rio de Janeiro João Batista Lusardo para conversar com Getúlio e "arrancar" deste a nomeação de João Alberto.
Por seu lado, os Democráticos também não perdiam tempo. Como se sabe, o Governo Provisório em São Paulo estava nas mãos de um secretariado cujo Presidente era José Maria Witaker, que foi, depois, convidado por Getúlio para assumir o Ministério da Fazenda. Com isso, a chefia do Governo estadual passou para as mãos de Plínio Barreto, redator-chefe do jornal "O Estado de São Paulo", o qual começou a reclamar da interferência indevida de João Alberto nos assuntos de governo. Getúlio, então, desejando liquidar de uma vez o assunto, nomeou João Alberto, em definitivo, como Interventor no Estado de São Paulo.
As conseqüências de tal ato serão narradas no capítulo relativo à Revolução Constitucionalista de 1932. Por ora, basta adiantar que, em pouco mais de dois anos, São Paulo teve seis interventores: O general Hastínfilo de Moura (ad hoc), João Alberto (agora nomeado), Laudo de Camargo, general Manoel Rabelo, Pedro de Toledo, depois, o general Valdomiro Lima, o general Manoel Cerqueira daltro Filho e, por fim, Armando de Sales Oliveira.
Quem era Getúlio Vargas
Getúlio Dorneles Vargas nasceu em 1883 em São Borja, na divisa entre o Rio Grande do Sul e a província de Corrientes, ao norte da Argentina. Seu pai, Manuel Vargas, lutou na Guerra do Paraguai e depois na Revolução Federalista de 1893, tomando nesta o partido de Julio de Castilhos. Portanto, Getúlio tinha origem em família tradicional republicana ("blancos").
Em 1900, foi estudar em Ouro Preto, Estado de Minas, onde se achavam, também, seus dois irmãos mais velhos, Viriato e Protasio. Um dia, os três e mais outros se envolveram num sério conflito entre estudantes, ocasionando morte de um dos colegas, não se sabe por quem. Em conseqüência, foram todos expulsos da escola, retornando ao Rio Grande do Sul.
Entrou, então, para a Escola de Cadetes de Rio Pardo, mas, em 1902, solidarizou-se com um grupo de colegas que haviam se rebelado contra seu superior. Os colegas foram expulsos e ele, achando injusta a pena, pediu demissão da Escola, voltando ao Exército, desta vez, como simples soldado.
Nesse mesmo ano, surgiu a "Questão do Acre", envolvendo o Brasil, a Bolívia e uma companha americana (Bolivian Syndicate). Tropas foram mobilizadas, e o 25º Batalhão de Infantaria, de que Getúlio fazia parte, seguiu para Corumbá, a defender nossas divisas.
Resolvido o conflito, voltou ele para o Rio Grande do Sul, matriculando-se na Faculdade de Direito de Porto Alegre, onde concluiu o curso e foi orador oficial dos bacharelandos. Durante esse período acadêmico, fez suas experiências como jornalista, fundando um periódico junto com alguns de seus colegas. Foi também aí que iniciou sua carreira política, atuando em movimentos do Partido Republicano.
Getúlio Vargas, até 1930, sempre foi um político regional, sem maior projeção no cenário federal. Foi deputado estadual e, como presidente da Assembléia Legislativa, referendou o nome de Borges de Medeiros para mais um mandato como Governador, originando, com isso, a Revolução de 1923. Aceitando o convite de Washington Luís para assumir o Ministério da Fazenda, logo demitiu-se para candidatar-se a Presidente de seu Estado, ganhando as eleições. Nesse cargo é que fomos encontrá-lo quando candidatou-se a presidente da República (sem interromper o mandato de Governador). Daí saiu para a marcha revolucionária, em 3 de outubro de 1930 e, um mês depois, assumia a chefia da Nação.
Seu Ministério ficou assim constituído: Relações Exteriores, Afrânio de Melo Franco, mineiro; Justiça, Osvaldo Aranha, gaúcho e "blanco"; Agricultura, Joaquim Francisco de Assis Brasil, gaúcho e "colorado"; Fazenda, José Maria Witaker, paulista; Educação e Saúde (desmembrado da Justiça), Francisco Luís da Silva Campos, mineiro; Guerra, general José Fernandes Leite de Castro; Marinha, almirante José Isaias de Noronha, fluminense. Foi criado o Ministério do Trabalho, entregue a Lindolfo Color, gaúcho.
Limpando a área
O primeiro problema a resolver era dar um destino à grande quantidade de prisioneiros feitos nesses dez dias que se seguiram à deposição de Washington Luís, até a posse de Getúlio Vargas. Prendiam-se pessoas por qualquer motivo ou por motivo nenhum e, vivendo-se em regime de exceção, a decisão sobre o destino de cada um era sobretudo política, dependendo das boas graças do chefe de Polícia ou da influência de pessoas ligadas ao novo governo.
Nessas circunstâncias é que João Batista Lusardo foi chamado ao Rio de Janeiro sendo empossado no cargo de chefe de Polícia. Velha raposa política, conhecedor de todos e conhecido por todos, bem relacionado com políticos e personalidades, era a pessoa ideal para fazer a seleção dos atingidos pela Revolução, dando a cada um o destino que julgasse conveniente.
Não era vingativo nem pretendia cometer injustiças, mas o estado emocional do momento impedia qualquer julgamento dentro da absoluta neutralidade.
Foi assim, por exemplo, que concedeu liberdade ao escritor Gilberto Amado, que acabara de chegar da Europa e fora preso, com sua mulher, logo ao descer do navio. Não só o libertou, como fez questão de levá-lo pessoalmente à casa, tecendo-lhe os maiores elogios e assegurando-o de que era desse tipo de homens que a Revolução estava precisando.
Nada a contrariar sobre o reparo à injustiça cometida contra o escritor sergipano. Mas o mesmo Lusardo, poucos dias depois, manda prender o ex-ministro de Relações Exteriores, Otávio Mangabeira, conduzindo-o para o quartel do 1º Regimento de Cavalaria do Exército. Como se lembra, fora ele que, nos momentos dramáticos da deposição, cuidou de todas as negociações com a Junta Militar, conseguindo a vinda do Cardeal Arcebispo ao Palácio, o qual convenceu Washington Luís a renunciar. Não fora a ação equilibrada de Mangabeira e as coisas, talvez, não terminassem de maneira tão pacífica. Pois agora o ex-Ministro estava preso e tinha como destino final a deportação para a Europa, de onde só voltaria em 1934, com a reconstitucionalização do país.
A propósito, se expressa Mangabeira: "Acabo de ser intimado para retirar-me do Brasil. Que tristeza! Não se me perguntou quais os recursos de que para tal dispunha. Como se a deportação, ela própria, não tivesse suas regras. Como se os países estrangeiros fossem postos de degredo! Como se a eles não assistisse o direito de não receber tais imigrantes. Quão excessivo o desconhecimento de coisas tão comezinhas! Falou-se em um tribunal que vai julgar as autoridades depostas. Que retrocesso! Que abismo! Quanto trabalho perdido para aumentar, no estrangeiro, nosso conceito internacional!"
Como acontece em tais momentos, muitas outras injustiças foram cometidas, muitos foram presos e fichados, sem ter como reclamar, pois o próprio judiciário estava manietado. O novo ministro da Justiça, Osvaldo Aranha, em entrevista à imprensa, diz: "Estamos diante de uma situação de fato e não de direito. Estamos, enfim, numa situação revolucionária plenamente vitoriosa."
Primeiras medidas de governo
Num momento crítico como esse, não pode haver um instante de imobilidade. O governo tem que agir rápida e eficientemente para que os problemas não se acumulem ao ponto de causar uma paralisação total do país.
Começaram por despachar para o exterior os homens do antigo regime, que lotavam as prisões e as embaixadas, na maioria políticos e homens de confiança do governo anterior. Numa primeira leva, seguiram figuras bastante conhecidas, como o senador Irineu Machado, do Rio de Janeiro; o deputado e historiador José Maria Belo, de Pernambuco; o deputado Paim Filho, do Rio Grande do Sul; e o deputado Miguel Calmon, da Bahia.
Ao mesmo tempo em que o governo ia se desvencilhando dessa carga incômoda de adversários, um decreto era assinado, beneficiando os novos donos do poder com uma anistia ampla e irrestrita, determinando "silêncio perpétuo" sobre todos os crimes cometidos desde a revolta de 1922 e fazendo retornar para a ativa das Forças Armadas, em seus antigos postos, todos aqueles que se rebelaram contra os governos de Epitácio Pessoa, Artur Bernardes e Washington Luís.
Voltavam, pois, à legalidade, os "tenentes" e os demais que participaram das revoluções de 1922, 1923 e 1924, da Coluna Prestes e da revolução agora vitoriosa. Voltavam à legalidade, também, o general Isidoro Dias Lopes e seu lugar-tenente, o major Miguel Costa, este último reassumindo, o comando da Força Pública do Estado de São Paulo.
Foram dissolvidos o Senado Federal, a Câmara Federal, todas as assembléias legislativas e senados estaduais, bem como as câmaras municipais, passando o país a ser governado por decretos, assinados pelo Presidente, ou pelos interventores, nomeados ou confirmados pelo poder central.
Alterou-se a estrutura do Supremo Tribunal Federal, diminuindo de treze para onze o número de Ministros que compunham esse órgão máximo da Justiça. Aliás, o Supremo, guardião da Carta Magna, nem tinha mais o que fazer, pois o Governo Provisório revogou a Constituição de 1891 e nenhuma outra foi outorgada em seu lugar. O governo, à falta dessa baliza fundamental, passou a atuar discricionariamente, ao sabor dos acontecimentos e do humor dos governantes.Estava criada a máquina que entregava o poder absoluto a Getúlio Vargas e que, bem azeitada, iria funcionar até 1934.
Mais um detalhe: como a situação do Brasil setentrional era complicada e Getúlio não tinha familiaridade política com os núcleos do poder naquela parte do país, nem conhecia os interventores nomeados por Juarez Távora, este foi designado coordenador político e administrativo da região, desde a Bahia até o Pará e Amazonas. Por isso, ironicamente, a opinião pública passou a considerá-lo como o "Vice-Rei do Norte", numa alusão à divisão administrativa das antigas colônias espanholas.
Recomposição das forças revolucionárias
A composição de forças que se uniram para fazer a Revolução de 1930 era por demais heterogênea para que pudesse se manter coesa depois de alcançados os objetivos.
Lá estavam os "tenentes" de 1922, que lutaram contra Epitácio Pessoa e Artur Bernardes; lá estavam também Epitácio Pessoa e Artur Bernardes, que derrotaram os "tenentes" e jogaram-nos na clandestinidade.
Encontravam-se no movimento os homens que lutavam contra as oligarquias e pela renovação dos costumes políticos; juntas se achavam outras oligarquias, sedentas de substituir as anteriores e se beneficiar das vantagens oferecidas pelo poder.
É natural e compreensível que todos esses elementos discrepantes venham agora a se reorganizar, buscando seus próprios caminhos, tentando cada um influir no poder, ou passando para a oposição, quando não conseguem impor seus objetivos.
As forças de apoio influentes no Governo provisório, logo lhe dão uma face própria, com traços facilmente identificáveis. Uma dessas características é a influência militar, com destaque para os "tenentes", agora de volta à legalidade, uns com influência nos quartéis, e outros ocupando interventorias ou postos importantes no governo; outra, igualmente importante, é a consolidação de forças civis de extrema direita, de tendências nazi-fascistas, sofrendo influência sobretudo dos movimentos italianos.
Foi assim que começaram a se formar as "Legiões Revolucionárias", em alguns pontos do país. Além disso, para aglutinar as lideranças, fundou-se o "Clube 3 de Outubro", reunindo a fina-flor do "tenentismo", com participação do próprio coronel Góis Monteiro, e com um apoio ostensivo de Getúlio Vargas, que lhe fez várias visitas e pronunciou discursos de preocupante teor totalitário.
A corrente civil logo passou à organização de milícias, usando uniformes especiais, à semelhança dos "camisas-negras" de Mussolini e os "camisas-pardas" de Hitler. Uma dessas milicias era a dos "camisas-cáqui", fundada em Minas Gerais pelo Ministro da Educação e Saúde, Francisco Campos, conhecida como "Legião Mineira". Outra, que permaneceu por anos e influiu pesadamente na Segunda República foi a dos "camisas verdes" do escritor Plínio Salgado, reunida em torno da "Ação Integralista Brasileira".
A existência dessas forças em recinto fechado já era um elemento conspiratório à ordem; a presença delas nas ruas levava inevitavelmente à pressão psicológica e física, limitando ou inibindo a liberdade de pensamento.
Todavia, não se pode atribuir o surgimento dessas agremiações apenas à revolução vitoriosa. Havia por toda parte uma descrença pelas idéias liberais e, desde o surgimento da União Soviética, o mundo começou a se radicalizar em dois blocos distintos, de esquerda e de direita, ambos buscando o confronto e abominando o diálogo.
O ataque ao "Diário Carioca"
Era da personalidade de Getúlio Vargas incentivar sorrateiramente as forças que, de alguma forma, pudessem ajudá-lo na realização de seus planos, para depois, no momento próprio, anular essas forças colocando-as, se preciso, fora da lei. Não inibindo tais movimentos, permitia implicitamente os abusos sem que, entretanto, tivesse de se responsabilizar pessoalmente pelas arbitrariedades cometidas.
Com freqüência desusada e preocupante, ocorriam atentados à ordem pública, sem que os responsáveis fossem punidos, ou sequer identificados oficialmente, muito embora fossem de todos conhecidos.
O mais grave desses incidentes foi o empastelamento do jornal "Diário Carioca", ocorrido em 24 de fevereiro de 1932.
Naquela época, a rotina de produção de um jornal era, mais ou menos, a seguinte: a matéria, chegada da redação ia para a composição nas linotipos, onde se fundiam as linhas do texto. Os títulos eram compostos à mão, letra a letra, usando-se fontes metálicas. As manchetes igualmente montadas à mão, se faziam com tipos de madeira (letras garrafais).
Na bancada, todo esse material era reunido, de forma artesanal, formando as páginas que, depois, eram colocadas em uma prensa (calandra), produzindo-se um molde em relevo sobre uma folha de papelão (flan). Esse molde era, então, vergado em semi-circulo, fundindo-se uma placa de chumbo (telha), que era a matriz definitiva, depois fixada na impressora.
Facilmente se percebe que o "calcanhar-de-Aquiles", em toda essa operação, era a fase de paginação, ou seja a formação das páginas dentro das ramas, reunindo-se as linhas da linotipo com os títulos, clichês, enfim o que se referia à composição do jornal, numa massa mole que, jogada ao chão, em uma fração de segundo se decompunha, inutilizando o trabalho de um dia inteiro. Era o "pastel", que inibia os demais processos de feitura do jornal e, por consequência, suspendia a sua circulação.
Já após a deposição de Washington Luís, grupos enfurecidos, em várias partes do país, percorreram jornais simpáticos ao governo deposto, provocando seu "empastelamento".
Tal atitude, anti-social, anti-democrática e criminosa, continuou se verificando, de quando em quando, e recrudesceu com o surgimento de milícias e grupos políticos radicais. A impunidade gerava novos atos de intimidação criando uma escalada da violência.
O "empastelamento" do jornal
Quem melhor pode testemunhar sobre o "empastelamento" do "Diário Carioca", ocorrido a 25 de fevereiro de 1932, é João Batista Lusardo, então Chefe de Polícia do governo Vargas e ele o fez, três anos depois, em discurso na Câmara Federal:
"Estava em minha residência quando, por volta das 23 horas, recebi um comunicado, pelo telefone especial, de que algo de anormal se passava na praça Tiradentes, porque se ouviam descargas sobre descargas. Telefonei, como era de meu hábito, para a 4ª Delegacia Auxiliar, à frente da qual se encontrava o Sr. Salgado Filho, perguntando o que ocorria. Sua excelência não se achava na Repartição.
"Tomei, então, providências imediatas para que o delegado de serviço corresse à praça Tiradentes, enquanto eu mesmo me movia, de casa, diretamente ao local do crime. Quando cheguei à praça Tiradentes, encontrei três caminhões, todos cheios de praças do Exército, que debandavam. (...)
"Dez minutos depois, chegavam também o Sr. Flores da Cunha e o Sr. José Américo, ministro da Viação. Ainda encontramos cinco homens, empregados da redação, caídos, dois gravemente e três levemente feridos por armas de guerra, os quais enunciavam os nomes das pessoas que haviam comandado a escolta ou força atacante das oficinas do matutino carioca."
Lusardo não tem dúvidas de que o chefe do Governo Provisório tinha conhecimento prévio do atentado. Informando da ocorrência, no próprio gabinete presidencial, Getulio teria respondido ao Ministro da Justiça: "Mas o que queres que eu faça? Pois os rapazes fizeram isso porque o Diário Carioca estava me atacando? Não posso ser contra eles!"
E prossegue Lusardo: "O senhor Getúlio Vargas, forçosamente, deveria ter sido previamente informado desse assalto, se é que não foi ele o seu próprio idealizador. As precauções e cautelas tomadas pelo sr. Osvaldo Aranha, ao informá-lo do ocorrido, bem demonstram que sua missão foi a de comunicar-lhe, não uma novidade ou surpresa, mas sim a maneira pela qual suas ordens haviam sido cumpridas."
Ficou patenteado que o grupo atacante do jornal era constituído por oficiais do 1º Regimento de Cavalaria Divisionária, sediado na avenida Pedro Ivo, com o concurso de outras unidades e departamentos.
A reação ao atentado foi tamanha que em alguns Estados todos os jornais decidiram fazer um ato de protesto, suspendendo sua circulação por um dia.
O episódio, sem maiores desdobramentos, é registrado para dar idéia do clima existente na época quando, após quase dois anos de Governo provisório, tudo se fazia para protelar a convocação de uma Assembléia Constituinte, permitindo a radicalização cada vez maior do regime.
Foi nesse ambiente tenso que se desenrolaram os acontecimentos que levaram à Revolução Constitucionalista de 1932, cuja trama envolvia inicialmente os Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul mas que, ao fim, eclodiu apenas em São Paulo, ganhando na contra informação do Governo Provisório a classificação de movimento separatista.
| . www.pitoresco.com/historia . |
||