CAPÍTULO CINCO

A REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA
O FIM DO PODER DISCRICIONÁRIO

Paulo Victorino

     Costuma-se dizer que, em uma guerra, a primeira vítima é a verdade. Uma das mais poderosas armas de combate é a contrainformação, isto é, a propagação de informações distorcidas ou inverídicas, que lancem dúvidas ou falseiem a verdade, criando clima psicológico para justificar a ação.

     Esse recurso é muito usado em qualquer embate, seja no terreno das ideias, na atuação política, ou na operação armada. Conquistar a opinião pública para seus objetivos, causando a confusão mental, é meio caminho andado para a vitória. Não por acaso que os governos e as forças militares ou revolucionárias de todo o mundo tem setores especializados nos serviços inteligência, buscando a informação e divulgando a contrainformação, manipulando dados com a mesma eficiência com que manejam as armas.

     Ao estourar o movimento constitucionalista de 1932, o Governo Provisório fez espalhar a versão oficial de que o verdadeiro objetivo de luta no Estado de São Paulo era o de separar-se do Brasil. Paralelamente, boatos davam conta de que o ex-presidente do Estado, Altino Arantes, reunia forças para dar um golpe de Estado, derrubando o Governo Provisório e transferindo a capital da República para São Paulo.

     O ano de 1932 já vai longe. Documentos que antes eram secretos ou pertenciam a arquivos particulares, inclusive os do Sr. Getúlio Vargas, vieram à tona e foram analisados minuciosamente pelos estudiosos da História do Brasil. Nada, nada mesmo, foi encontrado nestes setenta anos de pesquisa, que possa levantar a mínima suspeita quanto a pretensões separatistas, menos ainda, que, em algum momento, se tenha pretendido transformar São Paulo na capital da federação.

     Mas a mentira, repetida várias vezes, adquire sabor de verdade. Tal foi, por exemplo, o boato propalado em 1989, de que Deodoro estava preso e que tropas seriam removidas do Rio de Janeiro para pontos distantes do país. Descoberta a mentira, o imperador Pedro II já havia sido derrubado e exilado. Tal foi o episódio das cartas apócrifas de Artur Bernardes, pretexto para a subversão dos quartéis em 1922. E, percorrendo a História, encontraremos, a todo o momento episódios em que a contrainformação cria justificativa para uma ação, nem sempre bem intencionada, de quem a divulga.

     Antes de se fazer juízo sobre os pontos positivos e negativos da Revolução de 1932, vale à pena dar uma vista aos acontecimentos, à luz da documentação existente sobre o assunto. Até porque, numa guerra, não existem santos. Ela é a negativa da lógica, ou a lógica do absurdo, que pretende substituir a força da verdade pela verdade da força.

As facções em confronto

     O Governo Provisório, instalado em 3 de novembro de 1930, era um mar de contradições. Seu chefe supremo, Getúlio Vargas, positivista dos velhos tempos de República, sonhava com um governo forte e, se possível, permanente. Sereno e equilibrado, movimentava, uma a uma, pacientemente, as pedras desse complicado tabuleiro de xadrez, que é a vida pública. Não descartava a violência, mas preferia o caminho da paz para atingir seus objetivos. Se possível, cedia, senão investia usando todos os recursos à sua disposição.

     Paralelamente, para o bem ou para o mal, os "tenentes" de 1922 assumiram o poder com Getúlio, e até antes dele, já que os interventores militares iam sendo nomeados assim que cada Governador era deposto, criando uma rede poderosa a se contrapor com o governo central. Os "tenentes" passaram oito anos no exílio ou no anonimato, expulsos do Exército, afastados da família, banidos da sociedade, comendo o pão que o diabo amassou e se esqueceu de assar, e não pretendiam entregar o poder a revolucionários de última hora nem era sua intenção a redemocratização do país para entregá-lo às mesmas forças que haviam combatido. Para eles, melhor do que movimentar as peças no xadrez, seria virar de uma vez o tabuleiro.

     Por outro lado, no Brasil inteiro, as oligarquias reinantes foram derrubadas e alijadas do governo. O impacto era sentido especialmente em São Paulo, onde os ruralistas, reunidos em torno do Partido Republicano (PRP) perderam a chance de desenvolver a política de sustentação do café à custa do dinheiro público.

     Em São Paulo, havia, também, desde alguns anos, o Partido Democrático (PD), que participara da Revolução de 1930 ao lado dos revoltosos, ora no governo, e esperava receber sua fatia de bolo na distribuição do poder.

     Por fim, em São Paulo, como no restante do país, os "tenentes" tratavam de instalar suas bases permanentes valendo-se de João Alberto e do major Miguel Costa. Assim é que, seguindo a orientação do "vice-rei do Norte", Juarez Távora, promoveram a fundação da Legião Revolucionária, de tendências totalitárias, como o eram o Clube dos Tenentes e outras associações paramilitares.

     Outra força emergente e de peso era também a da classe operária. A Abolição da Escravatura, em 1888, arrasou com a economia dos Estados brasileiros, menos com a de São Paulo, que já vinha se utilizando do braço imigrante e adaptou-se facilmente à nova situação. As novas imigrações ocorridas na virada de século, puseram no Estado uma mão de obra diversificada, da qual, parte seguia para a lavoura, outra se fixava nas cidades, especialmente na capital, incrementando a indústria e formando um operariado lutador, consciente de seus direitos. Muitos desses trabalhadores, como os italianos, traziam de sua terra natal uma experiência de lutas, criando base para formação de movimentos reivindicatórios, trabalhistas e/ou políticos.

     Todos esses blocos compactos atuavam na condição franco atiradores, cada um defendendo seus interesses específicos, mas reunindo ocasionalmente suas forças, quando o objetivo era impossível de se conquistar com a luta individualizada.

Uma no cravo, a outra na ferradura

     O centro do poder legal era o Governo Provisório, cuja política Getúlio administrava com rara habilidade. Não pretendia abandoná-lo tão cedo, mas também não comprava problemas além daqueles que tinha condições de administrar.

     Getúlio não via com bons olhos o poder paralelo dos "tenentes", menos ainda a concentração destes em associações, como o Clube 3 de Outubro (data de início da Revolução de 1930), ou as Legiões Revolucionárias, estas inspiradas por Juarez Távora. De bom grado, Getúlio substituiria os militares incrustados nas interventorias. Legalmente, podia fazê-lo mas, para evitar as repercussões de tal ato, contemporizava, usando em seu favor a força dos "tenentes".

     Do Clube 3 de Outubro, conhecido como Clube dos Tenentes, fazia parte até o tenente-coronel Góis Monteiro, chefe militar da Revolução e homem forte do poder. Como escreveu Alzira Vargas, "ser tenente era mais importante que ser general." Getúlio reconhecia esse poder paralelo e várias vezes visitou o clube, fazendo discursos transmitindo as mensagens que eles queriam ouvir. Dentre elas a de que não era conveniente reconstitucionalizar o país enquanto não se eliminasse as "ervas daninhas" do regime anterior.

     Incomodavam ao Chefe do Governo Provisório os movimentos pela nova Constituição, mas tinha em sua sacola um jogo de ferramentas de que faria uso, cada uma a seu momento próprio. Assim, no dia 24 de fevereiro de 1932, quando estavam programados comícios pró-constituinte em São Paulo e Rio de Janeiro, não titubeou em usar uma delas, assinando um Decreto, já prontinho, que estabelecia o novo Código Eleitoral, com regras para uma futura e incerta convocação de Assembleia Constituinte. Em consequência, os comícios foram parcialmente neutralizados em seu conteúdo.

     Todavia, no dia seguinte, com a mesma rapidez e eficiência, forças paramilitares atacavam as oficinas do "Diário Carioca", que, entre outras coisas, vinha cobrando do Governo a convocação da Constituinte. O jornal foi "empastelado" e vários funcionários ficaram feridos, dois em estado grave. O incidente nunca chegou a ser apurado convenientemente, mas ficou patente que homens-chave do governo, senão o próprio Chefe, tinham envolvimento no atentado.

O novo código eleitoral

     O novo código eleitoral não foi um trabalho de improvisação. Guardado para uso no momento apropriado, que ora chegou, era um estudo muito bem feito, que modernizava o sistema eleitoral vigente na Primeira República, dando-lhe maior representatividade e expurgando os vícios que vinham transformando as eleições em uma farsa para referendar os candidatos previamente escolhidos pelos donos do poder.

     Uma das modificações introduzidas foi o voto secreto. Com o sistema vigente, de voto a descoberto, ou a "bico-de-pena", o eleitor era policiado e estava mais sujeito às pressões dos candidatos, não podendo manifestar livremente sua opinião.

     O limite de idade, anteriormente de 21 anos, baixou para 18 anos, ampliando apreciavelmente o contingente eleitoral. O jovem, por natureza, é mais interessado na renovação política e, se o deixam, comparece mais facilmente às urnas, sempre motivado em reformar o mundo. Sem conhecer os meandros do poder, calcula as distâncias em linha reta, ignorando que os volteios tornam o caminho mais longo e demorado. Mas comparece, e a ampliação da faixa etária foi, pois, um elemento altamente positivo para a autenticidade da consulta popular.

     Dava-se, também, o direito de voto à mulher. Com a Proclamação da República, o voto censitário (segundo a renda) foi transformado em voto universal (cada eleitor, um voto). Depois disso, em quatro décadas de República, nenhuma outra alteração significativa aconteceu, até porque faltava povo, ou seja, uma pressão da opinião pública para que as coisas acontecessem. A conquista do voto, pela mulher, veio corrigir e não sem tempo, essa injustiça.

     Por fim, como medida mais eficaz, foi criada a Justiça Eleitoral, para organizar o processo, fixando as juntas, fornecendo os títulos, organizando as votações, etc. Por incrível que pareça, a maioria dessas providências era tomada pelos próprios partidos políticos, que faziam a inscrição dos eleitores e participavam da criação das seções eleitorais. Com isso, os partidos controlavam o processo. Getúlio Vargas, quando candidato à Presidência, em 1930, estando no Rio de Janeiro, passou o dia à procura de uma seção aberta, onde pudesse votar, e só ao fim do dia pôde fazê-lo. Umas seções abriam, outras não e, nas que estavam abertas, imagine-se as pressões a que o eleitor comum era submetido.

     Quase tudo estava organizado para trazer o país de volta à normalidade. Uma das primeiras providências do Governo Provisório foi revogar a Constituição de 1891 e, depois disso, e nenhuma outra foi colocada em sua substituição para delimitar os poderes da Republica. Era, pois, de extrema urgência, a eleição de uma Assembleia Constituinte para fazer a nova Carta Magna e recolocar o Brasil entre os países civilizados do mundo.

     Mas as providências do Governo Provisório pararam por aí. Nem por um momento se pensou em assinar outro Decreto, marcando data para a realização da Assembleia Nacional Constituinte. Assim, o Código Eleitoral não passou de um código de boas (ou más) intenções. Neutralizou a campanha pró-constituinte, mas não deu a menor garantia de que, em tempo razoável, as eleições seriam realizadas.

Voltando ao caso de São Paulo

     Dentre 20 Estados brasileiros, nenhum apresentou tantos problemas como São Paulo, na criação da interventoria. A Revolução, descendo do norte ou subindo do Sul, foi deixando em seus lugares os interventores nomeados, geralmente militares comprometidos com o movimento, mas sempre enraizados no Estado em que assumiam. No Rio Grande do Sul, assumiu o gaúcho Flores da Cunha; em Santa Catarina, o tenente-coronel Arnoldo Mancebo, ali radicado; no Paraná, o general da reserva Mário Alves Monteiro Tourinho, que era o pai do chefe da Revolução naquele Estado, major Plínio Tourinho. Nos Estados do norte e nordeste, seguiu-se a mesma regra e, em Minas Gerais, permaneceu Olegário Maciel, com a prerrogativa de usar o título de Governador.

      Assumindo, provisoriamente, o poder, a Junta Militar Governativa ordenou ao comandante da 2ª Região Militar que ocupasse o Governo de São Paulo até a nomeação de um interventor. O poder cabia ao Partido Democrático, que já tinha indicado para o cargo o nome de Francisco Morato. Este só não foi nomeado imediatamente porque preferia esperar pela chegada de Getúlio a São Paulo. Foi o seu erro, pois deu tempo a toda sorte de manobras, envolvendo os nomes dos "tenentes" João Alberto e Miguel Costa, ambos com forte apadrinhamento junto ao Governo Provisório que se formava. Miguel Costa era um argentino radicado em São Paulo e já habituado aos usos e costumes locais. João Alberto, porém, caiu de paraquedas e nenhuma afinidade tinha com o Estado, seu povo e sua política. Era, pois, um estranho no ninho.

     Surpreendendo os democráticos, Getúlio, em 25 de novembro de 1930, optou por nomear João Alberto. Sem lastro político, não conseguiu governar e renunciou, entregando o poder a Laudo de Camargo, probo Juiz de Direito, bom administrador mas de pouca maleabilidade política. Laudo não aceitou interferências na nomeação de seu secretariado, depois, extinguiu a Secretaria da Segurança Pública, cujo titular era o major Miguel Costa, um dos pilares da Revolução. Este foi convidado para assumir o comando da Força Pública, porém, com a condição de se desligar imediatamente da Legião Revolucionária, a outra força que almejava controlar o poder.

     A polêmica teve seus desdobramentos, com o envolvimento de outras forças estranhas a São Paulo: o tenente-coronel Góis Monteiro, homem forte do Governo Provisório; o interventor do Rio Grande do Sul, Osvaldo Aranha, gaúcho mas cuja descendência materna era paulista; e o ex-interventor João Alberto que, mesmo afastado do governo, exercia suas pressões através da Legião Revolucionária. Sem condições de governar, Laudo de Camargo renunciou, transferindo suas atribuições, em caráter provisório, ao novo comandante da 2ª Região Militar, general Manuel Rabelo.

     O problema ficou, aparentemente, solucionado com a posse de Pedro de Toledo, em 25 de fevereiro de 1932. A essa altura, já havia um clamor nas ruas pela convocação da Assembleia Nacional Constituinte, atingindo sobretudo as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, fortemente politizadas. No dia anterior ocorreram os comícios pró-constituinte a que nos referimos há pouco e o dia da posse coincidiu com o "empastelamento" de jornal no Rio de Janeiro, também narrado linhas atrás. Esse era o ambiente político-militar em que se dava a posse.

Pela Constituição

     Já no mês de janeiro, a pretexto de se comemorar o 378º aniversário da fundação da cidade, tinha havido uma grande concentração, na praça da Sé, usando como mote a reconstitucionalização do país. Depois, a multidão se dispersou em várias passeatas dirigidas a pontos diferentes da cidade, mobilizando a população.

     Os comícios passaram a ser frequentes, promovidos sobretudo por jovens acadêmicos, da classe média e mais politizados, que procuravam passar a mensagem da Constituinte ao cidadão comum. Esse clima de efervescência nas ruas, se juntava à agitação tumultuosa dos gabinetes, em busca da autonomia do Estado, dentro do princípio federativo. E aos dois fatores, se acrescentava outro, igualmente preocupante, a insatisfação nos quartéis da polícia estadual.

     A decretação do Código Eleitoral, em 24 de fevereiro, não diminuiu a ansiedade, já que, como não se marcou a data efetiva para as eleições, ele se tornou apenas uma peça de retórica, sem maiores resultados práticos. A convocação da Assembleia Constituinte era o objetivo central dos manifestantes em São Paulo e em outros Estados e, pela inércia do poder central, começou a surgir movimento de articulação pela volta às armas, liderado por São Paulo, mas com ramificações em Minas Gerais e, principalmente, no Rio Grande do Sul. Em São Paulo, o Partido Democrático, no poder, aliou-se ao Partido Republicano, seu adversário, passando a conspirar juntos.

A conspiração

     Na articulação revolucionária, fazia falta e muito, a experiência dos "tenentes" que ajudaram a preparar o movimento de 1930. Mas, como bem observa Alzira Vargas, agora, "os rebeldes de 1930 combatiam os rebeldes de 1932." Os primeiros transformaram-se em heróis, os segundos eram subversivos. A total falta de experiência levou, algumas vezes à imprecaução, outras à confiança ingênua em juras de políticos matreiros.

     Feitos contatos com o governador mineiro, Olegário Maciel, este garantiu que, havendo revolução, não usaria as tropas de Minas no combate aos revolucionários. Talvez, até ajudasse o movimento. Não se levou em conta que Olegário Maciel, o único governador entre 19 interventores, conservara esse título pela fidelidade à revolução que colocou Getúlio no poder e jamais assumiria, seriamente, um compromisso dessa natureza. Mais adiante, estabeleceu-se uma ligação com o coronel Eurico Gaspar Dutra, comandante do 4º Regimento de Cavalaria no Sul de Minas, que, honestamente, recusou aderir, justificando sua atitude legalista por formação.

     No Rio Grande do Sul, foi estabelecido um contato com o comandante da 3ª Região Militar, general Eurico de Andrade Neves, convidando-o a participar do levante. O resultado não só foi uma recusa, como também deixou-o alertado para o movimento que se preparava. O interventor Flores da Cunha, aceitou participar, sendo demovido pelo ministro da Justiça, Osvaldo Aranha, que o aconselhou a "não fazer burrada."

      Mais curioso ainda era o caso de São Paulo, cujo interventor, Pedro de Toledo, foi o último a saber. Até foi ele que indicou o nome do general Pereira de Vasconcelos para o comando da 2ª Região Militar, em substituição ao general Manuel Rabelo. Getúlio concordou e procedeu a nomeação, No dia 9 de julho, data marcada para o levante, Pedro de Toledo acompanhou o ministro Salgado Filho até a estação da Central, para embarcá-lo de volta ao Rio, depois de uma visita à capital bandeirante. Pediu a este que levasse a Getúlio a certeza de que manteria a ordem em São Paulo, eliminando os focos de intranquilidade. Estava sendo sincero em tudo o que dizia.

     Ao chegar ao Palácio dos Campos Elíseos, encontrou o secretariado reunido e, ao perguntar do que se tratava, foi informado de que a revolução se iniciara. A luta verbal que se seguiu foi imensa, como conta Hélio Silva: "Pedro de Toledo não queria ouvir. E, para não ouvir, afastou-se. Penetrou em uma das salas, onde se fechou a chave, enquanto outros prosseguiam o apelo, agora ouvido através da porta. A cena demorou bastante. A insistência do secretariado foi mais duradoura do que a resistência do interventor sexagenário. A porta abriu-se. Horas depois, Pedro de Toledo enviava um telegrama demitindo-se da Interventoria para ser o governador de Estado insurreto."

Como tudo começou

     O comandante honorário da revolução é, uma vez mais, o velho general Isidoro Dias Lopes. O comando efetivo está entregue ao General Bertoldo Klinger, ora servindo em Mato Grosso. A divisão paulista fica a cargo do coronel Euclides Figueiredo. O comandante da Força Pública, Júlio Marcondes Salgado Filho, permanece no cargo.

     Em 28 de junho de 1930, o ministro da Guerra, general José Fernandes Leite de Castro, por razões outras, demite-se, e é substituído pelo general Augusto Inácio do Espírito Santo Cardoso, simpático ao "tenentismo", o que poderia trazer a leitura significativa de que o Governo Provisório estava congelando a ideia propalada de se convocar uma Assembleia Constituinte para a redemocratização do País.

     No dia 8 de julho, em Mato Grosso, o general Bertold Klinger (comandante da revolução planejada) deu o sinal para a deflagração do movimento, ao enviar um ofício ao ministério da Guerra, recusando subordinação ao novo Ministro, com o que recebeu ordem para passar o comando, imediatamente ao seu substituto legal. O que se dá a seguir é de causar estranheza, em se tratando do chefe de um levante. Klinger cumpre docilmente a ordem, transmitindo o comando e despedindo-se de seus comandados, recomendando-lhes disciplina e união. Em seguida, retira-se para casa.

     Em São Paulo, o coronel Euclides Figueiredo já tinha tudo sob controle. "Senti-me senhor da situação. São Paulo inteiro estava em nossas mãos. Estradas de ferro, entroncamentos rodoviários, estações de rádio e estações telegráficas e telefônicas, a Guarda Cívica Paulista, a Inspetoria de Veículos, toda a Força Pública, com seu comandante à frente, coronel Marcondes Salgado, grande parte das unidades do Exército (...)."

     No dia 9 de julho de 1932, dando início à revolução, o coronel Euclides toma o Quartel General do Exército, na rua Conselheiro Crispiniano (o local, hoje é uma praça fechada) e passa expedir telegramas aos demais quartéis, comunicando o início do movimento.

O apoio esperado não vem

     Figueiredo estava certo: ao sinal enviado pelo telégrafo, o Estado de São Paulo inteiro mobilizou-se, com adesão maciça, como também não lhe faltou apoio da população. Desde a capital, até os pontos mais distantes do Estado, os homens válidos abandonavam suas ocupações habituais para alistar-se como soldados constitucionalistas. Se havia um bom contingente, por outro lado, faltavam as armas, o que inutilizava a boa vontade desses cidadãos.

     De Mato Grosso, chega o general Klinger, comandante da Revolução, com as mãos vazias, sem os soldados prometidos, nem as armas de que tanto se necessitava. Era um comandante sem comandados. Como conta Hernani Donato: "Ao deixar Campo Grande, o general Bertoldo Klinger traria claramente descortinado o quadro da situação. Nem mesmo as guarnições todas de sua circunscrição dispõe-se a acompanhá-lo. Terá por si algumas unidades federais, outras policiais e o entusiasmo civil dos sul-matogrossenses, que esperam alcançar, por prêmio da vitória, a realização do projeto secularmente acarinhado: a criação do Estado do Mato Grosso do Sul."

     O mesmo não aconteceu com os outros Estados comprometidos. Em Minas, Olegário Maciel permaneceu fiel ao governo central e, vencidas as resistências, ofereceu forças estaduais para o combate aos rebeldes. No Rio Grande do Sul, Flores da Cunha desapareceu no dia do levante, para voltar uma semana após como legalista, passando a combater os velhos companheiros da revolução anterior, entre eles João Batista Lusardo e o já septuagenário Borges de Medeiros, líder incontestável dos gaúchos, que governou o Rio Grande por 28 anos.

     Por outro lado, a reação se fez sentir imediatamente. Getúlio Vargas, com a coordenação do coronel Góis Monteiro, mobilizou tropas de outros Estados, que se juntaram aos contingentes do sudeste, para debelar, o mais rápido possível, o movimento.

     Esperava-se a vinda de armas do Exterior, o que não aconteceu, pois não tendo sido reconhecido o estado de beligerância, o armamento não poderia ser comprado legalmente, tornando-se quase impossível fazê-lo pelo mercado paralelo. O parque manufatureiro paulistano transformou-se, pois, repentinamente, em produtor de armamentos, indústria com a qual não tinha nenhuma afinidade, e os projetos de engenharia, feitos à última hora, nem sempre funcionaram a contento. Num dos testes realizados com lançamento de bombas, uma delas explodiu dentro do canhão, matando, quase que instantaneamente, o comandante da Força Pública, Salgado Filho.

     A concentração de tropas se fez, sobretudo, do vale do Paraíba até a divisa com o Rio de Janeiro. Havia tropas, também, ao norte de São Paulo, invadindo o sul de Minas Gerais, até Passa Quatro, onde o comando legalista estava nas mãos do coronel Dutra. Dava-se cobertura também ao litoral norte de São Paulo, do alto da serra do mar, seguindo pela borda da praia até Parati, já no Estado do Rio de Janeiro.

"Frente Única" negou fogo

     Com o recuo do governador mineiro, Olegário Maciel, e do interventor gaúcho, Flores da Cunha, os poucos revolucionários que se dispuseram ir a campo, entraram em uma guerra perdida, apenas para atender um compromisso de honra junto à frente única que se formara entre São Paulo e os dois Estados.

     Cabe destaque ao ex-presidente do Rio Grande do Sul, Borges de Medeiros, homem de gabinete, que nunca participara de uma guerrilha, mas agora, pela primeira vez em setenta anos, experimentava a rispidez do campo de combate. E mais, se achava junto de seu maior inimigo, João Batista Lusardo, a quem jurara de morte há tempos. Um "blanco" e um "colorado", lutando ambos pelo ideal comum.

     Após atravessarem de barco o rio Guaíba, escondidos sob uma tarimba, em cima da qual havia latões de leite, fardos de alfafa e sortimentos diversos, Borges chegou ao abrigo passando muito mal. Como reanimante, lhe ofereceram um "rabo de galo", coquetel à base de cachaça, incrementado com outros recursos mais explosivos da adega da fazenda onde se achavam.

     De início, o velho caudilho resistiu em tomar aquela mistura. Depois de muita insistência, arriscou um trago. Fez uma pausa para sentir os efeitos, analisou e foi para a segunda e a terceira talagadas, até esvaziar o copo, que foi enchido novamente e, desta vez, Borges o virou de uma vez só.

     Refeitas as forças e já a caminho, em busca das tropas que lhes foram prometidas, Borges de Medeiros parecia preocupado com alguma coisa, e não tardou em desabafar com Luzardo: "Ó homem, tu não esquecestes de trazer aquele ‘lambe-sola’ que eu tomei lá na fazenda?"

O fim da luta armada

     Foge aos limites deste trabalho descrever as minúcias da revolução, nos seus quase três meses, já que o nosso objetivo é fixá-la dentro do panorama nacional naquele ano de 1932.

      Por parte do comando e dos comandados houve entusiasmo, dedicação, um sentimento de dever e honra, a certeza de que a causa era justa, quase tudo o que se precisa para dar sucesso ao levante. Faltava porém experiência para organizar e levar adiante uma empreitada dessa monta.

     Comparando com os jovens "tenentes" de 1922, quando se rebelaram, aqueles também careciam dessa experiência e foram facilmente derrotados, nos primeiros momentos de luta. Passaram-se oito anos de tentativas e de frustrações, até que eles chegassem à Revolução de 1930, quando, finalmente, conseguiram seu objetivo.

     A Revolução Constitucionalista, no Estado de São Paulo, terminou em 2 de outubro de 1932, com derrota total no campo de batalha, e tremendos prejuízos àqueles que foram atingidos pela força da lei, após a deposição das armas.

     Todavia, os objetivos da Revolução foram plenamente atingidos. Não dava mais para o Governo Provisório ignorar os anseios da população brasileira de retornar ao Estado de Direito. Era impossível esconder mais lixo embaixo do tapete. E, finalmente, foi organizado o calendário para a redemocratização do país: em maio de 1933, realizavam-se as eleições; em 16 de julho de 1934, era promulgada a nova Constituição do Brasil.

     Outra vitória da Revolução, esta não esperada, mas que aconteceu, foi o declínio do poder dos "tenentes" que, até então, vinham atuando como um quarto poder dentro da República brasileira. Os que continuaram atuando politicamente ou participando do governo, passaram a fazê-lo de forma menos acintosa. Os "tenentes" voltaram a ser simplesmente tenentes, sem aspas. Ou capitães, majores, coronéis, restabelecendo-se a disciplina hierárquica, tão importante na vida militar.

     Será que valeu a Revolução de 1932, autointitulada de Constitucionalista ? Que cada um responda por si.

Precisava haver revolução?

     Getúlio Vargas, como bom xadrezista político, não era homem de desperdiçar pedras. Tudo era feito calculadamente, estudando o conjunto do tabuleiro, antes de dar um lance.

     No primeiro momento, agiu duro com os líderes da Revolução. Foi poupado apenas o velho caudilho Borges de Medeiros, no Rio Grande do Sul, por interferência do interventor Flores da Cunha. Conversando com Getúlio, Flores argumentou que o ex-governador, com mais de setenta anos e saúde precária não resistiria o exílio e o afastamento da família. Além do mais, mesmo havendo governado o Estado por 28 anos, não fez fortuna e ainda perdeu o que tinha, sendo um homem sem recursos para se sustentar no exterior.

     Também não foi embarcado o general Ataliba Leonel, que se achava adoentado. Embora listado para o exílio, acabou sendo riscado e ficou no Rio de Janeiro.

     Os demais não tiveram perdão. Assim que detidos, foram aprisionados no navio-presídio "Pedro 1º" e transferidos, em seguida, para o navio "Siqueira Campos" que, em 18 de novembro de 1932, chegava a Portugal, desembarcando, entre outros, os generais Bertoldo Klinger, Isidoro Dias Lopes (nos seus quase setenta anos), coronel Euclides Figueiredo, major Mena Barreto, o tenente Agildo Barata Ribeiro; os civis Álvaro de Carvalho, Altino Arantes, Austragésilo de Ataíde, Carlos de Souza Nazaré, Francisco de Mesquita, Guilherme de Almeida, Ibrahim Nobre, Júlio de Mesquita Filho, Luís de Toledo Pisa Sobrinho, Oswaldo Chateaubriand, Prudente de Morais Neto e Paulo Duarte, entre dezenas de outros mais. Eram ao todo 73 brasileiros banidos de sua pátria, que iam se juntar aos exilados de 1930.

     "O Siqueira Campos entrou na barra, de manhãzinha, na esteira de um imponente transatlântico inglês. Quando o barco atracou à muralha de Alcântara, encontravam-se no cais, esperando os exilados, entre outras, as seguintes personalidades: Dr. Júlio Prestes, presidente eleito da República do Brasil; general Sezefredo Passos e Dr. Victor Konder, respectivamente ministro da Guerra e da Viação do governo do Sr. Dr. Washington Luís; antigo deputado federal Machado Coelho; Sr. Batista Lusardo [que viajara antes como clandestino no navio "Atlantic"]; coronel Pedro Campos, jornalista Casper Líbero..."

      Na contrapartida, em 16 de agosto de 1933, o mesmo Getúlio nomeava, como interventor em São Paulo, Armando de Sales Oliveira, "civil e paulista", como queriam os democráticos ao início desta aventura. E o fez transmitindo ao novo governante a seguinte mensagem: "Quero que compreenda, em toda a sua amplitude o significado de meu ato: com este decreto, entrego o governo de São Paulo aos revolucionários de 1932."

      Só ficou no ar uma pergunta, que jamais será respondida: se tivesse feito isso já no princípio, com a nomeação de Francisco Morato, como queriam os democráticos, teria havido revolução?

 
 

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