O comunismo nunca teve
expressão no Brasil
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Hélio Fernandes
Tribuna da Imprensa - RJ
6 de agosto de 2003


De  1933  a  2003  -   70  anos  de
comunistas à procura do poder

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     Aldo Rebello do PC do B é líder do governo. É inusitado isso? De uma certa forma, não há dúvida. O PC do B jamais pensou num governo próprio, era demasiado. E indicar o líder de um governo na Câmara, provavelmente uma irrealidade total para o PC do B. Não que não desejassem o governo, é que os outros não admitiam o partido (ou o partidão) no Poder.

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     Por causa disso, se cometeram muitas heresias. Contra os comunistas. E dos comunistas contra a sua própria História. Curiosamente, enquanto nos EUA (ainda antes do final da Segunda Guerra Mundial, e também depois dela) transcorria um período negro, chamado de "macarthismo", no Brasil os comunistas passavam a fazer parte do jogo do Poder.

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     Em 1945 foi derrubada a ditadura Vargas, que já durava 15 anos com vários nomes ou disfarces. A partir de 1930, quando chegou ao Poder, como Chefe do Governo Provisório, até 1945, quando foi tirado do Poder, Getulio enganou a todos. E em 10 de Novembro de 1937, apoiado pelo Exército, implantou a ditadura sem disfarce, que chamou de Estado Novo.

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     Um ano antes, Vargas já preparava o novo golpe, prendendo Prestes na Rua Honório, no Méier. (Isto não tem nada a ver, mas era exatamente onde, meninos, jogávamos pelada diária. Não soubemos de nada). E a polícia que prendeu Prestes num "aparelho" (a denominação da época), também não sabia. Levaram os 10 ou 12 presos para a Polícia Central (a 100 metros desta Tribuna).

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     Foi um velho carcereiro que identificou Prestes e perguntou: "O que é que vocês fazem aí com o Prestes?". Ninguém percebeu que ali, preso e anônimo, preso e desconhecido, preso e ignorado, estava o homem mais procurado do Brasil, desde 27 de Novembro de 1935.

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     Pânico geral, o homem mais procurado do País, preso por acaso. Chamaram o Chefe de Polícia, Filinto Muller, "tenente" como Prestes, que por um buraco secreto, reconheceu Prestes, telefonou logo para Vargas. Começou então o processo de tortura, o mais selvagem, cruel e destruidor que já houve no Brasil. (Nem o bravo e heróico Apolonio de Carvalho e os filhos sofreram tanto nas masmorras da ditadura, ou melhor, das ditaduras).

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     Como isto é apenas um registro sobre a atuação de comunistas e do partido, temos que suprimir partes inteiras da memória viva. Em 1945, com o Brasil todo repudiando a ditadura, com a Força Expedicionária chegando da guerra e exigindo o fim da ditadura, e com Vargas tentando continuar, a grande jogada: libertação de Prestes.

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     Prestes é solto, mas começa um capítulo que deixa a população perplexa: Prestes era então e mais do que nunca, o homem mais popular do Brasil. Pela obstinação, pela convicção, pelo desprendimento, pela Coluna que levou o seu nome, pelo sofrimento, pela legenda dele mesmo. Mas em liberdade, Prestes surpreendeu e superou os mais espantosos absurdos: lançou o movimento que se chamou "Constituinte com Vargas".

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     Era demais até para um homem-herói-mártir como Prestes. Não obteve sucesso, Vargas foi expulso, depois de trocar o apoio de Prestes pela nomeação do irmão Beijo Vargas para Chefe de Polícia. Não por ser irmão, e sim pelo irresponsável que era. Isso foi em 29 de outubro, a eleição foi marcada às pressas para o dia 2 de dezembro, ainda de 1945.

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Nessa eleição, pela primeira e única vez na nossa História, o Partido Comunista teve candidato a Presidente da República. Um homem do partido, um nome do partido, um personagem do partido: o engenheiro Yeddo Fiuza. Teve 10 por cento dos votos totais, surpresa geral. É bem verdade que recebeu uma ajuda formidável da parte de Carlos Lacerda. Este fez uma campanha jornalística espantosa, com o título geral de "O rato Fiuza".

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     Depois, nunca mais o Partido Comunista teve candidato. Quer dizer: nomes do partido, criados, formados e indicados pelo partido. Apoiou Ademar de Barros em São Paulo e mais tarde para presidente. Mandou votar em Juscelino, o que reforçaria o dossiê pela cassação do ex-presidente. Em 1965 mandou votar em Negrão de Lima para governador da Guanabara, "temos que derrotar Carlos Lacerda". Isto era a justificativa, o motivo verdadeiro era outro.

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     Mas o comportamento contraditório, inominável e indefensável do Partido Comunista ocorreu mesmo em 2 de dezembro de 1945. O Partido tinha 2 candidatos ao Senado em São Paulo. Prestes e Portinari. O grande pintor, glória nacional, sempre pertenceu ao partido, mas não tinha a menor vocação política ou eleitoral.

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     Só que o Partido precisava dele, insistiu, colocou-o para ser candidato junto com Prestes. Os dois estavam eleitos, a apuração começou a provar o fato. O grande derrotado era o senhor Roberto Simonsen (nenhum parentesco com Mario Citisimonsen, era apenas coincidência), que entrou em negociação com a cúpula do Partido.

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PS - Fizeram então a alquimia. Prestes se manteve na frente, os votos de Portinari foram "minguando", a apuração terminou com o resultado espantoso: eleitos Prestes e Simonsen.
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