Estado Novo
Uma no cravo, outra na ferradura
Este artigo, publicado por Hélio Fernandes na «Tribuna de Imprensa» de 4 de julho de 2001, conta a manobra de Getúlio Vargas para acalmar as oposições após o golpe de estado de 1937.
Diálogos inéditos mas não imaginados A virada Dia 10 de novembro de 1937. Já existiam muitas conversações sobre a sucessão presidencial que estava marcada para o dia 3 de outubro de 1938. Dois candidatos lançados e praticamente em campanha. Um da oposição e outro da situação. José Americo representava a situação, coordenado pelo governador Benedito Valadares. Já fora ministro de Vargas, era um nome nacional. Pela oposição, Armando Salles de Oliveira. Cunhado do doutor Julio Mesquita filho, foi nomeado pelo próprio Vargas interventor em São Paulo, depois de massacrar a revolução constitucionalista de 9 de julho de 1932. Não adiantava a eleição estar marcada, pois Vargas não gostava de eleição, sua atração maior era o Poder. Ocupou-o durante 15 anos, das mais diversas formas, e com as mais variadas explicações. Na madrugada de 9 para 10 de Novembro de 1937, fechou a Câmara e o Senado, mandou prender dezenas de parlamentares, de civis e militares não parlamentares, principalmente jornalistas importantes. E implantou o que ele mesmo chamou de Estado Novo. A convocação Às 8 horas da noite desse 9 de Novembro (o Estado Novo passaria a valer no dia seguinte, histórico mas nada surpreendente estabelecimento de uma ditadura, Vargas não foi outra coisa a vida toda) o telefone tocou na casa do deputado, (já ex-deputado) e líder da oposição, Henrique Dodsworth. Líder da oposição desde a constituinte de 1934, morava em Copacabana, um dos primeiros a morar "tão longe". Atendeu o telefone, muitos já ligaram antes, queriam saber o que fazer, Henrique Dodsworth também não sabia. A única certeza: já não era mais deputado. - É o senhor Henrique Dodsworth?
- Sim, quem é?
- Aqui é Lourival Fontes, Chefe da Casa Civil do Presidente Vargas. Ele quer que o senhor esteja amanhã às 9 da manhã no Palácio do Catete. Boa noite. E desligou. Por que será ? Henrique Dodsworth, humanista, professor de várias matérias no Pedro II, grande cultura, ficou perplexo. O que seria aquilo? Trote? Nem imaginar. Iria ser preso? Logo lembrou dos muitos colegas e amigos já presos, e raciocinou como se estivesse conversando com alguém: - Henrique Dodsworth, não é muita pretensão pensar que o Presidente da República vai querer prendê-lo pessoalmente?
- Concordo que não deve ser isso. Mas o que é que o homem que acabou de implantar uma ditadura excepcional, e que não sofreu a menor resistência de parte alguma, vai querer comigo? Nem mandato tenho. Henrique Dodsworth deu muitos telefonemas, para comunicar, conversar, tentar interpretar ou até adivinhar o estranho "convite" que recebera. Ele mesmo dissera em todos os telefonemas:
- Foi uma ordem que recebi, o senhor Lourival Fontes não foi nem gentil nem hostil, cumpria missão.
- Você pensou em fugir?
- De maneira alguma. Fugir para onde? E por quanto tempo? Decididamente, não. A surpresa Exausto, angustiado, não tendo mais com quem conversar, e como já passasse da meia-noite, Henrique Dodsworth foi para a cama. Não via jeito de dormir, mas precisava descansar. E na verdade dormiu muito pouco, só pensava no encontro da manhã seguinte. Chegou no Catete à hora marcada, jamais entrara no palácio. Naquele tempo já existiam os que faziam oposição durante o dia e procuravam o governo à noite. Mas não Henrique Dodsworth, inflexível. Foi levado ao gabinete de Lourival Fontes. - Por favor, pode esperar um pouco? Vou comunicar ao presidente que o senhor chegou. Saiu da sala, Dodsworth ficou olhando em volta, o palácio deveria ser bonito, o gabinete demonstrava isso. - Por favor, pode me seguir, o presidente vai recebê-lo. Era Lourival Fontes voltando, Dodsworth completamente sem jeito, quase sem rumo, sem saber onde colocar as mãos. Chegaram ao majestoso salão do presidente, nem era um gabinete. Lourival Fontes acompanhou-o até certo ponto, não anunciou seu nome, Getulio Vargas já sabia. - Não vou mandar que o senhor sente, o que vou lhe dizer é rápido e muito direto. Era o presidente falando, Dodsworth nunca o vira de perto, só ouvia sua voz pelo rádio. Notou que não havia hostilidade no que falou, sentiu até muita simplicidade. - Chamei-o aqui para lhe dizer o seguinte. Já assinei um decreto nomeando-o Prefeito do Distrito Federal. Sai amanhã no Diário Oficial. Como o senhor tem feito oposição muito eficiente ao meu governo, espero que use da mesma competência na administração da cidade. Combine com o Lourival Fontes a forma da posse, se possível amanhã mesmo. Bom dia e felicidade. Final feliz Ao chegar em casa mais tarde, Dodsworth começou a telefonar para amigos. - Não sei se recebi a notícia perplexo ou cambaleante, diria. O presidente não me estendeu a mão, foi frio e formal, mas atencioso. E nenhuma possibilidade de recusa ou aceitação, pois não era convite e sim ordem inflexível, sem direito sequer a resposta. Henrique Dodsworth foi levado até à rua pelo Chefe da Casa Civil, combinaram a posse para o dia seguinte, como o presidente Vargas deixara claro. Lourival Fontes não mudou o tratamento, não amenizou a voz, mas também não engrossou o tom em nenhum momento. A posse foi um exercício de assombro. Oposicionistas e governistas se cruzavam, ninguém conseguia entender nada. O que não podia ser ignorado, explicado, ou contestado: o ardoroso líder da oposição a Vargas, era agora o prefeito do Distrito Federal, onde morava o próprio Vargas. Ocupou o cargo durante 8 anos ininterruptos. Só saiu no dia 29 de outubro de 1945, quando a ditadura do Estado Novo foi derrubada. Foi um dos administradores mais importantes que a capital já tivera. Honestíssimo, homem de caráter e de convicções inabaláveis, era o chamado cidadão acima de qualquer suspeita. Inaugurou escolas, hospitais, postos de saúde, governou para a coletividade. Abriu a Avenida Brasil, um avanço tão grande para o Rio, que os maiores jornais se jogavam contra o prefeito, duramente, dizendo em editoriais exaustivos e insistentes: - Quem é que vai passar nessa avenida enorme? É assim que se gasta o dinheiro do contribuinte? 10 anos depois, "aquela avenida enorme e inútil" estava congestionada e ultrapassada, Negrão de Lima fazia o Pasmado, Carlos Lacerda projetava a Linha Vermelha, a Linha Amarela, a Linha Verde. A Vermelha foi construída e inaugurada por Brizola. * * * PS - No dia 29 de outubro de 1945, Henrique Dodsworth foi nomeado embaixador em Portugal. Já não mais por Vargas, mas pelo regime que o derrubara. 3 anos depois deixava o cargo, Portugal encantado com ele. ____________________
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