CAPÍTULO DEZ - ADENDO
FILINTO MILLER - O
NAZI-FASCISTA

Fonte:
Sebastião Nery
Tribuna da Imprensa
9 de agosto de 2004

     Presidente da Câmara dos Deputados, Paes de Andrade foi à Alemanha participar de uma celebração internacional sobre o fim da Segunda Guerra Mundial.

     Sentado ao lado do embaixador do Brasil, estava em um banquete, em Bonn, oferecido pelo parlamento alemão, quando um secretário aproximou-se do embaixador e lhe cochichou uma notícia ao ouvido.

     O embaixador ficou perplexo, excitado e feliz. Pegou a taça de vinho, fez um brinde ao infinito, sorriu e não disse nada. Paes percebeu o estranho gesto, ficou curioso, perguntou o que tinha havido.

     "Nada demais, deputado. Só uma boa notícia. O Filinto Miller acaba de morrer, em Paris, em um desastre de avião. Morreu como devia ter morrido: o avião se transformou numa câmara de gás. Os assassinos públicos devem mesmo morrer em câmaras de gás, como cães danados."

*   *   *

     Paes, cearense, ex-seminarista e cristão de alma generosa, que tinha se encontrado com Filinto, senador, na véspera, em Brasília, no Congresso, levou um susto:

     "Por que esse ódio todo, embaixador?"

     O embaixador respirou fundo, tossiu, bebeu um gole de vinho:

     "Ele torturou meu pai. Os verdugos de todos os tempos são iguais. Mais dia menos dia acabam pagando por seus crimes."

     E tomou gostosamente mais um gole, bebendo o gás de Filinto. Do outro lado da taça do embaixador, estavam as taças de milhares de brasileiros que gostariam de fazer aquele silencioso e dramático brinde.

*   *   *

     O senador Sergio Cabral, do PMDB do Rio, comprou uma briga no Senado, em discurso, esta semana. Apresentou um projeto retirando o nome de Filinto de uma das alas de gabinetes do Senado, que presidiu de 73 a 75.

     Filinto foi delegado especial de Segurança Pública do Rio, chefe de polícia interino e depois efetivo, de 1933 a 42, quando milhares de pessoas foram presas, a maioria barbaramente espancada ou torturada.

     Foi Filinto quem comandou a prisão de Olga Benario, mulher de Luiz Carlos Prestes, e seus brutais padecimentos na cadeia, dirigiu sua condenação pela unanimidade do Tribunal de Segurança Nacional e executou sua deportação, assinada por Getulio e pelo ministro da Justiça Vicente Rao, para um campo de concentração nazista, na Alemanha de Hitler, onde morreu em 42 numa câmara de gás.

     Nesta semana, quando chega aos cinemas o filme de Jayme Monjardim, "Olga", baseado no histórico livro de Fernando de Moraes, a retirada do nome do verdugo público Filinto Muller dos corredores democráticos do Senado Federal fica ainda mais atual e urgente.

 
 

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