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O Decreto nº10.358, de 31 de agosto de 1942, declarando Estado
de Guerra em todo território nacional seria mera peça de retórica, se a ele não se
seguissem medidas efetivas objetivando a participação do Brasil no esforço conjunto
para deter as ambições do Eixo, que pretendia estender seu império a todos os
quadrantes do globo terrestre. Foi do próprio presidente Getúlio Vargas a declaração,
feita em 31 de dezembro do mesmo ano, de que o Brasil forneceria tropas em quantidade para
marcar presença no combate ao inimigo, do outro lado do Atlântico.
Com efeito, a posição do
Brasil perante a comunidade mundial, e diante dos próprios brasileiros, era, naquele
momento, deveras embaraçosa. Ao abrir seu território para a instalação de bases de
guerra norte-americanas, sem efetivamente participar do conflito, o país ganhou uma
feição de "terra ocupada".
Assim, pois, enviar uma
força expedicionária para combater, par a par com os Aliados, era importante para dar
uma satisfação à opinião pública nacional e internacional, assim como aos militares,
que estavam, de há muito, inconformados com a passividade aparente de nosso governo.
Nesse propósito, alguns
atos públicos selam os entendimentos entre Brasil e Estados Unidos. Em 12 de setembro de
1942, a Marinha de Guerra brasileira é posta sob o comando do almirante americano Jonas
Ingram, integrando-se ao esforço conjunto de guerra. No dia 29 do mesmo mês, vem ao
Brasil, para inspeção, o secretário da Marinha dos Estados Unidos, Frank Knox. Em 25 de
janeiro de 1943, após participar da Conferência de Casablanca, o presidente americano
não volta aos Estados Unidos, mas viaja diretamente para a base militar americana em
Natal, Rio Grande do Norte, onde se encontra com Getúlio Vargas, que está acompanhado do
embaixador americano Jefferson Caffery, do almirante Jonas Ingram, acima citado, e do
chefe da Missão Naval americana, Augusto Beauregard, onde são discutidos assuntos
relativos à defesa das nações ameaçadas pelo Eixo.
Treinamento de oficiais
Desde os primórdios,
nossas forças militares vinham sendo treinadas por missões militares francesas,
incutindo, tanto no Exército quando na Marinha, uma filosofia tipicamente européia não
só nas táticas operacionais como no conceito de segurança nacional. O acordo com os
Estados Unidos veio provocar um giro de 180 graus nesses conceitos.
Militares em postos de
comando, como Henrique Batista Duffles Teixeira Lott, Humberto de Alencar Castelo Branco,
Floriano de Lima Brayner e Amauri Kruel viajaram para o Fort Leavenworth, onde ficava a
Escola de Comando e Estado Maior americano, para participar de cursos de atualização. O
conceito francês de guerra em trincheiras foi substituído pela tática de avanços
rápidos e fulminantes, típico da escola americana. As marchas da Infantaria eram
substituídas pelo transporte motorizado de soldados; o uso de cavalos, ainda em voga, era
desaconselhado, a não ser em casos muito especiais.
O contato com novo material
bélico deu-lhes a noção de que o armamento brasileiro tornava-se inútil para a guerra,
dado que os Estados Unidos haviam padronizado o uso de armas de 105 mm e 155 mm., de que
não dispúnhamos. Assim, nossos soldados deveriam ir à Europa desarmados e lá
receberiam as armas apropriadas e o treinamento adequado, antes de serem incorporados ao
Exército americano.
Mãos à obra!
O próximo passo é a
formação da Força Expedicionária Brasileira (FEB). O ministro da Guerra, Eurico Gaspar
Dutra, pretendia criar um efetivo de 100.000 homens, mas acabou se rendendo à realidade.
A situação financeira do país e a impossibilidade de os Estados Unidos absorverem todo
esse contingente conteve a audácia e o total de nossas forças se reduziu a um quarto do
anteriormente proposto.
Para sermos precisos, o
Brasil enviou à Guerra, com a Força Expedicionária Brasileira (FEB), 25.334 soldados e
oficiais. Além destes, foi também um contingente da Força Aérea Brasileira (FAB),
principalmente para missões de reconhecimento. E, é claro, seguiram também, médicos,
enfermeiras e pessoal de apoio de retaguarda.
Se os oficiais eram quase
todos da ativa do Exército, cerca de metade dos soldados eram reservistas, convocados
para servir a pátria nesse grave momento. A convocação se deu em todos os Estados,
principalmente no Rio de Janeiro e São Paulo, que forneceram os maiores contingentes.
Todos os Estados
brasileiros, com exceção do Maranhão, tiveram alguns de seus filhos sepultados no
cemitério de Pistóia, Itália. Ao final, foram 443 homens que deixaram sua pátria para
nunca mais voltar. A FAB, que atuou não só na Itália como no sul da Áustria, perdeu 8
aviadores em combate.
Para comandar a 1ª
Divisão de Infantaria foi indicado o general João Batista Mascarenhas de Morais, já
então com 60 anos de idade. Ao todo, o Brasil preparou cinco escalões de embarque, que
partiram nas seguintes datas:
02.07.44 1º
Escalão, comandado pelo general Zenóbio da Costa;
22.09.44 2º
Escalão, comandado pelo general Cordeiro de Faria;
22.09.44 3º
Escalão, comandado pelo general Olímpio Falconiere;
23.11.44 4º
Escalão, comandado pelo coronel Mário Travassos;
08.02.45 5º
Escalão, comandado pelo coronel Iba Jobim Meireles.
Os dois primeiros escalões
seguiram no navio "General Mann" e os demais no "General Meigs". Todos
eles foram escoltados até o estreito do Gibraltar por belonaves americanas e destróieres
brasileiros. Ingressando no mar Mediterrâneo, essa escolta passou para a responsabilidade
de navios americanos e ingleses.
Quanto ao pessoal de apoio
(médicos, enfermeiros, etc.), este seguiu por via aérea.
Durante a Guerra, a FEB
esteve incorporada ao 5º Exército Americano, comandado pelo general Mark Clark. Durante
todo o tempo, operou em coordenação com o 4º Corpo do 5º Exército, comandado pelo
general Willis Crittenberg. É com este último que mantínhamos contato permanente e é
dele que emanavam as ordens de comando.
Nova vida em terra estranha
O embarque do 1º Escalão
se faz no mais absoluto segredo. As janelas dos vagões ferroviários são vedadas para
isolar o contato com o mundo exterior e os soldados recebem a informação de que estão
sendo transferidos para outro campo de treinamento. Tudo era disfarce. Quando se deram
pela conta, estavam no porto do Rio de Janeiro, embarcando no navio-transporte americano
"General Mann". Antes da partida, Getúlio Vargas vai a bordo para deixar-lhes
uma palavra de despedida. E só. Não houve sequer oportunidade de se despedir dos
parentes, que só souberam da viagem quando o navio já ia em mar alto.
A bordo, para surpresa
geral, ia também o comandante da 1ª Divisão de Infantaria, general Mascarenhas de
Morais, com seu estado maior. Na prática, era ele o comandante efetivo, dono da
situação e senhor único de um segredo, que lhe fora passado pelo general Kroner, adido
militar americano. Só ele, e mais ninguém, nem o general Zenóbio, que comandava o
escalão embarcado, sabia qual o porto de destino da embarcação.
Assim, a preocupação se
instalou a bordo quando o navio ignorou todos os portos do norte da Itália, onde se
achava o campo de guerra, rumando para o sul. Há algum tempo, os Estados Unidos
insinuaram a possibilidade de fazer o treinamento dos pracinhas no norte da África, bem
distante do campo de batalha, transformando a FEB em uma força de contingência, a ser
usada no decorrer da guerra, se isso se tornasse imperioso. Foi nesse momento de tensão
que o general Mascarenhas tranqüilizou a todos, esclarecendo que o desembarque se daria
em Nápoles, ao Sul da Itália, por razões de segurança.
Nem por isso, as coisas
foram mais fáceis. Chegando a Nápoles, numa bela manhã de sol, os soldados não
encontraram os caminhões prometidos para o deslocamento até o norte do país.
Finalmente, informou-se que o transporte estaria disponível em Agnano, a trinta
quilômetros de distância, percurso que teve de ser feito à pé. Caminhando em passo de
estrada, desarmados, e com fardamento semelhante ao dos nazistas, os soldados brasileiros
chegaram até a ser confundidos com prisioneiros de guerra.
No local de destino, outra
surpresa os esperava. Os brasileiros não levaram barracas de campanha já que os
americanos asseguraram o suprimento delas na Itália. Ali, não havia barracas para o
alojamento.
Esses foram os primeiros
maus momentos de uma campanha que lhes reservaria, ainda, muitas outras surpresas.
Prontos para a luta
Diga-se, a bem da verdade,
que o comando americano não via com bons olhos a participação de brasileiros na guerra,
achando-os despreparados e sem espírito de combate.
Assim, a presença da FEB
no campo de treinamento de Tarquinia se deu mais por motivos circunstanciais, do que pela
vontade do comando do 5º Exército. Com efeito, a defesa no norte da Itália acabara de
sofrer grandes desfalques. A França, àquela altura, havia retirado seu contingente
juntando-o ao restante do Exército francês, numa nova ofensiva para expulsar os nazistas
de seu país. A Inglaterra mandou parte de suas tropas para auxiliar os franceses e outra
parte para reforçar a linha de defesa na Grécia. Só um pequeno grupo permaneceu na
Itália. Assim, a chegada dos brasileiros vinha a calhar, para fechar as brechas deixadas
com essas perdas.
No mais, foram os pracinhas
que tiveram de mostrar sua bravura e tenacidade, nivelando-se aos mais corajosos e
experientes soldados americanos e merecendo, por fim, um registro elogioso do próprio
general Mark Clark, comandante do 5º Exército. Talvez tenha sido melhor assim.
Desacreditados ao início, tudo fizeram para marcar sua presença de forma inequívoca. E
conseguiram.
Em 5 de agosto de 1944, o
Primeiro Escalão da FEB foi, finalmente, incorporado ao 4º Corpo do 5º Exército e
transferido para Vada, um local mais acidentado e semelhante ao campo de batalha, onde se
iniciou a segunda fase de preparação. Todo esse treinamento, bastante útil, não pode
ser dado, mais tarde, aos outros quatro escalões, que aprenderam as táticas de
enfrentamento já no campo de batalha, no rude confronto com os experientes germânicos.
A cobra está fumando
Procuremos entender o contexto em
que os brasileiros são postos à luta no norte da Itália. O ditador italiano, Benito
Mussolini, havia sido deposto em 25 de julho de 1943 e, embora preso, fora resgatado pelos
alemães, achando-se em lugar incerto e não sabido. Em 8 de setembro do mesmo ano, a
Itália se rende, mas alguns rebeldes, como a Divisão Bersagliari, se juntam aos
nazistas, prosseguindo na guerra.
Os alemães, que haviam
chegado até o norte da África, foram obrigados a recuar, deixando livre o continente
africano e o sul da Itália, indo se alojar, agora, em posição defensiva, ao norte da
península itálica. Chegando primeiro, tomaram as melhores posições defensivas, no alto
das montanhas. Estavam em seu poder os montes Belvedere, Gorgolesco, Mazzancana, La
Torrachia, Della Croce, Torre de Nerone, Soprassasso, e, entre outros mais, o diabólico
Monte Castelo, uma fortaleza natural e inexpugnável. Esse cordão de defesa era a chamada
"Linha Gótica", que ia desde Spezia, no mar Ligúrico, até Rimini, no mar
Adriático, cortando o país de oeste a leste.
Os aliados, ao contrário,
se achavam nos vales, totalmente desprotegidos e à vista do inimigo, cabendo-lhes
avançar até as montanhas, para desalojar as tropas adversárias, uma operação que
exigia muita experiência, coragem e predisposição para a morte, já que esse avanço
seria feito sempre ao alvo da artilharia germânica.
Os brasileiros eram os
únicos latino-americanos a participar da guerra e cabia-lhes cobrir um trecho da Linha
Gótica numa extensão de 18 quilômetros.
A 15 de setembro de 1944, a
FEB entrou em operação, sob o comando do general Zenóbio da Costa, em coordenação com
três companhias norte-americanas, substituindo outra força, também americana, que, por
razões internas, havia sido desligada do 4º Corpo. Não era, ainda, o teste de fogo.
Enfrentando pouca resistência, em dois dias, foram conquistadas as localidades de
Massarosa, Bozzano e Quiesia, merecendo um telegrama de congratulações do general Mark
Clark e cumprimentos do general Crittenberg.
Prosseguindo no avanço, as
armas brasileira e norte americana desalojaram os nazistas de Monte Prano e outros locais
de menor importância, seguindo depois para o vale do rio Serchio, em direção à
importante fortaleza representada por Castelnuovo di Garfagnana. Estávamos já no mês de
outubro e, com ele, chegava um novo inimigo: a chuva, que enlameava os caminhos e tornava
quase impossível o avanço.
A exemplo dos americanos,
que possuíam um sinal de identificação na farda, o general Mark Clark sugeriu que os
brasileiros criassem seu próprio distintivo, facilitando o reconhecimento. Coube a Sena
Campos fazer o desenho que, depois de sofrer algumas modificações, se tornou em uma
serpente, com um cachimbo na boca, encimados pelo nome "Brasil". Esse distintivo
passou a ser usado em todo o fardamento da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Quanto
à Força Aérea Brasileira (FAB), esta passou a usar outro distico, bem mais complicado,
em que entravam uma ema, uma serpente, o Cruzeiro do Sul e a expressão "Senta a
Pua".
A FEB conhece sua primeira derrota
(abra o mapa da zona de guerra)
Enquanto isso, os alemães estavam reforçando sua posição em Castelnuovo de la
Garfagnana. Zenóbio pediu e lhe foi concedida autorização para atacar aquele ponto,
antes que o inimigo conseguisse torná-lo uma fortaleza impenetrável.
Não obstante as chuvas que
não paravam de cair, as tropas avançaram em direção ao alvo proposto, conquistando
pequenos pontos, como Lama di Soto, Monte San Quirico e Somocolonia.
Isso foi a 30 de outubro de
1944. Os sucessos deram ânimo para o ataque maior e fulminante a Castelnuovo, que deveria
ser realizado no dia seguinte. Mas, antes disso, os alemães contra-atacaram com todo seu
poder de fogo, obrigando os brasileiros a recuar a Somocolonia.
Depois desse insucesso,
Zenóbio permanece com a Infantaria, mas sob as ordens de Mascarenhas de Morais, que
assume em definitivo o comando da 1ª Divisão. Os brasileiros foram transferidos, então
para o vale do rio Reno a 120 quilômetros do vale do Serchio (Trata-se do Reno italiano.
Não confundir com o outro rio Reno, que nasce na Suiça, atravessa a Alemanha e deságua
na Holanda).
A essa altura, tínhamos
feito 208 prisioneiros e os alemães aprisionaram 10 dos nossos. Mas o insucesso da
última batalha nos custou 13 mortos e, desde o início de nossa participação,
contabilizávamos 183 feridos em acidentes e 87 em combate. A guerra começava a pesar, e
não era nem uma amostra do que estava por acontecer.
Primeiro ataque a Monte Castelo
De todas as batalhas
vividas pela FEB na Itália, nenhuma se compara aos sucessivos ataques para a conquista do
Monte Castelo, e às tentativas frustradas de desalojar os alemães daquele refúgio, que
era considerado a mais importante fortaleza de toda a Linha Gótica.
O primeiro desses ataques
envolvia o complexo Belvedere-Castelo e se deu a partir do dia 24 de novembro de 1944, sob
a responsabilidade da Força-Tarefa 45, do Exército Americano, com a participação de
dois batalhões brasileiros a ela agregados. Foram três dias de insucessos e pesadas
baixas, quando o poderoso contra-ataque germânico obrigou as tropas aliadas a recuar ao
ponto de origem.
O general Crittenberguer,
decidiu, então pelo deslocamento da FEB mais para o oeste, de maneira que a tomada do
Monte Castelo passou, a partir daquele momento, a ser responsabilidade da nossa força
expedicionária, com o apoio da aviação e de tanques americanos.
Um novo contingente,
descansado, estava sendo trazido para o campo de batalha. Estávamos ao final de novembro
e o frio do inverno que se aproximava já era sentido pelos nossos pracinhas, acostumados
que estavam ao clima tropical.
Segundo ataque a Monte Castelo
No segundo ataque ao Monte
Castelo, que começou na manhã de 28 de novembro, tudo conspirou contra os brasileiros.
Na noite passada, as tropas americanas foram rechaçadas do Monte Belvedere, ao lado,
deixando aquele flanco a descoberto, em poder dos alemães, o que tornava mais arriscada a
aventura.
Durante o dia todo o
avanço se deu bem, tão bem que valia à pena desconfiar que alguma surpresa estava sendo
preparada. Com efeito, ao final do dia, acelerou-se o contra-ataque alemão, acompanhado
de pesados bombardeios, obrigando as tropas brasileiras a um recuo rápido e inesperado.
O avanço mal-sucedido
deixou um triste resultado: 34 mortos e 133 feridos. A operação toda fora planejada pelo
tenente-coronel Castelo Branco, ao qual foram debitados os resultados.
O Monte Castelo permanecia
um desafio e não deixava escolha: ou se fazia uma nova tentativa para conquistar a
fortaleza, ainda que com perdas sensíveis em homens, ou o fantasma continuaria a
perseguir os brasileiros, minando o ânimo e dificultando, senão impedindo o ataque a
outros alvos.
Terceiro ataque a Monte Castelo
Os próximos dias
foram de avaliação e, testando o poder do inimigo, houve algumas escaramuças entre
forças brasileiras e alemãs, sem que qualquer dos lados se aventurasse a um ataque mais
consistente. Aliás, a essa altura, os alemães já compreendiam bem a importância de
Monte Castelo. Assim, sua intenção não era a de avançar, mas sim de manter, a todo
custo, essa posição privilegiada.
Informações colhidas de
prisioneiros e de guerrilheiros (partegiani) davam conta de que os alemães estavam
recebendo reforços, o que tornava cada dia mais difícil e incerta a tomada de Castelo.
Como se não bastasse, as
chuvas frias e constantes enlameavam as estradas e tornavam difícil o abastecimento. Já
ocorriam as primeiras nevascas, anunciando um inverno que, nos meses seguintes, faria os
termômetros baixarem a 20 graus negativos.
O novo ataque estava
programado para 12 de dezembro de 1944. Nesse dia, chuvas nublaram os céus, impedindo as
incursões da Força Aérea. E muita lama, inutilizando as estradas, impediu o avanço dos
tanques, presos em atoleiros.
Ali pelas seis horas da
manhã, a artilharia americana começa a bombardear o Monte Belvedere, enquanto tropas
brasileiras avançam em direção ao pé do Monte Castelo. É então que a artilharia
alemã se faz sentir sobre os pracinhas, em toda sua intensidade, e com o contra-ataque
vindo de todos os lados do monte. Impedidos de prosseguir, os brasileiros receberam ordem
de bater em retirada, para evitar maiores baixas, além dos mortos e feridos já
registrados naquele início de noite.
O recuo não foi bem
recebido pelo comando americano, sendo opinião de alguns de seus comandantes de que o
Brasil deveria ser afastado das linha de ataque, por falta de espírito ofensivo. Com
efeito, nos meses de dezembro e janeiro, a FEB ficou com tarefas menores, apenas
acompanhando a movimentação inimiga.
Enfim, Monte Castelo é nosso
Uma outra data foi marcada
para a tomada do Monte Castelo: 21 de fevereiro de 1945. Nas primeiras horas da manhã, a
Divisão da Montanha (americana) marchou sobre o Monte della Torraccia, ao norte do Monte
Castelo, depois de guarnecido o Monte Belvedere e montanhas próximas a ele.
Cumprindo seu papel, a FEB,
partindo de suas posições, desfechou um formidável ataque ao Monte Castelo,
movimentando toda a artilharia e dois terços da infantaria. O ataque cerrado se prolongou
pelo resto do dia.
Às quatro horas da tarde,
o posto de observação do general Mascarenhas recebeu uma visita em peso do comando
americano, incluindo o comandante do 4º Corpo, general Crittenberg e o próprio
comandante do 5º Exército, general Mark Clark. Alem de seu apoio moral, estes deixaram a
recomendação para que o ataque fosse intensificado, evitando serem apanhados de surpresa
com a chegada da noite, que favoreceria mais aos alemães, familiarizados com o local.
Assim se disse, e assim se
fez. A artilharia intensificou o bombardeio, enquanto a infantaria avançou ao cume da
montanha, que foi dominado pelos soldados do general Zenóbio da Costa, às seis e meia da
tarde. Finalmente, Monte Castelo era nosso e iniciavam-se os preparativos para a
manutenção do ponto conquistado.
Se este foi o mais pesado
de todos os ataques a Castelo, nem por isso produziu maiores baixas que os anteriores,
pelo contrário, o balanço geral nos foi bastante favorável, com apenas 41 feridos.
Refeito o moral das tropas
brasileiras, sanado o orgulho, duramente atingido com as derrotas anteriores, os pracinhas
se dedicaram a outra missão igualmente importante, que era resgatar os corpos dos 14
companheiros que ficaram insepultos quando da derrota de 12 de dezembro, os quais se
achavam espalhados pelas encostas, cobertos de neve, em terreno minado. Deu muito
trabalho, mas a missão foi cumprida.
Estava dada a resposta aos
comandantes americanos que insistiam pelo afastamento do Brasil dos campos de batalha.
Monte Castelo já estava conquistado, enquanto que, até aquele momento, a 10ª Divisão
da Montanha ainda não havia conseguido dominar um alvo mais fácil que lhe foi
atribuído, o Monte della Torraccia.
Conquista de Castelnuovo
O próximo alvo a ser
atingido era Castelnuovo, a noroeste do Monte Castelo, no caminho em direção a Bolonha.
O cerco foi planejado para o dia 5 de março de 1945, quinze dias após a tomada do
Castelo. Como da outra vez, a operação envolvia a Força Expedicionária Brasileira, em
conjunto com a 10ª Divisão da Montanha.
O cerco se iniciou pela
manhã, quando o 1º Batalhão do 11º Regimento de Infantaria obteve o controle de
Precária, ao sul de Castelnuovo. Logo depois, o 2º Batalhão domina também o Sudeste.
Horas depois, os norte-americanos dão sinal combinado para o avanço geral e o cerco vai
se fechando sobre o inimigo, de forma quase que perfeita. Ainda assim, o general
Crittenberg telefonou, reclamando do vagar com que avançavam os brasileiros e alertando
que, nesse caminhar, a noite os pegaria ainda na luta.
Desnecessária era a
reclamação. Se as tropas tiveram seu avanço retardado pelo terreno cheio de minas, não
é menos verdade que, pelas seis horas da tarde, Castelnuovo já estava conquistado. Foram
aprisionados 98 alemães, com registro de 70 baixas em conseqüência de ferimentos.
Durante o restante de
março, e ao início de abril, dentro da "Ofensiva da Primavera", as tropas
conseguiram um avanço relativamente fácil, até se depararem com outro alvo complicado,
que exigiria novos atos de heroísmo. Era a tomada de Montese.
A tomada de Montese
Em 8 de abril de 1945, os
generais ligados ao 4º corpo se reúnem em torno do general Crittenberg para estudarem,
juntos, os planos de ataque a Montese, a noroeste de Castelnuovo, onde era grande a
concentração de tropas alemãs.
No dia 12 de abril,
inicia-se um ataque conjunto em toda a região. A FEB avança sobre Montese e Sorreto,
enquanto que a 10ª Divisão da Montanha persegue seu objetivo, alcançando Monte Pigna,
Le Coste e Tole, com a cobertura de aviões de combate.
Ainda que não tendo o
mesmo simbolismo da conquista de Monte Castelo, as batalhas em Montese foram árduas,
situando-se entre as mais difíceis que os pracinhas enfrentaram nos campos da Itália.
A resistência inimiga foi
feroz e infernizou a vida dos brasileiros. Se, de um lado, conseguimos fazer 452
prisioneiros, de outro, tivemos 426 baixas, incluindo-se nelas 34 mortos.
Igualmente heróica foi a
operação da Divisão da Montanha que abriu um flanco na unidade alemã, deixando uma
brecha para a passagem de forças em direção ao noroeste, onde se acham os Montes
Apeninos.
Em Fornovo, a consagração
É na região dos Apeninos
que fica Fornovo, para onde seguem, agora os brasileiros, com a missão de impedir o
avanço da 148ª Divisão Alemã, que se acha ali acantonada, juntamente com remanescentes
da 90ª Divisão Blindada e da Divisão de Atiradores (Bersagliari), que prosseguiram na
luta junto aos alemães, mesmo depois da rendição da Itália. Era uma força
considerável, reunindo perto de 15.000 homens em condições de combate.
Desta vez, não havia
qualquer apoio externo, seja da Divisão da Montanha, ou dos aviões de combate, ou dos
tanques. A estratégia de ataque e o pessoal envolvido era todo da FEB. O inicio do
avanço estava programado para 28 de abril de 1945.
As tropas brasileiras se
concentraram ao norte, na área de Collechio, que acabaram de conquistar, e dali partiram
em três alas, atacando simultaneamente pelo norte, pelo sudeste e pelo sudoeste de
Fornovo e, não obstante a resistência enfrentada, os alemães permaneceram encurralados,
mantendo sua praça, mas sem condições de avanço ou recuo.
Contando com o auxílio do
vigário da localidade de Neviano di Rossi, o comando brasileiro mandou um ultimato ao
comandante da 148ª Divisão alemã, general Otto Fretter Pico intimando-o a render-se
para evitar um desnecessário derramamento de sangue. Este tentou ganhar tempo, dizendo
que iria consultar seus superiores.
Pode parecer audácia
brasileira, ou pelo menos um blefe, a intimação enviada ao comando alemão, ratificada
depois como ordem de rendição incondicional. Não era, todavia um ato impensado. As
coisas não iam bem para as forças do Eixo. No dia anterior, Benito Mussolini fora preso
e fuzilado. Nos campos da Europa, a Alemanha perdia terreno a olhos vistos e a luta dos
alemães na Itália não oferecia, àquela altura, grande motivação. O momento era,
assim, propício para deter aquela valiosa concentração de soldados alemães.
Nessas
circunstâncias, os inimigos, finalmente, renderam-se aos brasileiros, depondo suas armas.
Tanto o general Otto Fretter Pico, comandante da 148ª Divisão alemã, quanto o general
Mário Carloni, comandante da Divisão Bersagliari italiana foram escoltados até
Florença e ali entregues ao comando do 5º Exército americano.
O desfecho da guerra
Os brasileiros improvisaram
um campo cercado, onde foram abrigados, como podiam, os 14.779 alemães e italianos,
feitos prisioneiros após a rendição. Poderiam até fugir se quisessem. Para onde e para
que ? Três dias depois, morria Adolph Hitler e, em 8 de maio de 1945, era assinado o
armistício, dando fim à guerra na Europa. Restava apenas o Japão que se renderia em 14
de agosto de 1945.
O mundo respira aliviado.
Os pracinhas também, carregando consigo as marcas indeléveis da guerra, mas trazendo no
peito o orgulho de um dever cumprido. O Brasil estava esperando por eles. Primeiro, os que
tiveram a felicidade de voltar vivos. Depois, os que estavam no cemitério de Pistóia,
que foram, a seu tempo repatriados e ganharam uma digna sepultura em sua própria terra.
Lá fora, a liberdade, fora conquistada. Aqui dentro, permanecia a ditadura do Estado
Novo.
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