Carlos
Lacerda-Vieira de Mello, Afonso Arinos-Gustavo Capanema, foram os dois
grandes debates que presenciei na Câmara dos Deputados, antes da mudança da capital, a
calamidade que jamais será recuperada.
Na verdade,
Gustavo Capanema defendendo o governo Vargas em 1954, e Afonso Arinos atacando-o, veio
primeiro. Foi majestoso. Os dois sentavam quase que lado-a-lado na primeira fila da
Câmara no belo Palácio Tiradentes.
Naquela época o Parlamento não gozava das mordomias ou
facilidades de que goza hoje. Não existiam microfones nas poltronas (da Câmara ou do
Senado), apenas duas tribunas e um microfone de apartes. Numa das tribunas falavam os
deputados da oposição, na outra os da situação. Os que queriam apartear, usavam um
único microfone, bem longe.
Em 1954, Vargas estava inteiramente por fora de tudo, não sabia
governar de maneira alguma com o Congresso aberto e o sistema democrático funcionando.
Pouco antes, 69 coronéis assinaram uma intimação-intimidação ao presidente, (aí
valendo o título pois pela primeira vez fora eleito diretamente) exigindo a demissão do
seu ministro do Trabalho, que era o senhor João Goulart.
Recebeu o nome de Manifesto dos Coronéis, a
primeira assinatura era do senhor Amaury Kruel. É evidente que nenhum presidente, seja
quem for, pode aceitar exigências desse tipo ou de qualquer tipo. Deveria ter mandado
prender imediatamente os 69 coronéis, mas resolveu atender e aceitar a exigência,
demitiu seu ministro. Não percebeu, começava a cair ali.
(Apenas como lembrança: em 5 de julho de 1922, o presidente
Epitacio Pessoa mandou prender o marechal Hermes da Fonseca, ex-presidente da República,
chefe do Exército e presidente do Clube Militar, fechando o Clube por 6 meses. Naquela
época a legislação era diferente, generais eram ministros ou presidentes, deixavam os
cargos e voltavam à ativa. O que não acontece mais hoje. Epitacio cometeu muitos erros e
equívocos, mas era inegavelmente um homem de coragem.)
O debate Capanema-Afonso Arinos começou por causa da omissão de
Vargas, mas já viera desde a sua posse. Para assumir, Vargas teve que nomear o general
Stilac Leal para ministro da Guerra, acabando com a conspiração contra sua posse,
comandada por Lacerda e o então major Golbery. Stilac era presidente desse mesmo Clube
Militar. Antes mesmo de chegar ao poderoso Ministério da Guerra, usou seu inegável
prestígio e garantiu o início do mandato de Vargas.
Em 31 de janeiro de 1951 Getulio tomava posse e começava a
sucessão de erros e de equívocos. Vargas era então quase que conduzido ou guiado por
Lourival Fontes, chefe da Casa Civil, que o abandonara quando estava para ser derrubado em
1945. Lourival Fontes voltou, foi terrível infelicidade para Vargas. Pois Lourival era ao
mesmo tempo um homem de talento espantoso e de falta de caráter colossal. Duas coisas que
não se negava nele: talento e canalhice ou calhordice insuperável.
Esse debate invulgar, durou muito tempo. E à medida que o
governo Vargas ia sentindo a decadência, a polêmica ia crescendo. Mas jamais perdeu a
elegância, a grandeza, a beleza da forma. Os dois se expressavam de improviso, eram
mestres da palavra falada, esgrimida, brandida, até retumbada. Eram amigos pessoais,
jamais se hostilizaram pessoalmente. Professores, oradores, gladiadores.
O debate sensacional terminou no Parlamento no dia 22 e na
própria vida no dia 24, ambos de agosto de 1954. No dia 22, Afonso Arinos fez
provavelmente o seu vibrante discurso. Fantástico é a palavra exata. No dia 24 Vargas se
matava, num gesto extraordinário e definitivo. Foi a renúncia pela morte, que não pode
ser contestada ou sequer examinada. Apenas com um tiro no coração, Getulio destruía
toda a oposição.
Encurralado no dia 23, Vargas ressuscitou, embora morto, no dia
24. Na Cinelândia, que sempre foi o centro político do Rio, no dia 22 e 23 o povo
queimava os carros do PTB e dava "vivas" a Lacerda. No dia 24, logo pela manhã,
o mesmo povo queimava os carros da UDN e gritava "morra" Lacerda.
Afonso Arinos ficou tão traumatizado com a morte de Vargas,
considerando que contribuíra para o suicídio do presidente, que retirou o discurso de
seus documentos, mandou cortá-lo até dos anais da Câmara. Ficou emocionado até morrer,
já então como senador. Naquele tempo existia isso. Hoje não existem grandes oradores no
Congresso, até mesmo a Igreja perdeu os famosos "oradores sacros".