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Getulio Vargas se matou em agosto de 1954, mas começou a morrer, pelo menos
politicamente, em novembro de 1953, quando 69 coronéis, liderados por Amaury Kruel,
publicaram um manifesto, EXIGINDO a saída do ministro do Trabalho, que era o senhor João
Goulart. Vargas aceitou, um presidente conversa mas não se rende.
(Helio Fernandes - Tribuna da Imprensa - 23/03/2005)
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Terminados
os trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte, dos quais pouco participou, Getúlio
Dorneles Vargas assume como Senador da República, mas deixa em seu lugar o suplente,
Camilo Mércio, ilustre desconhecido fora das fronteiras do Rio Grande do Sul e, talvez,
até dentro de seu próprio Estado. Foi uma dádiva que lhe caiu às mãos, eleito pela
força irrefreável do titular que, aparentemente, cansado da política, retira-se, para
sempre, da arena, retornando ao seu refúgio na Estância de Itu, dentro da pequenina
cidade fronteiriça de São Borja.
A abertura da temporada
sucessória, por volta de 1949, fez renascer a romaria a São Borja. Eram os
correligionários do trabalhismo, eram pessedistas preocupados com a incógnita que
representaria uma eleição sem Getúlio e era, também, o Partido Social Progressista,
interessado numa composição nacional com o Partido Trabalhista Brasileiro, para
reforçar sua posição nos Estados, especialmente em São Paulo, onde se lançava a
candidatura do engenheiro Lucas Nogueira Garcez, competente, mas desconhecido.
Ademar Pereira de Barros,
chefe do PSP, até pensou em candidatar-se à Presidência da República, mas recuou ante
o perigo de deixar o governo do Estado de São Paulo nas mãos de seu vice, Novelli
Junior, que poderia detonar a máquina eleitoral tão cuidadosamente montada pelo
governador.
A certa altura, segue do
Rio de Janeiro para São Borja o jovem jornalista Samuel Wainer, a mando de seu patrão,
Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, levando a missão de conseguir uma entrevista com
Getúlio Vargas. Trata-se de um desafio, pois a imprensa era mantida à distância do
refúgio do velho ditador. Depois de três dias de persistente trabalho junto à
assessoria, consegue, finalmente, que Vargas se disponha a atendê-lo.
Os dois, que não se
conheciam, começam um trabalho de mútuo reconhecimento. A charla gaúcha se alterna com
o linguajar carioca, trocando informações, opiniões, idéias. Getúlio era um
observador perspicaz e não tardou em reconhecer Samuel Wainer um homem em quem poderia
confiar. Abriu-se, então, numa entrevista ampla, terminando por dizer que, se o povo
pedisse sua volta, ele não deixaria de ouvir o apelo popular.
A publicação da
matéria nos jornais de propriedade de Chateaubriand traz uma reviravolta nos conchavos
das cúpulas partidárias. Os fiéis seguidores de Getúlio espalham cartazes pelo país
inteiro, com a frase: "Ele Voltará". Não é preciso dizer quem.
"Ele" deixa de ser pronome pessoal para transformar-se em substantivo próprio
de especial significado, que todos entendem, sem precisar de maiores explicações.
O reboliço causado nas
hostes oposicionistas e o entusiasmo incontido dos correligionários trouxe à luz o que
todos sabiam há tempos: não havia como fazer política sem Getúlio, e não havia como
afasta-lo do cenário político, a não ser por métodos não reconhecidos em um regime de
plenitude democrática.
A luta que vai se travar,
primeiro durante o período eleitoral, depois no interregno que o separa da posse,
prossegue por todo o período de governo, desaguando, por fim, na grande tragédia de 24
de agosto de 1954. É dela que trataremos neste capítulo.
Tomem seus lugares e boa
viagem
Deixando a porta
entreaberta, assinalando a possibilidade de retorno, Vargas, entretanto, nomeou Salgado
Filho como seu preposto no Rio de Janeiro, encarregando-o de manter entendimentos com o
PSD e a UDN para a escolha de uma candidatura de consenso, não encontrando retorno em sua
proposta.
A UDN admitiu uma união
de forças, desde que ela se desse em torno do seu líder maior, o brigadeiro Eduardo
Gomes. E como essa exigência, logicamente, não fosse aceita pelas partes, saiu à
frente, lançando, por conta própria, a candidatura do brigadeiro, disposta a liquidar
com Getúlio e o getulismo, num trabalho de restauração política que não dispensava,
se preciso fosse, o concurso de métodos menos ortodoxos. Com efeito, num ato de evidente
provocação, o lançamento da candidatura de Eduardo Gomes se deu em 19 de abril de 1950,
data do aniversário de Getúlio Vargas. Para bom entendedor, meia palavra basta.
Descartada a possibilidade de entendimentos com a
oposição, o PSD resolveu adotar também candidatura própria, saindo à luta com
Cristiano Machado, cujo nome foi lançado em 16 de maio de 1950, um mês após a
definição da UDN.
A esta altura, ainda não havia surgido a
revelação de Getúlio, que continuava afastando seu nome da disputa. Assim, desejando
sair do impasse, alguns trabalhistas mais apressados começaram a pensar em uma
candidatura saída do Exército para se opor à do brigadeiro, surgindo articulações em
torno do nome do general Canrobert Pereira da Costa, então ministro da Guerra do governo
Eurico Gaspar Dutra.
Então, vem a público a entrevista dada por
Getúlio Vargas a Samuel Wainer, renovando esperanças do PTB, e causando confusão no
PSD, onde o candidato Cristiano Machado começou a perder suas bases de apoio. No PTB de
São Paulo, o coronel-deputado Porfírio da Paz propõe que a candidatura varguista seja
lançada mesmo à revelia do candidato. No Rio Grande do Sul, o jovem político João
Goulart lança, por conta própria, a candidatura de Getúlio. No Rio de Janeiro, Danton
Coelho segue pelo mesmo caminho. Ademar de Barros vai a São Borja, determinado a fechar
acordo apoiando Vargas, formando a coligação PTB-PSP, em troca de cargos no ministério
e com a indicação de seu correligionário Café Filho para compor a chapa, como vice.
Aconteceu o previsto. Em
8 de junho era lançada a candidatura de Getúlio Dorneles Vargas, cujo registro, vencidas
as impugnações, se deu em 14 de setembro.
O Partido Socialista
Brasileiro, de pequena expressão eleitoral, decidiu, assim mesmo, lançar candidatura
própria e registrou o nome do político baiano João Mangabeira.
As eleições
Desfazendo os temores do governo federal, que ameaçou lançar paraquedistas em qualquer
parte do país onde se pretendesse tumultuar as eleições, a verdade é que o pleito de 3
de outubro de 1950 transcorreu em grande festa, sem que qualquer problema maior se
registrasse.
Abertas as urnas,
apurou-se o seguinte resultado:
Getúlio Dorneles Vargas
........................ 3.849.040 votos (48,70%)
Brigadeiro Eduardo Gomes ................... 2.342.384 votos
(29,70%)
Cristiano Machado ................................ 1.697.193
votos (21,50%)
João Mangabeira ...................................
9.466 votos ( 0,02%)
Cristiano Machado foi
abandonado pelos seus próprios correligionários, que descarregaram sua votação em
Getúlio Vargas, fundador do PSD e seu presidente de honra. Surgiu daí o verbo
"cristianizar", significando o apoio formal a um candidato já previamente
descartado.
Durante a campanha, Vargas dissera, no Rio de
Janeiro: "Se eu for eleito, no ato da posse, o povo subirá comigo as escadas do
Catete e ficará comigo no governo". Ele voltou, "nos braços do povo, escolhido
em eleição direta, no pleito mais disputado até aquela data."
O tapetão
Dispostos a fazer o jogo
democrático, seus adversários não dispensaram, entretanto, a chicana, recursos com
apoio legal, mas de discutida validade moral.
Já durante o período
pré-eleitoral, corria pelo congresso uma emenda constitucional que pretendia prorrogar em
um ano o mandato do presidente Eurico Gaspar Dutra, a qual foi sustada pelo suposto
interessado, já que Dutra afirmou que ficaria no poder "nem um dia a mais, nenhum
dia a menos" do que o previsto na constituição vigente.
A inegibilidade de Vargas
é também questionada pelo dr. José Tomás Nabuco, do Instituto de Advogados. Essa
posição é corroborada pelo Correio da Manhã, insinuando que o TSE impugnaria a
candidatura Vargas, por ele ter-se desfeito de duas Constituições (a de 1991 e a de
1934), além do que recusou-se a assinar a de 1946. Paralelamente, o advogado paranaense
Álvaro Vale deu entrada no TSE com um pedido de impugnação da candidatura Vargas,
apresentando todo um arrazoado com que esperava convencer os desembargadores. E não
faltou quem pretendesse a anulação do pleito, por não ter-se registrado maioria
absoluta (50% dos votos).
Nada disso deu resultado.
Ao analisar o registro, o Tribunal desconheceu a questões preliminarmente,
considerando-as ilegítimas, já que uma impugnação só poderia ser feita por outro
candidato ou por delegado de partido político, não cabendo, no caso, uma ação popular.
E, em 19 de agosto, a candidatura foi registrada.
Uma última tentativa foi
aventada, logo após as eleições e só não ganhou força porque foi descartada com
vigor pelo presidente Dutra, caso contrário, poderíamos entrar numa crise difícil de
ser solucionada.
Entendiam alguns juristas
de plantão que o mandato de cinco anos estabelecido na Constituição de 1946 não
poderia ser aplicado para Eurico Gaspar Dutra, já que ele foi eleito pela Constituição
de 1937, alterada pela emenda nº9, que fixava o mandato do Presidente em seis anos,
detalhe que constava de seu diploma. Assim, cumprindo o dispositivo constitucional,
querendo ou não, Dutra era presidente da República até 31 de janeiro de 1952.
Como o Presidente
garantiu que, em qualquer circunstância, deixaria o poder em 31 de janeiro de 1951,
haveria vacância do cargo, a ser preenchida por seu sucessor legal imediato.
É aí que surge o
embrulho, pois, a vencer essa tese, não há sucessor legal que preencha os requisitos. O
vice, Nereu Ramos, foi eleito pelo Congresso Constituinte e seu mandato se vence em 31 de
janeiro de 1951, a data em que Dutra deixa o poder. O mesmo ocorre com o presidente da
Câmara Federal e com o presidente do Senado, ficando pois disponível apenas o presidente
do Supremo Tribunal Federal, que deveria assumir no lugar de todos os antecedentes na
escala sucessória.
Felizmente, o expediente
foi abandonado, pois uma hipotética posse do presidente do STF, após eleições
realizadas dentro da lei e da ordem, das quais participaram candidatos devidamente
registrados, representaria um golpe de difícil assimilação no país e, principalmente,
no exterior, onde nossa imagem ficaria irremediavelmente comprometida.
Getúlio no retiro de São
Pedro
Sendo avesso a viagens,
Getúlio preferiu aguardar no Brasil o dia de sua posse, retirando-se para seu Estado
natal, o Rio Grande do Sul. Todavia, como a cidade de São Borja era uma trilha marcada
pelos peregrinos da política, o local foi desaconselhado e o presidente eleito seguiu,
então, para a Estância de São Pedro, propriedade de Batista Luzardo, na cidade de
Uruguaiana, na divisa da Argentina e a uns 30 quilômetros do Uruguai. Em verdade, seguiu
para lá dias antes das eleições, acompanhando, distante, os últimos comícios e o
desenrolar do pleito. Sobre esse curto período, escreve Glauco Carneiro, biógrafo de
Luzardo:
"Pois foi nesse
cenário histórico que Getúlio Vargas viveu os agitados meses que precederam a sua
derradeira ascensão ao Catete. Na alta e larga varanda, ele entrevistou-se com centenas
de candidatos a cargos políticos. Andou muito a cavalo, contemplou a Argentina do outro
lado do rio Uruguai; recebeu e despachou emissários para Perón; repousou e brincou com
as crianças na Ilha dos Amores uma pitoresca construção no centro do jardim da
Estância. Provou da boa culinária de D. Adelaide [mulher de Luzardo] e, por muito tempo,
deu impressão para os outros de que o proprietário da casa seria seu futuro ministro da
Agricultura.
"À noitinha,
atravessava o corredor sombreado de árvores que leva ao "Castelinho" (um
apartamento algo retirado, imitando um pequeno castelo), esquentava os pés na lareira,
corria uma roda de chimarrão e recomeçava a conversa política. Só altas horas da noite
ia procurar o repouso da cama de metal, colocada ao fundo do aposento. Cerrava o cortinado
que separava o quarto da sala, enquanto lá fora o tenente Gregório dispunha a guarda
pessoal para velar pelo sono do amo e senhor Getúlio Dorneles Vargas.
"(...) Getúlio
levantaria vôo dali somente a 17 de janeiro de 1951 para dar entrada no Palácio do
Catete, que viria a ser, a 24 de agosto de 1954, cenário de um tiro que varou seu peito e
atravessou a História."
Sobre o estilo de vida do
Presidente eleito, conta D. Adelaide, mulher de Luzardo, o dono da estância:
"Não era exigente
em matéria de comida. Dizia: Ó D. Adelaide, de banquete estou até aqui... Quero
feijão, arroz, canjica. Gostava muito do peixe que eu fazia. Naquele tempo não era
como agora; o rio Uruguai dava cada dourado... Eu fazia ensopados, com bastante molho,
pimenta, tomate, mangerona. Quando Getúlio via o peixe pronto, comia demais. Depois,
tomava um cafezinho e ia se deitar..."
A Estância de São Pedro
foi o último instante de paz em sua vida. Ao remanso do rio, seguem-se águas velozes por
um leito pedregoso e encachoeirado, exigindo nervos fortes, determinação, raciocínio
rápido, manobras precisas e confiança, muita confiança no seu próprio destino que, a
partir desse momento, se confunde com os destinos da nação brasileira.
A posse e o ministério
A despeito de todos
subterfúgios utilizados pelos seus inimigos, antes e depois das eleições, para
impedir-lhe o caminho, em 18 de janeiro de 1951, Getúlio Vargas foi reconhecido e
proclamado pelo TSE como o novo presidente da República, juntamente com seu vice, Café
Filho. No dia 22, ambos comparecem ao TSE para a diplomação e, em 31 de janeiro, Eurico
Gaspar Dutra, tal como prometera, deixa o governo, passando a faixa presidencial para
Getúlio Dorneles Vargas.
Era o início de uma
longa e encarniçada luta, com seus inimigos alojados no seio da União Democrática
Nacional, em parte das Forças Armadas e na maioria dos jornais brasileiros, que lhe
abriram feroz perseguição, ignorando os atos de governo e pinçando os desacordos para
transforma-los em cavalos de batalha, como se a sobrevivência da nação dependesse da
eliminação, para todo sempre, do Presidente.
Getúlio vivia um dilema.
Calcando sua campanha eleitoral no nacionalismo fanático, recebia das mãos de Dutra um
governo alinhado com os Estados Unidos e sofria uma pressão, de dentro e de fora do
país, para uma abertura do mercado, buscando na iniciativa estrangeira os capitais que
nos faltavam.
Seu ministério, que
pretendia ser de coalizão, procurava compor esses dois fatores antagônicos. Trouxe para
perto de si militares da ala nacionalista, buscou apoio em outros partidos e, a despeito
de a UDN recusar-se a participar do governo, houve um udenista, João Cleofas, que aceitou
o Ministério da Agricultura. Era difícil, mas tentava-se governar com os partidos
políticos, base sólida de qualquer democracia.
O ministério, chamado de
"experimental", ficou assim formado: Relações Exteriores, João Neves da
Fontoura (PSD, Rio Grande do Sul); Justiça, Francisco Negrão de Lima (PSD, Rio de
Janeiro); Fazenda, Horácio Lafer (PSD/PSP, São Paulo); Agricultura, João Cleofas de
Oliveira (UDN, Pernambuco); Educação e Saúde, Ernesto Simões da Silva Freitas Filho,
ex-diretor do jornal "A Tarde", da Bahia; Trabalho, Indústria e Comércio,
Danton Coelho (PTB-Rio de Janeiro); Viação e Obras Públicas, Álvaro Pereira de Sousa
Lima; Guerra, general Estillac Nilton Leal; Marinha, almirante Renato de Almeida
Guillobel; Aeronáutica, brigadeiro Nero Moura. Nos demais cargos de primeiro escalão:
Gabinete Militar, general Ciro do Espírito Santo Cardoso; Gabinete Civil, Lourival
Fontes, o criador da Agência Nacional; Chefe de Polícia, general Ciro de Resende e Banco
do Brasil, Ricardo Jaffet.
Nacionalistas versus
"entreguistas"
Na defesa apaixonada de
suas idéias, formaram-se dois grupos de opiniões bem definidos: de um lado, os
"nacionalistas", reunidos em torno de Getúlio Vargas, mas com ramificações em
agrupamentos de esquerda, como os socialistas e os comunistas, estes últimos fora da lei,
mas em plena ação; de outro, os auto-intitulados "democratas", que defendiam
ampla abertura do Brasil ao capital externo para acelerar o desenvolvimento nacional. Seus
adversários preferiam chamá-los de "entreguistas" e assim ficaram sendo
conhecidos.
O "ninho de
serpentes" dos democratas era a União Democrática Nacional, todavia suas idéias se
propalavam também na Aeronáutica, sob a forte influência do brigadeiro Eduardo Gomes, e
no Exército, rachado ao meio entre oficiais que defendiam o nacionalismo e outros que
não encontravam perspectiva de progresso ao país, a não ser com a internacionalização
de nossa economia.
O presidente da
República jamais dispensou o capital estrangeiro para a realização de seus projetos,
porém lutou para que esse aporte se desse na forma de empréstimos e não na instalação
de empresas internacionais no Brasil. Esse posicionamento azedou nosso relacionamento com
outros países, privou o país de capitais de que tanto necessitava e acabou ganhando
novos e fortes inimigos, quando limitou a remessa de lucros ao exterior a 20 por cento do
capital das empresas multinacionais aqui instaladas. Medida, por sinal, inútil, já que
existem muitos caminhos pelos quais os lucros podem se evadir, de maneira que, fechado um
canal, o fluxo continua pelos outros que continuam abertos.
Pelo menos no que tange
às indústrias de base, a promessa de nacionalização total foi mantida. A Cia.
Siderúrgica Nacional foi construída com base em empréstimos feitos por ocasião da
Segunda Guerra Mundial, durante o Estado Novo, sendo o capital 100 por cento nacional. A
propósito, a Siderúrgica foi inaugurada no governo Dutra e, no ato de inauguração,
nenhuma palavra foi dita em lembrança ao seu idealizador, Getúlio Vargas.
Neste novo mandato, o
Presidente atira-se com vigor na criação da Petrobrás e, já no final de governo, na
implantação da Eletrobrás, ambas estatais, e sem interferência de participação
acionária estrangeira. No mais, teve de ceder, entregando os anéis para ficar com os
dedos.
A Guerra da Coréia
Uma amostra do que estava
por vir foi o episódio criado com a guerra da Coréia, entre 1950 e 1953, desdobramento
(quente) da guerra fria entre os Estados Unidos e a União Soviética, envolvendo de
permeio a China comunista e a Organização das Nações Unidas (ONU).
Após a Segunda Guerra
Mundial, a Coréia foi dividida em dois territórios, tendo como divisa o paralelo 38,
ficando a parte setentrional com a União Soviética, que organizou ali um governo
comunista; a parte meridional permaneceu com as demais potências aliadas e, quando estas
se retiraram, os Estados Unidos consolidaram nela um governo capitalista sob sua
influência.
Em 25 de junho de 1950, a
Coréia do Norte, num ato de provocação, atravessou o paralelo 38, levando o presidente
dos Estados Unidos, Harry Truman a enviar tropas àquele país, ad-referendum do Congresso
Americano, ou seja, sem declaração formal de guerra. O conflito se expandiu com a
entrada da China a favor dos norte-coreanos, levando a ONU a tomar partido, declarando a
China como "potência agressora".
Esta era a situação
quando os Estados Unidos apelaram aos países pan-americanos, entre eles o Brasil, para
que enviassem tropas na defesa das liberdades ameaçadas.
Getúlio Vargas não
entrou nessa armadilha. Já que os Estados Unidos não foram atacados por uma potência
estrangeira, não havia como falar na aplicação do tratado pan-americano. Em
represália, os Estados Unidos ameaçaram suspender as negociações, quase concluídas,
para um empréstimo de 500 milhões de dólares ao Brasil. O Ministro da Fazenda e o de
Relações Exteriores eram a favor do envio de tropas. Getúlio não, e enviou aos Estados
Unidos o general Góis Monteiro, com a missão de convencer o governo americano a separar
as coisas, que nada tinham em comum: guerra é guerra, empréstimo é empréstimo.
Alegava Getúlio que
"possuímos vários minerais estratégicos de que os americanos necessitam e não se
faz referência a essa colaboração, que podemos dar, em vez de sangue dos brasileiros,
para lutar na Coréia."
Os brasileiros não foram
à luta, e isso evitou a perda de vidas inúteis por uma causa que não era nossa. A
guerra da Coréia, pelo balanço final, teve, entre os aliados, 118.515 mortos, sendo a
maioria deles sul-coreanos; os Estados Unidos perderam 33.729 soldados e os países que
enviaram contingentes, atendendo o apelo americano, deixaram 4.786 homens em campo de
batalha.
A idéia de criar a
Petrobrás
Uma luta feroz, em que o
presidente se empenhou até o fim, se deu a favor da criação do monopólio estatal do
petróleo. Não que Vargas fosse um histórico defensor do petróleo brasileiro, muito
pelo contrário. Quando do primeiro governo (1930-1945), sua visão de estadista levava-o
a acreditar que o mais proveitoso ao Brasil seria a compra do combustível das companhias
estrangeiras, evitando o trabalho de prospecção e refino, para o qual o Brasil não
dispunha de capitais nem tinha conhecimentos técnicos.
Com o petróleo a dois
dólares por barril, era mais econômico nos servirmos do produto acabado e não desviar
nossas atenções para uma tecnologia que não dominávamos, e cujo controle mundial
estava nas mãos de umas poucas empresas. Pelo menos, esse era o pensamento do ditador,
tanto que não entrou em seus planos sequer a construção de usinas de refino, preferindo
importar o produto pronto para o uso, exportando em troca, minerais e outros produtos
primários que o Brasil tinha em abundância.
Ao fim do Estado Novo, o
país possuía apenas três pequenas refinarias, respectivamente em Uruguaiana (RS), Rio
Grande (RS) e São Paulo, cuja produção era insignificante. Um único poço aberto na
Bahia, segundo narrativa de Monteiro Lobato, só gerou petróleo por descuido do ditador,
que mantinha técnicos encarregados de boicotar os trabalhos de prospecção. Durante o
período de Carnaval, quando esses técnicos se achavam de folga, o pessoal prosseguiu nos
trabalhos e conseguiu fazer jorrar o petróleo há tanto procurado. Sabedor do
acontecimento, Getúlio Vargas mandou lacrar o poço e procedeu sua estatização. Assim
conta Lobato, cujo nome foi dado ao primeiro poço, em homenagem à sua luta em favor do
petróleo, que lhe valeu uma temporada na Casa de Detenção em São Paulo, a mando do
chefe do Estado Novo.
Nos anos cinqüenta a
situação mudara bastante. O petróleo continuava barato, mas deixou de ser um simples
produto de consumo para transformar-se em material estratégico, cujo domínio ou não,
poderia significar o progresso ou a estagnação de um país. Daí o interesse do
Presidente, e mais, sua determinação de que, tal como na siderurgia, o capital
estrangeiro deveria entrar na forma de empréstimos, jamais como participação
acionária.
Em 8 de dezembro de 1951,
o Presidente envia ao Congresso Nacional mensagem com projeto de lei para a criação da
sociedade por ações Petróleo Brasileiro S/A, com o objetivo de levar a efeito a
pesquisa, a extração, o refino, o transporte do petróleo e seus derivados.
A captação dos recursos
para a integralização do capital seria feita: a) com bens da União adquiridos no correr
dos tempos para prospecção de petróleo; b) com receita federal sobre parte do imposto
de combustíveis líquidos e consumo de automóveis; c) com taxação de artigos de luxo
(inclusive os próprios carros); d) com parte da receita estadual oriunda de impostos
sobre combustíveis líquidos; e) com empréstimo compulsório a ser cobrado por ocasião
do licenciamento de veículos; f) por subscrição voluntária de particulares e entidades
públicas interessados no empreendimento.
"O Petróleo é
Nosso"
Como previsto, a reação
dos adversários é imediata e violenta. A proposta do governo atingia de morte pelo menos
dois axiomas do liberalismo econômico, o primeiro ao criar uma empresa de caráter
estatal, descartando a iniciativa privada e o segundo ao recusar o aporte de dinheiro
internacional na formação do capital e condução da empresa, desprezando a tecnologia
desenvolvida pelos blocos que dominam o mercado petrolífero.
Na contrapartida, o
projeto sensibilizou não só os aliados do governo, como sindicatos, associações e
entidades as mais diversas, e até os comunistas que, embora adversários do governo,
lançaram-se na campanha pela nacionalização do petróleo. Surgiu, então, a divisa, que
ecoou por todo o país e que foi divulgada de norte a sul, em manifestações públicas e
em campanhas: "O Petróleo é nosso".
A opinião pública ficou
dividida entre "nacionalistas" e "entreguistas", estes últimos
apoiados abertamente pelos americanos e pelos simpatizantes dos Estados Unidos no Brasil,
entre eles empresários com interesses voltados para aquele país. A luta atingiu em cheio
o Clube Militar, onde as duas correntes tentavam fazer valer as suas opiniões.
Dentro do governo a
divisão entre ministros era clara e, no Congresso, a base de apoio se fracionou
ameaçando a tramitação e aprovação do projeto. No trabalho de convencimento, muito
ajudou a campanha popular, que tomou um vulto considerável, não podendo ser ignorada
pelos parlamentares.
Por fim, o projeto foi
aprovado. Em 3 de outubro de 1953, aniversário da revolução de 1930, Getúlio Dorneles
Vargas sanciona a Lei nº2004, criando a Petrobrás. Estava vencida a batalha.
Getúlio não teria a
mesma sorte com a criação da Eletrobrás. Enviando um projeto de lei ao Congresso em 10
de abril de 1954, pouco depois se viu envolvido no mar de lama que inundou o Palácio do
Catete e pôs fim ao seu governo.
A guarda pessoal do
Presidente
Empossado no Governo em
1930, Getúlio Vargas não possuía nem pretendia ter guarda pessoal. A segurança do
Presidente era garantida pelas Forças Armadas, alternando-se ora soldados do Exército,
ora os Fuzileiros Navais.
Assim foi até 11 de maio
de 1938, quando se deu o "putch" integralista, com a invasão do Palácio da
Guanabara, em coordenação com os fuzileiros que, naquela noite, estavam dando plantão.
Foi o tenente Nascimento que abriu os portões do palácio para entrada dos atacantes, e
foram os fuzileiros em serviço que prenderam ou executaram aqueles que se recusaram
participar do levante.
Naquela noite, é bom que
se lembre, um franco-atirador, do alto de uma árvore, enviou um tiro certeiro em
direção à mesa de despachos do Presidente, transpassando a cadeira onde ele deveria
estar sentado. Tudo com a ajuda daqueles militares que se encontravam no Palácio para
garantir-lhe a segurança.
Superado o episódio,
Getúlio pede ao seu irmão, Benjamin Vargas, que lhe selecione homens competentes e
confiáveis para a formação de uma guarda pessoal sobre a qual seja possível exercer
influência direta.
É aí que entra em cena a
figura estranha e comprometedora do tenente Gregório Fortunato. Homem rude e ignorante,
tinha, todavia, uma virtude, apreciada por Getúlio: seguia as ordens de seu amo como um
cão fiel, executando-as ao pé da letra, custasse o que custasse, contando para isso com
uma equipe de jagunços que obedeciam cegamente seu comando.
Não tardou que Getúlio
lhe entregasse missões mais amplas para as quais, seguramente, ele não estava preparado.
Ao final da campanha de 1950, por exemplo, foi Gregório Fortunato que escolheu a
Estância de São Pedro, em Uruguaiana, dentre tantas outras, para abrigar o candidato e
depois Presidente eleito, até o dia da diplomação. E era ele que fazia a triagem de
políticos que podiam adentrar à estância para parlamentar com seu amo.
Com tal poder nas mãos,
não é de se surpreender que venha a ser assediado por interesseiros que, a troco de
propinas, utilizavam seus serviços para obter favores ou ganhar as boas graças do
Presidente. Gregório enriqueceu rapidamente e, como era rude e ignorante, não tomou
medidas de precaução para salvaguardar a si mesmo e ao Presidente, a quem servia.
Manobrado com astúcia por gente palaciana, cometeu deslizes, um após outro, até chegar
ao crime da rua dos Toneleiros, começo do fim do presidente Getúlio Vargas.
Lacerda, o demolidor
Filho do renomado
político socialista Mauricio de Lacerda, o jovem estudante Carlos Frederico Werneck
Lacerda fez sua estréia política aos 21 anos, meses antes da Intentona Comunista de
1935, quando, em emocionado comício, lançou o nome de Luís Carlos Prestes como
presidente de honra da Aliança Nacional Libertadora. Semanas antes Intentona, quando
Prestes já se achava no Brasil, em lugar incerto e não sabido, coube a Carlos Lacerda
fazer a leitura pública de um manifesto do líder comunista, detonando os acontecimentos
que levaram até a rebelião de 27 de novembro de 1935.
Em 1947, filiado à
União Democrática Nacional, Lacerda elege-se vereador pelo Distrito Federal, com
expressiva votação. Em 1951, assume uma cadeira na Câmara Federal, passando a conciliar
suas atividades políticas dentro da UDN e no Congresso, com as atividades jornalísticas
na "Tribuna da Imprensa", jornal do qual era proprietário.
Com uma metralhadora
giratória, representada pelo poder extraordinário de sua palavra, pelo raciocínio claro
e límpido, e pela determinação demolidora de seu temperamento, Carlos Lacerda passa a
atacar incessantemente o palácio presidencial, procurando atingir o presidente Getúlio
Vargas, atingindo, indistintamente, todos os que estão ao redor.
Uma de suas primeiras
vítimas foi o jornalista Samuel Wainer que, protegido pelo dinheiro fácil oriundo de
empréstimos oficiais, começou a montar uma rede de jornais para a defesa do Presidente,
destacando-se a "Última Hora" no Rio de Janeiro, sua congênere de São Paulo,
e a revista "Flan", de circulação nacional.
Ao mesmo tempo que
atacava Wainer, procurando atingir Vargas, Carlos Lacerda passou a investigar a vida
pregressa de seu adversário, obtendo uma revelação que caiu como bomba: Samuel Wainer
não era brasileiro nato, condição essencial para ser proprietário ou diretor de
órgão de imprensa. Com efeito, pelos documentos levantados, Wainer nasceu na Bessarábia
(Rússia Européia) havendo entrado no Brasil, ainda infante, pelo vapor
"Canárias". Chegando a São Paulo, seus pais o registraram como nascido na
capital paulista e, portanto, brasileiro nato.
Havia, então, uma série
de crimes, suficientes para leva-lo aos tribunais: falsa identidade, falsa nacionalidade,
atuando ilegalmente como proprietário e diretor de órgãos de imprensa, e mais, os
empréstimos irregulares em Bancos oficiais, assim como isenções fiscais para
importação de maquinário e papel de imprensa, colocando-o em vantagem sobre os demais
concorrentes.
Ao final, Wainer foi
condenado a uma pena de um ano e nove meses de prisão. A revista sob sua direção deixou
de circular, os jornais entraram em declínio e, mais tarde, os títulos foram vendidos.
Ao atingir o jornalista, Carlos Lacerda acertou seu alvo máximo, o presidente Getúlio
Vargas.
O espancamento e morte de um
jornalista
O ano de 1954 já
começara com um triste presságio. Por ordem não se sabe de quem, o jornalista Nestor
Vaz Moreira foi apanhado numa emboscada e surrado até a morte por policiais. Investigando
por conta própria, a imprensa descobre como principal autor do espancamento um policial,
cujo nome se perdeu no tempo, mas que era conhecido pela sugestiva alcunha de "Coice
de Mula".
Ante os protestos da
imprensa, da oposição e da própria sociedade civil, foi aberto um inquérito na
Chefatura de Polícia, então comandada pelo general Armando de Morais Âncora. Os dias
passam e o inquérito se arrasta, para ao final encerrar-se de forma inconclusiva, com
respostas que não aclaravam nada, nem tranqüilizavam a quem quer que seja.
A Chefatura de Polícia
voltava a lembrar os velhos tempos em que era ocupada por Benjamin Vargas, quando as
arbitrariedades eram cometidas com a conivência, quando não por ordens expressas de sua
autoridade maior.
A morte de Nestor Vaz
Moreira foi um assunto que rendeu meses de ataques à polícia de Getúlio Vargas e a
falta de solução valeu como combustível para alimentar as críticas muito além do que
o episódio, em si, poderia suscitar, se esclarecido a tempo.
Nem bem o assunto
começava a esfriar e outra notícia volta a alarmar a sociedade carioca: Carlos Lacerda
fora vítima de um atentado.
O crime da rua Toneleiro
Com os amigos que tinha
à sua volta, Getúlio Vargas nem precisava de inimigos. O general Mendes de Morais e um
deputado federal, ambos íntimos do palácio presidencial, sugeriram ao chefe da guarda
pessoal do Presidente, Gregório Fortunato, que ele estaria prestando um excelente
serviço ao seu amo se eliminasse Carlos Lacerda.
Gregório deixou-se
envolver pelo canto da sereia e, acreditando, realmente, que a morte do jornalista traria
bem-estar ao Presidente, não teve dúvidas em contratar um pistoleiro para executar o
trabalho.
Não se sabe bem por que,
Carlos Lacerda, jornalista, tinha como guarda pessoal um oficial graduado da Aeronáutica,
major Rubens Vaz. Na noite de 5 de agosto de 1954, os dois desceram do carro na rua
Toneleiro, nº180, residência de Lacerda, quando foram interceptados por um desconhecido
que atirou contra o major, ferindo-o mortalmente, voltando-se depois contra o jornalista,
que ainda teve tempo de se defender, levando apenas um tiro no pé. Socorrido por
populares, o major Vaz veio a morrer em seguida, antes mesmo receber atendimento médico.
No hospital, chega o
brigadeiro Eduardo Gomes, arqui-inimigo de Getúlio Vargas e, sob comoção, declara:
"Para a honra da nação, confio que este crime não ficará impune."
Uma placa de carro,
anotada durante a fuga, forneceu a primeira pista, a partir da qual foi se desfazendo, aos
poucos, a trama. O motorista do veículo, Nelson Raimundo apresentou-se à polícia e
revelou ter sido contratado por Climério Eurides de Almeida, integrante da guarda pessoal
do palácio. A missão do motorista era transportar o pistoleiro Alcino
João do Nascimento, contratado para consumar o atentado.
Tomando conhecimento do
fato, Getúlio Vargas manda dissolver imediatamente a guarda pessoal, o que não impede
que os acontecimentos se desdobrem, descontroladamente, e com extrema rapidez.
Poderes paralelos
É difícil, muito
difícil mesmo, descrever o que se passou após a morte do major Vaz e a criação da
"República do Galeão", uma comissão de inquérito formada na Aeronáutica ao
arrepio da Constituição.
A comoção pelo trágico
acontecimento envolveu por completo as Forças Armadas e minou a autoridade do presidente
da República, tirando-lhe as condições essenciais para continuar governando. Quem conta
é Hélio Silva:
"Ao mesmo tempo que
a Polícia, conhecendo o caso através da delegacia em cuja jurisdição o fato ocorreu,
tomava providências adequadas, a Aeronáutica designou um oficial superior para
acompanhar o inquérito.
"Não parou a
interferência da Aeronáutica. A oficialidade reuniu-se em assembléias ruidosas no Clube
da Aeronáutica. No Clube Militar, oficiais da Marinha e do Exército se solidarizavam com
seus oficiais aviadores no repúdio ao crime e na exigência de uma repressão violenta
imediata.
"Formaram-se bandos
punitivos, que realizavam, por sua conta e risco, toda espécie de diligências, ocupando
estações rodoviárias, ferroviárias e aeroviárias, identificando quem saísse da
capital, empregando cães amestrados na busca dos fugitivos.
"Esse trabalho
varava os dias e as noites e, enquanto uma equipe exausta era substituída por outra,
descansada, os foragidos vinham sendo submetidos a uma perseguição sem trégua, cujos
resultados logo se iam apresentar."
A República do Galeão
A Aeronáutica tomou a
frente, instalando uma comissão de inquérito para investigar o presidente da República,
chefe supremo das Forças Armadas. Pela arbitrariedade que representava essa Comissão,
funcionando como um um tribunal à margem da Constituição, a sede da Aeronáutica ficou
conhecida como a "República do Galeão".
Ato primeiro foi a prisão de
Gregório Fortunato. Logo em seguida, é preso Climério o outro componente da guarda
pessoal. Dois dias depois, acuado como fera, rende-se o pistoleiro Alcino.
Getúlio nem tinha idéia do
que se passava à sua volta e, de moto próprio, abriu os portões do Palácio do Catete
para que a Aeronáutica fizesse ampla investigação. Seu objetivo, certamente, era o de
provar que se tratava de um ato isolado, que não podia ser generalizado, comprometendo a
seriedade de sua equipe.
Enganava-se. À sua
volta, sem o seu conhecimento, as irregularidades vinham sendo praticadas há tempos,
envolvendo todos os escalões e comprometendo por completo o governo e seu titular, o
Presidente.
Todos sabiam, o
Presidente não. Vargas confiava demais nos seus auxiliares. E, registre-se a seu favor,
nenhum indício sequer foi encontrado de que o Presidente tenha, alguma vez, utilizado o
poder em proveito próprio. Seus assessores o faziam, à sua sombra, sem o seu
conhecimento e sem o seu consentimento.
O mar de lama
A cada investigação,
novos e surpreendentes fatos iam aparecendo, como uma operação de compra e venda de uma
fazenda: vendedor, Getúlio Dorneles Vargas; comprador, Gregório Fortunato, chefe da
guarda pessoal e sem renda suficiente para participar de uma operação dessa natureza.
Há tempos Getúlio,
envolvido em dívidas contraídas durante a campanha eleitoral, passara uma procuração
ao seu filho Manuel Vargas (Maneco) para vender alguns de seus bens, a fim de saldar
compromissos. Maneco recebeu a procuração, cuidou de executar o mandato e, sobre o
assunto, nada mais disse nem lhe foi perguntado.
Surgindo agora essa
embaraçosa revelação, Getúlio entra em contato com Maneco, que se achava em viagem
pela Europa, ordenando-lhe que volte imediatamente para esclarecer o assunto.
A conversa entre Getúlio
e seu filho dá a verdadeira dimensão do escândalo. Maneco confessa. Vendera, sim, a
fazenda, para Gregório Fortunato, e parte desse dinheiro serviu para custear a viagem que
estava fazendo à Europa, agora interrompida.
Batista Luzardo conta o que ouviu de Osvaldo
Aranha, ministro da Fazenda, a propósito:
"Só aí o
Presidente tomou consciência dos problemas bárbaros que derrocavam seu governo. Mandou
então chamar Osvaldo Aranha com urgência (eu transmito o episódio como me foi narrado
pelo próprio Osvaldo, na manhã de 24 de agosto). Osvaldo subiu e encontrou Getúlio
debruçado numa janela do Catete, óculos escuros e uma fisionomia tristonha, denotando
que havia chorado. Mas o que há, seu Getúlio? O Presidente fez
uma pausa e só fez dizer: Osvaldo, está confirmado. Debaixo do Catete há um mar
de lama. O Maneco chegou e confirmou que vendeu a propriedade. Dito isso, voltou a
chorar."
Segundo narrativa de
Luís Alberto, filho de Luzardo, que se achava no palácio, com seu pai no dia 22 de
agosto, chegou a notícia de que a Aeronáutica ia atacar o palácio e, então, o general
Caiado de Castro, chefe da Casa Militar, distribuiu armas a todos os presentes para
organizar a defesa. Com efeito, aviões da FAB passavam sobre o Catete em vôos razantes,
com o objetivo de achincalhar o Presidente.
Após um manifesto de
almirantes, segue-se outro, assinado por brigadeiros e transmitido, como o primeiro, por
todas estações de rádio. O brigadeiro Nero Moura, ministro da Aeronáutica desde o
início do governo, demite-se, retirando apoio ao Presidente, sendo substituído pelo
brigadeiro Epaminondas Gomes dos Santos.
Dia 23, no Hotel
Serrador, em encontro secreto, Carlos Lacerda e Café Filho conversam durante duas longas
horas, acertando detalhes sobre a sucessão, na hipótese da renúncia de Getúlio. Em
seguida, Café Filho pronuncia um discurso no Senado, previamente redigido, mimeografado e
distribuído aos parlamentares, em que considera a hipótese de assumir o governo.
Soldados da Aeronáutica cercam o Ministério e impedem a entrada do novo ministro
nomeado. Por sua vez, a polícia ocupa a Companhia Telefônica e impõe censura às
estações de rádio e agências telegráficas.
Por fim, também o
Exército se manifesta, solidarizando-se com a Marinha e a Aeronáutica, em documento
assinado por oficiais generais. Entre as assinaturas, encontra-se os nomes de Canrobert
Pereira da Costa, o primeiro dos signatários. Seguem-se nomes de peso, como Juarez
Távora, Alcides Etchegoyen, Pery Bevilacqua, Castelo Branco, Teixeira Lott e Jair Dantas
Ribeiro.
O cenário estava armado,
o roteiro da peça ainda não era conhecido por ninguém.
A última reunião do
Ministério
Tarde da noite de
23 de agosto, realiza-se a última reunião ministerial de Getúlio Vargas, uma reunião
pouco ortodoxa, segundo expressão de Alzira Vargas do Amaral Peixoto. Lá se encontrava
todo o Ministério e mais pessoas ligadas ao Palácio, que nada tinham a ver, mas que lá
ficaram, porque o Presidente não lhes pediu que se retirassem. Entre elas, a própria
Alzira que se postou junto ao pai e que interferiu, recriminando os ministros militares.
A reunião teve lances
dramáticos e uma discussão entre os ministros militares, como conta Alzira:
"Estabelecera-se um
atrito entre o ministro da Guerra e o da Aeronáutica, o qual seria o maior responsável
pela situação: o manifesto dos generais ou a república do galeão. O brigadeiro
Epaminondas [Ministro da Aeronáutica] declarou que bastava prender os dois principais
cabeças do movimento, Eduardo Gomes e Juarez Távora, e toda a pendenga estaria
terminada. Zenóbio [Ministro da Guerra], irritado, perguntava: É por que você não os
prende? Porque não disponho de tropas, respondia Epaminondas.
Forneça o local para prende-los e eu vou.
"Interpelado,
Guilhobel [Ministro da Marinha] disse duramente: Presidente, parece que seu destino
é ser traído pelos seus chefes militares. O general Caiado de Castro [chefe da
Casa Militar] que, um tanto surdo, em pé, atrás do ministro da Marinha, tentava
acompanhar os debates, levou as sobras. O ministro da Guerra [Zenóbio] o interpelava
brutalmente, perguntando por que não ia ele comandar as tropas de defesa. Caiado, quando
entendeu, aceitou o desafio e pediu que lhe desse as tropas. A confusão ameaçava
tornar-se total quando a voz de Vargas, serena e clara, novamente restabeleceu a ordem e o
silêncio, um silêncio tétrico."
Fecham-se as cortinas
Na madrugada do dia 24,
encerrada já a reunião ministerial, Getúlio Vargas dá suas últimas instruções,
assina alguns documentos, e recolhe-se aos seus aposentos. Os participantes da reunião,
retiram-se quase todos. Apenas alguns permanecem no palácio, entre eles o ministro da
Justiça, Tancredo Neves.
No silêncio da
madrugada, um tiro ecoa. O capitão Hélio, responsável pelo plantão chega esbaforido:
"O Presidente suicidou-se!". O historiador Helio Silva narra:
"Subiram, correndo,
Alzira, Tancredo e todos os que se achavam no hall. Vargas estava recostado, na posição
confirmada por todos, a perna para fora da cama. O coração sangrando aos borbotões.
Tancredo conta que procurou ampara-lo, enquanto Alzira abraçava-o. Ele procurava alguém
com o olhar, que se fixou em Alzira, mais demoradamente, até que faleceu."
Ao seu lado, um papel
cuidadosamente datilografado, em linguagem clara e com os pensamentos muito bem
formulados. Era a carta testamento, cuja autenticidade foi contestada por muitos. Quando
mais não fosse, por um detalhe: Getúlio não sabia escrever à máquina. João Batista
Luzardo, em depoimento a Glauco Carneiro, protesta contra essa versão:
"Mas, meu Deus, quem
pode dizer isso? Está ali a idéia, o feitio dele; o pensamento, a plataforma do que
queria e do que procurava fazer, quando fundou o PTB... Ali está a sua reação contra as
pressões que sofria, contra os inimigos que o assediavam quem pode contestar uma
certeza destas? Não posso dizer que tenha sido ele quem escreveu as palavras, mas o
conteúdo é dele, é dele.
Todo mundo sabia que o
Maciel Junior era quem melhor expressava o pensamento dele, por escrito o emprego
dos termos, a maneira de falar do Getúlio. Captava até aquela linguagem coloquial do
Getúlio, que tinha muito sucesso ao falar de improviso, porque não se alongava e era
feliz com expressão, com sentimento, com precisão, aferrando-se a idéias
determinadas e as transmitindo muito bem ao público. Além do mais, o Maciel Filho, que
penso ser o escrevinhador da carta, mas não o seu autor, era confidente de Getúlio,
vivia com o Getúlio dia e noite. Se o Getúlio deu as idéias gerais, e o Maciel as
alinhou, onde é que o Getúlio deixa de ser o autor?"
Verdade é que, se o tiro
da rua dos Toneleiros, acertando o major Vaz atingiu Getúlio Vargas, o tiro no peito de
Vargas atingiu em cheio a União Democrática Nacional e seu porta-voz máximo, o
jornalista Carlos Lacerda. O impacto do suicídio e o teor da carta-testamento
sensibilizaram o trabalhador brasileiro, que voltou-se contra a UDN, retirando-lhe
qualquer chance de chegar ao poder e dele participar. Seu destino, até que foi extinta
pelo Ato Institucional nº5, foi permanecer na oposição, uma oposição violenta e, por
vezes, consistente, mas afastada das massas populares, cuja confiança jamais chegou a
conquistar. (Leia a carta-testamento)
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