Helio Fernandes
Tribuna
da Imprensa - RJ
24 de agosto de 2004
Há 50 anos, Getulio Vargas, pela primeira vez presidente eleito do
Brasil, se matava. Foi o golpe mais genial de toda a história, não só nossa mas do
mundo inteiro. Getulio, apenas com um tiro, "deixou a vida para entrar na
História", mas eliminava também, de forma irrecuperável, todos os inimigos ou
adversários. A palavra que usei tem que ser repetida: GENIAL.
No Império e a partir da República, golpes e mais golpes. Apenas duas Revoluções
verdadeiras, uma vitoriosa e outra derrotada. A vitoriosa, em 1889, quando houve uma
ruptura das Instituições, foi derrubado o Império e implantada (e não promulgada) a
República. Mas a Constituinte convocada e reunida 1 ano depois, em 15 de novembro de
1890, legítima, pois vinha de um poder originário legítimo.
A segunda Revolução, em 1935, um fracasso total, desorganizada, sem recursos, mas
autêntica. Por quê? Simplesmente pretendia mudar o regime político e a
representatividade popular ou direta. E tinha como objetivo econômico e financeiro a
produção e distribuição da riqueza de forma inteiramente diferente,
E-S-T-A-T-I-Z-A-D-A. Não chegou a marcar seu lugar, mas marcou o encadeamento das datas,
golpes em cima de golpes. E essa Revolução chefiada por Prestes foi a grande motivação
para Getulio Vargas criar o cruel e selvagem Estado Novo de 1937.
Na verdade, Vargas já estava no Poder desde 1930, um golpe como tantos outros,
equivocadamente identificado como Revolução. Aos 43 anos, deputado inteiramente
desconhecido, foi nomeado ministro da Fazenda pelo presidente Washington Luiz. Surpresa
total. Em 1928, o mesmo Washington Luiz fazia de Vargas presidente do Rio Grande do Sul.
Em 1930, depois de perder a eleição presidencial para Julio Prestes (de nenhum
parentesco com o próprio), foi empossado como chefe do governo provisório. Num golpe no
qual estava bem longe de ser a principal figura.
1930 provocou 1932, daí veio 1934, 1935, a frustração da "eleição indireta"
de Vargas levaria a 1937. E daí a 1945 e a derrubada do ditador, que voltaria em 1950,
armando tragicamente o 1954, que iria preparar outro golpe, este de 1964. Essa é a
história encadeada de golpes e mais golpes.
Depois de ter ficado 15 anos no Poder, sem eleição, governando ditatorialmente, Vargas
não devia ter voltado em 1950/51. Não sabia governar democraticamente, foi cometendo
erros colossais. Para tomar posse, eliminando a oposição de Lacerda-Golbery (então
amicíssimos e tão golpistas quanto o próprio Vargas), teve que recorrer ao general
Stilac Leal.
Presidente do Clube Militar, feito ministro da Guerra, Stilac garantiu Vargas. Mas este
cometeu muitos erros, equívocos colossais, foi se enfraquecendo visivelmente. Quando 69
coronéis publicaram um manifesto exigindo a saída do seu ministro do Trabalho e Vargas
concordou, ele começou a assinar sua sentença de morte. Esse ministro se chamava João
Goulart, nem ele nem Vargas podiam aceitar a intimidação. Mas aceitaram.
Todo o ano de 1953/54 foi de conspiração de lado a lado, o que se repetiria 10 anos
depois em 1963/64. Este golpe foi lastreado, plantado e consolidado pelo de 1954. Só que
1964 não teve um mínimo da grandeza de Vargas em 1954. Entre 1954 e 1964, houve a
tentativa de não dar posse a Juscelino em 11 de novembro de 1955 e a renúncia de Janio
em 1961. A trajetória de João Goulart também alicerçou a ambição militar.
De 1930 a 1945, Vargas foi fortíssimo. Muitos tentaram derrubá-lo, resistiu a tudo,
venceu sempre. Mas em 1954, já com 71 anos (naquela época nada a ver com a longevidade
de hoje), não teve ânimo nem capacidade para resistir.
Mas o surpreendente é que exatamente na manhã de hoje, há 50 anos, Vargas tivesse a
percepção do que poderia escrever na história com um simples tiro no coração. Todo o
seu passado de ditador convicto, inclemente, e sem respeitar ninguém, foi apagado para
sempre, ficou apenas a trajetória de um tiro, que ainda pode ser ouvido até hoje. O
estrondo de 50 anos passados mudou tudo, inclusive a história do Brasil.
PS - Vargas foi um ditador nato, convicto e que só tinha uma admiração e uma
obstinação: o Poder. E quando resolveu deixá-lo, com a renúncia indiscutível que é a
saída pela porta da morte, Vargas inscreveu seu nome difinitivamente entre os personagens
inesquecíveis. O que é uma constatação e não exaltação.