CAPÍTULO CINCO
QUATRO DIAS DE GLÓRIA
GOVERNO CARLOS LUZ
Carlos Coimbra da Luz, presidente da Câmara Federal, registrou um feito jamais conseguido por qualquer um dos presidentes da República no Brasil: ficou no poder por apenas quatro dias.
Com efeito, assumindo o governo no dia 8 de novembro de 1955, permaneceu Presidente, também, nos dias 9, 10 e 11, quando teve de renunciar, por haver-lhe faltado, literalmente, terra aos pés. Instalou um governo de emergência no Cruzador Tamandaré, mas não conseguiu aportar em Santos, onde pretendia permanecer, valendo-se do apoio que lhe foi dado pelo Governador de São Paulo, Jânio da Silva Quadros. Também não pôde voltar ao Rio de Janeiro, para reinstalar-se no Catete, pois tropas do Exército dominavam a cidade.
Golpe ou contragolpe? Essa foi a discussão apaixonada que envolveu todos os setores da vida pública por vários meses, indo repercutir no Supremo Tribunal Federal. Coube a este julgar, não o impedimento a Carlos Luz, que era um substituto eventual à Presidência, mas outro fato mais grave, ocorrido dez dias depois, quando o Presidente efetivo, João Fernandes Café Filho, foi sitiado em seu apartamento e impedido de retomar as atividades, após a alta que lhe foi dada por uma junta médica, declarando-o restabelecido do enfarte de que fora acometido.
A grave crise, que atravessou o mês de novembro e prolongou-se até a posse de Juscelino Kubitschek de Oliveira, em 1º de fevereiro de 1956, pôs à mostra um poder político-militar momentaneamente dividido, mas que, anos mais tarde, voltaria a se unir para realizar, desta vez com sucesso, o movimento de 31 de março de 1964.
Tais acontecimentos não são isolados. Fazem parte de problemas mal resolvidos, que começaram em 1889, com a queda do Império, e atravessaram o século 20, ora envolvendo o poder civil, representado pelas oligarquias de São Paulo e Minas Gerais, ora comprometendo a hierarquia dentro das Forças Armadas, como aconteceu com as revoltas de 1922 e o subsequente movimento tenentista que liquidou com a Primeira República (1989-1930).
Essa situação anômala prosseguiu após a revolução vitoriosa de 1930, que manteve Getúlio Vargas no poder até ser deposto por seu ministro da Guerra, pondo fim à Segunda República (1930-1945). Por fim, a Terceira República (1945-1964) conquistou uma liberdade de opinião jamais vista anteriormente, mas não se livrou dos vícios herdados dos períodos anteriores, entre eles o direito manifesto pelas Forças Armadas de interferir no processo democrático para fazer uma "sintonia fina" do texto constitucional.
Partícipes que somos, todos nós, escrevendo com nossas vidas a História pátria, é importante conhecer e entender o processo de intervenção militar ocorrido em novembro de 1955, cujas conseqüências se fizeram sentir também nas décadas seguintes.
Ganhou, mas será que leva?
Na regulamentação das eleições de 1955, a União Democrática Nacional (UDN) faz valer sua influência, pressionando o Superior Tribunal Eleitoral (STF) para que estabeleça a exigência de um segundo turno, caso o candidato eleito presidente da República não alcançar maioria absoluta (50 por cento do eleitorado votante, desprezadas as abstenções). Como esse dispositivo não consta da Carta Magna, o TSF desconhece as pretensões da UDN, mantendo o princípio de maioria simples.
Juscelino é eleito, e eleito com os votos de apenas 36 por cento da massa eleitoral. Dois dos candidatos, Ademar de Barros e Plínio Salgado, aceitam o veredicto das urnas, reconhecendo a vitória de JK. A UDN, sozinha, continua insistindo em sua tese de maioria absoluta.
Objetivando preservar a ordem constitucional, cinco partidos políticos unidos (PSD, PSP, PRP, PTN e PST) lançam um manifesto, lido na Câmara Federal pelo deputado Arnaldo Cerdeira, condenando a pretensão udenista de mudar as regras do jogo após os resultados. Nesse manifesto, insistem em que os diversos partidos, havendo participado das eleições e aceito previamente as regras estabelecidas, têm agora a obrigação de sustentar a continuidade do processo, garantindo a posse ao eleito.
Entretanto, não é essa a vontade da UDN, nem de alguns setores das Forças Armadas, incluindo a grande maioria da Aeronáutica e da Marinha e, felizmente, apenas um pequeno grupo dentro do Exército. Este último, pela opinião maciça de seus oficiais superiores, manifesta a determinação de fazer cumprir a Constituição, dando posse aos eleitos.
Cheiro de fumaça e ameaça de incêndio
É nesse clima de incertezas que ocorre a morte do general Canrobert Pereira da Costa, chefe do Estado Maior das Forças Armadas (EMFA), como resultado de uma doença que o mantinha afastado do cargo há alguns meses.
No seu enterro, em 1º de novembro de 1955, após os discursos programados, inesperadamente, apresenta-se para falar o coronel Jurandir de Bizarria Mamede, dizendo-se representante do Clube Militar. E, em uma alocução de forte conteúdo político, questiona a entrega da presidência da República a alguém que representa "uma vitória da minoria".
Carlos Luz, presidente da Câmara Federal, gosta e cumprimenta efusivamente o orador. O ministro da Guerra cala-se, contrariado, mas tenciona punir o coronel por esse ato intempestivo e inconveniente.
Mamede, entretanto, encontra-se comissionado na Escola Superior de Guerra (ESG), órgão do EMFA, subordinado diretamente ao Presidente da República. O chefe interino do EMFA, neste momento, é o brigadeiro Gervásio Duncan Lima Rodrigues, e a ESG está sendo dirigida pelo Almirante Ernesto Araújo, um e outro contrários a qualquer punição a Mamede.
O ministro da Guerra tenta recorrer ao presidente João Café Filho mas este, no olho do furacão, é vitimado por enfarte, sendo internado em um hospital.
No dia 8, Carlos Luz, presidente da Câmara Federal e o primeiro na ordem de sucessão, assume a presidência da República, substituindo Café Filho. Submetida à sua apreciação a questão disciplinar, o novo Presidente decide não punir o coronel.
Estamos em 8 de novembro, poucas horas após a posse no novo Presidente. O ministro da Guerra, Henrique Duffles Teixeira Lott, sentindo-se desautorizado, pede demissão, sendo substituído pelo general Fiúza de Castro. Tudo apenas no papel, porque a transmissão de cargo foi marcada para 11 de novembro e, até lá, Lott continua exercendo o cargo, com plenos poderes.
Por seu lado, o jornalista Carlos Lacerda, regente da "banda de música" da UDN, continua publicando violentos artigos contra a posse de JK e, a 10 de novembro, excede-se a si mesmo, transformando num incêndio o que até aqui era apenas fumaça. Num artigo publicado pela Tribuna de Imprensa, diz, enfaticamente:
"É preciso que fique claro, muito claro, que o presidente da Câmara não assumiu o governo da República para preparar a posse dos srs. Juscelino Kubitschek e João Goulart. Esses homens não podem tomar posse, não devem tomar posse e não tomarão posse."
Nada mais é insinuado, tudo é dito às claras, como quem põe todas as cartas sobre a mesa, certo de que o jogo já está ganho.
A posição do ministro da Guerra
Voltemos a 5 de novembro, quando Café Filho se achava hospitalizado mas Carlos Luz ainda não havia tomado posse. Nessa data, sentindo-se envolvido pela teia de intrigas montada através do noticiário da Tribuna de Imprensa, o ministro da Guerra, general Teixeira Lott, envia um comunicado à mídia para esclarecer sua posição nos acontecimentos que, em linhas gerais, é a seguinte:
"1. A última vez que o ministro esteve e falou com o presidente da República foi na manhã do dia 1º do corrente (data do sepultamento do general Canrobert).
"2. No dia de Finados, o ministro da Guerra não se entendeu pessoalmente, nem pelo telefone, com qualquer autoridade civil ou militar.
"3. Na manhã de 3 do corrente, por volta das oito horas, o Ministro teve um entendimento com o chefe do Gabinete Militar da Presidência da República, indagando se o sr. Presidente tivera conhecimento do teor do discurso pronunciado pelo coronel Mamede na ocasião do enterramento do general Canrobert. O chefe do Gabinete respondeu que o sr. Presidente tinha sido acometido de um distúrbio cardiovascular, durante a madrugada do dia 3 e tinha sido, em conseqüência, internado no Hospital do IPASE e que mais tarde daria novas informações.
"4. Cerca de três horas mais tarde, o chefe do Gabinete Militar informou que não apresentava gravidade o estado de saúde do sr. Presidente, mas que era mister que ele, durante alguns dias, se mantivesse em completo repouso.
"5. Pouco após, o ministro da Guerra estabeleceu ligação telefônica com o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas [Brigadeiro Duncan] e indagou se já havia sido tomada alguma decisão de ordem disciplinar, com relação ao coronel Mamede. Recebendo resposta negativa, o Ministro informou ao chefe do EMFA que iria solicitar fosse o coronel Mamede dispensado de suas funções que exerce na Escola Superior de Guerra.
"6. Imediatamente após, o ministro expediu um aviso à chefia do EMFA solicitando fosse o coronel Mamede dispensado da comissão em que se encontrava fora do Exército. Esse aviso foi recebido pouco depois do meio-dia pelo coronel-chefe do Gabinete daquele Estado-Maior, em 5 de 11 de 1955."
Reiterando as palavras do ministro da Guerra, o gabinete da presidência da República também envia comunicado à imprensa, confirmando que o último encontro de Lott com Café Filho foi na manhã do dia 1º de novembro, horas antes do féretro do general Canrobert.
Até este ponto, pelo menos, todas as distorções produzidas pelo noticiário da Tribuna de Imprensa foram desfeitas.
A posição do chefe do EMFA
Estamos agora a 8 de novembro. Empossado nesta data, já pela noite, Carlos Luz tinha em mãos a versão do brigadeiro Gervásio Duncan Lima Rodrigues, chefe do EMFA, que dizia:
"1. O discurso pronunciado pelo coronel Jurandir de Bizarria Mamede, junto ao túmulo do general Canrobert, produziu um impacto da opinião pública, que se encontrava ainda excitada pelas emoções da disputa eleitoral, como é do conhecimento geral.
"2. As interpretações do aludido discurso, sob o aspecto disciplinar, suscitaram divergências de opiniões nos círculos militares. Cabia, entretanto, ao comando da Escola Superior de Guerra estabelecimento onde serve aquele oficial a primazia em julgá-lo; em escalão imediato, a esta chefia, competia conhecer o assunto.
"3. Estudando minuciosamente o teor do discurso, concluiu o comandante da Escola Superior de Guerra, em seu alto senso de julgamento, que ele não colidia com os dispositivos disciplinares. Antes, porém, de qualquer pronunciamento oficial, submeteu verbalmente o caso à apreciação desta chefia, que também não vislumbrou incidência disciplinar nas palavras do porta-voz da diretoria do Clube Militar, caráter em que foi pronunciada pelo oficial em apreço a aludida peça oratória. Também oficiais que assessoram esta chefia, reunidos para a apreciação do assunto, foram unânimes, antes de conhecerem a opinião do chefe, em encarar o fato pelo mesmo critério de inexistência de indisciplina.
"4. Achavam-se em andamento estes trâmites de julgamento, quando o titular da pasta da Guerra, em pessoa, pelo telefone, entendeu-se com esta chefia, para solicitar sanções disciplinares que, no seu entender, o caso exigia. Ponderei-lhe, pelo telefone, que, na opinião desta chefia, não havia razões para punições, recebendo, entretanto, de parte de s. exa., a enfática resposta de que iria requisitar o coronel Mamede, de volta ao Exército, em documento.
"5. Nesse mesmo dia 3 de novembro, após o expediente da manhã, encerrado às 12 horas, quando esta chefia já havia se retirado, foi o documento de requisição recebido no Estado-Maior das Forças Armadas. Esse documento, de caráter reservado e urgentíssimo, alegando necessidades do serviço, solicitava o retorno do coronel ao âmbito do ministério da Guerra com a possível brevidade. (...) O retorno do coronel Mamede ao âmbito do ministério da Guerra passou a assumir, assim, por si só, o caráter de uma punição, e a representar uma diminuição para a autoridade desta chefia.
"6. Antecipando-se a estas ocorrências, esta chefia, no dia 4, minutou uma carta ao exmo. Sr. presidente da República, e, em data de 5 entregou-a ao coronel José Canavaro Pereira, chefe de sua Secretaria Militar, para que a fizesse chegar às mãos do ilustre chefe do Estado assim que sua saúde lhe permitisse ajuizar do feito.
"7. Com a passagem do Governo para o novo signatário, e em face do acima exposto, está o supremo magistrado habilitado a resolver tanto o caso disciplinar como o da requisição do coronel Mamede, como julgar mais conveniente aos altos interesses da nação."
A posição do Consultor Geral
Ainda nessa mesma noite de 8 de novembro, o presidente Carlos Luz tinha em mãos o parecer jurídico solicitado ao Consultor Geral da República, Temístocles Brandão Cavalcanti, acompanhando o pensamento do chefe do EMFA, no sentido de que, pela escala hierárquica, somente o presidente da República, e nunca o ministro da Guerra, podia interferir em assuntos internos do Estado Maior das Forças Armadas. Seu pensamento era resumido nos seguintes itens:
"1. O oficial assistente da Escola Superior de Guerra é nomeado por decreto do presidente da República;
"2. O exercício do cargo perdura enquanto não revogado por outro decreto do presidente da República;
"3. A Escola Superior de Guerra está sob uma jurisdição administrativa e militar própria, subordinada diretamente ao Estado-Maior das Forças Armadas, que, por sua vez, depende do presidente da República.
"4. Que, assim, nenhum ministro de Estado dos Ministérios Militares terá ação administrativa, militar ou disciplinar sobre os oficiais servindo no EMFA ou na ESG, antes que o presidente da República torne sem efeito o ato da nomeação para a Escola Superior de Guerra, restituindo-o, desde então, à jurisdição do seu Ministério originário."
Não estava com sorte o ministro da Guerra. Os dois pareceres contrariavam sua opinião, deixando-o com a autoridade abalada. Não lhe restava outra alternativa senão pedir demissão do cargo, o que foi feito nessa mesma noite de 8 de novembro, ficando a posse de seu sucessor marcada para 11 de novembro.
E, tenha certeza disso, nesses três dias, o Ministro trabalhou bastante, como talvez nunca o tenha feito antes com tamanha intensidade. O futuro do país e do mandato de Juscelino Kubitschek de Oliveira tem muito a ver com esses três dias de diuturna atividade.
Área de turbulência
Nesta altura dos acontecimentos, parecia não restarem dúvidas de que uma conspiração estava em andamento para impedir a posse do Presidente eleito e o eixo desse movimento era o próprio presidente da República, Carlos Luz.
Sua reação entusiástica ao discurso do coronel Mamede marcou claro a posição que havia tomado em torno do assunto. O relatório do EMFA e o parecer da Consultoria Geral da República deixaram patente a incompetência legal do ministro da Guerra em requisitar o retorno do oficial faltoso e dar-lhe a punição cabível. Um e outro foram prontos em reconhecer que essa competência era do presidente da República. Carlos Luz podia fazê-lo, mas não o fez.
Ao seu lado, o Presidente tinha um Ministério herdado do governo anterior, cujas tendências eram bem conhecidas. Prado Kelly, ministro das Relações Exteriores era o presidente da União Democrática Nacional, que pedia um segundo turno para as eleições de novembro de 1955. O ministro da Aeronáutica, Eduardo Gomes, duas vezes candidato à Presidência pelo mesmo partido, também declarou-se contrário à posse de JK. Assim também o fez o ministro da Marinha, Edmundo Jordão Amorim do Vale. E assim por diante.
De sua parte, o ministro da Guerra, demissionário mas ainda no cargo, não reconhecia outra alternativa que não o cumprimento da Constituição e a aplicação das regras fixadas pelo TSE para a realização das eleições, que contemplavam a eleição do presidente da República por maioria simples, exigência que foi preenchida por JK. Era, pois, o começo do confronto.
Começa o enfrentamento
O general Teixeira Lott, ministro da Guerra, e o general Odílio Denys, comandante da Zona Militar Leste moravam próximos um do outro e tinham instalado um telefone de campanha que unia as duas casas, permitindo manter contatos de natureza reservada, sem perigo de interceptação. Ambos começaram a agir, e agir rápido, pois, quando o novo ministro viesse a tomar posse, haveria alterações nos vários postos de comando, favorecendo os supostos golpistas.
Ao seu lado estavam quase todos os oficiais de comando, destacando-se, além do general Odilio Denys, também o Marechal Mascarenhas de Morais (na época o único marechal brasileiro vivo), o general Olímpio Falconiere da Cunha, comandante da Zona Militar Centro e o general Artur da Costa e Silva.
Instalando seu QG no Quartel da Zona Militar Leste, o ministro da Guerra, usando de suas atribuições legais, passou a manter contar com os comandos dentro da Capital Federal e nos outros Estados, ao mesmo tempo em que colocava tropas do Exército nas ruas e tomava pontos estratégicos.
Ato contínuo, foram presos o chefe de Polícia, coronel Menezes Cortes, o novo ministro da Guerra, ainda não empossado, general Fiúza de Castro e o general Alcides Etchegoyen, que se achava no Palácio do Catete.
O presidente da República, Carlos Luz, pela manhã, havia ligado para o general Lott, a fim de pedir explicações sobre a movimentação de tropas. O Ministro mandou dizer que estava ocupado e não poderia atender o Presidente.
Para bom entendedor, meia palavra basta. Carlos Luz reuniu a sua "patota" e fugiu antes de ser apanhado preso, refugiando-se no cruzador Tamandaré, onde o esperava o almirante Pena Boto. Com o Presidente, se encontravam os ministros Prado Kelly, Marcondes Ferraz, o general Silvio Heck e outros elementos ligados ao governo. Achando melhor por as barbas de molho, também o jornalista Carlos Lacerda refugiou-se no mesmo navio. Desta vez, pelo menos, calado.
Só não seguiu o ministro da Aeronáutica, brigadeiro Eduardo Gomes, pois ficara em terra para comandar a reação e abafar o movimento do Exército. Primeiro, Eduardo Gomes tomou providências para garantir a resistência na Capital Federal e, depois, voou para a base aérea de Cumbica, em Guarulhos-SP, onde pretendia reunir forças para garantir a reinstalação do Governo.
O problema estava em São Paulo
Em São Paulo, o governador Jânio da Silva Quadros, que fechara acordo com UDN nas últimas eleições, apoiando Juarez Távora para Presidente e Auro Soares de Moura Andrade para senador, estava disposto a garantir a continuidade do governo de Carlos Luz em território paulista. Ali se achava também o brigadeiro Eduardo Gomes, reunindo forças para garantir o desembarque do Presidente e sua comitiva.
Contar com o governador era contar com a Força Pública do Estado, com bom efetivo, bem treinada e bem equipada. O brigadeiro tinha também ao seu lado o efetivo da Aeronáutica, sob seu comando. E conseguira apoio da 2ª Divisão de Infantaria, comandada pelo general Tasso Tinoco.
A posição deste último, entretanto, ficou bastante enfraquecida com a chegada, por terra, do general Olímpio Falconiere da Cunha, que conseguiu reunir sob o seu comando quase todo o efetivo do Exército estacionado em São Paulo, mantendo sob seu controle a Capital e o porto de Santos, e garantindo a ordem no restante do Estado.
Não conseguindo desembarcar em Santos e sem condições de retormar o Rio de Janeiro, o presidente Carlos Luz ficou à deriva até 11 de novembro, quando decidiu renunciar à presidência da República.
Fracassando em sua missão, o brigadeiro Eduardo Gomes voltou ao Rio de Janeiro e passou o cargo de ministro da Aeronáutica ao brigadeiro Alves Seco, juntando-se aos demais passageiros do cruzador Tamandaré quando este, finalmente, obteve autorização para ancorar na baía da Guanabara.
Tomou posse na Presidência, então, o seguinte e penúltimo na ordem da sucessão, que era o presidente do Senado, Nereu Ramos. Após ele, sobrava apenas o presidente do Supremo Tribunal Federal.
Café Filho em cárcere privado
Estranha era a situação do Presidente licenciado, João Fernandes Café Filho pois, seja por recomendação médica ou por outro fator influente fora do hospital, não tinha conhecimento dos acontecimentos que precederam o movimento militar. Não sabia ao menos que o ministro da Guerra fora substituído.
O diretor do Hospital dos Servidores, Raimundo de Brito era seu amigo particular e, no interesse de sua saúde, manteve um certo isolamento, encarregando-se ele próprio de ir passando uma ou outra notícia, observando-lhe as reações e avançando com outras revelações.
A renúncia de Carlos Luz se deu em 11 de novembro e só depois de vários dias é que Café Filho teve inteiro conhecimento do assunto. No dia 21, a seu pedido, o paciente foi submetido a uma Junta Médica, que julgou-o em boas condições de saúde, dando-lhe, em conseqüência a tão esperada alta.
Rapidamente, Café Filho dirigiu-se ao seu apartamento na zona Sul, onde chegou sem dificuldades, entrando no edifício sob os aplausos de manifestantes que lhe saudavam o retorno.
Assim que ele entrou no edifício e as portas se fecharam, o cenário na rua mudou completamente sendo esta fechada com tropas do Exército, carros de combate e tanques de guerra. Seguiram-se atos de hostilidade dos manifestantes contra as tropas com a reação destas, usando bombas de efeito moral.
Café Filho permaneceu sitiado em seu apartamento até a efetiva posse de Juscelino Kubitchek, em 1º de fevereiro de 1956. Impetrado mandado de segurança junto ao Supremo Tribunal Federal, este se manifestou pelo adiamento da decisão até que terminasse o estado de sítio em vigor no país, vale dizer, até a posse do novo Presidente. E ficou o dito por não dito.
O governo Nereu Ramos
Assumindo no pico da crise, e com um mandato-tampão de pouco mais de dois meses, Nereu Ramos apenas esquentou a cadeira, enquanto não chegava o novo dono dela.
Ainda assim, para cumprir as formalidades, organizou o seu Ministério que, apenas para registro histórico, vai descrito a seguir: Relações Exteriores, José Carlos de Macedo Soares; Justiça, Menezes Pimentel; Educação e Cultura, Abgar Renault; Saúde, Maurício Campos de Medeiros; Fazenda, Mário Leopoldo Pereira da Câmara; Agricultura, Eduardo Catalão; Viação e Obras Públicas, Lucas Lopes; Trabalho, Indústria e Comércio, Nelson Bachel Omegna; Guerra, general Teixeira Lott; Marinha, almirante Antônio Alves Câmara Junior; Aeronáutica, brigadeiro Vasco Alves Secco.
Com exceção de Macedo Soares e do general Teixeira Lott, os demais nomes são inexpressivos e desconhecidos. Mas ficaram com o Presidente o terceiro em um ano até o final do governo.
Você decide
Aí estão os fatos, de maneira resumida. Muita coisa mais houve, que o espaço não permite contar. Mas, com o que você ficou sabendo, já dá para tomar uma decisão. Então, o que houve foi um golpe de estado ou um contra-golpe?
Café Filho internou-se num hospital, doente, justamente quando deveria tomar uma decisão de caráter disciplinar contra o coronel falastrão, mas, alguns dias depois, quando soube dos desdobramentos, "sarou rapidinho" e tentou retomar o governo. Sua internação seria, então, simples manobra dentro de um plano maior para impedir a posse de JK?
O coronel Mamede fez um discurso político diante do túmulo do general Canrobert, considerado por seus superiores como resultado da emoção. Mas falou sério e falou em nome do Clube Militar sem que ninguém dessa associação o desautorizasse. Teria sido, então, arroubo de momento ou missa encomendada?
Em sua ação, o ministro da Guerra, general Teixeira Lott atropelou a Constituição, forçando a renúncia do Presidente em exercício e impedindo o retorno do Presidente constitucional. Podia fazer isso, mesmo que supeitando de uma trama contra as instituições? Para preservar a lei alguém pode passar por cima dela?
Se conspiração houve, um mundo de gente estava envolvida nela: os dois Presidentes, vários ministros, os líderes da UDN, o jornalista Carlos Lacerda... Vitorioso o contragolpe, nenhum inquérito foi aberto, nada mais foi apurado, não aconteceu nada com ninguém. Se houve conspiração, o que aconteceu com os conspiradores ? Nada.
A partir deste ponto, você é o juíz. E vai perceber que não é nada fácil emitir um julgamento, pois a verdade tem muitas faces e, assim, não há uma decisão que contemple a justiça plena. Qualquer que seja o veredicto, sempre ficará uma dúvida no ar e uma série de perguntas permanecerá sem resposta.
Para encerrar, vamos dizer onde foi parar toda essa gente. Café Filho abandonou a carreira política e, em 1961, foi nomeado membro do Tribunal de Contas do Estado da Guanabara, onde o governador era seu amigo, o jornalista Carlos Lacerda. Carlos Luz veio a falecer nesse mesmo ano de 1961, também no Rio de Janeiro, que já não era mais a Capital Federal. Dois anos depois de entregar a faixa presidencial a JK, Nereu Ramos morreu, também, em conseqüência de um desastre aéreo.
O brigadeiro Eduardo Gomes, fiel às suas idéias, afastou-se dos três governos que se seguiram. Em 1964, já reformado, com a patente de Marechal do Ar, participou do movimento que deu origem ao regime militar. Foi ministro da Aeronáutica no governo do marechal Castelo Branco, entre 1964 e 1967, não por gosto, mas por necessidade, tentando superar a crise entre Marinha e Aeronáutica na disputa pelo comando do porta-aviões Minas-Gerais. Faleceu no Rio de Janeiro em 1981, com 85 anos de idade. É o patrono da Força Aérea Brasileira. Mameme, general reformado, faleceu em dezembro de 1999, quase centenário.
E o general Teixeira Lott... Ah, o general Teixeira Lott... Este é um outro assunto, que vai para o próximo capítulo.
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