CAPÍTULO SEIS
ADMINISTRAÇÃO TURBINADA
O GOVERNO DE JUSCELINO KUBITSCHEK
Ao clarear do dia 24 de agosto de 1954, a população brasileira, incrédula e estarrecida, toma conhecimento da morte trágica do presidente Getúlio Dorneles Vargas, vítima do esquema de segurança que montara em torno de si, mas vítima, também, de forças reacionárias que não queriam vê-lo no poder e que, por qualquer pretexto, ou por pretexto nenhum, queriam desalojá-lo.
O dia começa tenebroso. O perigo de tumulto nos locais de trabalho leva patrões a suspender a jornada naquele dia, fazendo com que a agitação se transfira para as ruas das grandes cidades. Horas depois, às pressas, é declarado feriado nacional, com o que o trabalho fica suspenso também nas raras casas que ainda haviam ousado abrir suas portas.
Nos locais públicos, protestos e depredações, ocasionando confrontos com a polícia, cuidadosa em não complicar uma situação que já era, por si só, bem difícil.
Em Belo Horizonte, o governador do Estado, Juscelino Kubitschek de Oliveira, toma conhecimento de que uma grande concentração ia se formando na avenida Afonso Pena, junto às escadarias da Igreja de São José. Eram já mais de 50 mil pessoas, ouvindo calorosos discursos de líderes políticos e sindicais, em ambiente inflamado, e num estado de comoção muito grande, tudo levando a crer que, em breve, começariam tumultos impossíveis de se controlar.
O governador não tem dúvidas. Sozinho, sai do palácio, percorre a avenida e sobe as escadarias, aproximando-se dos líderes da manifestação, como conta Hélio Silva:
"Juscelino Kubitschek pediu licença e, declarando-se o governador do Estado, dirigiu umas palavras à multidão. Estavam todos vivendo um momento doloroso para a nação. Era preciso que o povo, que sofria com a perda de Vargas não transformasse suas expansões num movimento de desordem. Por isso, o governador convidava a todos para subirem, a pé, em direção ao Palácio das Laranjeiras [o palácio do Governo], onde poderiam ficar em seus parques, todo o dia, trocando idéias. Suas palavras impressionaram, pois falou emocionado.
"Assim, a multidão o acompanhou até o palácio, lá passando todo o dia. Mas os últimos grupos só se dissiparam por volta das 23 horas. Foi então que Juscelino pôde vir ao Rio de Janeiro, para visitar o corpo do presidente, no velório do Palácio do Catete, regressando, ainda pela madrugada, a Belo Horizonte."
Assim era JK: arrojado, mas sem pedantismo, aparentemente calmo, mesmo que em seu interior se arrastasse um turbilhão de emoções. Apresentava sempre uma serenidade que irritava seus adversários, muitos dos quais a confundiam como um ato de cinismo e de provocação.
Com tal equilíbrio, é até compreensível que entre 1926 a 1985, abrangendo um período de 59 anos, Juscelino Kubitschek torna-se o único Presidente civil a concluir seu mandato, vencendo todas as tentativas, primeiro para impedi-lo de tomar posse, depois para impedi-lo de governar.
Havia pedras no caminho
Como se recorda, a trajetória de JK a caminho da Presidência transcorreu por uma estrada pedregosa e acidentada, que teria levado à desistência qualquer outro, menos afeito às ciladas políticas e menos prevenido contra ações efetivas, realizadas à margem da lei.
Primeiro, a tentativa de se adiar as eleições gerais (exceto para Presidente), marcadas para 3 de outubro de 1954, dois meses após a morte de Vargas. JK sabia que, suspenso este pleito, seria meio caminho para cancelar também as eleições presidenciais de 1955, e se opôs fortemente à proposta, trazida ao seu partido pelo governador de Pernambuco, Etelvino Lins de Albuquerque.
Depois, a ação do Presidente Café Filho, recém empossado, induzindo o postulante a desistir, já que ainda nem havia sido lançado por seu partido. Outra negativa. Seguiu-se, uma ação mais concreta do mesmo Café Filho, ao apresentar um manifesto do Exército por uma candidatura única e de militar, segundo eles, a única alternativa viável para a manutenção da ordem.
Lançada de fato a chapa Juscelino-João Goulart pelo Partido Social Democrático e pelo Partido Trabalhista Brasileiro, a União Democrática Nacional, sua opositora, agiu firme junto ao Tribunal Superior Eleitoral, durante o processo de regulamentação das eleições.
Não conseguindo impor sua tese de maioria absoluta (50% do eleitorado), a UDN obteve pelo menos a aprovação da cédula única que, embora evitando a fraude, trazia um novo complicador: sua distribuição por todo o país era difícil, o que favorecia a UDN, cujo eleitorado se concentrava nos grandes centros. Foi preciso, então, que o PSD providenciasse condução para fazer o material chegar aos rincões mais distantes. Ainda assim, houve núcleos eleitorais que deixaram de votar por não receberem a tempo a cédula única.
Às vésperas das eleições, o jornalista e deputado Carlos Lacerda lança uma nova confusão ao publicar a chamada Carta Brandi, "timbrada, mas falsa". Escrita em papel timbrado original da Câmara de Corrientes supostamente por um deputado argentino, Antonio Jesus Brandi, era dirigida ao candidato a vice-Presidente, João Goulart. Nela se estabelecia um suposto contato entre Jango e a Embaixada Argentina no Rio de Janeiro para ultimar o processo de envio de armas de guerra ao Brasil, visando o início de uma revolução sindicalista nos moldes do governo de Juan Domingo Perón.
Publicada pela Tribuna de Imprensa e pelo jornal O Globo e lida por Carlos Lacerda na televisão, essa carta provocou a maior celeuma, prejudicando bastante as candidaturas JK-Jango. Ficou provado (depois das eleições), que tal documento tinha sido forjado pelo escritório Cordeiro e Malfussi, cujos sócios foram presos na Argentina. O próprio Carlos Lacerda acabou reconhecendo a falsidade da carta, o que não anulou seus efeitos eleitorais, favorecendo a UDN.
Eleito Juscelino Kubitschek, surgiram os acontecimentos de novembro de 1955, com o discurso intempestivo do coronel Mamede junto ao túmulo do general Canrobert, conforme narrado no capítulo anterior, originando dois contra-golpes promovidos em conjunto pelos generais Teixeira Lott e Odilio Denys, para garantir a posse do eleito.
Inicia-se, então conspiração para um levante armado, que deveria eclodir em Recife em 17 de janeiro de 1956 (14 dias antes da posse), comandado pelo Almirante Sílvio Heck, com apoio, no Rio de Janeiro, dos almirantes Pena Botto e Amorim do Vale, todos envolvidos nos acontecimentos de novembro. Teria também o apoio do brigadeiro Eduardo Gomes, que se deslocaria a Recife, para dar cobertura junto à Aeronáutica. Todavia, a mobilização em Recife não teve os esperados desdobramentos no Rio e em outras partes do país, abortando-se o movimento antes mesmo que ele viesse a eclodir.
Seria ingenuidade supor que, diante desse clima, o governo a ser empossado transcorreria sem ameaças de subversão. JK tomou posse, sim, mas sua permanência na Presidência só se tornou possível por sua tolerância, por vezes até exagerada, e por seu espírito de conciliação, que desarmou, uma a uma, as tentativas de desestabilização.
Dependeu muito, também, da presença de seu ministro da Guerra, general Henrique Duffles Teixeira Lott, elemento de coesão dentro do Exército e respeitado em todas as Forças Armadas.
O professor Francisco de Assis Silva, em seu livro "História do Brasil", sintetiza com felicidade o perfil do novo Presidente:
"Dotado de uma capacidade rara de perceber a importância do momento histórico pelo qual passava o país, o mineiro de Diamantina, dono de uma sensível vocação para a política, conseguiu trabalhar com a oposição, evitando confrontar-se com ela. (...)
"A aproximação com os militares foi muito além da anistia. (...) Com Juscelino, as Forças Armadas passaram a ocupar um lugar de destaque nas decisões do Estado, compondo, juntamente com a alta burocracia civil, a burocracia estatal. (...) A aliança com os militares talvez explique o fato de Juscelino ter mantido o vice-presidente João Goulart sem traumas com as Forças Armadas."
Quem era Juscelino Kubitschek
Juscelino Kubitschek de Oliveira nasceu em 1902 na cidade de Diamantina, Estado de Minas Gerais, um lugar revestido de grande simbolismo, servindo de berço a um dos grandes estadistas de nossa República. Diamantina fica na Serra do Espinhaço, um divisor de águas entre os rios que se destinam à bacia do São Francisco, a oeste, e os rios que vão desaguar diretamente no Atlântico, a Leste. O governo JK foi também um divisor entre o Brasil agrícola e o Brasil industrial.
Diamantina é o centro geográfico de Minas Gerais e seu mais famoso filho sempre procurou o centro: literalmente, com a construção de Brasilia; alegóricamente, por suas posições equilibradas, sempre a busca do consenso e da conciliação.
Em 1927 formou-se em medicina e, no início de sua carreira, trabalhou junto a hospitais de sangue. Com o apoio e incentivo do governador Benedito Valadares, iniciou a carreira política, elegendo-se deputado federal em 1934, prefeito de Belo Horizonte em 1937, governador de Minas em 1950 e, finalmente, presidente da República em 1955.
Arrojo e determinação sempre foram características de sua personalidade. Belo Horizonte é a primeira cidade traçada no papel e construída pela vontade do então governador Afonso Pena, contra os que queriam manter a capital em Ouro Preto. Juscelino, quando prefeito da capital mineira, acrescentou a ela outra obra controvertida: o conjunto arquitetônico de Pampulha, formado por um lago artificial e prédios construídos por Oscar Niemeyer (1907- ).
Uma dessas obras, a igreja de São Francisco teve painéis e azulejos pintados por Cândido Portinari (1903-1962), gerando um impasse com a Arquidiocese, que recusou-se a consagrar esse templo ao culto religioso, achando um abuso a arquitetura avançada do edifício e um sacrilégio a deformação dos ícones representando os santos no melhor estilo modernista. A quebra da tradição secular de fazer igrejas com torres feito setas apontando para o céu e com santos gorduchos, de rostos arredondados, custou uma boa briga com o clero, mas a igreja de São Francisco foi, finalmente reconhecida e consagrada. Era o rompimento com a inércia e o início do movimento em direção à modernidade.
O Ministério
Durante a campanha eleitoral, Juscelino levava consigo uma proposta, que chamou de "nacional desenvolvimentista", a qual incluía trinta metas objetivando gerar o progresso e criar a modernização do país. A essas metas, acrescentou mais uma, a construção da nova capital federal no centro geográfico do país, assunto que será tratado em separado no próximo capítulo.
Assim, seja pela necessidade de governar com todas as forças políticas influentes na vida brasileira, seja pela dinâmica de seu governo, que pretendia avançar "50 anos em 5", JK teve de compor e recompor várias vezes os vários escalões do governo, inclusive e principalmente o Ministério, que sofreu contínuas modificações.
Para citar um só, o Ministério de Relações Exteriores, por ele passaram José Carlos de Macedo Soares, Décio Honorato de Moura, Francisco Negrão de Lima, Antônio Mendes Viana, Fernando Ramos de Alencar, Horácio Lafer, Edmundo Pena Barbosa da Silva, Afonso Arinos de Melo Franco, Vasco Tristão Leitão da Cunha e Ilmar Pena Marinho. Dez titulares num período de cinco anos. Destaque-se que um deles, Afonso Arinos, era fundador e líder incontestável da UDN, o qual, em tempos passados, fora um ferrenho opositor de JK.
O primeiro Ministério ficou assim formado: Relações Exteriores, José Carlos de Macedo Soares; Justiça, Francisco Menezes Pimentel, substituído pouco depois por Nereu Ramos; Fazenda, deputado José Maria Alkimin; Agricultura, Ernesto Dorneles; Educação e Cultura, Clóvis Salgado da Gama; Trabalho, Indústria e Comércio, Nelson Bachel Omegna, substituído em seguida por José Parsifal Barroso; Viação e Obras Públicas, capitão Lúcio Martin Meira; Saúde, Maurício Campos de Medeiros, seguido pelo general Mário Pinotti; Guerra, general Henrique Duffles Teixeira Lott, que ficou durante os cinco anos de mandato; Marinha, almirante Renato de Almeida Guilhobel, (do último ministério de Getúlio), logo substituído pelo almirante Antônio Alves Câmara Júnior; Aeronáutica, brigadeiro Henrique Fleiiuss, depois substituído pelo brigadeiro Vasco Secco.
Para a Casa Militar foi designado o general Nelson de Melo; para a Casa Civil, Álvaro de Barros Lins; Chefe de Polícia, general de brigada Augusto Magessi Pereira.
Um ponto sensível, neste momento, era o comando da 1ª Região Militar que, por nomeação do ministro da Guerra, foi entregue ao seu companheiro do contra-golpe de novembro, o general Odílio Denys. Vários postos de direção em estatais e autarquias também foram entregues a oficiais superiores do Exército, destacando-se a presidência da Petrobrás e, mais tarde, a da Sudene (fundada em 15 de dezembro de 1959), criando-se um vínculo seguro da administração com as Forças Armadas, o que também garantiu a estabilidade do governo.
A eminência parda do regime
A expressão "eminência parda" foi usada pela primeira vez para designar o Cardeal de Richelieu (1585-1642), Primeiro-Ministro de Luís 13, o qual, exercendo forte influência sobre o soberano francês, sustentou o regime, neutralizando o poder dos nobres e estabelecendo a monarquia absoluta na França. Daí em diante, o termo passou a indicar todos aqueles que, pela sua ascendência e peso nas decisões, foram um fator preponderante de estabilidade de um regime.
Assim se considerou, no governo de JK a presença destacada e contínua de seu ministro da guerra, o general Teixeira Lott. Talvez haja algum exagero nisso. Juscelino governava de fato e de direito e, embora fizesse concessões às forças ao seu redor, a verdade é que nunca abriu mão de sua autoridade de Presidente, tomando decisões e sustentando-as, recuando às vezes para escolher um melhor caminho, mas jamais afastando-se dos alvos propostos, que levou, todos eles, a bom termo. Diga-se a seu favor que, mesmo nos momentos mais difíceis, jamais transferiu a outrem a prerrogativa de governar.
Não obstante, é fato incontestável que seu governo só se tornou possível pela influência de seu ministro da Guerra junto às Forças Armadas. Em 1955, tornara-se este o fiador da transição, derrubando, num espaço de dez dias, dois presidentes da República: Carlos Luz, que ficou quatro dias no poder, e Café Filho, impedido de retornar ao cargo após sua alta hospitalar. Garantida a posse, ficou os cinco anos ao lado do governo e, em alguns momentos, sua figura teve tal destaque que se confundiu com a própria administração central.
Foi assim, por exemplo um mês após a posse de JK, quando mais de oito mil pessoas se concentraram na Esplanada do Castelo para fazer um ato de sustentação ao ministro da Guerra. Na ocasião foi aprovada moção nos seguintes termos: "O povo, reunido em praça pública, neste memorável comício da Capital da República, no dia 9 de março de 1956, manifesta todo seu apreço ao general Teixeira Lott, por sua atitude em defesa da Constituição em 11 e 21 de novembro de 1955 e pelos inestimáveis serviços à nação brasileira. Às injúrias, ao ódio dos inimigos da democracia, responde o povo com o calor desta homenagem, expressão da solidariedade de todos os brasileiros."
Em 11 de novembro de 1956, aniversário do movimento que tirou Carlos Luz do poder, ocorre uma nova concentração, desta vez em frente ao ministério da Guerra, reunindo perto de 15 mil pessoas. O local era área de segurança nacional, vedado a comícios mas, neste encontro, o próprio Ministro subiu ao palanque, para receber a homenagem que lhe estava sendo prestada. Pelas mãos do vice-Presidente, João Goulart, foi-lhe entregue uma espada de ouro, fabricada em Caxias do Sul, tendo as seguintes inscrições: "Civis e militares oferecem ao general Lott" (...) "A espada de novembro".
Um longo discurso de Jango, seguido de uma resposta, igualmente longa do general, marcaram a importância do momento, jamais igualado em qualquer manifestação que se tenha feito ao efetivo presidente da República, Juscelino Kubitschek.
A par da fundamental importância de Lott na preservação do governo, há também que registrar a presença de seu colega, general Odilio Denys no comando da 1ª Região Militar, sediada no Rio de Janeiro, que continuava sendo a Capital Federal. A figura deste militar em posto de tão alto comando desestimulava qualquer movimento de rebelião dentro do Exército para pôr fim ao governo JK.
Verdade é que, para preservá-lo no comando, foi preciso recorrer a um casuismo, criando lei que permitia ao Presidente suspender a reforma compulsória de oficiais cujos serviços, a seu julgar, ainda eram necessários ao país. Um terno sob medida e de alta costura, destinado a prorrogar a permanência, na ativa, do comandante da 1ª RM, evitando que este caísse na compulsória.
Não por acaso, a mensagem que o Presidente enviou ao Congresso ficou conhecida como "Projeto Denys". Não por acaso, também, que a tramitação começou pelo Senado, onde a aprovação se deu com facilidade, para só então seguir para a Câmara Federal, onde também foi aprovado, mas usando-se de artimanhas para vencer a resistência da UDN. Aprovada a lei, a oposição ameaçou impetrar recurso junto ao Supremo Tribunal Federal, mas acabou se conformando e ficou o dito por não dito.
As "Revoltas dos Escoteiros"
Não haviam se passado duas semanas da posse do novo Presidente, e um movimento sedicioso ocorria dentro da Aeronáutica, liderado pelo major-aviador Haroldo Coimbra Veloso e pelo capitão-aviador José Chaves Lameirão. Pela precipitação com que foi deflagrada a ação, e pelo amadorismo com que ela se desenvolveu, houve quem a comparasse a uma "revolta de escoteiros", uma injustiça cometida contra o barão de Baden-Powell e seus juvenis seguidores, que sempre primaram pelo método e pela organização.
As trapalhadas começam já pelo dia escolhido para o levante: um sábado de Carnaval, 11 de fevereiro de 1956. Na hora aprazada, os dois comandantes se perderam um do outro vindo a se reunir somente horas depois. Em seu primeiro alvo, o Campo dos Afonsos, os contatos falharam e, não havendo adesão da guarda, a praça teve de ser tomada à força e o avião de caça, pilotado por eles mesmos, levantou vôo sem autorização da torre de comando, provocando um alerta geral que prejudicou as etapas seguintes.
Fazendo uma primeira escala na base aérea do Cachimbo (Planalto Central), os revoltosos seguiram depois para Jacareacanga, às margens do rio Tapajós, a sudoeste do Pará e a 700 quilômetros de Altamira, quase já na divisa com o Estado do Amazonas. Essa escolha não era casual. O major Veloso havia participado da construção da base de Jacareacanga tornando-se conhecido dos índios e caboclos ali residentes, sobre os quais tinha forte ascendência. A estes foram distribuídas armas e munições para garantir a praça durante algum tempo.
Não tardou que o governo mandasse tropas, em avião pilotado pelo major Paulo Vitor da Silva e pelo tenente Carlos César Petit. O primeiro aderiu à revolta e o segundo foi aprisionado, juntamente com as tropas legalistas.
Voando em seguida em direção à foz do rio Tapajós, na confluência deste com o Rio Amazonas, os oficiais rebeldes se apossaram de Santarém, onde repórteres de rádios e jornais haviam se instalado para acompanhar o movimento.
Fracassado o contra-ataque pelo ar, o governo manda, então, o navio "Presidente Vargas" com novas forças, para atacar por terra.
Daí por diante, tudo o mais deu errado para os românticos revolucionários. As adesões de outras bases não aconteceram e, menos ainda, tiveram apoio da Marinha e do Exército. Em Jacareacanga, os prisioneiros eram um peso a mais, pois tinham de ser vigiados e alimentados. Isolados em Santarém, os rebeldes confundiram um vapor de carreira com o navio que transportava as tropas legalistas e, temerosos, recuaram até o povoado de São Luís do Tapajós, onde, dias depois, passaram a ser caçados pelos legalistas.
O comandante, avisado a tempo, conseguiu escapar, refugiando-se na mata, mas acabou sendo denunciado por um caboclo, já cançado de tanta aventura. Então uma patrulha se dirigiu local indicado e o major Haroldo Veloso, "surpreendido em uma casa, sentado em uma cadeira de balanço, não ofereceu resistência."
E os demais ? O major Paulo Vitor da Silva e o capitão Lameirão conseguiram reparar as avarias do avião de que haviam se apossado e levantaram vôo em direção a Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, onde pediram asilo político.
Em 29 de fevereiro de 1956, dezoito dias após aquele fatídico sábado de Carnaval, terminou o levante, com a frase conciliatória de JK: "Vamos virar a página, passar uma esponja em todos os acontecimentos e começar vida nova, porque o país deseja paz para trabalhar."
Ato contínuo, enviou ao Congresso Nacional uma mensagem, transformada em projeto de lei que, depois de aprovado e sancionado, deu anistia plena não só aos revoltosos de Jacareacanga, mas também aos envolvidos nos acontecimentos de 1955, quando pretendiam impedir a posse do Presidente eleito.
Esse ato foi mal interpretado por alguns e, em 1959 ocorreu a Segunda "revolta de escoteiros", desta vez em Aragarças, Estado de Goiás, às margens do rio Araguaia, sob o comando do tenente-coronel da Aeronáutica João Paulo Moreira Burnier. Igualmente, não houve adesão e os revoltosos foram para Buenos Aires, onde pediram asilo. Utilizando-se da lei anteriormente sancionada, JK anistiou a este novo grupo, apostando sempre na pacificação nacional.
As metas de governo
Vencidas as primeiras reações à sua presença no governo, Juscelino Kubitschek pôs-se a trabalhar em seu plano de modernização do país, intitulado por ele de "nacional-desenvolvimentismo", um nome arrevessado e de difícil aplicação. Nacionalista o plano não era, pois ia buscar no exterior os capitais de que necessitava, seja na forma de empréstimos, seja principalmente na atração de investimentos de empresas estrangeiras no país, favorecidas com a promessa de liberação total da remessa de lucros ao exterior, a câmbio subsidiado.
Ficava com o capital estrangeiro a parte mais rendosa dos empreendimentos, com a construção e exploração de empresas de alta lucratividade. Ao governo cabia investir da indústria de base, que absorve grandes capitais, com retorno financeiro muito duvidoso. E como o Brasil não dispunha de capitais, a "gambiarra" passou a funcionar com toda intensidade, produzindo moeda além do que o mercado podia suportar e gerando inflação.
Não obstante, os resultados não tardaram a aparecer. O progresso do Brasil não estava mais associado à agricultura, que foi relegada ao quase abandono, mas à atividade industrial, concentrada sobretudo em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
O programa de metas, cumprido em sua quase totalidade, prometia dobrar a a capacidade de geração de energia elétrica, previa a construção de uma usina atômica piloto (na Universidade de São Paulo), o aumento na produção de carvão e na exploração e refino de petróleo, o reaparelhamento das ferrovias, a implantação de vasta malha rodoviária e a ampliação da capacidade de transporte aéreo e marítimo.
Previa, mas não com tanta ênfase, a ampliação da capacidade brasileira na produção de alimentos, construção de silos, armazéns e matadouros, facilidade na aquisição de tratores, adubos e inseticidas.
A indústria de base dobrou a produção de aço, celulose e borracha e quintuplicou a produção de alumínio. A fabricação deste, por sinal, dependia da ampliação da capacidade de produção de energia elétrica, elemento indispensável para transformar a alumina no produto acabado.
Automóvel, o símbolo da riqueza
De todas as metas, exceto Brasilia, nenhuma outra se destacou mais e influiu tanto no orgulho brasileiro como a da implantação da indústria automobilística no Brasil. A produção de carros se apresentou como o símbolo do progresso e da riqueza nacional, embora tenha sido talvez o mais equivocado de todos os projetos.
Com efeito, as indústrias instaladas no país tinham atração apenas pelos incentivos oferecidos e na produção para atender ao mercado interno, não lhes interessando tornar o Brasil competitivo e concorrente no mercado internacional, onde todas elas iam muito bem, obrigado. Isso gerou um crescimento distorcido que até hoje não conseguimos corrigir. O Brasil encerra o milênio com uma produção de quase um milhão e meio de carros por ano, despejados no mercado nacional, atulhando as estradas e, paradoxalmente, gerando problemas de desemprego, justamente o inverso do objetivo proposto por ocasião da sua implantação.
Não foi assim, no princípio. A indústria automobilística chegou a manter cerca de 140 mil empregos na região do ABC (Santo André, São Bernardo e São Caetano), gerou o desenvolvimento da indústria de auto-peças e alavancou o progresso de cidades até então pobres, como era o caso de São Bernardo do Campo.
Até então, a rigor, o Brasil dispunha apenas de duas indústrias automobilísticas de peso: a General Motors, em São Caetano e a Ford, no bairro do Bom Retiro em São Paulo. Em verdade, só a GM podia ser considerada uma "fábrica", pois detinha um parque industrial completo. A Ford se instalara em um simples galpão, onde recebia dos Estados Unidos, completos, carros desmontados e encaixotados. Seu trabalho era colocar os componentes em seus lugares, montando o que já fora fabricado inteiramente no exterior.
Um exemplo de progresso: São Bernardo do Campo, nos anos cinqüenta, era uma cidade-dormitório, e os poucos empregos ali gerados estavam ligados à indústria de móveis, pequena mas tradicional, e à Brastemp, fábrica de eletrodomésticos, ainda sem mercado suficiente para se expandir. Uma única via pública, a rua Marechal Deodoro, atravessava a cidade de ponta a ponta. Dela saiam as trasnsversais, todas de terra esburacada. O sistema telefônico tinha pouco mais de 300 aparelhos instalados, ligados a um PBX, onde as telefonistas completavam as ligações, conectando as pegas de um telefone ao outro. Tudo como nos bons tempos de Alexandre Graham Bell. De moderno, apenas a Cia. Cinematográfica Vera Cruz, que rendia muita publicidade, mas nenhum dinheiro aos cofres públicos. E, como toda ilusão, acabou virando pó.
Ao contrário, a indústria automobilística, construída às margens da via Anchieta, mudou prodigiosamente a face do município e o perfil de seus moradores, criando uma classe média, impulsionando o consumo e gerando impostos que permitiram a construção de uma cidade moderna, capaz de competir com suas vizinhas.
Dotada de mão-de-obra altamente especializada, e de uma população fortemente politizada, São Bernardo tornou-se, mais tarde, o elemento chave da modernização sindical, ousando sustentar uma greve de grande duração em plena vigência do Ato Institucional nº5, e servindo de base para a criação de um partido político com raízes bem definidas.
Todo esse progresso não saiu de graça ao governo federal. A demanda por matérias primas fundamentais dependeu da expansão da indústria de base que, como dissemos, não interessava ao capital estrangeiro, tendo de ser bancada com dinheiro público, conseguido com empréstimos e emissão de moeda, vale dizer, com inflação. A maneira como o Brasil suportou essa pressão inflacionária revela um país já consolidado, capaz de enfrentar e vencer desafios maiores, quebrando sua dependência quase que exclusiva da agricultura.
Um pouco de folclore
Nem tudo foi róseo no governo JK e alguns acontecimentos, pelo inusitado das situações criadas, acabaram se tornando folclóricos.
Um deles, foi a compra do porta-aviões Minas Gerais. Pura sucata, imprestável para o uso, foi descartado pela Inglaterra por um preço muito superior ao que realmente valia, se é que valia alguma coisa. Ainda por cima, foram necessários reparos nos estaleiros brasileiros, que nos custaram uma pequena fortuna.
A idéia era agradar Marinha e Aeronáutica, mas acabou por criar uma disputa feroz sobre quem devia comandar o navio. "É um porta-aviões, portanto o comando deve ser da Aeronáutica", diziam uns. No lado oposto outros replicavam: "Serve de pouso a aviões, é verdade, mas está dentro da água, e água é exclusividade da Marinha".
A discussão se tornou tão acalorada que já estava ameaçando trazer uma desavença entre as duas forças. Finalmente chegaram a um consenso. As operações de manobras aéreas ficariam sob o comando da Aeronáutica e as manobras de navegação do porta-aviões permaneceriam sob o comando da Marinha. Uma e outra força agiriam em harmonia, dentro de um objetivo comum. Um "ovo de Colombo". Como não haviam pensado nisso antes?
Terminada a "guerra", o compositor Juca Chaves ironizou o assunto em uma de suas músicas:
"O Brasil já vai à guerra, comprou porta-aviões.
Dois vivas pra Inglaterra, 82 milhões! Mas que ladrões!
Porém há uma peninha: de quem é o porta-aviões?
É meu! diz a Marinha; é meu! diz a aviação.
Ah! Revolução!"Sem folclore, mas de conseqüências mais graves foi o conflito estabelecido com o Fundo Monetário Internacional, que desaprovou a política inflacionária de JK, exigindo do Brasil um plano financeiro mais ortodoxo, que contivesse a a moeda, mesmo à custa do desenvolvimento. Juscelino não se submeteu e rompeu com o FMI, perdendo o aval deste para novos empréstimos externos. Como isso também não era interessante ao capital internacional, que havia encontrado seu paraíso no Brasil, as coisas foram se acomodando e o governo, afinal, continuou obtendo os empréstimos de que necessitava para concluir sua obra.
Prós e contras no governo JK
Ninguém, no bom uso de suas faculdades, há de negar que o governo JK modernizou o Brasil, desenvolvendo seu parque industrial, sistematizando a administração pública, criando uma classe média consistente, integrando os vários Estados e consolidando a nação sem ferir o principio federativo adotado desde a primeira Constituição republicana.
Entretanto, o desenvolvimento, representado na expressão "50 anos em 5", deixou uma lacuna, a maior e mais grave de todas, que alimentou os críticos de Juscelino: seu governo criou uma classe média forte mas aumentou a miséria do proletariado. O grande desafio brasileiro, que é a redenção dos humildes, não se concretizou no governo JK e diga-se, a bem da verdade, também não mereceu a atenção dos governos seguintes.
A implantação de indústrias altamente especializadas favoreceu o pessoal técnico e empobreceu o trabalhador braçal. O desenvolvimento se deu nos grandes centros industriais, fazendo piorar as condições de vida nos sertões brasileiros e aumentando escandalosamente a desigualdade de renda. A inflação gerada para a expansão das indústrias de base e a construção de Brasilia atingiu em cheio os menos favorecidos, que não tem como defender os poucos tostões que consegue amealhar em seu duro trabalho.
A modernização também não foi um fator de assentamento das populações em suas raízes, muito pelo contrário. Atraída pelo sonho, a população rural passou a migrar com maior intensidade para os centros de progresso, inchando as grandes cidades e iniciando um processo de favelização que nunca mais foi estancado.
São Paulo é um exemplo disso. Sua primeira favela, a de Vila Prudente, surgiu nos anos 50, como um processo temporário de assentamento. O problema não foi equacionado e as favelas começaram a se multiplicar como um câncer. Ao contrário do Rio de Janeiro, onde a favelização obedece a uma certa ordem, em São Paulo os barracos são erguidos indiscriminadamente, em qualquer canto disponível, sob viadutos, à margem de córregos imundos ou em qualquer ponto que se encontre próximo aos locais de trabalho.
Outro caso é o de Brasília. Os "candangos" que construíram a cidade não estavam nos planos da Novacap e, ao concluir a obra, uma vez dispensados, deveriam retornar aos seus pontos de origem. Recusaram-se a fazê-lo. A exuberante capital não era um simples local de trabalho, era o seu orgulho, a sua alma, a sua vida. Transformando-se em questão de fato, essa disposição dos operários em permanecer deu origem não só às cidades satélites, núcleos de miséria, como até a favelas construídas à volta do majestoso avião desenhado pelo arquiteto Lúcio Costa.
O governo JK trouxe a riqueza mas não extinguiu a miséria. Desenvolveu os grandes centros mas empobreceu o restante do país. Suas estradas uniram os pontos geográficos mas, longe de levar o progresso, serviram tão só para escoamento de grandes e contínuas levas de migrantes, rumo ao sudeste, em busca de um sonho.
O resgate do povo brasileiro não se deu no governo de Juscelino e as grandes massas ainda esperam por quem promova sua redenção. É o sebastianismo, presente na alma brasileira, que lhe sustenta a fé e lhe traz alento para caminhar em busca do futuro.
Para concluir. Deixando a Presidência, JK elegeu-se senador mas foi cassado pelo governo Castelo Branco, tendo seus direitos políticos suspensos por dez anos, com o que passou a viver no exílio, em Nova York e Paris.
Não teve dos governos militares o respeito que merecia. Tendo de vir ao Brasil para acompanhar o velório de um familiar, foi detido e submetido a um intenso interrogatório que se estendeu por várias horas, comprometendo sua saúde, já abalada com problemas cardíacos. Foi preciso que políticos influentes agissem junto às autoridades para que ele fosse enviado de volta ao exílio.
Autorizado a voltar ao país, passa a escrever suas memórias, mas não consegue vê-las publicadas. Em 22 de agosto de 1976, JK perde a vida em um estranho acidente automobilístico próximo a Resende (Rodovia Presidente Dutra) o qual, na opinião de alguns, nunca foi convincentemente explicado. Com ele, sela-se o destino de um dos maiores vultos da República, cuja presença na história brasileira é hoje assinalada com o "Memorial JK", a última homenagem de Oscar Niemeyer ao seu chefe e amigo.
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