CAPÍTULO ONZE
O FIM DA TERCEIRA REPÚBLICA
GOVERNO DE JOÃO GOULART

Paulo Victorino

 "A profunda crise instalada no país com a renúncia de Jânio chegava ao fim, e sem derramamento de sangue. No dia 2 de setembro de 1961, o Congresso Nacional aprovou a emenda parlamentarista e, finalmente, no dia 7, João Goulart foi empossado na presidência da República. " -- Recanto das Letras

     A sublevação da FAB para impedir a posse de João Goulart levou o Presidente em exercício, Ranieri Mazzilli, a convocar com urgência seus ministros militares, com os quais traçou um plano de ação emergencial para restabelecer a autoridade do governo.

     Era um sério problema a resolver. A Aeronáutica rebelada fechou o Aeroporto em Brasília e ameaçava decolar seus aviões de caça para abater, em pleno voo, a aeronave que traria João Goulart de Porto Alegre para a capital federal, em manobra que recebeu o nome de "Operação Mosquito".

     Como, em face das circunstâncias, o ministro da Aeronáutica tornou-se, naquele momento, um comandante sem comandados, ficou acordado que o Exército colocaria suas tropas na proteção do Aeroporto, impedindo a decolagem dos aviões de caça.

     Este reforço, e mais a disposição de Jango em chegar, a qualquer custo, a Brasília, para exercer seus direitos constitucionais, fizeram os rebeldes recuar em seus propósitos e, assim, o avião presidencial pousou sem maiores transtornos.

     Estava superada a crise. João Goulart chega a Brasília em 5 de setembro e toma posse dois dias depois, a par com as comemorações pelos 139 anos da Independência do Brasil.

     Com a emenda parlamentarista em vigor, mantendo o Presidente como chefe de Estado, mas transferindo os poderes de chefe de Governo para um Primeiro Ministro, havia condições suficientes para restabelecer a governabilidade.

     Afinal, parlamentarismo não era coisa nova no Brasil. Com ele, D.Pedro 2º reinou por meio século, tendo de se compor, nesse período, com 28 governos, começando pelo Gabinete do Visconde de Caravelas, em 1847 e terminando com o do Visconde de Ouro Preto, em 1889, este último derrubado pelo golpe de estado que proclamou a República.

     Faltava a João Goulart energia para enfrentar o grave momento. O Congresso, diga-se também, não se mostrou à altura das responsabilidades que acabara de receber. Desgastando-se em lutas internas, perdeu a grande oportunidade de consolidar o regime parlamentarista, registrando no espaço de apenas um ano, a passagem de três Gabinetes, chefiados respectivamente por Tancredo Neves, Brochado da Rocha e Hermes Lima.

     Em 6 de janeiro de 1963, num plebiscito arrasador, o eleitorado decide pela volta ao presidencialismo e, com ele, instala-se o caos no país, culminando em nova intervenção militar que, desta vez, põe fim à Terceira República (1945-1964). Como pôde isso acontecer?

A posse e o primeiro Gabinete

     O dia 5 de setembro de 1961 amanheceu chuvoso e as manchetes dos jornais cariocas eram tão depressivas quanto a chuva fina que caía. Tinha-se a certeza de que Jango não pousaria vivo no Aeroporto de Brasília e os mais otimistas anunciavam que o avião seguiria direto para Goiânia, a 200 quilômetros da capital federal, onde o governador Mauro Borges prometia segurança para o pouso.

     Nada disso aconteceu. O avião desceu na nova capital sem maiores incidentes, apesar do ambiente tumultuado dentro do Aeroporto, o qual, praticamente, impediu a comitiva parlamentar de aproximar-se do novo Presidente. Por seu lado, os três ministros militares, resolvido o problema em Brasília, voaram para o Rio de Janeiro, a fim de garantir a ordem também naquela cidade, abortando qualquer tentativa de rebelião.

     Assim, em 7 de setembro, perante o Congresso, João Goulart presta o juramento de praxe: "Prometo manter, defender e cumprir a Constituição da República, observar as suas leis, promover o bem geral do Brasil, sustentar-lhe a união, a integridade e a independência." Estava empossado o Presidente, a quem cabia estabelecer o novo governo.

     Como ato inicial, pois, João Goulart indicou para seu Primeiro-ministro o deputado Tancredo Neves que, por sua vez, organizou o seguinte ministério: Primeiro-ministro e ministro da Justiça (cumulativamente), deputado Tancredo de Almeida Neves (PSD-MG); Relações Exteriores, Francisco Clementino de Santiago Dantas (PTB-MG); Fazenda, Walter Moreira Sales (PSD-SP); Saúde, deputado Estácio Souto Mayor (PTB-PE); Agricultura, deputado Armando Monteiro (PSD-PE); Educação e Cultura, deputado Antônio Oliveira Brito (PSD-BA); Trabalho e Previdência Social, deputado André Franco Montoro (PDC-SP); Viação e Obras Públicas, senador Virgílio Fernandes Távora (UDN-CE); Minas e Energia, deputado Gabriel de Resende Passos (UDN-MG); Indústria e Comércio, deputado Ulisses Guimarães (PSD-SP); Guerra, general João de Segadas Viana; Marinha, Almirante Ângelo Nolasco de Almeida; Aeronáutica, brigadeiro Clóvis Monteiro Travassos; Casa Civil, Antônio Balbino (ex-governador da Bahia); Casa Militar, general Amauri Kruel (RS); Gabinete de Imprensa, Raul Francisco Ryff.

     Era um gabinete conservador, incapaz de levar a efeito, a médio prazo, as reformas de que o Brasil estava precisando. Mas compunha-se sobretudo de grandes nomes da política nacional, capazes de influir na opinião pública e restabelecer no país o respeito às leis e às instituições. Desde que quisessem fazê-lo, é claro.

Quem era João Goulart

     João Belchior Marques Goulart nasceu em 1º de março de 1919 em São Borja, Rio Grande do Sul, cidade que faz divisa com a Argentina, às margens do rio Uruguai, onde também nasceu e morava Getúlio Vargas. Estudou em Porto Alegre e formou-se em direito no ano de 1939. Ao voltar para a estância de propriedade da família, teve de assumir os negócios, em virtude do falecimento de seu pai. Fez amizade com Getúlio, que o encaminhou na vida política, elegendo-se deputado estadual em 1947 e deputado federal em 1950.

     Com Getúlio presidente da República, em 1953 assumiu o ministério do Trabalho, mostrando sua habilidade em lidar com as massas populares, embora não tivesse a mesma facilidade em lidar com os números. Propôs um aumento de 100 por cento no salário mínimo, trombando de frente com o ministro da Fazenda, o experiente Oswaldo Aranha, que previa um descontrole inflacionário, se a proposta fosse levada a sério.

     Vargas deixou seguir o embate entre os dois ministros. Goulart agitou os sindicatos, fazendo-os realizar uma série de concentrações a favor do salário mínimo duplicado. Providenciou para que fossem alugados ônibus com o fim de levar operários ao Rio de Janeiro, realizando ali uma grande concentração política, onde, ao lado de faixas pelo aumento salarial, encontravam-se outras anunciando Jango como sucessor de Getúlio.

     Do dinheiro arrecadado com a Contribuição Sindical (um dia de salário a cada mês de março), parte ia para os sindicatos, e outra parte era recolhida ao Fundo Sindical, administrado pelo Ministério do Trabalho. Logo surgiram denúncias de que todo esse movimento a favor do salário mínimo vinha sendo custeado pelo Fundo Sindical, desvirtuando sua finalidade.

     O presidente da República acabou decretando o aumento do salário mínimo que, no Rio de Janeiro, passou de 1.200 para 2.400 cruzeiros. Jango não resistiu as pressões que vinham de todos os lados e acabou renunciando ao Ministério.

     Vem desse momento a grande popularidade de Jango junto às classes trabalhadoras, tornando-o um candidato potencial à Presidência. Vem daí, também, as reservas dos setores militares ao seu nome, dado que, para influir junto ao operariado, aproximou-se demasiado da esquerda radical, passando a ser considerado um elemento perigoso à democracia.

     Não obstante, elegeu-se vice-presidente da República, seguidamente, em 1955 e em 1960. No primeiro período, teve a sustentá-lo a habilidade do presidente Juscelino Kubitscheck, que moderou-lhe os passos, salvando-o de maiores complicações. No segundo período foi bem diferente. Jânio Quadros não tinha interesse em sustentar a popularidade de ninguém mais que não fosse a dele próprio. No momento certo, preparou uma armadilha a Jango, enviando-o à China comunista, em visita oficial, em cuja missão ele se encontrava quando surgiu o episódio da renúncia de Jânio, com o subsequente veto militar à posse do vice-Presidente.

     João Goulart era o homem certo, na hora errada. Pacífico e conciliador, num momento em que a ninguém interessava a conciliação, acabou sendo envolvido num clima de agitação que apressou o seu fim. Sua personalidade é bem descrita por Iberê de Matos no livro "Imagem de um Presidente":

     "Pessoalmente, Jango era uma figura que impressionava pela sua quase humildade. Havia total incompatibilidade de seu temperamento com a arrogância, ou com qualquer manifestação de violência ou energia mais acentuada. Parecia um moço tímido, perdido na selva de preocupações para as quais não estava preparado. Somente conversei com ele duas ou três vezes, mas foram suficientes para concluir que se tratava de um homem essencialmente bom e incapaz de alimentar rancores. Sentia-se o seu desajeitamento para o poder, como se o destino lhe tivesse dado o que não pedira e não queria. Sua simpatia emocionava, mas não lhe conferia capacidade de liderança."

Quem era Tancredo Neves

     Tancredo de Almeida Neves nasceu em 4 de março de 1910, na cidade de São João del Rei, Estado de Minas Gerais. Estudou em Belo Horizonte e, formando-se em direito no ano de 1932, voltou para sua cidade natal, onde atuou como advogado e promotor público.

     Com a "janela" aberta na ditadura Vargas pela Constituição de 1934, elegeu-se vereador, mas em 1937, a implantação do Estado Novo veio interromper sua carreira política.

     Em 1945, cai Getúlio Vargas, restabelecendo-se o regime democrático. Tancredo ingressa no Partido Social Democrático, elegendo-se deputado estadual em 1947 e, daí para diante, nunca mais abandona a carreira política. Elege-se deputado federal em 1950, reelegendo-se sucessivamente e participando ativamente da política nacional.

     Como ministro da Justiça de Vargas, em 1954, viveu com toda a intensidade o drama que levou o Presidente ao suicídio. Enfrentou a UDN, que desejava a renúncia ou a deposição de Getúlio, defendeu a legalidade e permaneceu no palácio até o último momento. Foi em seus braços, e nos de Alzira Vargas, que Getúlio deu seu último suspiro.

     De espírito sereno e conciliador, seu nome foi logo lembrado para formar o primeiro gabinete parlamentarista, dada sua aproximação com o presidente João Goulart, e pela forte influência que exercia no Congresso Nacional.

     Velha raposa política, com intuição fortemente aguçada, sabia quando avançar, quando recuar, e quando permanecer firme, garantindo as posições já conquistadas. Seu gabinete refletia a imagem do Congresso e, ao assumir, Tancredo já estava seguro do fracasso do novo regime, conduzido por um parlamento que era francamente presidencialista.

O Plano Trienal

     Se, em 1956, JK tomou posse enfrentando o descontrole financeiro causado pela duplicação do valor do salário mínimo proposto por João Goulart, agora, as posições estão invertidas. João Goulart é presidente da República e JK é senador, eleito extemporaneamente para preenchimento de uma vaga na chamada "câmara alta". E o gabinete parlamentarista tem a enfrentar a grave crise financeira, agravada nos governos de Juscelino e Jânio Quadros.

     Em seu governo, Jânio Quadros havia criado uma Comissão Nacional Planejamento, para preparar um plano de estabilização, a qual, em face da renúncia, nem chegou a tomar posse. O gabinete de Tancredo, agora, cria um Ministério Extraordinário do Planejamento, para o qual foi nomeado o ministro Celso Furtado, encarregado de traçar um Plano Trienal, a ser executado em 1963, 1964 e 1965, para recuperar as finanças e cuidar do desenvolvimento do país.

     Celso Furtado, um paraibano da cidade de Pombal, neste momento já com 42 anos, tinha um vasto e brilhante currículo, incluindo a publicação de dois livros específicos sobre o assunto: "A Economia Brasileira" (1954) e "Formação Econômica do Brasil" (1955). No celeiro de grandes nomes da economia brasileira, poderá encontrar-se quem a ele se iguale; difícil achar alguém melhor que ele para executar a tarefa.

     Em fins de 1962, fica pronto o Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social, para os íntimos, apenas "Plano Trienal", teorizando, de forma brilhante, os problemas brasileiros e suas soluções.

     Se, por um lado, o plano tem como objetivo assegurar uma taxa de crescimento na ordem de 7 por cento ao ano, garantindo pleno emprego e aumento de renda individual que possibilite a melhoria das condições de vida do povo brasileiro, por outro lado, pretende reduzir a inflação, de tal maneira que o índice de 55 por cento, previsto para o ano 1962, não ultapasse a 5 por cento em 1965.

     Os dois objetivos se confrontam e se contradizem. Para garantir o crescimento econômico, é preciso admitir a subida inflacionária. Se o pretendido é reduzir a inflação, a política tem de ser a contenção de despesas no setor público, a redução dos créditos bancários, o congelamento de salários, enfim fazer uma administração austera, que valorize a moeda, ao custo da recessão que avilta os salários e aumenta o desemprego.

     O primeiro caminho, ainda que demagógico, traz em seu bojo um forte apelo popular; o segundo, ao contrário, conduz à impopularidade, jogando o governo Tancredo Neves (e por consequência o presidente João Goulart) contra as massas que lhe dão apoio.

     Foi o grande confronto com as associações de classe, gerando protestos e manifestações, sobretudo na Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), no Pacto de Unidade e Ação (PUA) e na União Nacional de Estudantes (UNE).

A vida na música popular 

     A conseqüência primeira da imobilidade do Presidente foi o aumento de preços nos gêneros essenciais. Como muitos produtos eram tabelados pela COFAP, um órgão regulador de preços, surgiu a sonegação e o "câmbio-negro". Faltava de tudo nas prateleiras mas havia de tudo nos estoques ao fundo dos armazéns. Artigos corriqueiros como feijão, arroz, sal, açucar, tinham de ser negociados à parte com os comerciantes, que também os adquiriam com ágio.

     O compositor Juca Chaves registrou na música popular um apelo à primeira-dama, dona Maria Teresa Goulart:

                     "Dona Maria Teresa: diga ao ‘seu’ Jango Goulart
                         que a vida está uma tristeza; que a fome está de amargar...
                         O povo necessitado precisa de um salário novo,
                         mais baixo pro deputado; mais alto pro nosso povo.

                         "Dona Maria Teresa: assim, o Brasil vai pra trás!
                         Quem deve falar fala pouco; Lacerda já fala demais!
                         Enquanto o feijão dá sumiço e o dólar se perde de vista
                         'O Globo' diz que isso tudo é coisa de comunista.

                      "Dona Maria Teresa: diga ao ‘seu’ Jango por que
                         o povo vê quase tudo; só o parlamento não vê...
                         Dona Maria Teresa: diga ao ‘seu’ Jango Goulart:
                         Lugar de feijão é na mesa; Lacerda... é noutro lugar!

     Em outra música, são registrados os problemas da época (seriam os mesmos de hoje?):

                     "A situação do Brasil vai muito mal;
                        qualquer ladrão é patente nacional;
                        um policial, quase sempre, é uma ilusão
                        e a condução é artigo racionado.
                        Porém, ladrão... isso tem pra todo o lado!
                        Caixinha, obrigado!

                         "Que dramalhão, a reunião de deputados:
                         é palavrão que só sai pra todo lado.
                         Se um deputado abre a boca, é um atentado
                         E a mãe de alguém é quem sofre toda a vez.
                         No fim do mês... Cento e vinte de ordenado.
                         Caixinha, obrigado!

     A falta de alimentos, a instabilidade do regime, o parlamentarismo, as Ligas Camponesas de Francisco Julião e a Copa do Mundo, também são glosados pelo "Juquinha":

                     "Política confusa; ninguém chega à conclusão;
                         um lado diz que sim, o outro diz que não.
                         Feijão aumenta o preço; COFAP tem razão?
                         Um lado diz que sim, o outro diz que não.

                         "Se continuar assim, haverá revolução?
                         Governo diz que sim, o povo diz que não.
                         O parlamentarismo é útil pra nação?
                         Governo diz que sim, o povo diz que não.

                         "Sairá vitorioso Francisco Julião?
                         O povo diz que sim, Lacerda diz que não.
                         Aqui não há problemas, pra que tanta confusão?
                         O povo passa fome mas Brasil é campeão.

A volta do Presidencialismo

     A emenda que aprovou o parlamentarismo, redigida em menos de dois dias, apresentava inúmeras falhas mas o grande lapso foi a não revogação do dispositivo que obrigava ministros candidatos a deixarem seus cargos três meses antes das eleições. Essa norma era, sem dúvida, moralizadora, pois evitava que os titulares usassem sua notoriedade no ministério para fazer campanha eleitoral.

     Acontece que, no parlamentarismo, os ministros são quase todos parlamentares e, até por necessidade de sobrevivência política, precisam candidatar-se à reeleição. Assim, ao aproximarem-se as eleições parlamentares de 1962, a maioria do ministério renunciou para se desemcompatibilizar. E o gabinete de Tancredo Neves, organizado em 8 de setembro de 1961, caiu dez meses depois, em 30 de junho de 1962.

     O segundo gabinete, chefiado por Brochado da Rocha, foi empossado em 9 de julho e caiu dois meses depois, em 14 de setembro. O terceiro gabinete, chefiado por Hermes Lima e empossado em 17 de setembro, num ambiente em que o parlamentarismo estava sendo vivamente questionado pelos formadores de opinião.

    Com efeito,  tendo sido um casuísmo para resolver uma crise momentânea, o parlamentarismo sempre foi o filho enjeitado da República, que a ninguém interessava adotar. O governador da Guanabara, Carlos Lacerda fora contrário a ele, desde o início, por considerá-lo postiço; seu maior adversário, o governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, foi, também, um dos primeiros opositores ao regime, alegando que João Goulart deveria tomar posse na plenitude dos poderes que havia adquirido ao eleger-se pelo regime presidencialista. Juscelino Kubitschek marcou sua posição no senado, votando contra.

     Todos os três eram candidatos potenciais às eleições presidenciais de 1955 e, se eleitos, pretendiam assumir a Presidência com todos os poderes. Na mesma situação se achava Jânio Quadros que, arrependido de ter deixado o governo, só pensava em retornar a ele. E, assim, também, sonhavam com a Presidência plena o governador de São Paulo, Ademar de Barros e o governador de Minas, Magalhães Pinto. Isso para citar apenas alguns dos postulantes.

     Por razões mais imediatas, havia grande turbulência nas associações de classe, que almejavam instituir o poder das esquerdas. Tais organizações, fortemente influenciadas por comunistas, desejavam ver João Goulart com todos os poderes para, assim, ampliar seu campo de ação.

     Às Forças Armadas, igualmente, não interessava manter o regime parlamentarista, cujo veto haviam colocado antes mesmo de a emenda ter sido votada. E, por fim, a prática mostrou que, longe de ser uma solução, o parlamentarismo constituía-se em um novo problema, acrescentado a outros tantos que o país tinha de resolver.

     A emenda à Constituição previa um plebiscito para o fim do período. Formou-se, então, uma corrente, pedindo sua realização junto com as eleições de outubro de 1962. Esse objetivo não foi alcançado, mas a pressão exercida sobre o congresso era tão grande que este marcou a realização do plebiscito para o dia 6 de janeiro de 1963.

     O resultado foi arrasador. Mais de 80 por cento dos eleitores votaram pelo retorno ao presidencialismo, o que permitiu a João Goulart, já chefe de Estado, assumir também o governo com todos os seus poderes, agora reforçados pelo resultado das urnas que, supostamente, o consagravam como Presidente e lhe davam carta branca para governar.

     Não era tanto quanto aparentava. Dos 80 por cento que votaram pela volta ao presidencialismo, uma boa parte era adversária, senão inimiga figadal de Jango. Pretendia, pois, a volta do antigo regime, mas por razões diversas. Havia, inclusive, os conspiradores de sempre, apostando na incapacidade de João Goulart, e na deterioração do seu governo a ponto de exigir uma intervenção militar em defesa da segurança nacional.

A caminho do caos

     Os que apostaram no descontrole total do governo não precisaram esperar muito para ver suas previsões se concretizarem. A falta de pulso de Jango era visível. Pressionado por todos, a todos desejava contentar, e, nessa conciliação impossível, acabou se tornando joguete das forças radicais de esquerda que pretendiam a comunização do país, e constituiu-se num prato feito para os radicais de direita que, desde o governo de Getúlio Vargas, sonhavam com o fechamento do regime.

     Influindo nos atos do Presidente, estava o próprio cunhado, Leonel Brizola, agora feito deputado federal. Junto com ele, registrou-se um avanço das esquerdas nas últimas eleições parlamentares, transformando o Congresso num barril de pólvora. Em ação pessoal, Brizola passou a organizar "células" à maneira dos sovietes, dando-lhes a o nome de "Grupo dos Onze", alusão ao número de pessoas que formava cada célula.

     No setor trabalhista, fundou-se a CNTI-Confederação Nacional dos Trabalhadores da Indústria, cuja função era promover greves e acirrar os conflitos trabalhistas. Na área governamental, uma lei delegada criara a SUPRA-Superintendência de Reforma Agrária e, para acelerar o processo de distribuição de terras, o deputado federal Francisco Julião iniciou o movimento das Ligas Camponesas que, partindo do nordeste, se expandiu para o norte e para o centro-oeste. Surgiram conflitos entre camponeses e latifundiários, com invasões de terras e uma luta armada entre "sem-terra" e jagunços, com mortes constantes de um e outro lado.

    Aumentou o questionamento no setor estudantil, já organizado em torno da UNE-União Nacional de Estudantes, presidida primeiro por Aldo Arantes (1961-1962) e depois por José Serra (1963-1964). Mais intelectualizada e com planos mais consistentes, a UNE não escapou, todavia, da infliltração comunista, o que a colocava no alvo dos ataques da extrema direita.

     E, louve-se, os estudantes agiam com muita competência. Uma delegação percorria o país, mantendo debates políticos com a classe estudantil. Um grupo de teatro organizado para esse fim encenava peças de conteúdo revolucionário, com vistas ao sucesso da revolução cubana.

      O presidente João Goulart sentia-se empolgado com tais correntes de apoio e nem sequer imaginava que, na sua força, estavam os germes da própria destruição do governo. Iberê de Matos, então diretor da Rede Ferroviária Nacional, narra em seu livro "Imagem de um Presidente", um episódio que presenciou durante a greve dos ferroviários:

     "O ministro Hélio Almeida [Viação e Obras Públicas] estava angustiado e nervoso, tentando, por todos os meios, localizar os dirigentes sindicais (...) A noite já ia alta quando surge um emissário. Era um deputado sindicalista, que se orgulhava de ser ferroviário e fora eleito pelos ferroviários. (...) O ministro entrou em seu gabinete com o enviado dos grevistas e, lá fora, aguardávamos, ansiosos, o desfecho da discussão que seria travada. Finalmente, algum tempo depois, surge o ministro com a fisionomia retratando decepção e tristeza: ‘Esse moço se diz amigo do Presidente! Não posso avaliar como procederia se não o fosse. Vou ligar para Brasília!...’

     "Dirige-se ao telefone e o vemos gesticulando, num reflexo de angústia, enquanto expunha ao presidente Goulart a situação irritante que estava enfrentando e, num dado instante, conseguimos ouvir o que dizia [ao Presidente]: ‘Acho que somente o senhor poderá demover essa gente da posição de intransigência em que se mantêm. Vou chamar o deputado, para que possa tentar uma solução, falando diretamente!’

     "Alguém foi buscar o emissário dos grevistas, que chegou com ar triunfante, refletindo a satisfação de sua importância, ou quase superioridade, em relação a todos nós, que ali estávamos dependendo de sua anuência à solicitação do Presidente.

     "Não resisti à tentação de assistir ao telefonema e me aproximei o suficiente para perceber o máximo possível do que aconteceria. O que ouvi não foi muito, mas até hoje não me saíram do ouvido as palavras que foram pronunciadas pelo deputado falando ao Presidente, em tom arrogante e quase debochado, entrecortando os argumentos com ameaças, sem que houvesse no seu linguajar a mínima parcela de respeito. Em seguida, o ministro falou ao Presidente e eu me retirei para uma sala vazia, ainda sob o impacto da cena que assistira.

     "Não tive coragem de voltar para o salão onde estavam os outros diretores e autoridades diversas. O que vira e ouvira era chocante demais, e dava até vontade de chorar, como se eu fosse o humilhado, e não o Presidente. Tive pena do meu país, vivendo num clima de irresponsabilidade como o caracterizado por esse episódio."

A ação conspiratória

     A posse de João Goulart, qualquer que fosse o regime, jamais seria assimilada nas casernas. Foi tolerada pelos ministros militares como medida paliativa, pelo risco de um confronto que levaria o país a uma guerra fratricida. Mas apenas tolerada, jamais aceita.

     Pode-se dizer que a ação conspiratória para a derrubada de Jango começou no dia seguinte à sua posse e envolvia vários agrupamentos, trabalhando independentemente, mas com objetivo comum.

     Um desses conspiradores de primeira hora era Carlos Lacerda, que permaneceu governador mesmo quando, em janeiro de 1963, houve troca dos governos estaduais, isto porque o Estado da Guanabara foi criado em 1960 e seu mandato se estendia até 1964. Tinha o poder nas mãos para fazer as articulações e a Tribuna da Imprensa para "plantar" notícias. E nem precisava falseá-las, tal a ação predatória dos grupos que apoiavam o Presidente.

     Havia Magalhães Pinto que, em janeiro de 1963, foi empossado governador de Minas Gerais, passando a articular o movimento civil naquele Estado, com maior discrição mas não menos eficiência.

     Na mesma ocasião, Ademar de Barros era empossado governador de São Paulo, tomando providências para, se preciso, partir para a luta armada. Aumentou os efetivos da Força Pública; como reforço, criou também a Polícia Ferroviária, que não tinha outro fim senão o de permitir a contratação e adestramento de homens para um eventual enfrentamento. No momento que achou oportuno, não teve dúvidas em juntar-se ao seu arquiinimigo, Julio Mesquita Filho, diretor do jornal "O Estado de São Paulo" que, por seu lado, mobilizava a sociedade civil para a reação.

     Grupos paramilitares surgiram em São Paulo sob as vistas grossas do governo. Um deles até desenhou um uniforme que se confundia com o fardamento da Aeronáutica.

     No Rio de Janeiro, foi do general Golberi do Couto e Silva a inspiração de criar o IPES-Instituto de Pesquisas Econômico-Sociais, cuja função oculta era conspirar contra o governo. Com o mesmo intuito, formou-se o IBAD-Instituto Brasileiro de Ação Democrática, desenvolveu-se a Ação Democrática Parlamentar, formada pela UDN e PSD, e tantos outros agrupamentos que discutiam e agiam no sentido de dar um golpe às instituições.

     Assim pois, de um lado e de outro, armavam-se os espíritos, aumentando perigosamente a tensão política e social, nublando os céus e prenunciando a chegada de um temporal.

O comício das reformas

     Os aparentes sucessos obtidos junto a estudantes, operários e camponeses, a um determinado tempo, fizeram o Presidente perder a noção da realidade, crendo-se com uma força irresistível, capaz de afrontar com sucesso seus inimigos.

     O governador Magalhães Pinto, mais cordato, advertia: "Dois grandes males põe em risco a paz e a liberdade de nossa pátria na conjuntura atual. São eles a inflação financeira e o radicalismo político. O medo de perder gera a mesma fúria agressiva que a cobiça de ganhar. Em breve, se não houver possibilidade de uma solução equilibrada, o destino da maioria dos brasileiros estará à mercê dos grupos extremistas minoritários que, por misto de ambição e medo, se atiram à ação direta, para a revolução ou para o golpe de Estado."

     João Goulart não era exatamente o ponto de equilíbrio que evitaria o Brasil de cair num precipício. Muito pelo contrário, fazendo ressurgir o plano de reformas de base contido no planejamento de Celso Furtado, convocou uma concentração popular para o dia 13 de março de 1964, na Praça da República, em frente à estação da Central do Brasil.

     O local era estratégico. Os trens da Central, por seus diversos ramais eram capazes de, em pouco tempo, colocar multidões na praça, dando uma demonstração de força popular. Tanto mais que as entradas foram liberadas, permitindo que a população, nesse dia, viajasse de graça. Tal com fazia Peron na Argentina, usando o metrô para colocar multidões na Plaza de Mayo, onde fustigava os adversários com a mostra de seu poder.

     Mas a praça da República era estratégica, também, noutro sentido. Lá estava o Campo de Santana e a sede do 1º Exército. Era uma área de segurança em frente à qual não podiam se realizar comícios ou manifestações. E o comício, promovido em tais circunstâncias, poderia ser considerado um acinte às próprias Forças Armadas.

     Desde a véspera, forças anti-Jango haviam iniciado atos de sabotagem. Tentaram incendiar o palanque montado no local. À noite, colocaram faixas comprometedoras pedindo a reeleição de Jango, as quais, encontradas a tempo, foram retiradas e destruídas. Agentes da desordem se infiltraram nas passeatas que rumavam à estação da Central, insuflando os manifestantes para a quebra de painéis, luminosos, depredação de vitrines, etc.

     O governador da Guanabara, de sua parte, decretou ponto facultativo, desestimulando os funcionários públicos de saírem de suas casas para participar da manifestação.

     Nada, porém, impediu que se realizasse o encontro do Presidente e da primeira-dama, dona Maria Teresa Goulart, com a multidão que tomou a praça fronteiriça à Estação. E, acompanhando os dois, se achava todo o ministério, deputados, autoridades e líderes sindicais.

     Depois de prestar contas de seu governo, João Goulart formaliza publicamente duas medidas controvertidas que, nas semanas seguintes, precipitariam o fim de seu governo. Decreta a nacionalização das refinarias de petróleo pertencentes à empresa privada e assina o princípio da reforma agrária, decretando "a desapropriação das terras em torno dos grandes açudes públicos e às margens das rodovias e ferrovias, mediante compensação prévia e efetiva".

     No dia seguinte, começava a ser acionado o dispositivo político-militar que pretendia a derrubada do governo e que, em todo o país, atuou de forma mais ou menos coordenada. Em São Paulo e em Belo Horizonte, realizaram-se as "Marchas da Família com Deus, pela Liberdade", uma manifestação prévia para dar sustentação civil ao movimento armado que se seguiria. Com a antecipação do golpe, a marcha programada para o Rio de Janeiro só se realizou após a deposição de Jango, tornando-se apenas um ato simbólico.

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Comicio marca o início da contagem regressiva.

A revolta dos marinheiros

     Entre 25 e 27 de março, uma cerimônia comemorativa da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais, realizada na sede do Sindicato dos Metalúrgicos, sob a direção do "cabo" Anselmo, terminou com motim, declarando-se os marinheiros em assembléia permanente e recusando-se a voltar às suas unidades.

     O ministro da Marinha, Sílvio Mota, ordena ao almirante Aragão que invada a sede do Sindicato, retirando de lá os marinheiros, "mortos ou vivos". Aragão não cumpre a ordem, alegando não haver condições mínimas para que a operação seja executada. Pior ainda, os fuzileiros navais que compunham a sua tropa de ataque aderem aos amotinados, complicando mais a situação.

     O almirante Sílvio Mota apresenta, então, pedido de demissão e, Jango, uma vez mais, procura conciliar, propondo que os amotinados sejam presos e encaminhados a um quartel do Exército, enquanto se faz um inquérito policial militar para apurar os acontecimentos.

     Os marinheiros realmente vão para a prisão mas, não se sabe porque, são soltos horas depois, organizando, então, ruidosa passeata em direção ao ministério da Marinha, não sendo contidos nem pelo general Assis Brasil, enviado para dissuadi-los de seu propósito, nem pelo almirante Aragão, que, sem muita convicção, tentou detê-los. Jango, no Rio de Janeiro, é impotente para qualquer reação que se deva esperar de um presidente da República.

"Cabo" Anselmo, o agente-duplo

     Um detalhe importante, que, embora detalhe, talvez seja maior que o acontecimento em si: o "cabo" Anselmo não era cabo, nem, a rigor, poderia ser considerado marinheiro. Tratava-se de um estudante universitário que a direita infiltrou na Marinha como agente-duplo, com a finalidade de insuflar os ânimos e provocar o desafio à hierarquia militar, criando condições morais para uma intervenção militar.

     Anos mais tarde, o mesmo "cabo" Anselmo foi infiltrado também na guerrilha do Araguaia para passar informações ao delegado Paranhos Fleury, permitindo desbaratar o movimento. Nos anos 80, voltou à cena, fazendo depoimento a uma revista, no qual incrimina Leonel Brizola, exatamente no momento em que este era candidado ao governo do Rio de Janeiro. A entrevista era uma montagem evidente para prejudicar a candidatura.

     Trata-se de um bom moço, que sempre executou as tarefas que lhe foram entregues com extremo cuidado, invulgar competência e absoluto sucesso. Um agente-duplo "nota dez".

Os sargentos e o fim do governo

     Estamos agora em 30 de março, véspera da data fatal em que o governo de Jango ia ser posto em cheque. No Automóvel Clube da Guanabara vai-se realizar, a partir das 19 horas, uma reunião de sargentos das três forças, mais os da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros. Rápido no gatilho, o comando do 1º Exército mandou que suas unidades retivessem os militares dentro dos quartéis o que impediu a presença de sargentos do Exército na reunião.

     Como convidado de honra, deveria estar, adivinhem quem? O próprio presidente da República, João Belchior Marques Goulart. O deputado Tancredo Neves, velha raposa política, aconselhou-o a não comparecer. O próprio deputado Tenório Cavalcanti, que não primava pelo bom senso e era um ativista das esquerdas, achava bom que o Presidente não saísse do Palácio das Laranjeiras.

     De nada adiantaram os conselhos. Acompanhado do general Assis Brasil, que preparara o esquema de segurança, deixou Tenório falando sozinho e dirigiu-se ao Automóvel Clube, onde foi recebido festivamente pelos sargentos.

     Na ocasião, deixando o discurso que havia redigido, fez um improviso, ressaltando a importância do sargento como um meio de ligação entre as Forças Armadas e o povo. Fez referências ao seu governo, à campanha de difamação que lhe era movida por seus inimigos e os embaraços que estes causavam ao seu governo.

     Dois ilustres personagens, que não eram sargentos, estavam presentes, discursando e dividindo entre si os aplausos, antes que se fechassem as cortinas desta tragicomédia. Um era o almirante Aragão; o outro, o "cabo" Anselmo.

     Horas depois, tropas saiam de Juiz de Fora-MG, comandadas pelo general Olímpio Mourão Filho, em direção ao Rio de Janeiro, para a derrubada do governo. Com Jango desaparecido, mas ainda dentro do território brasileiro, o Congresso declarou a vacância do cargo, empossando como Presidente interino o presidente da Câmara Federal, deputado Ranieri Mazzilli.

     O palco esvazia-se, muda-se o cenário, e novos personagens assumem seus lugares para o início de outro ato, em que os atores invertem seus papéis, iniciando uma representação nada convincente do teatro do absurdo.

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Guerra da Lagosta - Um episódio
à margem da História

     O Brasil não é um país sério. A frase, atribuída ao general e presidente Charles de Gaulle, da França, é um equívoco histórico. Na realidade, quem disse isto foi o embaixador aposentado Carlos Alves de Souza, que serviu em Paris entre 1956 e 1964, durante os governos de Juscelino, Jânio e Jango.

    Ao se referir ao conflito pesqueiro entre Brasil e França, conhecido como "guerra da lagosta", o embaixador declarou a um jornalista seu apoio à posição francesa proferindo a célebre frase.

     Em 1963, navios pesqueiros franceses haviam sido apreendidos pelas autoridades brasileiras por estarem pescando sem autorização dentro do mar territorial brasileiro. O governo francês enviou então o destróier "Tartu" para a costa brasileira, ao largo de Fernando de Noronha, em protesto contra a apreensão dos pesqueiros.

     Depois de intensa polêmica, com desperdício de energia e desgaste político, as partes envolvidas baixaram o tom dos pronunciamentos e o assunto foi resolvido civilizadamente, restabelecendo a boa amizade entre Brasil e França. Ficou a versão, substituindo a realidade dos fatos.

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·          A "Guerra da Lagosta", agora em livro

·          Le Brésil n'est pas un pays serieux (Thomaz Câmara)

·          A força da versão (Jarbas Passarinho)

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