| |
CAPÍTULO UM
1964 REVOLUÇÃO OU GOLPE ?
A QUEDA DE JOÃO GOULART
Vetado pelos ministros militares, odiado pelos conservadores, que o queriam ver longe do
governo, com seu poder dilacerado pela emenda parlamentarista e sem pulso suficiente para
conter os radicais da esquerda, o presidente João Belchior Marques Goulart foi vítima de
multipla conspiração, desde sua posse, ocorrida em 7 de setembro de 1961.
No princípio, eram
movimentos ocultos, contidos em certa parte, pela atuação moderada do Gabinete formado
pelo primeiro-ministro Tancredo de Almeida Neves. Mas, com a volta do presidencialismo,
recolocando todos os poderes de governo nas mãos do presidente da República, e com o
recrudescimento da ação das esquerdas, a conspiração se tornou aberta, num confronto
entre as forças conservadoras e aquelas ditas revolucionárias, que disputavam o mesmo
espaço. Escreve Francisco de Assis Silva, em seu livro "História do Brasil":
"Todo mundo
conspira: direita e esquerda; civis e militares; moderados e radicais; operários e
camponeses. Os governadores Ademar de Barros (SP), Magalhães Pinto (MG) e Carlos Lacerda
(GB) conspiravam com a ala militar antijanguista. O golpe estava em andamento. A direita
congregava-se em organizações como o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes) e o
Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), financiados pelos Estados Unidos, e
outras tantas que se uniram para impedir as reformas sociais."
Verdade é que o
presidente João Goulart em nada contribuia para baixar a temperatura efervescente nos
meios políticos e na caserna: ignorava o Congresso e a ala conservadora, procurando impor
suas reformas baseado no lastro da popularidade de que dispunha, e na expressiva votação
que obtivera nas eleições, ocasião em que quebrou a unidade partidária.
Com efeito, Jango fez-se
vice-Presidente pelas esquerdas, junto com Jânio, que representava a ala mais
reacionária da política brasileira. Era dobradinha "Jan-Jan" (Jânio e Jango),
que custou a carreira política de Teixeira Lott (candidato a Presidente, com Jango) e de
Milton Campos (candidato a vice-Presidente com Jânio). Lott e Campos, na ocasião, foram
derrotados por acordos espúrios entre grupos políticos.
Embora dispersa em
vários comandos civis e militares, principalmente no Rio de Janeiro, em São Paulo e
Minas Gerais, a oposição ao governo reconhecia a ascendência das lideranças do Rio,
onde se achava o general Artur da Costa e Silva, e para onde, mais tarde, foi removido o
general Humberto de Alencar Castelo Branco, que deixou o comando do 4º
Exército, em Recife, para assumir o comando do Estado Maior do Exército (EMEx), onde
eram maior o poder de articulação.
Correndo por fora da
raia, como um franco atirador, estava o general Olímpio Mourão Filho, com opiniões
próprias, infenso a qualquer orientação vinda de fora de seu comando, ele mesmo capaz
de desequilibrar o plano integrado das demais forças que participavam da conspiração
anti-Jango. E foi Mourão que, na madrugada de 31 de março de 1964, por sua própria
conta e risco e sem conhecimento dos demais, saiu de Juiz de Fora com um punhado de jovens
soldados inexperientes para a derrubada do governo, antecipando em pelo menos 20 dias o
movimento que deveria eclodir a partir do Rio de Janeiro.
Revolução ou golpe ?
Essa discussão até hoje está em aberto, embora a opinião da maioria se incline para a
segunda hipótese. Para os militares que participaram do movimento, foi uma revolução
objetivando exterminar o comunismo que atentava contra as liberdades democráticas; para a
ala esquerda, não pairavam dúvidas de que se tratava de um golpe bem articulado para
impedir a realização das reformas.
Já para Mourão Filho,
teria sido uma revolução legítima, partindo de Minas Gerais, a qual chegou vitoriosa ao
Rio de Janeiro, mas lá encontrou o general Costa e Silva já instalado no gabinete do
ministro da Guerra, e o general Castelo Branco virtualmente empossado presidente da
República. Era o que ele próprio chamou de "golpe de 1º de abril".
É importante nos
determos nos acontecimentos que levaram ao movimento vitorioso de 1964, que rapidamente
afastou as lideranças civis ou colocou-as a seu serviço, dando início a uma série de
governos militares que se sucederam no poder até o ano de 1985.
Como era
estranho
esse general Mourão
Olímpio Mourão Filho
(1900-1972) nasceu em Diamantina (MG), a mesma cidade de Juscelino Kubitschek. É a única
identidade entre os dois. Ao contrário de JK, Mourão Filho tinha índole belicosa e um
temperamento irrefreável, transcorrendo toda sua vida ao meio de conspirações,
desenvolvidas abertamente, seguindo sua própria avaliação e em prejuízo de qualquer
opinião que não a sua própria.
Se tivermos de
compará-lo a alguma figura história, poderíamos melhor aproximá-lo de Tiradentes,
outro mineiro notável que assumiu como seus os ideais da Conjuração Mineira e saiu
pelas cidades de seu Estado e do Rio de Janeiro pregando a queda do Império,
descuidando-se do sigilo, elemento essencial para a vitória de qualquer movimento
contestatório.
Em 1937, como capitão do
Exército, Mourão identificou-se com a Ação Integralista Brasileira e teve seu nome
envolvido no Plano Cohen. Em verdade, tal plano de pretensa ação comunista para tomada
do poder foi redigido por ele próprio, mas apenas para treinamento dos integralistas no
combate ao comunismo. Por ardil do presidente Getúlio Vargas, auxiliado pelos generais
Góis Monteiro e Caiado de Castro, a peça foi tomada como verdadeira e serviu de pretexto
para o fechamento do Congresso Nacional e a instituição de um novo regime, o do Estado
Novo. O maior prejudicado, além da nação brasileira, foi o próprio Mourão, que por
quase trinta anos teve sua carreira militar bloqueada, enquanto seus companheiros de turma
subiam rapidamente.
Em 1956, Juscelino
finalmente promoveu-o a general-de-brigada (duas estrelas), ficando estacionado nessa
posição durante cinco anos. E, como general-de brigada, em 1961, voltou-se contra os
ministros militares que se opunham à posse de João Goulart, seguindo para a casa do
marechal Teixeira Lott, onde se encontravam outros militares favoráveis à posse de
Jango, dentro dos termos da Constituição. Lott já havia emitido um manifesto, publicado
pelos jornais matutinos, e vinha com uma outra declaração, quando Mourão, irritado,
contestou:
"Marechal, chega de
manifesto! Põe tua farda, vou em casa pôr a minha, tocamos para a Vila Militar e vamos
revoltar as tropas!" Lott recusou-se a fazê-lo. Pior para ele que, horas depois,
estava preso, por ordem de seu amigo e companheiro, o ministro da Guerra, general Odílio
Denys.
João Goulart foi
finalmente empossado e, pouco depois, Mourão Filho passou a conspirar contra o novo
Presidente, primeiro em Santa Maria (RS), depois em São Paulo e finalmente em Juíz de
Fora, causando mal-estar e até inimizades dentro nas hostes antijanguistas. Vitorioso o
movimento de 1964, voltou-se também contra este, considerando que a revolução foi
traída com a permanência dos militares no poder. Já não tinha, porém, qualquer
comando, pois, ainda em 1964 caiu na compulsória, reformando-se como general de divisão.
Enquanto outros de sua
turma se aposentaram com o título de marechal, Mourão foi para a reserva como
general-de-divisão (três estrelas), quase ignorado nas referências sobre o movimento
militar que resultou na instituição da Quarta República. Uma ou outra enciclopédia
abre uma entrada com seu nome e, assim mesmo, para uma citação de duas ou três linhas,
sem se deter em sua biografia ou na importância que ele teve para o sucesso do movimento.
Em Santa
Maria,
o "Plano Junção"
Promovido a
general-de-brigada (duas estrelas) em 7 de setembro de 1956, já no mês seguinte Mourão
assume o comando da Infantaria Divisionária em Belo Horizonte, onde não fica mais que
uns poucos meses. Seu temperamento guerreiro incomodava muito e Juscelino nomeia-o para
cargos burocráticos, primeiro na Assistência Social do Exército e, depois, na direção
dos Serviços de Radiodifusão (hoje DENTEL), subordinado ao Departamento de Correios e
Telégrafos.
Congelado por vários
anos, só em 21 de setembro de 1961 volta às atividades militares, tomando posse como
comandante da 3ª Divisão de Infantaria, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul.
Pouco
tempo depois, já desconfiava não só do presidente João Goulart como também do
governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, achando que ambos pretendiam aplicar um
golpe de estado com subseqüente comunização do governo. E, assim, não tarda em
reiniciar a atividade conspiratória, traçando o "Plano Junção", pelo qual
pretendia levantar o Exército, assim que pressentisse qualquer atitude de Jango para o
fechamento no regime. Uma tarefa nada fácil, já que o comandante do 3º
Exército era o general Jair Dantas Ribeiro, francamente janguista.
Parlamentarismo
instável
Rememoremos. O
parlamentarismo brasileiro foi criado como um casuismo para cortar os poderes do
presidente da República e tornar mais palatável a presença de Jango, retirando-lhe os
poderes de governo e transformando-o numa "rainha da Inglaterra".
Votado às pressas, o Ato
Adicional, ou emenda parlamentarista, apresentava graves lacunas, que impediam sua
execução.
Primeiro: adotou-se a
fórmula alemã, em que o Presidente indica o Primeiro-Ministro, a ser aprovado pelo
Congresso. Aceito o nome, o Congresso indica o Ministério, que deve ser aprovado pelo
Presidente. Com um congresso conservador e um presidente tido como reformista, cria-se um
impasse difícil de ser vencido.
Segundo: já que o
Gabinete parlamentarista é composto sobretudo de parlamentares, que precisam reeleger-se
para garantir sua permanência no Ministério, teria de ser suprimida, na Constituição,
a exigência de desincompatibilização 90 dias antes das eleições. Não o fizeram.
Terceiro: Se o presidente
da República é apenas chefe de Estado, e o Primeiro-Ministro chefe de Governo, com
ascendência sobre os ministros militares, então é o Primeiro-Ministro e não o
Presidente quem deve ser considerado chefe supremo das Forças Armadas. Também isso não
foi modificado.
Estava armado o cenário
para a grande trapalhada. Em 30 de junho de 1962 (três meses antes das eleições
parlamentares), cai o Gabinete de Tancredo Neves, cujos ministros eram, quase todos,
candidatos à reeleição. Sem entendimento entre executivo e legislativo, na prática, o
poder voltou às mãos de João Goulart, chefe supremo das Forças Armadas, situação que
perdurou por dez dias.
O primeiro nome indicado
para a chefia do Gabinete foi o do jurista Santiago Dantas, prontamente rejeitado pelo
Congresso que o considerava muito à esquerda. Jango, então, concordou em indicar para
Primeiro-Ministro o presidente do Congresso, Auro Soares de Moura Andrade (conservador)
mas, em seguida, usando das atribuições que lhe eram conferidas, recusou o ministério
indicado pelo Congresso, por achá-lo conservador demais para as reformas que tinha em
mente.
Finalmente, executivo e
legislativo se fixaram no nome de Brochado da Rocha, mais à esquerda que Santiago Dantas.
É claro que a ninguém interessava essa nomeação, que se constituiu em novo casuismo,
enquanto, paralelamente, se procurava detonar o parlamentarismo, com a realização de um
plebiscito.
O gabinete de Brochado,
empossado em 9 de julho de 1982, foi substituido pelo de Hermes Lima em 17 de setembro e
este último se dissolveu em 23 de janeiro de 1963 quando, de conformidade com plebiscito
realizado em 6 de janeiro, o Brasil voltou a adotar o Presidencialismo, concentrando nas
mãos de Jango ambos os poderes, de chefe de Estado e de chefe de Governo.
Testando o
Plano Junção
Concluindo que a recusa
do Gabinete apresentado por Auro Soares era o primeiro passo de Jango para um golpe de
estado, o general Mourão, no comando da 3ª Divisão de Infantaria (Santa
Maria-RS) pôs em execução o "Plano Junção" levando ao ar a rede de
emergência, o que originou uma reprimenda e pedido de explicações por parte do 3º
Exército. Mourão desculpou-se, retirou do ar a rede de emergência, mas ordenou que
todos os setores envolvidos permanecessem na escuta, no aguardo de novas instruções de
comando.
Em sentido oposto,
caminhava o comandante do 3º Exército, general Jair Dantas Ribeiro que chamou
a Porto Alegre todos os seus comandados diretos, inclusive o general Mourão,
propondo-lhes a emissão de um manifesto, exigindo que o Congresso a aprovasse a
realização de um plebiscito. Não obtendo apoio, assinou o manifesto sozinho, enviando
cópia aos demais comandos com a ordem de que o comunicado fosse lido publicamente nos
quartéis.
A atitude do general Jair
não era isolada, mas um repique de manifesto feito anteriormente pelo comandante do 1º
Exército (Rio de Janeiro), general Osvino Ferreira Alves. Os outros dois comandos (2º
Exército em São Paulo e 4º Exército em Recife) se revelavam aparentemente
neutros.
Com a desistência de
Auro Soares à chefia do Gabinete e com a indicação de Brochado da Rocha para compor um
novo Ministério, foi jogada água na fervura. Jair Ribeiro recolheu-se às suas
atividades de comando e Mourão desativou o Plano Junção, registrando todo inconformismo
em seu diário particular, em data de 5/7/62 quinta-feira:
"Hoje de tarde
soubemos que o Auro se demitira. Cantou de galinha o homem. Se ele tivesse reagido, João
Goulart fechava o Congresso e iria levar o maior susto da vida dele, porque ali de Santa
Maria ia partir fulminante o movimento que poria para fora ele e o Brizola."
No remanejamento de
comandos, em 15 de março de 1963, o general Mourão, já promovido a general-de-divisão
(três estrelas), assumiu a 2ª Região Militar, em São Paulo, subordinado ao
general Pery Constant Bevilacqua, descedente de Benjamin Constant e comandante do 2º
Exército. "Exultei, porque desejava conspirar em São Paulo", escreveu Mourão
em seu diário. Mas em Santa Maria, deixou em andamento um IPM-Inquérito Policial-Militar
contra 40 sargentos. Motivo: conspiração.
Em São
Paulo,
o blefe
Conquanto a cerimônia de
posse tenha sido concorrida, com a presença de altas autoridades, inclusive do governador
Ademar de Barros, Mourão Filho descobriu logo que não lhe seria possível agir em São
Paulo com a mesma desenvoltura com que o fazia em Santa Maria.
Alguns, como Assis
Chateaubriand, dos Diários Associados, deram-se apoio, reservado mas efetivo; outros,
como Ademar, desconversavam e evitavam a ação de Mourão, que consideravam predatória e
perigosa; seu superior, general Pery Bevilacqua, que também viera transferido do Rio
Grande do Sul, tentava refrear-lhe os ímpetos, que poderiam precipitar os acontecimentos,
em prejuízo à causa a que se dedicavam. E Júlio Mesquita Filho, diretor do Estadão,
jornal que se constituia no carro-chefe da conspiração em São Paulo, nada fazia para
esconder sua antipatia ao açodado general.
Pior do que isso, é que
já chegavam aos ouvidos do presidente João Goulart e aos setores ligados a ele as
notícias sobre as atitudes de Mourão Filho, criando-lhe uma situação deveras
embaraçosa.
Foi então que ocorreu a
Mourão aplicar um blefe para acalmar as hostes governistas e escolheu para isso as
comemorações do aniversário da Revolução Constitucionalista, em 9 de julho, nas quais
deveria comparecer, pela sua unidade e também representando o comandante do 2º
Exército. Esperava que pelo menos um orador fizesse um paralelo entre a revolução de
1932 e os dias atuais, atingindo verbalmente o presidente João Goulart.
Durante a cerimônia,
não precisou esperar muito. A certa altura, a palavra foi dada a Waldemar Ferreira, um
dos líderes civís de 32, que iniciou o discurso dizendo: "Esta solenidade é um
grito de alerta a toda a nação, no momento em que se prepara um movimento comunista,
chefiado do Palácio da Alvorada, pelo próprio presidente da República."
É o próprio Mourão
quem conta:
"Levantei-me com um
gesto espalhafatoso, o gorro na cabeça e com os dois braços fazendo gestos para os
oficiais, gritei bem alto: Levantem-se, vamos nos retirar daqui. Não admito
insultos contra o chefe das Forças Armadas, presidente João Goulart."
O truque deu certo. Havia
transmissão ao vivo pelo rádio e toda a imprensa paulista estava dando cobertura à
solenidade. Ademar mandou um mensageiro procurá-lo na sala onde havia se alojado,
garantindo que faria um discurso desmanchando tudo, e pedindo-lhe que, após, voltasse à
cerimônia. E assim aconteceu.
No Palácio do
Planalto, a repercussão não podia ter sido melhor. O general Mourão Filho passou a ser
considerado um elemento pró governo e em tal grau que, no mês seguinte, recebia como
bônus a transferência para uma função da mais alta confiança, qual seja, o comando da
4ª Região Militar e da 4ª Divisão de Infantaria, em Juíz de
Fora, desalojando dessa posição o general Carlos Luís Guedes, elemento muito chegado ao
governador de Minas, Magalhães Pinto.
A posição
dos
governadores
Neste ponto, será útil
mapear o posicionamento dos principais governadores envolvidos no processo conspiratório,
de um lado e de outro.
Miguel Arraes,
em Pernambuco fazia o movimento das esquerdas, dando amplo apoio às Ligas Camponesas de
Francisco Julião, um movimento extremista que objetivava a reforma agrária à força,
criando situações de fato, com a invasão de propriedades produtivas, sobretudo
engenhos, e criando situações de conflito armado, sob as vistas grossas, quando não,
sob a proteção do Governador.
Em Minas Gerais, Magalhães
Pinto, mineiramente, dava uma no cravo e outra na ferradura. Conspirava contra o
presidente da República, mas sem alarde, dando mesmo a entender que estava ao lado do
governo central.
Nesse propósito, chegou
até a financiar, com dinheiro público, a realização, em Belo Horizonte, do 1º
Congresso Nacional de Trabalhadores do Campo, arcando com as despesas de instalação,
transporte e alojamento. Como não podia deixar de ser, a maior representação (cerca de
200 camponeses) foi a de Francisco Julião, que pedia a desapropriação sumária de todo
latifúndio acima de 500 hectares. Diante de uma multidão calculada em 5 mil pessoas, foi
transmitida uma gravação com a voz de Fidel Castro, dando apoio cubano à reforma
agrária brasileira.
Na Guanabara, reinava
absoluto Carlos Lacerda, com mandato diferenciado dos demais, já que o
Estado foi criado em 1961 e sua presença no governo deveria se estender até 1965.
Magalhães e Lacerda
conspiravam contra o governo, mas evitavam comunicar-se. Ambos eram candidatos virtuais à
presidência da República e cada um deles, isoladamente, procurava fortalecer sua
posição, enfraquecendo o adversário. Magalhães, recatado, levava a melhor; Lacerda,
destemperado, expunha-se demais, mas, em compensação, fazia uso da máquina para esmagar
movimentos pró-Jango, com medidas nem sempre em plena conformidade com a lei.
Ademar de Barros,
em São Paulo, era um meio termo entre os dois. Falava e agia com franqueza, mas medindo
suas reações e, no interesse da causa, não teve dúvidas em aliar-se ao seu maior
inimigo, Júlio Mesquita Filho, diretor do jornal O Estado de São Paulo.
No Rio Grande do Sul, Ildo
Meneghetti era uma incógnita, mas, estourando o movimento, em 31 de março,
mudou a sede do governo para o interior, anunciando sua adesão aos militares anti-jango.
Leonel Brizola,
cunhado de João Goulart e um dos representantes mais importantes da esquerda, encerrara
seu mandato como governador do Rio Grande do Sul, mas elegera-se deputado federal e
mantinha sua ascendência política sobre o seu Estado e sobre uma boa parte do país. Era
também um demolidor e, na esquerda, servia de contraponto à agressividade de Lacerda na
Guanabara. Sem ser comunista, Brizola adotava a técnica de organização de células
revolucionárias, que chamou de "grupos de onze". Esse era o número de
componentes de cada célula e, no momento oportuno, pretendia ativar todas elas para
detonar o regime.
A ação das
esquerdas
Se as forças
anti-Janguistas se articulavam para a derrubada do Governo, do outro lado, as forças
pro-Jango se preparavam para uma mudança radical do regime, dando a João Goulart poderes
absolutos para realizar as reformas que tinha em mente. Enquanto as primeiras, firmadas em
líderes políticos e empresarios, mantendo o controle de comandos vitais nas Forças
Armadas, tinha uma noção exata de seu poder, os janguistas se iludiam em sua força
aparente, seduzidos pela idéia do sucesso e divorciados da realidade.
Por todo o lado as
organizações esquerdistas se organizavam para um golpe final às instituições.
Organizações trabalhadoras e estudantis recrudesciam em sua ação, produzindo greves e
movimentos populares de apoio e sustentação ao presidente da República.
Se as associações de
trabalhadores eram mais experientes e práticas, a UNEUnião
Nacional de Estudantes apresentava-se idealista e intelectualizada, estendendo sua ação
junto às escolas e fazendo um trabalho de proselitismo que utilizava sobretudo o teatro,
com a cooperação do CPC Centro Popular de Cultura, onde se abrigavam os mais
conhecidos artistas jovens de nosso país. Contavam-se, entre eles, Oduvaldo Viana Filho
(Vianinha), Gianfrancesco Guarnieri, Cacá Diegues, Leon Hirzmann. Vera Gertel (mais tarde
reporter de TV) e outros. E mais cantores e compositores, como Edu lobo, Carlos Lyra e
Sérgio Ricardo O sociólogo Luís Werneck Vianna, reconhece o excesso de idealismo
juvenil que lhes vedava os olhos à realidade que, sobretudo no Rio de Janeiro, lhes era
adversa, com a polícia do governador Carlos Lacerda e o peso das forças bem articuladas
da direita:
"Nós tínhamos,
particularmente os jovens, que haviam sido mobilizados pela política de esquerda daquela
época, uma confiança muito grande nas lideranças. E as lideranças diziam que, se
a direita levantasse a cabeça, essa cabeça seria cortada. Isso é textual. Foi uma
frase que o Prestes [Luiz Carlos Prestes, secretário-geral do Partido Comunista
Brasileiro] lançou na ABI [Associação Brasileira de Imprensa] quinze dias ou um mês
antes do golpe. Nós fomos para a UNE com um espírito de resistência (...) Fomos para a
UNE como para mais uma jornada, onde as coisas aconteceriam e, no dia seguinte, tudo
voltaria ao normal, como tantas outras crises que havíamos assistido no período."
Oduvaldo Viana Filho foi
uma das vítimas dessa imprudência. Preso pela polícia de Lacerda,
"desapareceu" por alguns dias nas dependências do DOPS carioca, sendo ineficaz
o "habeas-corpus", porque não era localizado em lugar algum. Foi preciso a
interferência do general Nelson de Mello que, mesmo sem concordar com o posicionamento da
UNE, agiu no sentido de localizar e libertar Vianinha.
Heron Domingues, o
célebre Reporter Esso, reproduziu na TV os acontecimentos: "Mocinho falador, você
está preso foi o que disseram a Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha, preso na avenida
Rio Branco, esquina da Araújo Porto Alegre." E, em entrevista à Última Hora, diz
Vianinha: "Cuspiram-me no rosto e rasgaram minha roupa". E, mais tarde conta:
"A ordem era total intimidação e a mais completa humilhação. Cheguei à
conclusão de que, com aquela polícia, até mesmo um homem santo como D. Helder [D.Helder
Câmara, Arcebispo do Rio] ou um retardado como o almirante Pena Boto [um dos
conspiradores contra a posse de Juscelino em 1956] poderiam ser transformados em
revolucionários."
De um lado e de outro, os
espíritos se armavam para uma luta sem fronteiras. Não havia uma voz pacificadora, capaz
de serenar os ânimos e reencaminhar o país para o entendimento. Todos queriam o
bem-estar da nação, cada um à sua maneira, usando a força como argumento.
A
articulação
da direita
Se as esquerdas
contavam com apoio ostensivo de Cuba, da União Soviética e da China, inclusive com a
presença de agentes subversivos no Brasil, a direita, por sua vez, tinha uma cobertura de
retaguarda dos Estados Unidos, através da "Operação Brother Sam",
que garantia a interferência americana até o ponto em que fosse necessária para impedir
a implantação de um regime comunista no Brasil.
Os EUA já tinham Cuba
bem próximo de si, o que era um problema mais do que suficiente, não lhes interessando,
de maneira alguma o surgimento de outro núcleo justamente no cone sul, o que facilitaria
a propagação revolucionária pelos países vizinhos. Não custa lembrar que o Brasil faz
divisa com todos os países da América do Sul, com exceção de Equador e Chile.
Na conspiração
anti-Jango, o setor militar estava fortemente guarnecido. O general Costa e Silva entregou
o comando do 4º Exército (Recife) ao general Castelo Branco e veio para o Rio
de Janeiro. O próprio Castelo Branco, tempos depois, foi transferido também para o Rio
de Janeiro, assumindo o comando do Estado Maior do Exército (EMEx). Na Marinha, havia o
almirante Sílvio Heck, na Aeronáutica, o prestígio do brigadeiro Eduardo Gomes. Ao lado
deles, o ex-Presidente, marechal Eurico Gaspar Dutra.
No setor civil, a
presença, em peso, da União Democrática Nacional, mais o apoio de populistas e
integralistas, representados sobretudo pelo PSP de Ademar de Barros e, no Rio de Janeiro,
o coração do movimento era governador Carlos Lacerda, com todo poder de fogo, tanto na
imprensa como no governo do Estado da Guanabara.
Se você imagina que a
capital do Brasil era, de fato, Brasília, esqueça tudo isso. O novo Distrito Federal
existia há apenas três anos e o centro do movimento político e militar permanecia no
Rio de Janeiro. Alí se encontravam os principais ministérios, as repartições
públicas, ali se realizavam os conchavos e até o presidente da República podia ser
encontrado com mais facilidade no Palácio das Laranjeiras que no Palácio do Planalto.
Além do que,
constituindo-se no centro nervoso do país, qualquer manifestação popular, pró ou
contra, realizada na cidade do Rio, ganhava rapidamente repercussão nacional, servindo de
agente multiplicador de novas reações em outras partes do país.
Brasília permanecia uma
ilha, onde a força mais atuante era ainda o Congresso Nacional, preso alí por sólidas
amarras, já que sua sede não podia ser itinerante. Mas as grandes decisões saiam mesmo
do Rio de Janeiro e era ali que deveria eclodir o movimento revolucionário, programado
inicialmente para meados de abril de 1964.
Os
acontecimentos
se precipitam
O mês de março de 1964
marcou a radicalização das posições de um lado e de outro, numa escalada
impressionante que fazia prever uma substituição do embate de idéias pelo confronto
armado direto.
No dia 13, o presidente
João Goulart promoveu o Comício das Reformas, em frente à estação da Estrada de Ferro
Central do Brasil, mas em área militar, onde manifestações públicas não são
permitidas. Os mais modestos estimaram a presença de 150 mil pessoas, havendo quem
garantisse haver na concentração mais de 250 mil pessoas.
Na ocasião, assinou um
ato determinando a desapropriação de todas as terras às margens de rodovias e açudes,
mediante prévia e efetiva indenização. Ou era um ato demagógico, ou então contava com
o rompimento institucional, por um golpe de estado, com o que os pagamentos seriam feitos
em papéis de dívida pública, pagáveis em 15 ou 20 anos, tal como acontecera com as
desapropriações em Cuba.
E havia momentos de
alucinação, como aquele em que um punhado de senhoras católicas se ajoelharam diante de
um estúdio de TV em São Paulo, com seus terços entre as mãos, para impedir a entrada
de Miguel Arrais, que deveria participar de um debate.
Houve também
movimentos mais organizados, como as Marchas da Família, com Deus e pela Liberdade,
em São Paulo, Santos e, tardiamente, no Rio de Janeiro. Em São Paulo, num dia de semana,
que não era feriado, os organizadores conseguiram colocar nas ruas 250 mil pessoas, às
três horas da tarde. Fábricas fecharam suas portas e colocaram operários em caminhões
e ônibus para levá-los à passeata.
No centro velho de São
Paulo, que tem uma população ativa em torno de 2 milhões de pessoas, escritórios e
bancos fecharam suas portas ao mesmo tempo, colocando uma multidão nas ruas, sem
condição de retornar a suas casas. Uns poucos por convicção, a maioria por
curiosidade, acabou se infliltrando na passeata, que ganhou, assim, um reforço
considerável de manifestantes.
Mas essas manifestações
eram mais um trabalho de midia. Na verdade, os acontecimentos que mais pesaram no
desenvolvimento do processo foram a revolta dos marinheiros e a reunião dos sargentos no
Automóvel Clube fatos que saltavam à vista e não podiam ser ignorados por ninguém.
No dia 27 de março,
marinheiros liderados por um agente duplo, que ficou sendo conhecido como "cabo"
Anselmo, e com a evidente cumplicidade do almirante Aragão, recusaram-se a reassumir seus
postos de trabalho. Presos em um quartel do Exército, foram inexplicavelmente liberados,
horas depois, e sairam em ruidosa passeada pela cidade do Rio de Janeiro.
Três dias após, em 30
de março, o próprio presidente da República, despachando há vários dias do Palácio
das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, consentiu em comparecer a uma reunião de sargentos
realizada no Automóvel Clube e lá discursou, ao lado do "cabo" Anselmo e do
Almirante Aragão.
Estava quebrada a cadeia
de comando, indispensável para a manutenção da ordem e da disciplina militar. Era o
próprio chefe supremo das Forças Armadas que se juntava a praças insubmissos,
dando-lhes apoio e desmantelando toda a hierarquia das Forças Armadas. Na quebra da
autoridade, só restava a opção da força e seu emprego acabaria acontecendo horas
depois.
Voltando a
Minas Gerais
Deixemos de lado, por um
momento, os cabos e soldados rebelados e voltemos a Minas Gerais, onde Mourão Filho
encontrava dificuldades em articular seu plano de ação revolucionária a que deu o nome
de "Operação Popeye", talvez em lembrança ao cachimbo que sempre levava
consigo.
Em Juiz de Fora, nem tudo
saiu como esperava, pois seus comandados imediatos, em que pese o respeito à sua
autoridade, recusavam-se a participar de qualquer movimento conspiratório, assegurando
que só pegariam em armas se houvesse, em efetivo, um golpe do presidente da República
contra as instituições. Antes disso, não.
Nessa situação, Mourão
passou a catequizar a jovem oficialidade, contando com seu comando para, no momento
oportuno, tirar os soldados dos quartéis para marchar sobre o Rio de Janeiro. Nesse
propósito, todavia, era contestado veementemente pelo general Luís Carlos Guedes,
comandante da Divisão de Infantaria sediada em Belo Horizonte, e pelo governador
Magalhães Pinto, que não acreditavam em uma revolução desse porte feita com
"meninos recrutas" comandados por jovens oficiais.
Mas, no momento exato,
conseguiu o apoio do marechal Odilio Denys, que se deslocou para Juiz de Fora, a fim de
dar-lhe apoio de retaguarda. O motivo é simples: Na ação revolucionária, Mourão,
general de Divisão (3 estrelas), não seria acatado pelos generais de Exército (4
estrelas). Sendo Denys um marechal, o comando geral ficaria em suas mãos, enquanto
Mourão, supostamente sob suas ordens, colocaria as tropas a caminho do Rio de Janeiro.
Mas o Manifesto preparado
por Magalhães Pinto, chefe civil da revolução, era uma mistura de água com açucar. O
governador deixava a porta aberta para um recuo e, nessas circunstâncias, toda
responsabilidade caia sobre o comando militar!
O general Mourão
lamentou o tempo perdido e estabeleceu novo cronograma, prevendo a saida das tropas em 31
de março às 5 horas da madrugada, com ou sem manifesto, com ou sem o Governador. Não
havia mais tempo ou condições para recuar.
Tropas na
rua!
Juíz de Fora, 31 de
março, 5 horas da manhã. O general Olímpio Mourão Filho desencadeia a "Operação
Popeye" promovendo o levante das tropas da 4ª Região Militar e da 4ª
Divisão de Infantaria, apoiado pelo entusiasmo da jovem oficialidade e dos "meninos
recrutas", submetidos que foram a um mês de rigoroso e mortal treinamento. É o
momento de provar se aqueles "meninos", com seu entusiasmo, teriam condições
de usar a audácia para superar as limitações da inexperiência. À frente das tropas
seguia o general Murici.
A notícia estourou no
Rio de Janeiro e em São Paulo como uma bomba. Ninguém no alto comando queria acreditar.
Mas, ao ser confirmada sua veracidade, o general Castelo Branco teria dito: "Agora,
ou damos apoio ao Mourão, ou ele estará perdido!"
Em São Paulo, o
comandante do 2º Exército, general Amaury Kruel aderiu ao movimento e enviou
tropas ao encontro de Mourão. Não foi tão espontâneo quanto possa parecer. Ficou até
o último minuto em cima do muro e acabou saltando sobre um cavalo que passou já
encilhado, entusiasmado mais pelo apoio que vinha do Rio de Janeiro, do que pela aventura
mineira.
Do Rio de Janeiro partem,
também, tropas do Regimento Sampaio (1ª Regimento de Infantaria), comandadas
pelo coronel Raimundo Ferreira de Sousa, supostamente para dar combate aos rebeldes. O
coronel Raimundo, entretanto, após um contato telefônico com Juíz de Fora, falando
diretamente com o marechal Odílio Denis, adere ao movimento. Juntando seus soldados aos
de São Paulo e Minas, passa a integrar as forças rebeldes que entram vitoriosamente na
cidade do Rio de Janeiro.
O presidente João
Goulart viaja para Brasília, daí para Porto Alegre e, por fim, se exila no Uruguai. O
Congresso Nacional, declara vago o cargo e empossa como presidente da República, dentro
da linha de sucessão, o presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli. Um Presidente de
fantasia, já que todas as decisões políticas estavam sendo tomadas pelo novo comando
militar, no Rio de Janeiro.
Com efeito, ao chegar ao
Rio de Janeiro, comandando as tropas revolucionárias, o general Mourão encontra um
esquema previamente montado que torna inútil a sua presença ali. Costa e Silva se fizera
ministro da Guerra; Castelo Branco era o nome indicado para assumir a presidência da
República, cumpridas as formalidades; o general Ururai assumira o comando do 1º
Exército; o general Taurino, a 1ª Região Militar. Os comandantes do
movimento no Rio de Janeiro tomavam posse de seus cargos antes mesmo que o Congresso
declarasse a vacância do cargo de Presidente, e Mazzili tivesse tempo de nomear seu
ministério. Isso vai melhor contado no próximo capítulo.
"Tio
Sam" na batucada
1) Conheça o dossiê
secreto que os EUA já liberaram
2)
Youtube - Telefonema ao presidente dos Estados Unidos
Para finalizar, cabe
estabelecer a participação dos Estados Unidos da América, durante o período de
conspiração e no momento em que se verificou a eclosão do movimento militar de 1964.
Ela aconteceu e recebeu o nome de Operação Brother Sam, representando um apoio
importante para que o movimento anti-Jango se desenvolvesse e chegasse a bom termo.
No correr dos tempos, os
Estados Unidos desenvolveram um estranho conceito de domínio que ficou conhecido como
Doutrina do Destino Manifesto. Segundo ele, em linhas gerais, Deus entregou aos americanos
o dever de zelar pelos destinos do mundo, cabendo-lhes interferir, quando necessário,
para garantir a estabilidade das nações.
Esse conceito se aplicou
particularmente ao continente americano, sobretudo a partir do século 19, com a doutrina
Monroe (A América para os americanos), reavivada, de tempos em tempos, com nomes e
propósitos diversos, mas sempre dentro do mesmo princípio. Foi o panamericanismo, a
política da boa vizinhança, a Aliança para o Progresso, etc.
Por outro lado lado, a
partir da 2ª Guerra Mundial, os militares brasileiros se afastaram da escola
francesa, que treinava nossos soldados, e se aproximaram dos Estados Unidos, junto aos
quais deveríamos lutar nos campos da Itália. Com isso, nosso conceito de segurança
militar foi adaptado também às doutrinas do National War College, segundo as quais o
verdadeiro perigo pode não vir de fora mas se achar instalado dentro do próprio país;
não são necessáriamente as potências militares estrangeiras, mas podem estar
enraizados na própria sociedade civil. Em resumo o verdadeiro perigo à nação
brasileira, pode ser o próprio cidadão brasileiro, que passa a ser tratado como inimigo
em potencial.
Foi dentro desse
espírito que os conspiradores anti-Jango, desde o princípio, aproximaram-se dos Estados
Unidos, procurando obter destes a garantia de apoio na luta contra o "perigo
interno".
Nesse processo, exerceram
papel importante o embaixador dos EUA no Brasil entre 1961 e 1966, professor Lincoln
Gordon, e seu assessor, o coronel Vernon Walters. Este último tinha uma proximidade maior
com o Brasil, pois, na Segunda Guerra, ainda major, atuou como interprete entre os
comandos do 5º Exército e a Força Expedicionária Brasileira, trabalhando ao
lado do tenente-coronel Humberto de Alencar Castelo Branco e em permanente contato com o
nosso comando militar.
Como falava fluentemente
o português e tinha um grande relacionamento com os setores civil e militar, Valters era
um contato valioso entre a embaixada americana e os conspiradores, levando a vantagem de
poder circular com maior liberdade, sem chamar tanto à atenção, o que não aconteceria
se as conversações de dessem diretamente com o embaixador.
Foi a partir desses
contatos, transmitidos fielmente por Lincoln Gordon ao Secretário de Estado americano,
Dean Rusk, que surgiu a idéia de se montar a Operação Brother Sam,
pela qual os Estados Unidos se comprometiam a dar toda cobertura de retaguarda para evitar
a comunização do país.
Não se conhece toda
extensão do acordo. Oficialmente, a participação dos Estados Unidos se deu apenas com o
envio de uma força-tarefa às águas do Atlântico Sul sob o pretexto de garantir a
retirada dos 40 mil cidadãos americanos residentes no Brasil. A chegada dessa
força-tarefa, ainda em águas internacionais, ocorreu em 28 de março, um Sábado de
Aleluia, quando ainda se pensava que a revolução só iria eclodir na segunda quinzena de
abril.
Como os acontecimentos
foram precipitados pela ação do general Mourão Filho, liquidando o assunto em dois
dias, não é possível avaliar até que ponto os Estados Unidos estariam dispostos a
intervir para garantir o sucesso do movimento, se este se prolongasse por mais tempo.
O GOLPE ANUNCIADO
Nada aconteceu por acaso. O movimento militar de 1964 foi o epílogo de problemas
políticos mal resolvidos desde a Proclamação da República em 1889, como relembra Helio
Fernandes, em artigo publicado na Tribuna da Imprensa-RJ em 9 de junho de 2004:
|
"1935 provocou o 10 de novembro de 1937, o 11 de maio de 1938,
o Manifesto [dos mineiros] de 1943, a
derrubada da ditadura em 1945, o Manifesto dos
coronéis de 1953,
o suicídio de Vargas em 1954, o golpe contra
Juscelino em 11 de novembro de 1955, a
renúncia de Janio em 1961, a posse
"controlada" de Jango no mesmo ano de 1961,
a ditadura escancarada de 1964.
"Sempre com os militares no centro de tudo, perdendo numa
oportunidade, ganhando na outra, coordenado e orquestrado.
"A partir da renúncia de
Janio e da posse de Jango, o País ficou num clima permanente de golpe. Só não percebeu
quem não quis.
"Civis e militares, TODOS,
SEM EXCEÇÃO, eram golpistas. Os civis não acreditavam que os militares ficassem com o
Poder, mas foram superados.
"Em 1964 houve outro golpe
militar, nenhuma surpresa. Na mesma linha do 15 de novembro do 1889, O PRIMEIRO GOLPE MILITAR DA HISTÓRIA DO BRASIL."
|
LEIA TAMBÉM: JANGO NO EXÍLIO
.
|
|