CAPÍTULO DOIS
COMO SE FAZ UM PRESIDENTE
A ELEIÇÃO DE CASTELO BRANCO
O início da marcha dos soldados mineiros (que formam a Coluna Tiradentes) em direção ao
Rio de Janeiro, na madrugada de 31 de março de 1964, apanhou de surpresa todos, tanto nas
hostes governistas como no entre os conspiradores, civis e militares, que se preparavam
para a derrubada do presidente João Goulart, mas que não esperavam pela antecipação do
movimento, feita pelo general Mourão Filho à revelia de todo o comando revolucionário.
Os acontecimentos que se
seguiram mostraram, entretanto, que as forças anti-Jango estavam melhor preparadas para
enfrentar a emergência, dominando de pronto a situação, com o controle dos meios de
comunicaçào e de transporte, e cuidando de todas as manobras militares necessárias para
a tomada da praça do Rio de Janeiro, onde se achava instalado de fato o governo federal.
Por seu lado, o
presidente João Goulart confiara demais em sua condição de chefe supremo das Forças
Armadas e descuidou de montar um esquema militar de emergência a ser acionado em momento
de necessidade, deixando à mostra todo o seu despreparo para enfrentar a rebelião que,
se sabia, havia de estourar a qualquer momento.
Como complicador, seu
ministro da Guerra, general Jair Dantas Ribeiro achava-se internado num hospital, com seu
estado de saúde bastante agravado, sofrendo duas cirurgias seguidas e deixando acéfalo o
comando militar do governo. Quando o presidente Goulart decidiu-se a fazer seu ministro o
comandante do 1º Exército, general Morais Âncora, a situação já estava
totalmente fora de controle. Inclusive o próprio Ancora apenas simulava acatar as ordens
do chefe supremo das Forças Armadas.
Perdendo o controle da
comunicação e do transporte, as forças civís de apoio ao Presidente, vale dizer, as
classes trabalhadoras e o movimento estudantil, ficaram impossibilitadas de pôr em
execução o plano de greve geral, por não disporem nem dos serviços telefônicos, nem
das estações de radiodifusão, que se achavam já nas mãos dos rebeldes.
A greve, pois, anunciada
num primeiro momento, teve de ser desativada horas depois, tanto mais que o único setor
que chegou a paralisar totalmente foi o de transporte coletivo, impedindo a locomoção de
trabalhadores para o centro da cidade. Era como se dessem um tiro no próprio pé.
Não surpreende, assim,
que o movimento militar tenha rapidamente dominado o Rio de Janeiro, consolidando suas
posições com a autonomeação do general Costa e Silva como ministro da Guerra e com a
subsequente nomeação de novos comandantes para o 1º Exército e a 1ª
Região Militar. Cuidou-se até da criação de um ambiente político, supostamente
popular, para a apresentação do nome general Castelo Branco à presidência da
República.
Agiram, pois, os
militares, com competência e profissionalismo, triunfando no campo militar e isolando a
sociedade civil o suficiente para evitar que esta lhes arrebatasse, num segundo momento,
os louros do sucesso alcançado.
O general Juarez Távora,
comandante da ala norte-nordeste na revolução de 1930, deixou isso bem claro, na
reunião com os governadores fiéis ao movimento:
"Em 1930, nós
tivemos a cerimônia e o constrangimento em não querer assumir diretamente o governo.
Pensávamos em colocar os civis na frente e manobrá-los de perto. Que ilusão, a nossa!
Dentro de pouco tempo, nós havíamos sido postos para trás, inteiramente desarticulados,
sem poder fazer nada do que planejávamos."
Revolução ou golpe,
não houve, em 1964, uma vitória popular. Registrou-se, ao inverso, uma indiscutível
conquista militar, em que a força sobrepujou o direito, ficando este último, a partir de
então, sujeito a regras casuísticas, transformadas em diplomas plenamente legais, ainda
que, muitas vezes, ilegítimos. (veja cronologia do movimento).
A
revolução vista
de dentro
Chovia, chovia muito, no
dia 31 de março e nos dias que se seguiram. Eram as "chuvas de março, fechando o
verão". E foi dentro desse ambiente carregado que se desenvolveram as manobras para
sustentação e consolidação do movimento militar.
Ainda no dia 31,
atendendo recomendações, o general Artur da Costa e Silva esconde-se em local seguro,
mas de fácil comunicação, enquanto o general Humberto de Alencar Castelo Branco prefere
dar seu expediente no edifício do ministério do Exército, no gabinete do EMEx, cujo
comando lhe pertencia. Comparecer ao trabalho, achava ele, era a melhor maneira de
despistar. Lá encontra 50 oficiais-estudantes da ECEME-Escola de Comando do Estado Maior
do Exército, que foram mandados pelo comandante Jurandir de Bizarria Mamede para dar-lhe
proteção e fazer-lhe a escolta.
Em seu gabinete, Castelo
mantêm contatos telefônicos com o Congresso Nacional em Brasília, recebe visitas dos
generais Emilio Maurel Filho e Ernesto Geisel, do coronel Ariel Pacca da Fonseca e, por
fim, do próprio general Costa e Silva, com quem são estabelecidas as bases de comando da
revolução. Costa e Silva assumiria "ad-hoc" o Ministério da Guerra e o
Comando Geral do movimento; Castelo suspenderia naquele momento suas funções no comando
militar e assumiria o comando civil, cuidando tão somente da articulação política.
"Parece que estou
sendo raptado", graceja Castelo, no momento em que é escoltado pelos oficiais-alunos
da ECEME. Desce pelo elevador, sai do Ministério, vence o bloqueio do Regimento de
Reconhecimento Mecanizado que cercava o edifício, e é conduzido à sua casa da rua
Nascimento Silva.
Após trocar a farda por
trajes civis, mais adequados à sua missão política, segue para o apartamento no
Edifício Igrejinha, na Avenida Atlântica, onde instala seu "Estado Maior
informal". Lá, se articula com Ademar de Queirós, Ernesto Geisel e Golberi de Couto
e Silva, recebendo e despachando mensagens com auxílio dos tenentes-coronéis Murilo
Gomes Ferreira, Leônidas Pires Gonçalves e Ivã de Sousa Mendes. Já havia feito uma
centena de contatos telefônicos quando, por volta da meia-noite, recebe ligação do
comandante do 2º Exército (São Paulo), general Amauri Kruel, informando sua
adesão ao movimento acrescentando que iria colocar suas tropas na rua. Inicia-se a
madrugada do dia 1º de abril.
Está fechado o esquema.
Agora, já com apoio consolidado do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Minas Gerais, seria
mais fácil colocar sob controle o 3º Exército (Porto Alegre) e o 4º
Exército (Recife), ainda indefinidos. Eram dois pontos críticos: em Recife se achava o
governador Arrais e o Rio Grande do Sul era a terra de Jango e Brizola, onde certamente
ambos procurariam refúgio, ao se sentirem perdidos.
Aliás, a recomendação
dada a Kruel, quando este chegou a Resende para encontrar-se com as tropas mineiras, foi
para que se deslocasse ao Rio Grande do Sul, a fim de assumir o controle da situação
naquele Estado. As notícias eram de que pelo menos Porto Alegre se achava sob o controle
dos legalistas e o comandante da 5ª Zona Aérea, brigadeiro
Lavanère-Wanderley, havia sofrido um atentado, felizmente sem maiores conseqüencias para
ele, morrendo um dos rebeldes.
A situação acha-se sob
controle em todos os pontos estratégicos. Dominando a Praia Vermelha e a Urca encontra-se
o comandante da ECEME, general Bizarria Mamede; na Academia Militar de Agulhas Negras
(Resende) o comandante é o general Emílio Garrastazu Médici; no posto do Castelo,
acha-se o general Ademar de Queirós. De seu posto de comando, o general Costa e Silva,
agora Comandante Geral do movimento, fecha o cerco, enviando generais de sua confiança
para assumir os demais comandos no Rio de Janeiro.
A certa altura da noite,
por razões estratégicas, tanto Costa e Silva como Castelo Branco mudaram, cada um de per
si, o local de seus postos de comando, auxiliados nessa tarefa pelo general Orlando
Geisel, pelos tenentes-coronéis João Batista de Figueiredo e Ivã de Sousa Mendes (que
cedeu seu apartamento a Castelo) e pelo major Dickson Melges Grael.
Enquanto isso, os
legalistas, fiéis a João Goulart, somente haviam conseguido tomar a TV Tupi, na Urca, e
não puderam evitar que o Palácio das Laranjeiras, sede do governo federal no Rio de
Janeiro, fosse obstruído por caminhões da limpeza pública que o general Salvador
Mandim, secretário de Segurança de Lacerda, mandara para bloquear a entrada e saída de
pessoas e veículos.
A visão de
dentro
do palácio
Desde o primeiro momento,
o presidente João Goulart, sob uma redoma construída com suas próprias ilusões, se
achava completamente afastado da realidade. Não acreditou quando o senador Juscelino
Kubitschek telefonou ao Palácio das Laranjeiras para avisá-lo de que o movimento militar
saira para as ruas.
Quando encontrou
razões para preocupar-se, foi a busca do auxílio de seu ministro da Guerra,
convalescendo em leito de hospital, após uma delicada cirurgia. Com efeito, o ministro
Jair Dantas Soares, quixotescamente, instalou seu gabinete no próprio hospital, tentando
articular a reação, mas seu estado de saúde agravou-se, tendo de sofrer uma segunda
operação.
Desorientado, Jango
nomeou como ministro da Guerra o comandante do 1º Exército, general Morais
Âncora, de cuja fidelidade, a esta altura, já era lícito duvidar.
Ao general Luís Tavares
da Cunha, comandante da 1ª Divisão de Infantaria, sediada em Niteroi, foi
dada a incumbência de barrar o avanço da Coluna Tiradentes, que seguia para o Rio de
Janeiro, comandada pelo general Murici e, para isso, foram colocados à sua disposição
três Regimentos de Infantaria sediados no Rio de Janeiro.
Cedo, Tavares da Cunha
descobriu que era um comandante sem comandados. O 3º RI (Regimento Sampaio)
já seguira para Resende, sob o pretexto de dar combate aos rebeldes; o 1º e o
2º RIs já haviam aderido ao movimento militar, recebendo de Costa e Silva a
incumbência de barrar a entrada das tropas de São Paulo, caso Kruel insistisse em se
manter legalista.
As últimas
tentativas
de reação
Na manhã de 1º
de abril, Jango se convencera de que já perdera a praça do Rio de Janeiro e, consultando
seus três ministros militares (general Morais Âncora, almirante Wilson Fadul e
brigadeiro Anísio Botelho), decidiu transferir-se para Brasília, dizendo ao seu
secretário de imprensa, Raul Riff: "Vamos. Vou sair daqui. Isto aqui está se
transformando em uma armadilha."
Em Brasília, havia ainda
alguns focos de resistência. No Palácio do Planalto encontravam-se, pelo menos, Darci
Ribeiro, chefe da Casa Civil e Waldir Pires, procurador geral da República. No comando
militar permanecia o general Nicolau Fico, sustentando a posição, mas cuja fidelidade
estava sendo posta à prova, por suas ligações com o general Kruel que, ao final da
noite de 31, aderira ao movimento.
Ainda assim, e apesar da
interdição do aeroporto em Brasilia, Jango chegou sem maiores dificuldades, sendo
recebido pelo próprio general Fico e seguindo para a granja do Torto, onde se reuniu-se
com os que ainda lhe eram fiéis: o próprio general Fico, mais Waldir Pires, Doutel de
Andrade, Almino Afonso, Tancredo Neves, o general Assis Brasil e outros auxiliares. Conta
Hélio Silva:
"Jango estava
cansado. Dizia que a revolução não era contra ele, mas contra as reformas. Se
renunciasse a elas, continuaria. Se quisesse restringir as prerrogativas dos
trabalhadores, ficaria. A lei que regulamentou a remessa de lucros para o exterior estava
na base do movimento (...) Comentou que a CIA [órgão de inteligência dos Estados
Unidos] estava inspirando tudo."
Após uma análise da
situação, decidiu-se que Jango deveria seguir para Porto Alegre, onde ainda persistia
resistência ao golpe. Com ele iriam o general Assis Brasil e alguns de seus assessores.
Mas, no aeroporto, o Coronado da Varig, requisitado pela presidência da República,
apresentou falha mecânica e não pôde levantar vôo. Conseguiram, então, um avião de
pequeno porte, no qual seguiram João Goulart e o general Assis Brasil. Ficaram em
Brasília Darci Ribeiro, Valdir Pires e o general Fico, além do deputado Tancredo Neves,
que ia comandar a reação no Congresso.
Encerrando este tópico:
Em Porto Alegre, João Goulart e Leonel Brizola tiveram um forte desentendimento.
Brizola queria levantar os quartéis e o povo para uma contra-revolução; Jango
tencionava encerrar o assunto, pedindo asilo ao Uruguai, o que acabou acontecendo.
Nasceu daí uma inimizade
entre os dois que perdurou por doze anos. Só vieram a se encontrar novamente em 1976,
pouco antes da morte de Jango.
O embate no
Congresso
No Congresso, as forças
se dividem, fazendo prever um tumulto na sessão convocada para o dia 2 de abril, que se
estendeu até as 3 horas da madrugada do dia seguinte. A pedido de Moura Andrade, o
deputado Adauto Lúcio Cardoso forma um "pelotão de choque", postando em
lugares estratégicos os parlamentares mais corpulentos e bem alimentados, instituidos
naquele momento em "leões de chácara" do parlamento. Os tumultos realmente
acontecem, levando até, em certo momento, à suspensão dos trabalhos.
Apesar de ter em mãos um
ofício de Darci Ribeiro, chefe da Casa Civil da Presidência, comunicando que o
Presidente constitucional seguira para Porto Alegre a fim de comandar a resistência, o
presidente do Congresso, Moura Andrade, prefere considerá-lo em lugar incerto e não
sabido, objetivando uma solução definitiva à questão, o que fez subir ainda mais a
temperatura. É isso que registram os anais do Congresso:
Moura Andrade:
"O senhor presidente da República deixou a sede do governo. (Protestos. Palmas
prolongadas.) Deixou a nação acéfala numa hora gravíssima da vida brasileira, em que
é mister que o chefe de Estado permaneça à frente do Governo. (Apoiados. Muito bem.) O
senhor presidente da República abandonou o Governo. (Aplausos calorosos. Tumulto. Soam
insistentemente as campainhas). (...) Recai sobre a mesa a responsabilidade pela sorte da
população do Brasil em peso.
"Assim sendo,
declaro vaga a presidência da República. (Palmas prolongadas. Muito bem. Protestos). E,
nos termos do artigo 79 da Constituição Federal, invisto no cargo o presidente da
Câmara dos Deputados, sr. Ranieri Mazzilli. (Palmas prolongadas. Muito bem. Protestos.)
Está encerrada a sessão."
Isto posto, Auro
Soares, presidente do Congresso e Ranieri Mazzili, presidente da Câmara, juntam-se ao
ministro Álvaro Ribeiro da Costa, presidente do Supremo Tribunal Federal. Os três saem
pelos fundos do edifício e seguem para o 3º andar do Palácio do Planalto,
onde Mazzili toma posse de fato na presidência da República.
São 3h45m da madrugada
de 2 de abril. Ranieri Mazzili toma posse efetiva da presidência da República,
exercendo, como da vez anterior, o nada honroso papel de "vaquinha de
presépio". Quando da renúncia de Jânio Quadros, encontra uma junta, formada pelos
três ministros militares, que vetavam a posse de João Goulart; agora, tem de aceitar uma
situação inusitada: o comando do país se encontra no Rio de Janeiro, dividido entre
Costa e Silva, autonomeado ministro da Guerra, e Castelo Branco, candidato certo à
Presidência, com os poderes do comando civil. O ministério de Mazzili teve de ser
escolhido no Rio de Janeiro e submetido à apreciação do alto comando revolucionário,
ao qual pertencia a última palavra.
Aliás, quando alguém
levou a Costa e Silva um boato mal-intencionado de que Mazzili teria nomeado Israel
Pinheiro [homem forte de JK] para chefe de sua Casa Civil, o general foi categórico:
"Se nomeou, vai ter que desnomeá-lo!"
O povo nas
ruas
No Rio de Janeiro,
os lacerdistas e os partidários do movimento entram no clima do "oba-oba",
acreditando que os problemas do país estavam definitivamente resolvidos (um ano após o
próprio Lacerda estava desencantado, mas neste momento, o clima é esse).
As senhoras católicas, a
exemplo de São Paulo e Santos, levam às ruas sua Marcha com Deus, pela Família e pela
Liberdade, cujos manifestantes se deslocaram da avenida Presidente Vargas até a
Cinelândia. Na "marcha", uma figura de especial destaque: D. Antonieta Castelo
Branco Diniz, a dona Nieta, filha mais velha do general Castelo Branco.
Entusiasmado, também,
com o sucesso inesperado do movimento, o Cardeal do Rio de Janeiro, D. Jaime de Barros
Câmara (sucessor de D. Helder, que havia sido transferido, tempos atrás para Olinda),
defende punições exemplares, buscando uma frase sepultada com os tempos da Inquisição:
"Punir os que erram é uma obra de misericórdia".
Contagiando-se com o
clima, uma parte da população vai às ruas, disposta à revanche. O jornal Última Hora,
partidário de Goulart é invadido e empastelado, sendo queimadas oito viaturas de
reportagem e distribuição.
Por todos os lados,
muitas manifestações, mas poucos confrontos, já que a polícia civil, misturada aos
manifestantes revolucionários, tornava difícil, quando não impossível, qualquer
movimento de protesto. As notícias sobre a situação nas ruas eram desencontradas.
Vera Gertel conta:
"Resolvemos ir até a Cinelândia, a pé, pois não havia transporte algum. Tudo em
greve. Quando estávamos chegando, Isolda, eu e Regina, encontramos com um pessoal que
vinha de lá e nos avisou que não fôssemos: era tempo perdido, estava havendo um
tiroteio, massacre na Cinelândia. Pedimos uma carona, sentamos no banco de trás e, na
frente, vinham dois oficiais da Marinha, um deles tinha nas mãos um arpão de pesca
submarina. Eles riam muito, porque, ao mostrar o arpão para as pessoas, elas saiam
correndo.
"Ao passarmos pelo
Aterro, vimos a UNE em chamas. Eles pararam o carro para observar o espetáculo. Isolda
caiu em prantos ao ver a cena. E eu, beliscando-a, mandava-a calar a boca e ficar quieta.
(...) Ao passarmos pelo Tunel Novo, aquelas buzinas todas festejavam o golpe. O clima era
de festa. E o oficial de Marinha que segurava o arpão gritava: Agora sim, o dólar
vai baixar!"
Na UNE, a
situação
é crítica
Na UNE, a situação é
crítica. José Serra, eleito presidente após o término do mandato de Aldo Arantes,
refugiou-se com outro diretor na casa de um amigo no "sertão carioca", onde, se
imaginava, não seriam encontrados.
À medida que vão
chegando as notícias sobre a vitória do movimento, os estudantes, em sua maioria, se
retiram, ficando apenas um punhado de jovens, dispostos a testar sua própria coragem e
resistência. Não imaginavam o estado de anarquia em que se achavam as ruas, com blocos
de vândalos praticando atos de violência contra os que, em passado recente, ousaram
apoiar o governo João Goulart. Carlos Veneza, participante do grupo teatral, descreve o
momento:
"No dia 1º
de abril eu passei pela Cinelândia e notei um movimento estranhíssimo de militares na
janela do Clube Militar. Peguei uma carona e fui avisar o Vianinha de que a manifestação
que nós havíamos marcado, também para a Cinelândia, onde faríamos um teatro de rua em
defesa do governo João Goulart, não poderia mais acontecer. Ao chegar à UNE, nossos
colegas já haviam feito uma barricada com móveis e cadeiras, em frente ao prédio. E lá
ficamos todos nós sitiados, esperando os acontecimentos.
"Aos poucos, foram
chegando carros e mais carros em frente à UNE, com rapazes da então classe média,
comendo cachorro-quente com Coca-Cola e dizendo que os comunistas foram derrotados,
que Jango já havia fugido. (...) Aquelas pessoas buzinavam, jogavam objetos que
podiam provocar incêndios na barricada. Vianinha disse: Vamos procurar sair daqui o
mais rápido possível porque eles vão invadir a UNE.
"Saimos pelos
fundos, pelo quintal e, de um dos edifícios ao lado as pessoas gritavam: Foge, que
eu quero ver, comunista!, enquanto, do outro lado, outras pessoas diziam: Não
foge, não, menino, nós estamos do lado de vocês. Vocês têm toda razão!. De
certa maneira, isso é a síntese desse maniqueismo em que se transformou a história
política deste país.
"E nós, enquanto
víamos o prédio ser tomado, pulamos o muro dos fundos e saímos numa tinturaria. Pegamos
um taxi, que deu volta pelo Aterro e, em lágrimas, vimos nosso prédio pegando fogo
eu, o Vianinha, o João das Neves e acho que o Milani em meio a um
verdadeiro piquenique da classe bem alimentada, dos jovens rapazes da classe média que
comemoravam, entre urras, o incêndio do Centro Popular de Teatro e da União Nacional de
Estudantes. Dali, fomos para a casa de Vera Gertel. (...)
"Para espanto nosso,
no dia seguinte, um dos renomados matutinos brasileiros reproduzia, em primeira página,
uma foto com vários rifles simulados, de madeira, que iam ser usados na peça
"Ripió Lacraia". A legenda dizia que um farto material bélico havia sido
encontrado nos salões da UNE."
A sede da UNE, ou o que
restou dela depois do incêndio, constituiu-se num símbolo da resistência estudantil,
incomodando o novo sistema instalado no país. Anos depois, quando os estudantes haviam
conseguido recursos para sua reforma, setores do governo determinaram sua demolição,
ignorando até uma liminar conseguida na Justiça para evitar a destruição. Estando
trancados os portões o juíz teve de escalar o muro para, de arma em punho, fazer cumprir
a determinação judicial. Depois, cassada a liminar, a demolição prosseguiu até
extingüir, para todo sempre, qualquer lembrança dos dias gloriosos vividos por aquela
juventude, cheia de idealismo, embora não necessariamente certa em seus propósitos.
Preparando o
caminho
de Castelo
Embora o general
Costa e Silva usasse a artimanha do despistamento, dizendo que, pessoalmente, preferia um
candidato civil (chegou a ser sugerido o nome de Rafael de Almeida Magalhães), em
realidade, todas as ações políticas estavam sendo endereçadas para o lançamento
oficial do nome do general Humberto de Alencar Castelo Branco.
No dia 4 de abril,
reuniam-se no Palácio Guanabara os sete governadores mais achegados ao movimento
revolucionário: Carlos Lacerda (GB), Ildo Meneghetti (RS), Ademar de Barros (SP),
Magalhães Pinto (MG), Fernando Costa (MT), Nei Braga (PR) e Mauro Borges (GO). [A esse
"Clube dos Sete" logo se acrescentaria um oitavo nome, o de Virgílio Távora,
que assumiu o poder no Ceará, após a prisão do governador Miguel Arrais]. Presentes
estavam, também, no salão nobre do palácio, vários políticos de Brasília e do Rio de
Janeiro, entre eles o deputado Afrânio de Oliveira, da ala janista.
Em certo momento chega,
aparentemente sem ser convidado, o general Augusto Cesar Moniz de Aragão, da ala mais
radical do Clube Militar, que faz um veemente discurso, indicando o nome de Castelo
Branco. Ato contínuo, o deputado Afrânio de Oliveira, remanescene do
"janismo", apoia o general e termina seu discurso com as palavras: "Se o
Congresso não se mostrar à altura deste momento histórico que vivemos, serei o primeiro
a pedir da tribuna da Câmara o fechamento desse Congresso."
Carlos Lacerda, então,
libera o salão para a imprensa, rádio e TV, fazendo seu pronunciamento de que os
governadores, em peso, apoiam o nome de Castelo Branco para a presidência da República.
Castelo, em casa, assiste
o pronunciamento pela televisão. Ao seu lado se encontra o coronel Vernon Walters, adido
da Embaixada Americana no Brasil.
Eram 11 horas da noite
quando os governadores foram ao edifício do Ministério da Guerra para levar a decisão
dos governadores a favor de Castelo. Não foram felizes nesse encontro. Costa e Silva
aproveitou o momento para tentar "enquadrar" alguns dos governadores ao sistema
militar que se instalava. Repreendeu Magalhães Pinto, dizendo-lhe que a atitude de Minas
no movimento tinha um caráter nitidamente separatista, que não mais seria tolerado.
Quando Magalhães procurou notícias sobre o governador sergipano Seixas Doria, Costa e
Silva lhe respondeu: "Seixas Dória está na prisão. E muitos outros serão
presos."
Mas o momento de maior
tensão foi quando Costa e Silva insinuou a Carlos Lacerda que não deveria falar antes
que ele próprio lhe desse permissão. Lacerda destravou a língua e, lembrando
acontecimentos anteriores, disparou contra o general:
"Não sei onde o
senhor estava em 1945. Não sei onde o senhor estava em 1954. Mas sei onde o senhor estava
no dia 11 de novembro [de 1955]. O senhor estava ao lado do general Lott [que derrubou
dois Presidentes em 10 dias].
Às 4 horas da manhã, ao
encerrar-se a reunião, Lacerda tentou recompor-se com o general, mas este virou-lhe as
costas, deixando-o a falar sozinho. Na segunda reunião dos governadores, ocorrida no dia
seguinte, Lacerda não compareceu, preferindo enviar, em seu lugar, o udenista baiano
Juraci Magalhães. Lacerda já estava sob observação e, tempos depois, quando juntou-se
a JK e Jango para formar uma Frente Ampla, teve seus direitos políticos suspensos, sendo
afastado da política e impedido de exercer sua profissão de jornalista.
Uma
concentração
pró Castelo
A partir do ato dos
governadores, telegramas de apoio a Castelo chegam de todo o Brasil. O poeta e político
Augusto Frederico Schmidt (1906-1965) dá uma entrevista à imprensa defendendo a
candidatura de Castelo. E a professora Sandra Cavalcanti, secretária de Serviços Sociais
da Guanabara reune cerca de mil senhoras em frente à casa de Castelo Branco para uma
manifestação de apoio, na manhã de domingo, dia 5 de abril.
Para garantir o sucesso,
não descuida em acertar a presença do grupo empresarial de Roberto Marinho: a TV, a
rádio e o jornal O Globo. O radialista Cesar de Alencar que, um dia, ficaria tristemente
famoso por sua ação delatória, faz a transmissão do acontecimento ao vivo. Castelo
Branco, da janela, assiste a tudo, na companhia do marechal Mascarenhas de Morais.
Mascarenhas é um nome de
peso. Foi o comandante-em-chefe da Força Expedicionária Brasileira, o único marechal
brasileiro com legitimidade para usar esse título. Está ali para endossar o nome de
Castelo que, como tenente-coronel, fez parte de seu estado-maior na FEB.
O coronel Vernon Walters,
que não tinha sido avisado previamente, se dirigia para a casa de Castelo, quando viu a
concentração e voltou. Não ficaria bem, naquele momento, a presença do adido da
Embaixada americana, mesmo havendo ele atuado nos campos da Itália ao lado de Castelo e
Mascarenhas.
Ao final da
manifestação Castelo Branco discursou, agradecendo e redirecionando os aplausos
recebidos "a seus camaradas das Forças Armadas, aos governadores destemidos, a
homens que tinham sabido enfrentar o governo intolerante, e à mulher
brasileira que, além de mostrar sua grandeza de coração, tinha também revelado sua
grande fibra de combatente".
"Três
vezes
me negarás"
O apoio representado por
aquela manifestação é o último ato para mostrar ao mundo que os militares não estavam
promovendo um golpe de estado sendo a candidatura militar um produto da vontade popular. A
partir desse momento, Castelo Branco se sentia livre para aceitar a indicação de seu
nome e o fez na tarde do mesmo dia, quando recebeu a visita dos governadores e de
políticos. Essa eleição, embora indireta, se faria nos termos da Constituição vigente
(a de 1946) e se destinava a completar o mandato de João Goulart, que iria até 31 de
janeiro de 1966.
Então, o governador de
São Paulo, candidato virtual à Presidência nas eleições de 1955, pergunta a Castelo:
"Queremos saber se, assumindo a presidência da República, o senhor procederá como
um magistrado nas eleições de 1965." Castelo responde, contrariado, dizendo que seu
passado era a melhor garantia que lhe poderia dar.
No dia seguinte, já no
edifício do ministério da Guerra, quem lhe faz a mesma pergunta é Francisco Negrão de
Lima, elemento de ligação entre o movimento militar e JK, este último, também,
candidato à Presidência em 1965. Juscelino se oferecia para trabalhar junto aos
parlamentares do PSD para descarregar a votação no nome de Castelo Branco, mas queria
ter uma garantia de que as regras constitucionais continuariam sendo respeitadas em seu
governo. Castelo mandou o seguinte recado: "Eles [os militares] não vão estabelecer
uma ditadura."
A resposta não satisfez
inteiramente o PSD e, desta vez, coube a Amaral Peixoto, genro do falecido presidente
Getúlio Vargas, fazer os contatos com Castelo Branco, em busca de uma garantia de que as
regras democráticas seriam respeitadas.
Pela terceira vez,
Castelo fez sua profissão de fé democrática: "Se eu for Presidente, a eleição de
1965 será realizada de acordo com o calendário eleitoral e, em seguida, tomarão posse
os eleitos".
Como se sabe, nada disso
aconteceu. Em 1965 o mandato de Castelo foi prorrogado e, em 1967 o nome de Costa e Silva
foi levado ao Congresso para ratificação como seu sucessor. Ficava estabelecida uma
dinastia militar dentro da qual a função do Congresso era apenas a de confirmar os nomes
dos príncipes-eleitos.
Nasce o Ato
Institucional nº 1
No princípio, era apenas
um Ato Adicional, que seria votado pelo Congresso, estabelecendo as regras da transição,
após a vitória do movimento. Fora redigido pelo jurista Carlos Medeiros Silva,
especializado em direito constitucional, e entregue ao general Castelo Branco, que o
encaminhou ao general Costa e Silva, que endereçou o documento ao presidente do
Congresso, senador Auro Soares de Moura Andrade, que reuniu-se, no dia 6, com o
presidente-interino, Ranieri Mazzili e com o ministro da Justiça Gama e Silva (nomeado
pelo general Costa e Silva). Juntos, examinaram não apenas o conteúdo do documento como
também sua viabilidade de aprovação no Congresso.
No dia seguinte, Mazzili
viaja para o Rio de Janeiro, onde encontra a cúpula do Parlamento e combina com os
parlamentares a tramitação do Ato no Congresso. Os parlamentares consultados informam
que, com muita sorte, isso demandaria pelo menos uma semana.
Uma semana é muito
tempo. Bilac Pinto (UDN) entra em contato com jurista Carlos Medeiros e pede-lhe que
solicite a ajuda de Francisco Campos para encontrar uma solução mais rápida. Francisco
Campos, apelidado de "Chico Ciência" foi o autor da Constituição do Estado
Novo que, em 1937, permitiu o fechamento do Congresso, entregando todos os poderes ao
ditador Getúlio Vargas.
Era o homem certo para
aquele momento. Reunindo-se os dois juristas com Costa e Silva, Francisco Campos insinuou
que, se tinham pressa, deviam transformar o documento num Ato Institucional, a ser
outorgado pelo próprio comando revolucionário, recebendo sinal verde para que ambos
refizessem o texto. Conta o "brasilianista" John Foster Dulles em seu livro
"Castelo Branco O Caminho para a Presidência":
"Francisco Campos
arregaçou as mangas e transformou o preâmbulo convencional de Medeiros em um retumbante
prólogo, ou mensagem à nação, proclamando o direito e a responsabilidade da
revolução vitoriosa, representada pelos Comandantes-em-Chefe dos três ramos das Forças
Armadas, de editar o Ato Institucional."
Basicamente, o Ato (que
não tinha número, pois o ato que institucionaliza uma revolução deve ser primeiro e
único) dava ao comando revolucionário e, depois, ao presidente eleito, o direito de
cassar mandatos federais, estaduais e municipais, suspender direitos políticos,
"excluída a apreciação judicial dessas decisões". Antecipava o prazo para a
eleição do novo Presidente e de seu Vice, que deveria ser feita pelo Congresso dois dias
após a publicação do Ato Institucional.
Outra inovação
importante era a de que o presidente da República poderia sancionar qualquer lei que,
enviada ao Congresso, não fosse aprovada em trinta dias. Surgia o recurso ao
"decurso de prazo", que inspirou em seguida os famosos decretos-leis. Dava
também poderes ao Presidente para apresentar ao Congresso emendas à Constituição que
poderiam ser aprovadas sem quorum especial, ou seja, por maioria simples dos congressistas
presentes à sessão.
O Ato Institucional deveria
vigorar até 31 de janeiro de 1966, data prevista para posse do novo Presidente
constitucional a ser eleito em 3 de outubro de 1955 (Só que em 1955 acabou não havendo
eleição, porque o mandato de Castelo Branco foi prorrogado).
Em 9 de abril, em
cerimônia especial, o documento foi assinado pela junta militar revolucionária, composta
pelo general Costa e Silva, ministro da Guerra, pelo almirante Augusto Rademaker, ministro
da Marinha e pelo brigadeiro Correia de Melo, ministro da Aeronáutica, na presença de
Castelo Branco e dos mais importantes nomes do comando militar nas três Armas.
Logo em seguida, foi
anunciada a suspensão de direitos políticos de João Goulart, Jânio Quadros e Luís
Carlos Prestes. No dia seguinte foram cassados os mandatos de deputados e senadores da
Frente Parlamentar Nacionalista, suspensos os direitos políticos de dezenas de pessoas de
destaque e, pouco depois, transferidos para a reserva 122 oficiais das três Armas. Era a
"guilhotina" que começava a funcionar e que iria trabalhar sem cessar dali em
diante.
E o Brasil
tem seu
novo Presidente
Na tarde de sábado, 11
de abril de 1964, reune-se o Congresso Nacional para a eleição do novo presidente da
República. Os parlamentares comparecem em peso. Os deputados e senadores que tiveram seus
mandatos preservados estavam lá; e, para substituir os cassados, compareceram os
suplentes que conseguiram chegar a tempo em Brasilia.
Às cinco horas da tarde,
com a transmissão pelo rádio (a TV ainda não tinha condições técnicas de formar rede
nacional) é iniciada a votação. Castelo recebe 361 votos, quase metade deles do PSD,
conseguidos pela ação de JK, que mais tarde viria a ser cassado pelo mesmo regime que
ajudou a formar. Registram-se 3 votos para o general Juarez Távora e outros 2 para o o
general Eurico Gaspar Dutra.
Para vice-Presidente o
escolhido é José Maria Alkmin, do PSD de JK, mas que também fora secretário do governo
de Magalhães Pinto (UDN). Trata-se, pois, de um elo de ligação entre as duas correntes
divergentes e, ao mesmo tempo, sua presença virtual no governo dá uma aparência de
participação civil, importante para manter a boa imagem do país no exterior. Auro
Soares retirou sua candidatura a Vice, o que garantiu a Alkmin 256 votos, sendo o restante
computado em abstenções.
Na casa de Castelo,
"invadida pelas visitas", já se achava todo aparato de TV montado pela Agência
Nacional, permitindo que o Presidente eleito fizesse, de imediato, um discurso,
agradecendo os apoios recebidos e ressaltando que assumira essa tão grande
responsabilidade "estimulado pelo calor da opinião pública, revelado através de
autênticas manifestações populares". É um cuidado quase obsessivo para convencer
a todos que se tratava de uma revolução popular, e não um golpe de estado militar.
Uma vez mais, em seu
discurso, Castelo garantiu o cumprimento do calendário eleitoral, solicitando o apoio de
todos para "entregar, ao iniciar-se o ano de 1966, ao meu sucessor, legitimamente
eleito pelo povo em eleições livres, uma nação coesa, ainda mais confiante em seu
futuro, liberta dos temores e dos angustiosos problemas do momento atual".