| |
CAPÍTULO QUATRO
O FIM DA ESPERANÇA
COSTA E SILVA, O AI-5 E A JUNTA MILITAR
A
militarização do movimento revolucionário de 1964 começou nos primeiros dias de abril
desse mesmo ano, quando o general Costa e Silva, feito por antecipação ministro da
Guerra, começou a estreitar os limites de atuação dos líderes civís. Ao seu lado,
dois outros ministros, adrede preparados, que reunidos formavam a Junta Militar
Revolucionária: o almirante Augusto Rademaker, da Marinha, e o brigadeiro Correia de
Melo, da Aeronáutica.
Costa e Silva escolheu
como seu chefe de gabinete o general Jaime Portela. Começava-se a montar o Sistema que
iria governar o país nos próximos 21 anos, em cuja primeira fase o general Portela viria
a ser uma das peças-chave, introduzido no governo Castelo Branco como assessor do
ministro da Guerra e, no governo Costa e Silva, como chefe da Casa Militar.
Lentamente, o esquema
político-militar foi-se ampliando e impondo sua vontade. Primeiro, veio a prorrogação
do mandato de Castelo Branco. Depois, a edição do Ato Institucional nº2, para acalmar
as Forças Armadas, preocupadas com o resultado das eleições diretas, nas quais a
oposição fizera os governadores de Minas e Guanabara.
Castelo Branco viria a
editar mais dois Atos, um criando a figura do governador "biônico" e outro
condicionando o Congresso Nacional para garantir a aprovação da nova Constituição,
redigida nos gabinetes do Palácio do Planalto. Depois, o mesmo Castelo teve de engolir a
candidatura do general Costa e Silva à presidência da República, em eleições
indiretas e como candidato único, já que as regras institucionais permitiam à
oposição apenas participar, não lhe dando chances de vitória.
Se alguém tivera no
passado alguma dúvida de que o fechamento do regime iria até as últimas
conseqüências, acordou finalmente para a realidade quando o novo Presidente, Costa e
Silva, editou o Ato Institucional nº5, o mais perverso de todos, limitando de vez os
poderes do Congresso e do Judiciário e retirando da Nação brasileira o pouco que ainda
lhe restava de direitos de cidadania.
Não se transforme o
regime militar na raiz de todos os males que afligiam o país. Cuba continuava exportando
sua revolução para toda a América Latina e os jovens, idealistas e sedentos de reformar
o mundo, eram presa fácil de seu proselitismo. Por outro lado, o Partido Comunista
Brasileiro estava firmemente organizado, com uma linha de ação contínua desde os anos
vinte. Entre as principais lideranças se achava Carlos Marighela que, jovem ainda,
participara da Intentona de 1935, fora depois Constituinte de 1946 e achava-se agora com
plena liberdade de ação, ao contrário de Prestes, que tinha de manter-se escondido.
A par com esses dois
focos de contestação, criaram-se, no correr da ditadura, inúmeros outros movimentos
revolucionários: a VPR, o MR-8, o COLINA, o MR-Tiradentes registrando-se ainda o
ressurgimento da ANL, a Aliança que planejou a Intentona de 35. Nada de se estranhar. Em
qualquer época e em qualquer lugar, o entupimento dos canais de comunicação leva a
explosões, tanto mais fortes quanto maior a pressão aplicada.
No extremo oposto,
organizaram-se o Comando de Caça aos Comunistas e o Esquadrão da Morte, cujo poder de
ação era maior, por se esconder à sombra do poder que, se não lhes reconhecia os atos,
também não era célere nas investigações e nas punições.
A cada ação da direita,
correspondia uma reação da esquerda; uma e outra caminhavam para os extremos,
conjuntamente, procurando manter o equilíbrio da gangorra e, se possível, fazê-la
pender para seu lado. Somente o entendimento poderia barrar a escalada da violência e uma
das tentativas mais sérias nesse sentido foi a criação da Frente Ampla, assunto do
próximo capítulo, com o título: "Conversar é preciso". A radicalização do
processo também será alvo de um capítulo aparte, com o título: "Os anos de
chumbo".
Passo a
passo,
fecha-se o cerco
Castelo Branco elege-se,
ainda que por caminhos transversos, apenas para completar o período do Presidente
deposto, João Goulart, ou seja, até 31 de janeiro de 1966. Poucos meses após, seu
mandato é prorrogado até 15 de março de 1967. O Ato Institucional nº1, de início,
chamava-se simplesmente Ato Institucional, pois pretendia ser o primeiro e único. Castelo
Branco assinaria mais três e os governos seguintes continuaram editando-os sem parar,
criando uma teia de casuismos em que se enredou, até a morte, a democracia brasileira.
O AI-2 torna-se o
primeiro marco efetivo da "linha dura" instalada nas Forças Armadas. Se não
cassou os mandatos dos dois novos governadores de oposição, eleitos por cochilo
revolucionário, pelo menos acabou com os partidos de representação, obrigando a classe
política a se alinhar a um bipartidarismo feito sob medida para impedir que a oposição
conquistasse novos postos significativos. Surgem a ARENA, para todo o sempre partido do
Sistema, e o MDB, condenado a ser eternamente oposição.
Com o AI-3, impedem-se
novas eleições diretas para governadores. Cria-se a figura do governador
"biônico", escolhido pelo presidente da República com base em uma lista
tríplice, e ratificado pelas Assembléias Legislativas, tendo-se o cuidado prévio de
cassar mandatos de parlamentares, quando necessário, para garantir resultados
favoráveis.
Fortalecida com essas
medidas, a "linha dura" impõe Costa e Silva (que, passando para a reserva, foi
promovido a marechal) como sucessor de Castelo Branco. Em 15 de março de 1967 o novo
Presidente é empossado e, com ele, entra em vigor a nova Constituição, promulgada em 24
de janeiro de 1967, mas que Castelo Branco manteve em um congelador até o último dia de
seu governo, garantindo-lhe o uso dos poderes de excessão constantes dos Atos
revolucionários.
Quem era
Costa e Silva
Artur da Costa e Silva
nasceu em Taquari, Rio Grande do Sul, em 3 de outubro de 1902. Estudou com Castelo Branco
no Colégio Militar de Porto Alegre e formou-se oficial na Escola Militar do Realengo, no
Rio de Janeiro.
Participou das revoltas
tenentistas de 1922 (era, então, aspirante a oficial), tendo em conseqüencia, sido preso
no navio «Alfenas», fundeado na baía da Guanabara (vide foto); esteve presente na
revolução de 1930 e na de 1932, para depois se apagar na rotina da caserna. Somente em
1954 seu nome voltou a ter algum destaque, ao participar, com os generais Lott e Denys, do
movimento que, em dez dias, derrubou os presidentes Café Filho e Carlos Luz. Em 1963, era
um general sem comando de tropa, envolvido apenas em atividades burocráticas; sua estrela
voltou a brilhar somente com a vitória do movimento de 31 de março de 1964.
No dia 2 de abril, sendo
o oficial mais antigo do Exército, Costa e Silva assumiu o comando do Exército e
constituiu a Junta Militar Revolucionária, formada por ele, pelo almirante Augusto
Rademaker, ministro da Marinha, e pelo brigadeiro Correia de Melo, ministro da
Aeronáutica.
Transplantada a Junta
Militar para o governo de Castelo Branco, Costa e Silva tornou-se o representante da
"linha dura" no governo e impôs sua candidatura a Castelo Branco, fazendo-se
seu sucessor e tomando posse em 15 de março de 1967.
Era casado com dona
Iolanda Ramos Barbosa, que participou intensamente de sua vida. Tinha uma língua
destravada e, não raras vezes, se conhecia por ela assuntos que o Sistema pretendia
manter em sigilo. O casal teve um único filho, Álcio da Costa e Silva.
O novo
Ministério ficou assim constituído: Casa
Civil, Rondon Pacheco; Casa Militar, general Jaime
Portela; Exército (antigo
Ministério da Guerra), general Aurélio de Lira
Tavares; Marinha, almirante Augusto Hamann Rademaker Grunewald; Aeronáutica,
brigadeiro Márcio de Sousa e Melo; Relações
Exteriores, José de Magalhães Pinto; Fazenda,
Antônio Delfim Neto; Planejamento e
Coordenação, Hélio Beltrão; Agricultura,
Ivo Arzua Pereira; Indústria e
Comércio, general Edmundo de Macedo Soares; Minas e Energia, coronel José Costa Cavalcanti, depois, Antônio Dias Leite; Transportes,
coronel Mário David Andreazza; Comunicações, Carlos Furtado de Simas; Interior, general Afonso de
Albuquerque Lima, depois, general José Costa Cavalcanti; Educação e Cultura, Tarso
de Morais Dutra, tendo como interino, por duas vezes, Favorino Bastos Mércio; Saúde,
professor Alfredo Leonel Miranda; Trabalho
e Previdência Social, coronel Jarbas Passarinho; Justiça,
Antônio de Gama e Silva, sendo substituído, em momentos de interinidade, por Hélio
Scarabotolo.
Duas coisas se nota nesse
ministério: primeiro, a sua estabilidade, não havendo praticamente substituições no
decorrer do período; segundo, a quantidade de militares ocupando pastas que normalmente
são entregues a civis, como Trabalho e Previdência Social, Interior, Transportes, Minas
e Energia, Indústria e Comércio... Era a militarização do regime levada às últimas
conseqüências, como se a ação política houvesse se tornado uma questão de segurança
nacional.
1968
Um divisor de águas
Um memorando de Castelo
Branco, datado de 1966 e guardado por seu chefe da Casa Civil, Luís Viana Filho, dá
conta da irritação do Presidente com a imposição do nome de seu sucessor, feita pela
"linha dura", a qual, na busca de resultados, desenvolvia um serviço de
contra-informação, intrigando entre si os ministros de Estado:
"É lamentável
escreveu Castelo que oficiais, na propaganda precipitada da candidatura
Costa e Silva, assoalhem mentiras de humilhações do presidente face a atitudes
dominadoras do ministro da Guerra, desfigurem a lealdade do chefe do Exército como um
favor ao chefe da Nação, criem a chantagem de que já houve um levante na guarnição do
Rio, justifiquem grosseiramente a precipitação com a desculpa perversa de continuismo do
presidente, procurem amesquinhar as ações corajosas e leais do ministro Juraci
Magalhães [Justiça], inimizando-o com o Exército, lancem dentro do Exército a
desconfiança sobre o ministro Cordeiro de Farias [Interior], atribuam maldosamente
intrigas ao correto e irrepreensível SNI [órgão de inteligência], espalhem mentirosas
notícias sobre a conduta errada do Gabinete Militar da Presidência [general Ernesto
Geisel], etc. Tudo para enfraquecer o presidente, na tentativa de robustecer o candidato
com inverdades e agravos, pretendendo apresentá-lo como tutor do país. É profundamente
lamentável."
Era o poder que, aos
poucos, fugia das mãos de Castelo Branco, concentrando-se cada vez mais no Sistema que,
ao condicionar a seu favor a sucessão presidencial, preparava-se para assumir o governo
em sua plenitude. Nessas circunstâncias, o próprio marechal Costa e Silva assumiu a
Presidência com seu poder tolhido, mandatário que era das forças externas que o fizeram
Presidente, e às quais tinha de apresentar os resultados por elas esperados.
O ano de 1967
caracterizou-se pelo confronto entre partidários de Castelo e de Costa. Uma frente ampla,
formada por Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart, tentava abrir
conversações com os militares castelistas, e era essa a maior preocupação do novo
Presidente
Já no ano de 1968, as
atenções do governo voltaram-se para a oposição no Congresso e para os movimentos de
rua, acirrados pela violência policial, exagerada e desnecessária. No primeiro caso, os
parlamentares do MDB, em absoluta minoria, exercitavam sua retórica a única coisa
que lhes era permitido fazer garantindo sua presença no noticiário. No segundo,
estudantes e operários movimentavam-se para reconquistar o espaço perdido ou, em alguns
casos, até para garantir direitos elementares que lhes estavam sendo negados.
1968 foi, também, o ano
dos grandes acontecimentos na França, com a rebeldia estudantil que pôs em cheque o
governo do general De Gaulle. Os movimentos dos universitários franceses fizeram eco no
mundo inteiro e repercutiram também aqui, dando novo alento ao movimento estudantil
brasileiro.
Nos primeiros meses desse
ano, no Rio de Janeiro, uma passeata pacífica de estudantes pela reabertura de um
restaurante estudantil provocou reação inusitada da polícia militar, resultando na
morte de Edison Lima Souto, de 16 anos (apenas um menino, como diria a imprensa). No dia
seguinte, 200.000 pessoas compareceram ao enterro e a polícia voltou a atacar, matando
mais um, causando 60 feridos e realizando 200 prisões. Na missa de 7º Dia, a
cavalaria cercou a igreja da Candelária, confinando os que lá se achavam. Esse confronto
se espalhou pelo país e avançou por todo o ano de 68.
Entre tantos, dois outros
incidentes se destacaram e foram apontados como pretensas razões para o fechamento total
do regime. Um, foi o discurso do deputado Márcio Moreira Alves (Marcito), em 2 de
setembro, conclamando o povo a não comparecer aos desfiles de 7 de setembro; o outro, o
lançamento da canção "Caminhando", de Geraldo Vandré, que os militares
consideraram uma afronta às Forças Armadas. Em certo trecho, dizia Vandré: "Há
soldados armados, amados ou não;/quase todos perdidos, de armas na mão./Nos quartéis
lhes ensinam antigas lições/de morrer pela pátria e viver sem razão."
Havia pretextos
suficientes para apertar o torniquete e impedir as manifestações. O governo cuidou,
então, de preparar um novo Ato que estabeleceria de vez o poder do estado sobre a
nação.
Preparando-se
para a ação
Redigido há algum tempo por ordens do ministro da Justiça, Gama e Silva, representante
da "linha dura" no governo, se achava na gaveta um Ato visando o fechamento
total do regime. Esperava-se apenas a ocasião oportuna para editá-lo. O Presidente
resistia, enquanto que um um movimento, tendo como núcleo o chefe da Casa Militar,
general Jaime Portela, pressionava o governo para sua publicação.
Um certo dia, antes de a
crise se agravar, o presidente Costa e Silva convocou o ministério para uma reunião, a
qual foi gravada para permitir um reexame posterior da fala de cada um. Pediu ao ministro
Gama e Silva que fizesse a leitura da minuta do Ato Institucional, ouvindo em seguida a
opinião de cada ministro, mas, primeiro que todos, a de Pedro Aleixo, também convidado.
O vice-Presidente,
então, manifestou suas preocupações, não em relação ao presidente da República e
seus auxiliares mais diretos, mas sim quanto à cadeia de comando, que vai-se tornando
incontrolável na medida em que os poderes são repassados a escalões inferiores. O
historiador Helio Silva reproduz o pensamento de Aleixo, baseado em depoimento escrito,
que lhe foi entregue mais tarde:
"Pedro Aleixo disse
que, realmente, tínhamos a felicidade de ter, como Presidente, um homem daquelas
qualidades exaltadas em Artur da Costa e Silva. Mas perguntava se seria o presidente da
República, pessoalmente que exerceria os poderes que lhe seriam atribuídos. Porque, o
que se verifica na prática é que a pessoa do presidente da República, não sendo
onímoda [ilimitada, irrestrita] delega aos seus auxiliares as suas atribuições para a
execução dos atos de governo. Assim, seus ministros, os chefes dos Gabinetes Civil e
Militar, os secretários estudam, propõem e executam as medidas que o Presidente aprova e
sanciona, sem participar de sua execução. Por esse processo de delegações sucessivas,
em cascata, os poderes presidenciais são exercidos pelos seus auxiliares imediatos.
Estes, por sua vez, também transmitem tais poderes aos que os auxiliam, imediatamente.
"Assim, a autoridade
se transmite até o último elemento da cadeia, que pode ser o mais indigno beleguim
policial. (...) Tudo terá sido feito sem o conhecimento do presidente da República, mas
em seu nome, no uso dos poderes absolutos que lhe foram conferidos. Mais ainda: como a
censura e as restrições à liberdade de expressão acompanham, invariavelmente as
medidas de exceção, o presidente da República e seus auxiliares imediatos podem não
ter conhecimento do que ocorre e é atribuído à sua responsabilidade."
Com vocês, o
AI-5
Em 2 de setembro, acontece o discurso do deputado
Márcio Moreira Alves já citado acima. Paralelamente, o deputado Hermano Alves publica,
no Correio da Manhã, artigos de crítica ao regime. A "linha dura" pressiona
para que ambos sejam punidos.
O assunto fica
pendente por causa da visita da rainha Elizabeth 2ª ao Brasil, em novembro,
mas, logo em seguida, o Supremo Tribunal Federal, provocado pelo Executivo, solicita à
Câmara Federal a suspensão de imunidade dos dois deputados, para que estes sejam
processados. O pedido é negado em 12 de dezembro, por ampla maioria, incluindo-se 96
votos dos próprios deputados governistas.
No dia seguinte, 13 de
dezembro de 1968 é editado o Ato Institucional nº5 (veja o texto completo), acompanhado do
Ato Complementar nº38. No preâmbulo, justifica-se a medida, propondo "dar ao país
um regime que, atendendo às exigências de um sistema jurídico e político, assegurasse
autêntica obra democrática, baseada na liberdade, no respeito à dignidade
humana..." etc., etc.
Essas boas intenções
não batem com o restante do texto. O presidente da República ganha o direito de
interferir nos outros Poderes da República; pode decretar o recesso do Congresso e
legislar por decretos; pode intervir nos Estados e municípios "sem as limitações
previstas na Constituição"; pode suspender os direitos políticos de qualquer
cidadão pelo prazo de 10 anos; pode cassar mandatos com prejuízo da bancada, pois não
serão mais convocados os suplentes; pode "fixar restrições e proibições
relativamente ao exercício de quaisquer outros direitos públicos e privados"; pode
decretar estado de sítio, e prorrogá-lo, fixando o respectivo prazo; suspende a garantia
de "habeas-corpus"; finalmente, veta ao Judiciário a apreciação dos atos
praticados pelo poder público na aplicação do Ato Institucional e respectivos Atos
Complementares.
O Congresso Nacional,
mais uma vez, é posto em recesso e, no mesmo mês, a Constituição de 1967 é alterada
em vários pontos. Na História do Brasil, desde a Proclamação da Independência,
somente o Estado Novo de Getúlio Vargas tinha ousado ir tão longe.
Em artigo publicado na
Folha de São Paulo em 13 de dezembro de 1991, Otto Lara Resende relembra aquele momento:
"Na véspera, dia
12, eu estava em Brasília. De madrugada, Carlos Castelo Branco e eu fomos acordar o
deputado Márcio Moreira Alves. Ninguém duvidava que a tempestade ia desabar dentro de
algumas horas. Nossa preocupação era saber se o Marcito tinha um esquema de fuga. Claro
que tinha. Como apertar as cravelhas do arbítrio sem cair no ridículo? Era o que eu me
perguntava, no meio de tantas interrogações e perplexidades.
"Mas o discurso do
Marcito era simples pretexto. Os acontecimentos tinham tomado o freio nos dentes, desde
que se rompeu a ordem constitucional em 1964. O primeiro Ato era para durar seis meses e
ponto final. Tudo voltaria à ordem democrática. Voltou? Uma ova!" Mais adiante,
Lara Resende, com uma ponta de ironia, narra sua visita a Carlos Lacerda, um dia depois:
"Uma empregada me
abriu a porta. O dr. Carlos está lá em cima. Lá estava, sim, na bela biblioteca,
sentado na cadeira de balanço, sozinho. A Frente Ampla tinha sido fechada em abril. O
Carlos estava interessado em parapsicologia. Foi o nosso primeiro assunto. Depois, os
anjos. Ele e eu, mera coincidência, tínhamos comprado um dicionário americano sobre
anjos.
"Até que caímos na
real. Sim, o AI-5. Ele achava que ia ser preso. E foi. O silêncio do telefone nos
afligia. Mais de uma hora depois, chegou o Renato Archer. Deixei lá os dois na conversa
de gente grande. Fui ler o AI-5. Você já leu? Que coisa mais pífia, santo Deus! E
aconteceu. No Brasil."
Costa e Silva adoece
Envolvido em tantos
problemas políticos e político-militares, não é de se estranhar que o Presidente não
tenha tido tempo para exercer seu papel principal, que é o de governar.
Com efeito, não há
obras a registrar no governo Costa e Silva. No primeiro ano de governo, iniciado em abril,
teve seu tempo tomado em perseguir a Frente Ampla, que pretendia a retomada das
conversações entre civís e militares; O ano de 1968 foi tumultuado com manifestações
pacíficas e repressões não tanto assim.
O ano de 1969 iniciou-se num
confronto aberto entre as duas facções que se formaram nas Forças Armadas, em especial
no Exército: A "linha dura", que se instalara no poder, e os castelistas, que
foram alijados dele. O ponto máximo é atingido quando o general Moniz de Aragão, chefe
do Departamento de Provisão Geral do Exército, envia carta ao ministro do Exército,
general Lira Tavares, fazendo severas críticas ao governo. Como punição, Aragão é
destituído de seu cargo, aumentando as tensões entre as duas alas.
O Presidente vê-se
perdido ao meio em uma guerra sem fronteiras, sentindo-se impotente para restabelecer a
disciplina. Na madrugada de 28 de agosto, quinta-feira, Costa e Silva é acometido de
enfermidade, recebendo os primeiros socorros ainda em Brasília. Sentindo-se melhor, e
"caminhando com suas próprias pernas", Costa e Silva, acompanhado de seu
"staff" presidencial, embarca para o Rio de Janeiro, vai para o Palácio das
Laranjeiras e, mais tarde, é internado em um hospital para exame mais criterioso.
A doença e seu
diagnóstico, trombose cerebral, foram escondidas da população, através da censura aos
meios de comunicação. O vice-Presidente, em Brasilia, menos ainda sabia do que estava
acontecendo no Rio de Janeiro, ignorado que foi pelo ministério militar do governo. O
chefe da Casa Militar, general Jaime Portela, assumiu controle da situação, mantendo os
três ministros militares a par dos acontecimentos.
Em 30 de agosto, sábado,
dois dias após a madrugada fatídica, reúne-se o Alto Comando das Forças Armadas para
as primeiras providências visando a substituição, ainda que temporária, do presidente
da República. À reunião compareceram, além do general Portela, o ministro do
Exército, general Lira Tavares, o ministro da Marinha, almirante Rademaker; o ministro da
Aeronáutica, brigadeiro Sousa e Melo; os chefes do Estado Maior das três Armas,
respectivamente, general Murici, almirante Barros Nunes e brigadeiro Oliveira Sampaio; e o
chefe do EMFA (Estado Maior das Forças Armadas), general Orlando Geisel.
Tratando-se de um governo
revolucionário, essencialmente militar, decidiu-se ignorar por completo a linha
sucessória, formada, na ordem direta, pelo vice-presidente da República, pelo presidente
da Câmara Federal, pelo presidente do Senado e, finalmente, impedidos todos estes, pelo
presidente do Supremo Tribunal Federal. Todos eles foram considerados impedidos e, assim,
temporariamente, assumiria o governo uma junta formada pelos três ministros militares.
Assume a
Junta Militar
No dia 31 de agosto,
domingo, chamado pelos ministros militares, o vice-Presidente, Pedro Aleixo, vai ao Rio de
Janeiro. Não era, claro, para tomar posse. Depois de receber rasgados elogios por sua
capacidade, sua têmpera e boa conduta, toma conhecimento de que não será empossado na
Presidência. Quem tem força manda e quem tem inteligência obedece diz o ditado
e Aleixo aceitou sem protestos a situação de fato que lhe era apresentada,
ouvindo, ainda, o arremate final de Lira Tavares: "E além do mais, o senhor foi
contra o Ato Institucional nº5."
O carioca, sempre
irreverente, quando tomou conhecimento do veto e da reação passiva do vice-Presidente
cassado, inventou uma suposta carta de despedida de Aleixo, que dizia: "Nada fiz,
nada quis, nada deixo; não me queixo; assinado, Pedro Aleixo."
Foi assim que o Brasil
ganhou uma nova Junta Militar, anunciada em proclamação transmitida em cadeia nacional
de rádio, e pela televisão, até onde conseguissem chegar os "links" de
micro-ondas, já que não havia ainda a transmissão universal via satélite. Foi lido,
também, o Ato Institucional nº12, transferindo os poderes de governo para a Junta, até
o restabelecimento do presidente Costa e Silva.
A censura sobre os meios
de comunicação foi intensificada e nenhuma notícia sobre o assunto era transmitida sem
passar pelo filtro do poder central. A radicalização de ambos os lados se torna mais
aguda: enquanto o governo militar reinicia as cassações, os movimentos de contestação
promovem medidas violentas, dentre as quais, a mais importante foi o sequestro do
embaixador americano Burk Elbrik, devolvido em troca da liberdade de 15 prisioneiros
políticos, os quais foram embarcados para o México, onde ficaram asilados.
Com o poder
discricionário nas mãos, os novos governantes não fizeram cerimônia em usá-lo à
farta: foram cassados vários políticos, confiscaram-se os bens de outros tantos e os
municípios de Santos (SP) e Santarém (PA) tornaram-se zonas de segurança nacional,
perdendo sua autonomia, e passando a ser governados por interventores.
Explicando, embora não
justificando, deve-se colocar em suas devidas dimensões a censura na divulgação de
notícias sobre o estado de saúde de Costa e Silva. Não era fruto da ditadura, mas um
comportamento típico de Estado. Lembremo-nos de que, em 1985, restabelecida a plenitude
democrática, a mesma censura se estabeleceu com relação à doença do Presidente eleito
Tancredo Neves, com a divulgação de boletins irreais e até de uma fotografia oficial em
que Tancredo, paciente terminal em estado grave, foi sentado em uma poltrona, sustentado
nela pelos próprios médicos, para passar ao público a falsa idéia de que ele estava
com a saúde quase restabelecida.
Como se faz
um Presidente
Mas voltemos ao nosso assunto.
Tornou-se evidente que Costa e Silva não mais voltaria ao poder e, "cassada" a
linha de sucessão, era preciso buscar novos nomes para substituir o Presidente e o vice.
Pela primeira vez, o Sistema foi chamado oficialmente a se manifestar, através de listas
de consultas pedidas a generais, almirantes e brigadeiros, numa eleição singular, em que
cada um deles podia apresentar uma lista triplice para análise. (Como gostavam, os
generais, de listas tríplices!)
Reunidas e analisadas
todas elas, verificou-se uma repetição contínua do nome do general Médici que, por
esta razão foi escolhido para Presidente. Quanto ao vice, decidiu-se colocar as barbas de
molho: doravante, não se cogitaria mais de civis. Reforçando o esquema, foi escolhido o
almirante Rademaker, que participou das duas Juntas Militares, a de 1964 e a de 1969.
Apenas dois protestos
significativos se registraram em manifestos endereçados pelo general Afonso de
Albuquerque Lima (ex-Ministro) e pelo almirante Ernesto de Melo Batista. Ambos foram
transferidos para a reserva, com base no Ato Institucional nº17 (Veja a que número já
chegamos, e era para ser um só).
Dois outros detalhes.
Primeiro, a Constituição precisou ser alterada para adequar-se à nova ordem
institucional, o que se fez por emenda, outorgada pela Junta Militar, invocando os poderes
do Ato Institucional nº5. Mas as modificações foram tantas que, na pratica ela passou a
ser considerada como uma nova Carta, sendo relacionada como a sétima Constituição do
Brasil. Pela ordem tivemos as Cartas de 1823, 1891, 1934, 1937, 1946, 1967, e esta, de
1969, que vigorou até 1988.
Segundo, o Congresso teve
de ser reaberto para homologar os nomes do novo Presidente, Emilio Garrastazu Médici, e
do novo vice-Presidente, almirante Augusto Hamann Rademaker Grunewald.
Sem problemas. Ambos tomaram
posse em 30 de outubro de 1969, para um mandato que iria até 15 de março de 1974,
preenchendo um período de 4 anos e meio.
Epílogo
Estávamos até nos
esquecendo do marechal ex-Presidente, em seu leito de morte. Pelo Ato Complementar nº71,
foram concedidas a Costa e Silva as honras de chefe de Estado (não de Governo, que estava
impedido de exercer), reservando-se-lhe, em ambos os palácios, no Rio e em Brasília, um
gabinete privativo, para ser usado até 15 de março de 1971, data em que se encerraria
seu mandato.
Nem era preciso tanta
deferência. O marechal Costa e Silva todos o sabiam, e muito bem estava
paralisado em todos os seus movimentos e somente sairia do hospital para sua última
morada: morreu em 17 de dezembro de 1969, exatamente quatro dias após o primeiro
aniversário do Ato Institucional nº5, que ele editou, e com base no qual foi
substituído, primeiro pela Junta Militar, depois pelo novo Presidente que o Sistema,
"democraticamente", escolheu. Dura lex sed lex. A lei é dura, mas é lei.
LEIA TAMBÉM:
Como se montou a farsa do Ato Institucional nº 5
Pery
Bevilacqua - Um general no ostracismo.
QUARENTA
ANOS DE UM ATO
Folha de S. Paulo
11 de dezembro de 2008.
CARLOS HEITOR CONY
Marcito
RIO DE JANEIRO - Quarenta anos atrás, num 11 de dezembro, a Câmara Federal
negava a licença para que o governo da época processasse o deputado Márcio Moreira
Alves. Em represália, dois dias depois, foi editado o AI-5, que fechou definitivamente o
regime. A história é sabida, apesar das versões divergentes sobre detalhes pontuais.
Marcito ainda não era conhecido nacionalmente, mas já se tornara personagem no Rio dos
anos 50 e 60. Bem nascido, parente dos Melo Franco e dos Rodrigues Alves, promovia
réveillons famosos em seu apartamento na Vieira Souto. Muito jovem, seus melhores amigos
eram mais velhos do que ele: Antônio Callado, Rubem Braga, Affonso Arinos (pai).
Ganhou um Prêmio Esso de reportagem quando foi ferido num tiroteio em Alagoas. Em 1964,
fez parte do grupo que, no "Correio da Manhã", desde os primeiros dias da
quartelada, denunciava as torturas do novo regime. Em 65, foi preso na porta do hotel
Glória quando, ao lado de outros amigos, protestava contra o marechal Castelo Branco, que
presidia uma reunião da OEA.
Elegeu-se deputado pela antiga Guanabara, foi cassado e viveu anos no exílio. Ao voltar,
optou por um jornalismo sem ressentimentos. Dedicava uma crônica semanal a um aspecto
positivo da sociedade brasileira, destacando municípios e entidades que davam certo. Em
todos os sentidos, Marcito era não apenas um garotão de sucesso, mas um puro.
Atravessa grave crise de saúde. Fui visitá-lo no hospital Samaritano, estava no CTI. A
mídia vem relembrando, nesta semana, a data redonda do AI-5. Chovem os comentários, as
análises, levanta-se o background de um dos episódios mais dramáticos da vida nacional.
Eu penso em Marcito e me honro de sua companhia e amizade.
Folha
de S. Paulo
14
de dezembro de 2008.
CLÓVIS
ROSSI
Memória
felizmente inútil
SÃO
PAULO
- Depois de fecharmos a edição do "Estado de S. Paulo", na noite de 13 de
dezembro de 1968 (na verdade, já madrugada do dia 14), fomos a um boteco na rua da
Consolação, em frente à antiga sede do jornal na rua Major Quedinho, para uma
"unhappy hour" (foi a noite em que se editou o AI-5, o mais violento instrumento
de arbítrio já adotado no país).
Minha sensação era a de que o futuro havia sido interditado. E é muito dizer: tinha,
então, 25 para 26 anos e, portanto, o futuro pela frente, como se dizia antigamente.
Um peso bárbaro.
Estava equivocado, a julgar pela pesquisa que esta Folha publicou ontem, mostrando
que 82% dos brasileiros nem ouviram falar do AI-5. Como já disseram historiadores e
sociólogos, o desconhecimento revela, sim, a conhecida falta de memória, a igualmente
conhecida precariedade do ensino, a também manjada despolitização etc.
Mas revela também a derrota do arbítrio. Se quase ninguém se lembra do AI-5, é
razoável supor que a grande maioria imagina que instrumento semelhante é irrepetível.
Não é preciso, pois, arquivá-lo na memória para evitar cometer erros que levem à sua
repetição (atenção, não estou dizendo que seja uma atitude saudável; só estou
tentando achar uma lógica além da que é mais evidente).
O futuro não foi interditado.
Tanto que vítimas do regime que editou o AI-5 acabaram na Presidência da República
(Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva) ou no governo do Estado mais
importante (José Serra).
O mundo mudou tanto que golpes de Estado, pelo menos na América Latina, caíram de moda.
A mais recente tentativa (contra Hugo Chávez, em 2002) durou menos de dois dias. O de
1964 no Brasil durou 21 anos.
Se o boteco da Consolação não fechou, acho que agora valeria uma "happy
hour". |
|
|