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CAPÍTULO CINCO
CONVERSAR É PRECISO
A FRENTE AMPLA, DE CABO A RABO
"Lacerda foi a Montevidéu levar o chamado Manifesto da
Frente Ampla, para ser assinado por João Goulart. Eu iria com ele, mas estava em plena
campanha para deputado federal, embora tivesse a certeza de que seria cassado. Golbery
telefonava e fazia contato com grandes amigos deste repórter, dizendo sempre: 'O marechal
Castelo Branco não quer cassar o jornalista, apesar da sua oposição violenta. Mas não
admite que ele seja deputado'. Eu respondia da mesma forma: 'Cada um cumpre o seu dever.
Eu sou candidato e não desisto, se quiserem me cassar, que cassem'. Cassaram".
(Hélio Fernandes, Tribuna da Imprensa, 24/06.2004)
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"Aqui, desterrado e isolado em Fernando de Noronha, cada vez mais me convenço de que
a Frente Ampla foi o único movimento importante acontecido no Brasil nos últimos anos.
Se há uma verdade irrefutável, é esta que daqui, longe das paixões e das emoções, me
parece claríssima: sem o povo, as Forças Armadas não governam este país. Sem as
Forças Armadas, o povo não voltará, outra vez, a dirigir os seus próprios destinos.
Então, por que não fazer a união de todos, não estabelecer o diálogo amplo, o debate
franco e leal das idéias, sem ressentimentos, sem ódios, sem frustrações?"
Estas anotações, feitas
em agosto de 1967, saíram recentemente da gaveta de Hélio Fernandes, diretor da Tribuna
de Imprensa, que acompanhou Carlos Lacerda desde a fundação do jornal, onde continua
escrevendo diariamente, com a mesma linguagem franca e desabrida, que tantos problemas lhe
causou no correr dos tempos.
A idéia de se
estabelecer contato entre os setores moderados das Forças Armadas e os grandes líderes
civis da época surgiu do vice-governador da Guanabara, Rafael de Almeida Magalhães que
exercia, quase que em definitivo, o cargo de governador, já que Lacerda permanecia o
máximo de tempo possível sob licença.
Dois motivos, pelo menos,
levaram Lacerda a se afastar temporariamente da política: primeiro, o desentendimento
que, desde a vitória do movimento militar, se instalara entre ele e o Sistema que passou
a dominar o poder; segundo, a doença de sua esposa, que lhe dava preocupações e exigia
o melhor de suas atenções.
Com o destaque que lhe
dava a posição de vice-governador em exercício, Magalhães, já nos primeiros meses de
1966, falou a Hélio Fernandes das conversações que, de moto próprio, vinha mantendo
com políticos próximos de Juscelino. JK, a essa altura, se achava cassado de seu mandato
de senador e tinha os direitos políticos suspensos, mas encontrava alguma tolerância,
ainda, para exercer articulações políticas, sem grandes restrições por parte do
regime. Magalhães e Hélio, pois, acharam oportuno comentar o assunto com Carlos Lacerda
e, se bem pensaram, melhor o fizeram.
Pela noite adentro, e
até altas horas da madrugada, apresentaram um retrospecto dos contatos junto ao PSD e
tentaram induzir Lacerda a uma aproximação política com seus tradicionais adversários,
o que talvez fosse a única maneira de restaurar o poder político-civil no Brasil. E
havia a possibilidade de entendimentos também com a ala militar não alinhada com o
governo, disposta a discutir o retorno do poder à nação brasileira, a única com
legitimidade para reivindicá-lo e exercê-lo por seus mandatários.
Udenista histórico, com
uma vida dedicada a combater o caudilho Getúlio Vargas e tudo mais que viesse a
representá-lo, havendo atacado de forma violenta e continuada tanto Juscelino quanto
João Goulart, Lacerda relutava em sequer estudar uma aproximação com os dois líderes
getulistas. Mas, ao final, deixou uma porta entreaberta, ao recomendar aos seus dois
interlocutores:
"Continuem a
conversar, que diálogo não faz mal a ninguém." Desde 22 de agosto, quando se
realizou uma primeira reunião entre lacerdistas e juscelinistas, até 5 de abril de 1968,
quando o governo militar reconheceu a Frente Ampla, emitindo a Instrução nº177 que a
extinguia, outra coisa não se fez entre eles senão conversar e buscar um entendimento
para restabelecer a plenitude democrática. Vale a pena nos infiltrarmos nesse movimento
para ver, de perto, como ele nasceu, cresceu e morreu.
Unindo os
desiguais
Frente Ampla é um nome
dado genericamente pela imprensa a uma união de contrários para fins comuns; esse nome
não foi escolhido pelos que dela faziam parte e acabou sendo adotado, por consenso, pelos
meios de comunicação, pelos "frentistas" e até pelo próprio governo, que os
queria ver longe de sua presença.
Outras frentes amplas o
Brasil já tivera no passado, reunindo os desiguais para uma causa igual. Por exemplo, a
Aliança Liberal entre políticos e militares, conduzindo-os à revolução vitoriosa de
1930. Também era uma frente a ANL-Aliança Nacional Libertadora, da qual o então jovem
estudante Carlos Lacerda fizera parte e que culminou com a fracassada rebelião de 1935.
A própria União
Democrática Nacional, surgida em 1945 como partido político, de que Lacerda foi, mais
tarde, um dos mais expressivos líderes, reunia forças da direita, da esquerda e do
centro que tinham como objetivo comum liquidar com o Estado Novo e os resíduos deixados
por este após a deposição do ditador Getúlio Vargas.
Hélio Fernandes
argumenta que só os grandes líderes são capazes de se aproximar para levar, juntos, uma
causa maior ainda que eles. Cita a aproximação entre Churchill e seu inimigo Atlee (1ºMinistro
inglês); entre John Kennedy e Lyndon Johnson, para garantir a presidência dos Estados
Unidos; entre a democracia cristã e o Partido Socialista na Itália; entre o soviético
Stalin e o nazismo. Em todos os casos, o acordo entre desiguais, se nem sempre deu certo,
demonstrou, ao menos, a grandeza de tais líderes.
Na ditadura dos anos 30,
Vargas procurou seu adversário Armando de Sales Oliveira, lider da Revolução
Constitucionalista, oferecendo-lhe a interventoria no Estado de São Paulo, com a
expressão: "Quero que compreenda, em toda a sua amplitude, o significado de meu ato:
com este decreto, entrego o governo de São Paulo aos revolucionários de 1932."
Armando de Sales aceitou,
o que, para muitos, pareceu traição à causa. "Traidor coisa nenhuma defende
Hélio Fernandes. Era um líder de verdade, os líderes de verdade têm a
obrigação (e às vezes pagam por isso a sua cota de incompreensão) de enxergar os fatos
na frente dos outros. (...) Para Armando de Sales Oliveira seria muito mais cômodo
recusar com arrogância e altivez a interventoria que o ditador lhe oferecia e ir para
casa receber os cumprimentos dos tolos que enchem os desvãos da História."
Um caminho de
pedras
Se
é um verdadeiramente ato de grandeza, a aproximação entre os desiguais, entretanto,
não representa uma tarefa muito fácil, pelo contrário, é uma estrada cheia de pedras,
desenvolvendo-se por entre penhascos ou pântanos, com perigos e dificuldades e, após
tudo, nem ao menos se sabe se ela chegará ao fim.
Os entendimentos com o
segundo escalão de JK e Jango até que se desenvolveram razoavelmente bem. A primeira
dificuldade foi quando se pretendeu a aproximação pessoal entre Lacerda e JK, os únicos
que, no primeiro escalão, se achavam no Brasil, pois Jango, exilado no Uruguai, só
participava da vida política brasileira por suas lideranças.
Vencido esse obstáculo,
foi redigido o manifesto da Frente Ampla e o próximo passo era ir até o Uruguai para um
encontro com João Goulart. Quem o fez foi o próprio Carlos Lacerda, em junho de 1966.
Divulgado o manifesto
junto aos meios de comunicação do Brasil e do exterior, a repercussão foi enorme,
durante os meses que se seguiram. De seu lado, a imprensa comentava-o, sem cessar, por
seus analistas e colaboradores. Uns recebiam a Frente com entusiasmo, outros com reserva,
um terceiro grupo com pedras nas mãos.
Para o governo militar, a
princípio, o surgimento da frente era mais um motivo de preocupação do que de receio.
Acreditava-se nos arraiais governistas que, após o primeiro impacto, a Frente passaria
para o rol de tantos outros movimentos mal sucedidos. Não passou. A proposta foi ganhando
consistência à medida que o tempo avançava.
As idéias
básicas
do movimento
O raciocínio que levou
à formação da Frente Ampla era límpido e cristalino: não pode haver progresso
contínuo e consistente sem a participação da sociedade civil, geradora e beneficiária
desse progresso. Tal participação exige um constante entendimento entre as forças que,
dentro ou fora do governo, exercem influência sobre a vida da nação.
Havia, então, tal como
hoje, um vírus instalado e se reproduzindo em nosso sistema econômico. Relembra Hélio
Fernandes, em suas anotações, que "já estamos [em 1966/67] com um déficit de
quase 4 milhões de empregos, esse déficit aumenta à razão de 1 milhão de empregos por
ano, e, além de não criarmos novos empregos, ainda vamos eliminando alguns. Sem trabalho
não há produção. Sem produção não há desenvolvimento, sem desenvolvimento não há
estabilidade [sem estabilidade não há trabalho...], voltamos ao ponto de partida desse
círculo vicioso..."
Criar estabilidade à
economia tinha como premissa criar estabilidade aos governos, garantindo-lhes a data da
posse, o período do mandato e a tranqüilidade para planejar e administrar até o último
dia do mandato. Na situação em que vivíamos, "...nenhum governo pode saber quando
terminará o seu mandato ou se será derrubado muito antes da data marcada".
As idas e
vindas
Terminava o governo de
Castelo Branco e aproximava-se o dia 15 de março, quando deveria tomar posse Costa e
Silva, inspirador de novas esperanças de abertura, pois acenava com um governo "mais
humano", sinalizando disposição para o diálogo e a abertura. Talvez nem ele
próprio tinha consciência de quanto era refém do Sistema que dominou o poder,
principalmente após a edição do AI-2.
O manifesto da Frente
Ampla tinha seu lançamento previsto para o dia 13 de março de 1967, dois dias antes da
posse do marechal. Coincidência ou não, essa data era o aniversário do malfadado
"comício das reformas", em 1963, o princípio do fim de João Goulart. Se as
esperanças eram muitas, não menos eram as desconfianças entre os participantes do
movimento, de tal sorte que só algumas semanas depois, aparadas as arestas, o manifesto
veio a público.
Sobre o programa, comenta
o historiador Hélio Silva: "O Programa Mínimo Inicial pedia a restauração do
poder civil, a preservação da soberania nacional, a retomada do desenvolvimento
econômico e a realização de reformas nas estruturas econômica e social. Alguns
objetivos imediatos eram colocados: 1) a anistia geral; 2) a elaboração de uma
Constituição democrática, garantindo o direito de greve e pluralidade dos partidos e 3)
o restabelecimento das eleições diretas para a Presidência e vice-Presidência da
República, para os governos dos Estados e prefeitos das capitais. Esses três pontos
entravam em choque frontal com medidas fundamentais tomadas em nome do movimento de
1964."
As dificuldades eram
imensas. Por duas vezes, em abril e em outubro de 1967, a Frente teve de entrar em
recesso, não pelo perigo externo, mas por desentendimentos internos.
No exterior, Goulart
procurava tirar o máximo proveito da aproximação, orientando, passo a passo, o
procedimento de seus correligionários. Em alguns momentos chegou a radicalizar,
prejudicando os entendimentos. Além disso, sua presença na Frente criava nos meios
governistas a suspeita de que se preparava, não um entendimento, mas uma
contra-revolução.
Não eram fáceis,
também, as condições de Juscelino Kubitschek. Com mandato cassado e direitos políticos
suspensos, passava a maior parte do tempo no exterior e sua presença no Brasil, quando
podia fazê-lo, era quase que clandestina. Em certo momento, o governo ameaçou-o com
confinamento em alguma região distante do país, o que o obrigou a retornar aos Estados
Unidos.
Carlos Lacerda, como era
de seu temperamento, dava uma no cravo e outra na ferradura. Buscando entendimento, não
perdia, entretanto, oportunidade para espicaçar seus adversários, principalmente no
âmbito do governo. Abriu uma polêmica ruidosa com o general Moniz de Aragão, o que
contribuia para a publicidade, mas não para o entendimento. Em 28 de agosto de 1967,
deveria participar de um programa de televisão, mas foi proibido de fazê-lo.
O governo evitava, tanto
quanto possível, se expor com uma medida repressiva, mas esperava uma oportunidade para
dar o bote final, liquidando com a Frente e com suas lideranças.
Relatório
secreto ou
história policial ?
Os
vários serviços de inteligência, dentro das Forças Armadas e no centro do poder,
começaram a colher informações sobre atividades de elementos contrários ao governo,
dentro ou fora da Frente Ampla e, reunindo-se todos esses fragmentos numa grande colcha de
retalhos, surgiu uma história fantástica e inverossímil de suposta ação
contra-revolucionária para destruir não só a revolução, como o próprio país.
Voltamos a nos apoiar no brilhante relato do historiador Hélio Silva:
"Suspeitava-se que
Juscelino Kubitschek, Ademar de Barros [ex-governador de São Paulo, cassado], Carlos
Lacerda, João Goulart e outros políticos cassados e insatisfeitos estavam planejando uma
contra-revolução no Brasil. Essa conspiração teria sido articulada na França, onde
vários cassados tinham recebido homenagens oficiais e oficiosas. Eles teriam, inclusive,
apoio de setores governamentais franceses, empenhados em fustigar a expansão dos
interesses norte-americanos no Brasil, dentro da posição internacional independente,
pretendida pela França na época.
"Segundo essas
suspeitas, a Frente Ampla, congregando Lacerda, Kubitschek e Jango, seria apenas a parte
mais ostensiva da conspiração. O governo tenderia a fixar neles a sua atenção,
deixando campo livre para Ademar de Barros. Este, como simples homem de negócios, estaria
livre para articular um golpe contra o Governo.
"A Igreja Católica,
por sua vez, estava sob suspeita de, através de alguns bispos, estar servindo de
porta-voz dos integrantes da Frente Ampla. As críticas ao Governo por parte de clérigos
visariam a desmoralização do Governo ou a provocar uma crise pelo confronto entre Igreja
e Governo.
"O movimento teria
sido marcado para 27 de janeiro de 1968, com foco na cidade de São Paulo. As forças
rebeldes seriam constituídas basicamente da poderosa Força Pública, milícia estadual.
O dia marcado era um sábado, que vinha depois do aniversário da cidade, 25 de janeiro,
numa quinta-feira. O feriado de quinta-feira seria aproveitado por muitos paulistas para
um fim de semana prolongado fora da cidade, que assim estaria calma e sem movimento no
sábado.
"Presas as
autoridades civis e militares em São Paulo e consolidado o movimento nesse Estado,
haveria a adesão de Minas e, talvez do Rio Grande do Sul. Os políticos da Frente Ampla
formariam uma "junta governativa" e declarariam o presidente Costa e Silva
fora da lei.
"Não paravam aí as
previsões dos órgãos de segurança: um país estrangeiro, a França ou a Rússia,
interviria no Centro-Sul do Brasil, ficando os Estados Unidos obrigados a invadir o
Nordeste. Seriam os Estados Unidos, então, acusados de invasores, e uma guerra civil
destruiria o país."
Você quer mais, ou é
suficiente? Qualquer governo, assim informado, se acharia em condições e na obrigação
de iniciar uma contra-ofensiva para salvar o país, eliminando o perigo interno, nos
moldes da doutrina de segurança nacional proposta pelo National War College americano.
O fim da
Frente Ampla
É até surpreendente que
o governo tenha demorado tanto em tomar uma providência para "salvar a democracia e
o país". O ministro da Justiça, Gama e Silva, acompanhava de perto os
acontecimentos e, deixando de lado os relatórios reservados, esperou por um acontecimento
visível, que justificasse, perante o público externo, uma medida de força.
Lacerda deu a deixa: em
15 de março de 1968, em um de seus pronunciamentos, veio a público para acusar o general
Jaime Portela de haver usurpado o poder e de ser o verdadeiro chefe de Estado, em lugar do
marechal Costa e Silva.
Pronto. Assim ficava mais
fácil encerrar o assunto. Em 5 de abril de 1968, o ministério da Justiça emitiu a
Instrução nº177, proibindo qualquer manifestação política da Frente Ampla que, a
partir daquele momento ficava fora da lei, assim como os que ousassem se manifestar em
nome dela.
Juscelino e João Goulart
já se achavam cassados. Carlos Lacerda, fez companhia aos três, perdendo seus direitos
políticos e, com eles, o direito de exercer sua profissão de jornalista. Continuou
fazendo-o, porém, com o pseudônimo de Júlio Tavares. Hélio Fernandes foi preso,
confinado na ilha Fernando de Noronha e, impedido de assinar seus artigos, passou a usar o
suposto nome de João da Silva (Quantos há, pelo Brasil afora, com esse nome?). Lacerda
também viria a ser preso, porém, só ao final do ano, após a edição do AI-5.
Terminou, assim, o sonho
do entendimento para a redemocratização do país. Tudo voltou à rotina, como diria
Chico Buarque em uma de suas músicas: "Aqui na terra estão jogando futebol; é
muito samba e muito rock-and-roll..."
De quem foi a culpa ? Os
líderes da Frente teriam ido com muita sede ao pote? Teria havido radicalização por
parte deles, indispondo-se entre si, ao mesmo tempo em que fustigavam o governo e as
Forças Armadas? Por outro lado, se o entendimento entre eles tivesse sido perfeito, nota
dez, o Sistema abriria mão de suas vantagens e convocaria eleições diretas para
devolver o poder aos civis? Decida você, que eu por aqui ainda tenho muitas dúvidas a
esse respeito.
Encontro com
o destino
A
Frente Ampla foi extinta em 5 de abril de 1968 pelo ministério da Justiça que
reconheceu, assim, a sua existência. Os três principais líderes, Lacerda, JK e Jango,
não tendo mais o que fazer juntos, enfiaram, cada qual, a sua viola no saco e foram
cuidar da própria vida.
Nove anos depois, eles
teriam seus destinos unidos, outra vez, pela fatalidade, se é que fatalidade existe: os
três morreram no espaço de um ano, com distância de poucos meses, um do outro.
O primeiro a ser atingido
foi Juscelino Kubitschek. Acostumado a viajar preferencialmente de avião, naquele dia
fatídico de 22 de agosto de 1976, não se sabe por quê, resolveu ir ao Rio de Janeiro de
carro, pela rodovia Presidente Dutra. Nas proximidades de Resende, um caminhão se chocou
violentamente com o automóvel em que se achava JK, matando-o instantaneamente. Dona Sara
Kubitschek, durante toda sua vida, jamais acreditou tratar-se de um acidente, suspeitando
que o acontecimento tenha sido premeditado.
Passados 106 dias, em 6
de dezembro de 1976, chegou a vez de João Goulart ser colhido pelas malhas do destino. Na
noite anterior, participou de um churrasco, na Argentina e, em seguida, recolheu-se ao seu
leito. Amanheceu morto. Causa mortis: colapso cardíaco.
Passados pouco mais de
cinco meses, foi a vez de Carlos Lacerda. Internado no hospital com uma crise de diabetes,
teve uma reação adversa aos medicamentos que lhe foram aplicados e veio a falecer, em 20
de maio de 1977. Data dessa época a ojeriza de Tancredo Neves a internações
hospitalares. Nada como um tratamento doméstico, acompanhado pelo médico de família...
E os outros ?
E os outros principais
personagens da Frente Ampla? O vice-governador da Guanabara, Rafael de Almeida Magalhães,
com o abandono do cargo por Carlos Lacerda, tornou-se governador em exercício, mas
renunciou um dia antes, para não ter de passar o governo ao seu antagonista, Negrão de
Lima, que vencera as eleições. Com o surgimento do bipartidarismo, preferiu juntar-se à
Arena (partido governista) para não perder seu espaço político e prosseguiu em sua
modesta, mas bem sucedida carreira. Tornou-se deputado federal, foi ministro da
Previdência no governo de José Sarney e permanece atuante na política até hoje
(escrevemos no ano 2000).
Renato Archer,
secretário geral da Frente, foi cassado logo ao início do movimento, em 1966. Mais
tarde, restabelecidos os direitos políticos, tornou-se vice-governador de seu Estado, o
Maranhão. Participou de vários governos e foi, várias vezes, ministro de Estado.
Hélio Fernandes, já com
77 anos de idade (nasceu em 1924), prossegue como diretor e principal colunista da Tribuna
de Imprensa, jornal de que é proprietário desde 1962, quando adquiriu a parte de Carlos
Lacerda, então em sérias dificuldades financeiras. Continua o de sempre: língua
destravada, não teme o confronto e não deixa para amanhã o que pode dizer hoje.
Há uns dez anos,
participando de uma entrevista pela televisão, Hélio Fernandes respondia às perguntas
que lhe eram feitas, citando fatos, nomes e empresas, inclusive algumas que davam apoio
financeiro ao canal. Em certo ponto, o apresentador, Ferreira Neto, fez um gracejo:
"Bem, agora vou ter que encerrar o programa, pois, cada vez que o senhor abre a boca,
eu perco um patrocinador..."
Promete que, um dia, não
sabe quando, deixará o jornalismo para escrever livros contando a História de nossa
terra, da qual ele é uma testemunha viva. Que Deus lhe dê vida longa e saúde para que
possa cumprir sua promessa.
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