CAPÍTULO CINCO - ADENDO

O BEIJO DA MORTE
COINCIDÊNCIA OU CRIME?

Fonte:
Helio Fernandes
Tribuna da Imprensa (RJ)
6 de abril de 2005


As três mortes, alimentadas pelo sensacionalismo barato dos que cortejam a visibilidade, só têm um ponto justificável: eram os 3 líderes de maior importância, poderiam ter medo que fossem os sucessores do regime ditatorial. Mas a idade impedia isso.

     A ditadura, a partir de 1967, tinha mais problemas com os generais do que com os civis. Na sucessão de Medici, alguns coronéis queriam o fim do regime de exceção, manobravam para haver eleição direta. Consideravam que com isso o Exército se livraria do desgaste, não chegaria ao mais profundo do poço, como chegou com o atentado contra esta Tribuna da Imprensa e o assombroso episódio do Riocentro.

     O "empastelamento" da Tribuna foi pura vingança, a ditadura já estava no chão. Houve a anistia, a volta dos exilados, a quase convocação da eleição para governadores, direta, que se realizaria em 1982. O Riocentro, todo organizado, preparado e executado sob o comando do então poderoso SNI, era uma tentativa de permanecer no Poder.

     (Logo depois do atentado contra a Tribuna, fui depor na CPI do Terror. Os senadores Mendes Canale e Franco Montoro, presidente e relator dessa CPI, vieram ao Rio, encontraram comigo no gabinete de Barbosa Lima Sobrinho, na ABI. Fui a Brasília, meu depoimento durou 6 horas, contei tudo, dei os nomes dos personagens do SNI que planejaram, prepararam e executaram o assalto à Tribuna. E agora a denúncia-revelação que algum senador [quem sabe o próprio presidente Sarney] precisa investigar: meu depoimento sumiu, não está nem nos anais do Senado. Desapareceu, quem poderia ter feito isso?)

     Assim como não conseguiram a continuação em 1981, a redemocratização (que palavra para um País que sempre teve democracia precaríssima, quando teve) e o fim da ditadura em 1967 também não foram obtidos. É que a fila da ambição (a fila dos generais) era muito grande, ainda existiam vários que queriam chegar ao Poder, se consideravam predestinados.

     Entre 1977 e 1978 começaram as mortes dos três maiores líderes cassados. Estranhas mortes, sem dúvida, mas sem o menor indício de que havia premeditação. Não que os "donos do Poder" não quisessem isso, não pudessem providenciar. É que não existe a menor conexão, tudo é engendrado misteriosamente e explorado com o sensacionalismo da mediocridade.

     Um dia, em 1977, por volta de 1 da tarde, Carlos Lacerda não se sentiu bem, foi para a Clínica São Vicente. Depois de muitos exames, os médicos concluíram: "Nada de grave, apenas um desequilíbrio no coração, passageiro". Pediram para dormir aquela noite no hospital, é sempre mais tranqüilo e com mais recursos médicos. Não foi para ele.

     A família se despediu, foi para casa mais ou menos às 7 e meia. Quando chegaram em casa, Leticia e os filhos receberam telefonema urgente da São Vicente, Lacerda estava passando mal. Quando voltaram, estava morto. Rigorosamente inexplicável para o sim ou para o não, para o positivo ou negativo, para o compreensível ou incompreensível.

     O médico Guilherme Romano foi o primeiro a revelar suspeitas sobre a morte de Carlos Lacerda. Romano não estava no Brasil quando o ex-governador morreu. Mas logo que chegou, como era médico e diretor de um hospital, levantou a questão, dizendo: "Se eu estivesse no Brasil, Lacerda não teria morrido". Hipótese, e Romano não era tratadista para ser citado.

     Depois, com a morte também polêmica de Jango e JK, a versão Romano se fortaleceu. Mas não existe a mais remota comprovação. Jornalistas sensacionalistas chegaram a apelidar o fato de beijo da morte. É possível que tenha havido trama para eliminá-los, vontade não faltava. Deve ter sido então o crime perfeito.

     As três mortes, alimentadas pelo sensacionalismo barato dos que cortejam a visibilidade, só têm um ponto justificável: eram os 3 líderes de maior importância, poderiam ter medo que fossem os sucessores do regime ditatorial. Mas a idade impedia isso.

     A primeira eleição direta ocorreu em 1989, e eles não teriam força para antecipá-la. João Goulart, o mais moço, estaria com 71 anos nessa eleição. Lacerda com 75. Juscelino com 88. Tanto mistério para esses "assassinatos", em hipóteses tão remotas?

     Carlos Lacerda morreu de um problema cardíaco que não sabia que tinha. Juscelino foi vitimado num desastre, durante uma viagem de carro que nem ia fazer. João Goulart, que se preparava para ir morar na Europa, também morreu súbita e inespedaramente. Todas as dúvidas perfeitamente levantadas, mas sem a mais remota comprovação.

     Tancredo Neves ia tomar posse no dia 15 de março de 1985, no fim da noite do dia 14 foi para o hospital, foram levantadas as mais absurdas hipóteses de assassinato. Chegaram a falar que ele teria sido "bombardeado" no estômago por substâncias químicas mortais. Hoje já se sabe que ele poderia ter sido operado 1 mês antes, com a maior tranqüilidade. Mas os políticos brasileiros não gostam de mostrar fragilidade física.

     Sobre JK a "suspeita" maior era de que tinha uma passagem de avião no bolso, e que estava apaixonado. Em relação a João Goulart é de que se mostrava perfeitamente bem na véspera. Nada surpreendente. Lamentáveis as mortes deles, como pessoas ou politicamente.

     PS - Essas mortes jamais serão resolvidas, confirmadas ou negadas na premeditação. Vão aumentar os royalties de jornalistas sensacionalistas, que em tudo descobrem o beijo da morte. Até mesmo na vida.

 
 
 

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