CAPÍTULO SEIS
NINGUÉM SEGURA ESTE PAÍS
UFANISMO, DESENVOLVIMENTO E TORTURA
O
governo de Costa e Silva (1967-1969), já o dissemos, esteve de tal maneira envolvido em
problemas políticos e político-militares que não lhe sobrou tempo para a
administração. Ou foi quase isso, porque a equipe econômica, com Delfim Neto no
ministério da Fazenda e Helio Beltrão no Planejamento, longe dos holofotes, completou o
trabalho de saneamento iniciado por Castelo Branco.
Assim, ao assumir a
Junta Militar, o Brasil já se achava praticamente recuperado e dava os primeiros sinais
de crescimento, iniciando um período fastigioso, que ficou conhecido como o do
"milagre econômico brasileiro". Era uma bolha de sabão, grande, colorida e
brilhante, fascinando a todos e, embora sem consistência para se sustentar por muito
tempo, serviu para iluminar o governo Médici, escondendo os reais problemas do país, que
o levaram mais tarde à recessão e aos anos oitenta, conhecidos como a "década
perdida".
Mas, no início dos
anos setenta, quase tudo era festa. O Brasil ganhou a Copa do Mundo; já havia sido feita
a integração da Guanabara com o Rio de Janeiro em um só Estado, simbolizada pela a
inauguração da ponte Rio-Niteroi; o mar de 200 milhas era assunto de todos os dias, no
Brasil e fora dele; estávamos construindo a rodovia transamazônica que, num segundo
tempo, seria estendida até o oceano Pacífico; após ela se faria outra, transversal,
cortando a selva de norte a sul, e mais outra, ocupando a calha norte do rio Amazonas. O
Brasil transformou-se na décima potência industrial do mundo e, como garantia a
propaganda, no ano 2000 seríamos já a terceira potência, superados apenas pelos Estados
Unidos e Japão.
Por trás desse
crescimento, misturado a forte dose de ufanismo, a outra verdade, que a censura escondia
dos olhos e ouvidos dos brasileiros: a perseguição política, a tortura e a morte. As
guardas-civis foram extintas; as forças públicas foram substituídas pelas
polícias-militares, subordinadas ao Exército, onde foi criado um órgão denominado
"Inspetoria Geral das Polícias Militares" (IGPM), encarregado do
"planejamento, treinamento, armamento e efetivo das polícias militares
estaduais"; surgiram milícias paramilitares, como o CCC (Comando de Caça aos
Comunistas) e o Esquadrão da Morte.
Dos Estados Unidos,
vieram "assessores agrícolas" (o mais conhecido foi Dan Mitrioni), cuja
função era treinar nossa polícia civil na prática da repressão. O apogeu aconteceria
com a ativação do DOI-CODI (Destacamento de Operações Internas Comando
Operacional de Defesa Interna), subordinado ao Exército, com tamanha liberdade de ação
que acabou escapando do controle do próprio governo.
Os anos setenta
foram os anos de contradição. A partir de 1975, demos os primeiros passos para a
abertura política, mas, na prática, a regra geral foi repressão violenta que se
estendeu por todo o período; foi a década do desenvolvimento, mas, ao final, iniciou-se
forte retração, causada pelo embargo do petróleo, cuja produção no país não
representava mais que 25 por cento do consumo.
1970 foi a década
das grandes obras, que acabaram se transformando em "elefantes brancos" e
aumentaram prodigiosamente nossa dívida externa. Foi a década do sucesso em todas as
áreas, entretanto, provocou a paralisação econômica do país por mais de vinte anos;
garantiu o pleno emprego, registrou altos índices de crescimento econômico, mas não
evitou a miséria e o aumento da concentração de renda nas mãos de uns poucos.
1970 foi, afinal, a
década do medo. Sem cidadania, suspensas as garantias constitucionais com o AI-5,
introduzidas na Constituição de 1969 a pena de morte e a de prisão perpétua, qualquer
indivíduo, militante político ou não, criminoso ou não, estava a mercê do arbítrio,
embora muitos nem chegaram a se aperceber disso. Um arbitrio que se tornava mais forte
porque o comando central, em Brasília, sequer tinha conhecimento do que efetivamente se
passava nos pontos mais distantes da cadeia de comando.
Radicalizando a
censura aos meios de comunicação e com os ventos soprando a seu favor, o presidente
Médici reinou, então, soberano e absoluto, contabilizando a favor de sua imagem aqueles
poucos anos das "vacas gordas".
O apogeu do
Sistema
Com a doença do
presidente Costa e Silva, mais o veto à posse do vice-Presidente e o impedimento de toda
a linha sucessória (presidente da Câmara, presidente do Senado e presidente do Supremo),
o Sistema assume o poder de fato e de direito.
A eleição do novo
presidente da República se assemelha em muito, neste momento, à escolha de um Papa:
forma-se um colégio de "cardeais", com 107 oficiais das Forças Armadas, em
nível de general-de-exército (4 estrelas), com seus equivalentes na Marinha e na
Aeronáutica, que apresentam, cada qual, uma lista tríplice de preferidos. Esse colégio
é, então, afunilado nomeando-se um grupo de apenas 7 oficiais que examinam todas as
listas, chegando ao resultado final.
Aparece, por fim, a
fumaça branca, na chaminé do convento. O processo para a escolha do comandante supremo
está completo e a nação pode respirar em paz.
O nome apontado na
maioria das listas e que recebe o veredicto do colégio maior como novo Presidente é o do
general Emílio Médici, completando-se a chapa com um dos próprios componentes da Junta
Militar, o almirante Augusto Rademaker, que foi escolhido para vice-Presidente.
Os outros dois
membros da Junta também se introduziram no governo. O brigadeiro (agora marechal-do-ar)
Márcio de Souza aparece como ministro da Aeronáutica. O chefe da Junta, general Lira
Tavares, é nomeado embaixador do Brasil na França, justamente o país que mais se
insurgia contra militarização do regime brasileiro.
Resolvida a etapa
de escolha do novo Presidente, falta ainda preencher uma simples formalidade, que seria
até dispensável, a não ser pela preservação da imagem do Brasil no exterior: nos
termos do AI-5, Congresso, que se achava fechado, foi convocado pela Junta Militar para
reassumir suas funções e homologar os dois nomes escolhidos. Tudo se faz
protocolarmente, e sem maiores restrições.
Em 30 de outubro de
1969, enquanto o presidente Costa e Silva padecia em seu leito de morte, assume a
presidência da República o general Médici, para um mandato de 4 anos e meio, ou seja,
até 15 de abril de 1974.
Quem era
Médici
Emílio Garrastazu
Médici nasceu em Bagé em 4 de dezembro de 1905. Da mesma forma que seus antecessores
(Castelo Branco e Costa e Silva) fez seus primeiros estudos no Colégio Militar de Porto
Alegre, formando-se oficial pela Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro. Tornou-se
general-de-brigada (duas estrelas) em 1961.
Durante o movimento
militar de 1964, seu nome ganha algum destaque, pois era, naquele momento, o comandante da
Academia Militar de Agulhas Negras, uma escola de oficiais fundada por D.João VI e
situada num ponto estratégico, na divisa de São Paulo com o Rio de Janeiro. Foi ali que
aconteceu o encontro das tropas de Minas e São Paulo com o Regimento Sampaio, que viera
supostamente para dar-lhes combate, mas que juntou-se aos rebeldes, voltando
vitoriosamente ao Rio de Janeiro.
No início de 1969,
é promovido a general-de-exército (quatro estrelas) o que o capacita a disputar a
presidência da República, tanto mais que, sendo um militar voltado para a profissão,
pouco conhecido do grande público e sem ter nunca participado de facções dentro do
Exército, aparecia como um precioso elemento de ligação dentro do Sistema.
Logo em março de
1969 foi nomeado comandante do 3º Exército, em Porto Alegre, um dos pontos
mais vulneráveis do esquema militar. De lá, começavam as articulações políticas para
nomeá-lo ministro do Exército, em substituição ao general Aurélio de Lira Tavares,
mas os entendimentos foram subitamente cortados com a doença do presidente Costa e Silva,
que precipitou os acontecimentos e antecipou o problema sucessório.
A partir de então,
ocorreram os fatos já do conhecimento de todos: a Junta Militar assume, a escolha do novo
Presidente recai sobre o nome de Médici, que toma posse em 30 de outubro, 49 dias antes
da morte do presidente Costa e Silva.
Médici era casado
com dona Scylla Gaffré Nogueira e tinha dois filhos: Sérgio e Roberto.
O Ministério
O novo Ministério ficou assim constituído: Relações Exteriores, Mário Gibson
Alves Barbosa, ex-aluno da Escola Superior de Guerra; Justiça, Alfredo Buzaid, advogado em
São Paulo; Fazenda, Antônio Delfim Neto, de São Paulo, com interinidade de Flávio
Pécora; Indústria e Comércio, Fábio Riodi Yassuda, substituído depois por Marcos Vinícius
Pratini de Morais; Agricultura, Luís Fernando Cirne Lima, agrônomo, do Rio Grande do Sul; Transportes,
coronel Mário Daví Andreazza; Interior, general José Costa Cavalcanti; Trabalho e Previdência Social, Júlio de Carvalho Barata (ex-aluno da Escola Superior de Guerra), com
interinidade de Armando de Brito;
Educação e Cultura, coronel Jarbas Gonçalves Passarinho; Saúde, Francisco de Paula da Rocha
Lagoa, ex-aluno da Escola Superior de Guerra; Planejamento e Coordenação Geral,
João Paulo dos Reis Veloso, formado em economia pela Universidade de Yale, EUA; Comunicações,
coronel Higino Corsetti; Minas e
Energia, Antônio Dias Leite; Exército,
general Orlando Geisel; Marinha, almirante Adalberto de Barros Nunes, tendo na interinidade o
almirante Antônio Borges da Silveira Lobo; Aeronáutica, marechal-do-ar Márcio
de Souza Melo, substituído depois pelo brigadeiro Joelmir Campos de Araripe Macedo; Casa Militar,
general João Batista de Oliveira Figueiredo, que fora chefe de gabinete de Médici tanto
no SNI como no 3º Exército; Casa Civil, João Leitão de Abreu,
gaúcho, advogado e cunhado do chefe da Junta Militar, general Lira Tavares.
Delfim Neto veio do
governo anterior, artífice que fora da estabilidade econômica. Também a Junta Militar
garantiu sua influência no governo, não só com vice-Presidente, almirante Rademaker,
como com ministro da Aeronáutica, marechal Souza Melo e com Lira Tavares, embaixador na
França.
O ministério de
Médici conservou as mesmas particularidades do governo anterior: de um lado, a
estabilidade, pois não houve praticamente substituições nos 4 anos e meio de governo;
de outro, a presença de militares em pastas civis. Aliás, a presença de militares na
administração civil não se deu apenas no ministério. Eles marcaram presença na
direção e em cargos de segundo escalão em vários setores de governo, bem como nas
estatais, caracterizando a militarização da administração pública.
Mas há também outra
característica: os ministros, militares ou não, são técnicos e não políticos.
Inicia-se a era da tecnocracia (ou tecnoburocracia como queriam alguns), que marcaria
também os governos seguintes.
Os anos de
progresso
econômico
Logo em seu
início, o governo Médici começou a colher os frutos do ajuste econômico que vinha
sendo feito desde 1964, dentro das rígidas normas do Fundo Monetário Internacional que,
pela primeira vez, deitou e rolou sobre a economia brasileira. O FMI já tentara gerenciar
as contas brasileiras com Juscelino Kubitschek, em 1958, e o resultado foi o rompimento
unilateral, por iniciativa nossa. A efemeridade da Presidência nas mãos de Jânio
Quadros não permitiu o início de negociações mais sólidas e, com João Goulart, a
anarquia total impedia um plano econômico nos moldes do FMI.
Com Castelo Branco
e Costa e Silva, a cartilha foi seguida à risca e, malgrado a recessão e o desemprego
registrados a partir de 1965, com semi-paralisação da indústria e do comércio,
malgrado também as tensões sociais contidas pelo autoritarismo, os resultados positivos
já se faziam sentir ao início do período Médici.
O crédito do
Brasil no exterior estava restabelecido. Era a época do dinheiro farto no exterior, de
muitos aplicadores para pouco mercado. As ofertas de empréstimo chegavam pela linha do
telex e eram aceitas pela mesma via. Os capitais voltavam a aportar ao Brasil, tanto na
forma de empréstimos a médio prazo como em investimentos industriais no país.
Do choque ortodoxo
dos anos sessenta, passamos ao plano heterodoxo dos anos setenta. A ordem agora era
consumir para aumentar as vendas, gerando novos pedidos às indústrias que, assim, tinham
de contratar mais mão-de-obra, aumentando a renda dos trabalhadores que, por sua vez,
incrementava o consumo, gerando novos pedidos.
A situação
tornou-se, pois, quase surrealista. Empregados que, até então, seguravam seus empregos a
custa de sacrifícios pessoais, passaram a demitir-se espontaneamente, buscando novas
oportunidades que lhes eram oferecidas.
Havia falta de
mãos-de-obra. Uma empresa da construção civil em São Paulo contratou duplas sertanejas
para cantar em praças públicas. Em volta se formava um pequeno público apreciador do
gênero e, então, eram distribuídos folhetos anunciando ofertas de empregos para
pedreiros, carpinteiros e outros.
Uma indústria
recém construída em Osasco (Grande São Paulo) mandou divulgadores à porta de outras
fábricas, com folhetos em que convidava os empregados destas para comparecer à
inauguração da nova unidade e conhecer a oportunidade de novo emprego.
Foi um período de
ouro para os departamentos de vendas. Agora, eram os compradores que batiam à porta dos
vendedores, suplicando por um aumento de cota, ou pedindo a antecipação de entrega de
mercadorias já encomendadas. Como conseqüência natural, já que o parque industrial
não podia ser ampliado do dia para a noite, começaram a faltar matérias primas, gerando
alguma pressão inflacionária, ainda que sob controle.
Era o milagre
econômico que chegava ao país. Por detrás dele, havia, entretanto, um controle
governamental contendo a ação sindical, proibindo greves e manifestações, controlando
reajustes salariais e "fabricando" índices de inflação que não batiam com a
realidade do dia-a-dia. Mas havia emprego pleno e isso desarmava os sindicatos em sua luta
por melhores salários.
A realidade,
por
trás da fantasia
Escreve E.A.Vieira em seu livro "A República Brasileira": "O governo
Médici usou à vontade da propaganda política, destacando o crescimento do país.
Desenvolvia nas mentes a imagem de grande potência, cujo retrato era o Brasil
Grande. Na realidade, entre 1968 e 1973, houve um período de crescimento
industrial. O Produto Interno Bruto passou de 4,8% em 1967 para 14% em 1973. Em seguida, o
Produto Interno Bruto caiu para 9,8% em 1974, e para 5,6% em 1975. Ao mesmo tempo em que o
Produto Interno Bruto se elevava, a taxa de inflação manteve-se, ao longo desse
período, numa média de 20%. Em se tratando da inflação brasileira, esta taxa era
bastante razoável."
E prossegue, mais
adiante: "Dentro do período do milagre econômico as condições
pioraram para quem trabalhava. Em 1969, a produtividade real foi de 5,9, mas os reajustes
salariais tiveram seu cálculo com base em 3,0. Em 1971, a produtividade real foi de 8,1,
mas os reajustes salariais tiveram seu cálculo com base em 3,5. Em 1973, no fim do
governo Médici, a produtividade real foi de 8,4, mas os reajustes salariais tiveram seu
cálculo com base em 4,0. (...)
"Em 1969, eram
necessárias 110 horas e 23 minutos a fim de comprar-se a alimentação mínima (...) Em
1973, eram necessárias 147 horas e 4 minutos para comprar-se a mesma alimentação. Em
nome do milagre brasileiro, ou do crescimento do bolo, a maioria
da população trabalhava mais para comer."
Faça-se, porém,
um reparo importante: havia, como dissemos, pleno emprego. Numa casa com 5 pessoas em
condições de trabalho, as 5 estavam trabalhando e, por conseqüencia, a renda familiar
aumentara de fato. Se os salários fossem mais altos mas, em contrapartida, duas pessoas
estivessem trabalhando e as outras 3 desempregadas, a renda familiar cairia brutalmente.
Esta foi, além da repressão, uma das causas pelas quais o trabalhador aquietou-se,
conformando-se com a visível compressão de seu salário: a renda familiar aumentou
substancialmente.
A taça do
mundo é nossa
Em junho de 1970, a TV brasileira entra na era das transmissões mundiais via satélite.
Na antena parabólica em Itaboraí (Rio de Janeiro), as imagens chegam a cores. No resto
do Brasil, a televisão continua em preto e branco mas, ainda assim, o avanço é
sensacional. Pela primeira vez, o brasileiro pode assistir a Copa do Mundo ao vivo,
diretamente do México, e ver as "feras do Saldanha" em campo, em tempo real.
Primeiro jogo,
primeiras emoções: o Brasil vence a Tchecoslováquia por 4 a 1. E, no jogo final,
repete-se a façanha: o Brasil goleia também a Itália, com o mesmo resultado. No campo,
as "feras": Tostão, Gerson, Rivelino, Clodoaldo, Pelé...
A seleção
brasileira não foi um improviso, antes, resultou de uma operação de guerra em que o
governo interferiu, passo-a-passo, para garantir a vitória, importante para o
"marketing" da revolução. Por ordem do governo, a CDB (Confederação
Brasileira de Desportos) criou a COSENA (Comissão Técnica Selecionadora), limitando ao
técnico a possibilidade de escolher livremente os jogadores. E foi com essa equipe que o
Brasil experimentou suas primeiras vitórias nas eliminatórias: 5 a 0 contra a Venezuela,
em Caracas; 6 a 2 contra a Colômbia, no Rio...
Há, também,
interferências pessoais. O presidente da República exige, em certo momento, que seja
escalado Dario, o "peito de aço", e recebe a cortante resposta de João
Saldanha, dada pelo mesmo mensageiro: "Diga ao Presidente que ele escolhe seus
ministros e eu escolho os meus jogadores". Saldanha é demitido da seleção, por
ordem do Presidente e, em seu lugar, fica o técnico Mário Lobo Jorge Zagalo, que incluiu
Dario no elenco, firmando-se a paz entre as partes.
Durante os
preparativos, Médici oferece um almoço aos jogadores no Palácio das Laranjeiras e fala
a cada um deles como torcedor bem informado: "Como bom entendedor reporta um
jornal o Presidente dirigiu-se a cada um dos jogadores de forma especial: saudou a
canhotinha de Gerson, manifestou esperança nos gols de Dario, perguntou pelo
olho de Tostão e dispensou a apresentação a Pelé (Este eu já conheço
muito). Everaldo mereceu um cumprimento especial e foi apresentado pelo próprio
Presidente a dona Scylla (esposa de Médici): Afinal de contas, ele vai representar
nosso Grêmio lá no México."
É com Zagalo que o
Brasil conquista o tricampeonato. A Copa Jules Rimet é nossa para todo o sempre (até
que, mais tarde, fosse roubada e derretida). A seleção chega ao Rio de Janeiro em 23 de
junho de 1970, sob o delírio do povo. E para não faltar ninguém às ruas, foi decretado
feriado nesse dia.
O presidente
Médici sai à frente do palácio e ensaia uns passes, diante dos fotógrafos e
cinegrafistas para mostrar que também é bom de bola. Ou, melhor, que é bom de
propaganda. Acabava de faturar mais um lance, que aumentaria sua popularidade, obliterando
o lado negativo de seu governo.
De permeio, alguns
lances folclóricos. O Brasil exige da FIFA que a nova taça, a ser usada em 1974, passe a
se chamar "Taça Edson Arantes do Nascimento", o que evidentemente não foi
aceito. Em São Paulo, o prefeito Paulo Salim Maluf usa dinheiro público para presentear
todos os jogadores com carros zero-quilômetro, ocasionando-lhe um processo que se
estendeu por mais de vinte anos e que o obrigou a depositar o valor correspondente em
juízo. Por fim, foi absolvido.
A ilusão da
Transamazônica
Uma das obras mais
importantes no plano de governo era a construção da rodovia Transamasônica, cantada em
prosa e verso como a redenção da Amazônia. Uma imagem colorida era transmitida à
população, de uma estrada asfaltada e moderna, cortando o país de leste a oeste,
cercada de um lado e do outro por agrovilas com bem-sucedidos agricultores, os quais
encontravam apoio governamental para escoar sua produção, trazendo a grandeza econômica
do país.
Os sacrifícios
para a construção eram imensos, mas o capital, que chegava do exterior na forma de
empréstimos, permitia todos esses excessos de propaganda. Enormes tratores eram
transportador até a selva bruta, sabe Deus como. Na ausência de mão-de-obra
especializada, treinava-se o trabalhador comum, habilitando-o a manejar aqueles gigantes
destruidores de árvores e desbravadores de novos trechos de estrada.
Algumas agrovilas
foram realmente feitas com planejamento e aplicação de recursos: moto-serras, tratores,
implementos agrícolas, etc., constituindo-se na base da propaganda oficial. Isto só para
algumas agrovilas, que serviam de protótipo. No mais, o homem desbravador, geralmente
vindo do nordeste, era jogado à terra bruta com um mínimo de recursos para garantir sua
sobrevivência e, no pouco espaço que conseguia abrir com a força dos próprios braços
e os golpes do seu machado, nada mais obtinha que uma agricultura de subsistência, sem
perspectiva de futuro.
Assim, da
Transamazônica, apenas alguns trechos, próximos a cidades já existentes e já com vida
própria, chegaram de fato a se desenvolver. O restante acabou sendo engolido pelo mato e
pela erosão. O sonho da grande rodovia era outra bolha de sabão que estourou bem antes
do previsto. E a conta, representada pelo aumento da dívida externa, ficou por pagar.
Esse mar é
meu, leva
teu barco pra lá
Outra iniciativa do
governo Médici, que produziu anos de discussões com a comunidade mundial (e também uma
música ufanista) foi a decisão unilateral de ampliar o nosso mar territorial de 12
milhas para 200 milhas, inclusive em torno de nossas ilhas marítimas, como Fernando de
Noronha, o Atol das Rocas, Trindade e Martim Vaz.
Afora a propaganda
favorável ao governo, um dos objetivos concretos era manter afastados sobretudo navios de
pesca, que se aproximavam demasiado de nossa costa e, quando conveniente, invadiam nossas
águas, causando problemas diplomáticos e, por vezes, um confronto armado com os
invasores.
Outro
objetivo era preservar as riquezas porventura existentes em nossa plataforma continental,
que apresenta uma largura média de 90 quilômetros, cinco vezes mais longa que as 12
milhas (18 quilômetros) de nosso mar territorial.
Como era de se
esperar, nossa pretensão provocou a maior reação das potências mundiais, sobretudo
Estados Unidos, que consideravam essas águas importantes para o patrulhamento do oceano;
também da França e do Japão, países interessados na pesca dentro do território
assinalado.
Depois de uma tensa
e longa negociação, que despertou também o interesse de outras nações do terceiro
mundo, interessadas em apoiar a posição brasileira, em 1982, foi estabelecida a
Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar.
Com base nela, em
1983, o presidente Itamar Franco assinaria a Lei Federal nº8617 pela qual o nosso mar
territorial, de soberania total, permanece de 12 milhas, como antes; mas, além dessa
faixa, o Brasil garante a reserva de mais 188 milhas com soberania restrita à
exploração econômica e à gestão dos recursos naturais. Alem dessas 200 milhas (12 +
188), o alto mar permanece internacional, com liberdade de pesca e pesquisa científica a
todos os países do globo.
Estudantes
enfrentam
o regime
Nem tudo era paz no governo Médici. Se, de um lado, conseguia manter os trabalhadores sob
controle, de outro, os estudantes protestavam contra a perda de espaço, cada vez maior.
Já no governo
Castelo Branco, a Lei 4.464/64, conhecida como Lei Suplicy (o ministro da Educação era
então Flávio Suplicy de Lacerda) proibiu as organizações estudantís de exercerem suas
atividades e, no lugar delas foi criado o DNE-Diretório Nacional de Estudantes, pelo qual
se pretendia controlar a vida estudantil.
Ao final do governo
Costa e Silva surgiu o famigerado Decreto-Lei 477/69, proibindo estudantes, professores e
funcionários de escola de realizarem manifestações políticas. O governo Médici foi
além, proibindo qualquer manifestação estudantil, política ou não. Cassados os
direitos de cidadania, foi-lhes retirado até o direito de pensar, como se pensar não
fosse um ato natural de quem estuda.
A contestação
estudantil ao regime e a repressão que daí adveio serão assunto de capítulo aparte.
Mas, apenas para ilustrar, reproduzimos nos tópicos seguintes algumas impressões e um
depoimento insuspeito sobre o assunto. O depoente é Iberê de Matos, um oficial do
Exército, bem ligado ao regime. Iberê estudou com Castelo Branco na Escola Militar do
Realengo, foi prefeito de Curitiba, ocupou altos cargos de governo e escreveu um livro
exaltando as qualidades do presidente Médici. Sua posição em relação ao regime, pois,
tem de ser considerada como equilibrada e não contestatória.
A juventude
insatisfeita
Em artigo publicado
no jornal "O Estado do Paraná", edição de 11 de fevereiro de 1973, após
analisar a rebeldia generalizada dos jovens nos anos sessenta e seus efeitos junto aos
estudantes brasileiros, comenta:
"Menos
exageradas que as dos hippies e assemelhados, surgiram outras reações, principalmente
nos meios estudantis e universitários, menos radicais, mas que explodiam nas ruas.
Parecia que havia sido inoculado o germe da rebeldia em toda a mocidade, que se agitava e
não admitia repressões (...) Ninguém poderia contestar a esses contestadores o direito
de exigirem uma explicação, que não lhes era dada, e assim cresciam em progressão
geométrica e acabaram explodindo numa reação em cadeia. O fato é que todos eles sabiam
o que não queriam, num direito à negativa, imolados, como eram os animais, nos rituais
religiosos primitivos.
"Esses moços,
que iam às passeatas com suas namoradas ou simplesmente colegas, e que promoviam
agitações de rua, de difícil explicação racional, não poderiam ser contidos nos seus
impulsos por patadas de cavalos ou tiros de metralhadoras, sabendo-se que havia sido
atingido um grau de histeria coletiva em que falam mais alto os instintos selvagens, que
existem adormecidos em todos os seres humanos."
Os estudantes
e a cavalaria
Iberê, então,
ilustra com um testemunho próprio, narrando um fato ocorrido ainda no governo Costa e
Silva:
"Foi espantoso
e assustador o que vi. Estava sendo realizada uma passeata de estudantes na avenida Rio
Branco, no Rio, com cartazes realmente agressivos e alguns até espirituosos. Não havia
dúvida alguma sobre o fato de estarem aqueles moços empolgados pela demonstração de
coragem e virilidade que estavam dando, principalmente porque era grande o número de
mocinhas, muitas abraçadas com seus destemidos colegas ou namorados, havendo também
muitas que ainda eram meninas. Era machismo da parte deles e solidariedade carinhosa o que
delas partia como estímulo.
"De repente,
surge a investir contra eles a Cavalaria da Polícia, com espadas desembainhadas e a
distribuir patadas de cavalos e golpes de espada, como se tivessem pela frente uma horda
de facínoras perigosos. As janelas dos escritórios da avenida estavam apinhadas pelos
que assistiam à passeata, pois todos pararam de trabalhar, num trecho em que todos os
prédios eram de mais de dez pavimentos. Gritos de protesto surgiam de todos os lados, e
de cima também, porque na carga desvairada dos policiais não eram respeitados nem os que
somente estavam assistindo, como curiosos, sendo atingidos até alguns que estavam
censurando a atitude dos jovens e mesmo vaiando.
"Quando foi
completada a missão terrorista, com debandada geral e muitos feridos, os cavalarianos
receberam uma ordem de meia-volta. Foi a partir desse instante que se iniciou o mais
impressionante espetáculo de repúdio que assisti em toda a minha vida. Imagine-se a
tropa da cavalaria cumprindo a ordem e sendo obrigada a percorrer, de volta, uma avenida
como a Rio Branco, que não é muito larga, com prédios dos dois lados formando muralhas
e se assemelhando a uma estreita garganta entre paredões altos, nos quais milhares de
pessoas estavam postadas, aguardando a passagem dos selvagens agressores.
"Os cavalarianos
iniciaram a marcha de retorno, a princípio em trote apressado que, pouco a pouco, foi se
transformando em galope de fuga, com o acompanhamento de um coral estridente de vaias que
estrugiam como chicotadas de protesto. Imagine-se ainda a surpreendente cena de uma chuva
de objetos, os mais estranhos, como um metralhar de petardos improvisados e uma descarga
de ódio sobre aqueles primaríssimos profissionais da repressão burra, que se viam
transfigurados em demoníacos algozes, no cumprimento de ordens superiores.
"Aquela gente
revoltada lançava do alto, sobre eles, tudo o que estivesse ao alcance das mãos e se
via, como projéteis arremessados, desde cinzeiros, vasos, copos, jarras, cadeiras, livros
velhos, enfeites de escritório, espátulas e muitas outras peças, até máquinas de
escrever e rolos de papel higiênico, num desabafo incontido da gente dos
escritórios."
Perguntas sem
resposta
Arrematando o
artigo de que estamos reproduzindo uns trechos, Iberê de Matos, ainda que defendendo o
regime, faz várias perguntas para as quais não encontrou resposta:
"Seria mesmo
essa a repressão aconselhável contra meninos e meninas em grande maioria? Seria
justificativa aceitável o de saber, e era verdade mesmo, que entre eles houvera a
infiltração de agitadores subversivos? Seria construtiva ou preventiva da desordem essa
violência, com repercussões negativas até para os que reprovavam as passeatas?
"Não teria de
ser considerada a hipótese de que muitos desses rapazes, meninos e meninas, pertenciam a
famílias que apoiaram a revolução, justamente por terem nela visto um final das
agitações e angústias que os atormentavam?
"Não teria de
ser previsto o impacto causado nas mães aflitas ao verem chegar em casa uma filha ainda
menina e ferida, sabendo-se que, para as mães, aquelas mocinhas ou meninas ainda eram
consideradas como seres indefesos, mesmo que, lá fora, estivessem tomando atitudes
adultas?
"Não teria de
ser considerado o fato de que, a partir daquele momento, para os parentes e amigos desses
jovens espancados, estava sendo criada uma incompatibilidade de ordem emocional?
"Não seria
lamentável que essa incompatibilidade estivesse surgindo justamente entre gente simples e
boa e um grupo de homens, bem intencionados, que estavam tentando, desesperadamente,
conseguir um clima de tranqüilidade para o país?"
O episódio foi
presenciado por Iberê de Matos que, repetimos, era um oficial do Exército, exercendo
atividades políticas dentro do governo revolucionário, não havendo, pois, qualquer
exagero em sua narrativa. Também não era um fato isolado. A norma estabelecida para
reprimir manifestações era não economizar no uso da força, com vistas a acabar com as
manifestações e, paralelamente, criar um clima de temor capaz de desestimular outros
movimentos do gênero.
Conclusão
Com uma rígida
censura aos meios de comunicação, geralmente de forma insidiosa e indireta, mas em
alguns casos com a presença dos censores nas redações, foi possível ao governo Médici
controlar o noticiário, filtrando os fatos que poderiam chegar ao conhecimento do
público.
Assim desinformada,
não é de estranhar que a população brasileira acabou criando uma imagem favorável do
Presidente e do regime que ele representava. O levantamento de opinião pública feito
pelo IBOPE em julho de 1971 apontava um apoio ao governo na ordem de 82 por cento, índice
jamais alcançado por outro Presidente, antes e depois de Médici.
Dentro do
calendário eleitoral, o Sistema apresentou como sucessor o nome do general Ernesto
Geisel, irmão do ministro do Exército, Orlando Geisel. Como seu Vice, foi apontado o
general Adalberto Pereira dos Santos. A oposição apresentou uma candidatura de protesto
com Ulisses Guimarães para presidente e Barbosa Lima Sobrinho para vice. Simples
manifestação de protesto, pois as cartas já estavam marcadas a favor dos candidados do
Sistema.
Foi assim que o
general Ernesto Geisel tomou posse na presidência da República em 15 de abril de 1974,
com a difícil missão de iniciar a abertura política, uma abertura lenta, segura e
gradual, como ficou definido.
Ainda que à custa
de um forte endividamento externo, o governo Médici deixou um saldo positivo de
realizações: o aumento das exportações com a diversificação dos produtos exportados;
a pavimentação de rodovias por todo o país; a criação de polos petroquímicos e a
expansão da indústria siderúrgica; finalmente, o acordo com o Paraguai para a
construção da usina de Itaipu, na ocasião a maior do mundo.
Emilio Médici
morreu no Rio de Janeiro em 9 de outubro de 1985. Quatro anos depois, começavam a
aparecer os documentos da repressão e as ossadas das vítimas do regime, trazendo a
público a face oculta da lua, jamais iluminada pelo sol da verdade. Triste réquiem para
um feliz e popular Presidente. Que a terra lhe seja leve.