CAPÍTULO SETE
ABERTURA A CONTA-GOTAS
GOVERNO DE ERNESTO GEISEL

Paulo Victorino

     A contradição do general presidente Ernesto Geisel estava em que, eleito para iniciar a abertura política, governou os cinco anos sob a égide do Ato Institucional n° 5, que mantinha suspensas as garantias constitucionais. Mas manteve-se firme no processo de redemocratização do país e, ao fim do governo, extinguiu o AI-5, obrigando seu sucessor a seguir as normas estabelecidas na Constituição.

     "Se arrependimento matasse eu já estaria morto", desabafa o ex-Presidente Emílio Médici junto a Roberto Nogueira, seu filho caçula, já nos primeiros momentos do governo do general Ernesto Geisel, quando soube da nomeação do general Golberi do Couto e Silva para a chefia da Casa Civil da Presidência.

     Em verdade, Médici fazia, desde o início, algumas restrições quanto à escolha de seu sucessor. Primeiro, sua preferência pessoal recaia sobre o general Adalberto Pereira dos Santos que, entretanto, tinha pouca influência nos meios militares, sendo um nome de difícil aceitação.

     Outra restrição se vinculava à influência que, em seu entender, o general Golberi – com quem Geisel tinha grande aproximação – exercia sobre os governos militares, considerado até como uma eminência parda do regime. Golberi possuía forte intuição política e grande capacidade de articulação, dentro e fora dos quartéis. Quando coronel, foi ele quem idealizou a Escola Superior de Guerra, nos moldes do War College, transplantando para o Brasil o conceito americano de segurança nacional.

     Vitorioso o movimento militar de 1964, foi Golberi quem planejou a criação do SNI-Serviço Nacional de Informações, órgão encarregado de cuidar do serviço de inteligência, do qual ele mesmo se tornou chefe. Quando Médici, mais tarde, foi nomeado para dirigir o SNI, Golberi não concordou com a escolha e abandonou o órgão para não dar posse ao sucessor, que encontrou "apenas uma sala vazia e um telefone". Médici não o perdoou por isso.

     Assim, ao iniciar-se o processo sucessório, o Presidente procurou induzir seu ministro do Exército, general Orlando Geisel a aceitar a própria candidatura, não encontrando nele qualquer interesse.

     Foi então que surgiu o nome de Ernesto Geisel, que tornou-se o candidato oficial, com apoio do irmão e com a articulação do chefe do Gabinete Militar de Médici, general João Batista Figueiredo: Manifestada a preocupação de Médici quanto à presença de Golberi, Figueiredo garantiu: "Eles [Golberi e Geisel] estão afastados e há muito tempo não se falam."

     Agora, nem bem se inicia o governo, e o general Golberi volta com toda sua influência, nomeado para uma das pastas mais importantes, qual seja, a Casa Civil da Presidência, destinada a cuidar justamente da articulação política dentro do governo.

     Por fim, o ex-presidente Médici não gostou da participação entusiástica do general Figueiredo, tanto no processo sucessório, quanto no governo de Geisel, dentro do qual assumiu a chefia do SNI. Era como se Geisel, Golberi e Figueiredo formassem um triunvirato para governar o país.

     A preocupação do ex-Presidente não tinha razão de ser. Ernesto Geisel era extremamente personalista, pouco dado ao diálogo, de rígida moral protestante, vale dizer dogmático em seus conceitos. Tomava sozinho suas decisões, por vezes radicais, e assumia responsabilidade pessoal por todos os atos de governo.

     Embora responsável pelo processo de abertura, que se pretendia ser lenta, segura e gradual, Geisel apertou ainda mais os freios, usou ao extremo os recursos do AI-5 e tornou-se o mais autoritário de todos os governos militares.

O caminho da Presidência

     Em 1972, Emilio Garrastazu Médici, com seu prestígio atingindo o ponto mais alto, detetou um movimento entre parlamentares no sentido de viabilizar a sua reeleição à presidência da República e, de imediato, desautorizou qualquer iniciativa a respeito, declarando que suas obrigações se encerravam com o término do atual mandato.

     Prosseguiram, então, os entendimentos para a escolha de um candidato capaz agradar não só aos adeptos da "linha dura" como também aos "castelistas" ou moderados, com o objetivo de iniciar o processo de abertura, diminuindo o poder quase sem limites do Executivo, e restabelecendo as responsabilidades dos outros poderes da República, quais sejam, o Legislativo e o Judiciário.

     Essa preocupação tinha razão de ser. Nas eleições legislativas de 1972, a Arena conseguiu expressiva maioria no Congresso, assim como nas Assembleias Legislativas, porém, as abstenções, somadas aos votos votos nulos superaram a 30 por cento do eleitorado, contra os 8 por cento registrados em eleições anteriores. O desencanto dos eleitores era tamanho que, em alguns casos, as abstenções mais os votos nulos atingiram até 50 por cento. Não dá para, ao menos, fingir democracia, se o eleitor se afasta das urnas.

     Abertura não significava necessariamente a devolução do poder aos civis, mas tão somente restabelecer, a médio prazo, o interesse do cidadão em participar da vida política. A não ser assim, o Sistema, para manter-se no governo, teria de radicalizar cada vez mais e, em verdade, após o AI-5, pouco faltava já para chegar ao totalitarismo pleno.

     Tanto o general Adalberto Pereira dos Santos, nome inicialmente cogitado, como os irmãos Geisel, preferidos a seguir, eram "castelistas" e, pelo menos estes últimos, tinham ampla penetração nas duas facções das Forças Armadas, reunindo, pois, condições para iniciar o processo de abertura que, numa segunda etapa, abriria o caminho para a redemocratização. Foi assim que, findas as consultas, decidiu-se lançar os nomes de Ernesto Geisel para a presidência da República e de Adalberto Pereira dos Santos para a vice-Presidência.

A oposição participa

     Desta vez, pelo menos, a oposição decidiu participar das eleições, considerando que, mesmo sem chances de vitória, teria oportunidade de fazer comícios e reuniões propagando suas ideias e pedindo a volta da democracia.

     Para Presidente, havia consenso em torno do nome de Ulisses Guimarães, que, ao longo dos anos, se firmou como o mais importante líder da oposição. Já para vice, as atenções se voltaram primeiro para o escritor pernambucano Austragésilo de Ataíde, depois para o jurista Heráclito de Sobral Pinto e, finalmente, para o presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Barbosa Lima Sobrinho que foi, afinal, o escolhido.

     Já o governo, para evitar surpresas, havia alterado até a composição do colégio eleitoral, até então formado pela Câmara Federal e o Senado. Foram acrescentados agora mais seis representantes de cada Estado, escolhidos dentro das respectivas Assembleias Legislativas.

     O colégio eleitoral passou a ser, assim, de 503 eleitores privilegiados, sendo 63 senadores, 314 deputados federais e 126 deputados estaduais. Na composição por partidos, 401 eram da Arena e apenas 102 do MDB. Como a fidelidade partidária impedia votar em contrários, a vitória do candidato oficial estava mais que garantida.

     As eleições se realizaram no dia 15 de janeiro de 1974, a partir das 9 horas da manhã. Entre os eleitores havia duas mulheres, coisa rara na política, naqueles tempos. Uma era a deputada federal Necy Novais, da Bahia, e a outra a deputada estadual Dulce Sales Cunha, de São Paulo.

     O resultado, é claro, não surpreendeu a ninguém. O general Ernesto Geisel obteve 400 votos, enquanto apenas 67 eleitores sufragaram o nome do deputado Ulisses Guimarães. A Arena compareceu em peso e o único ausente era o deputado José Maria Alkimim, que se achava doente. Já a ala radical do MDB se absteve de votar, para não referendar um processo eleitoral que considerava espúrio.

     O líder do MDB, Alencar Furtado, em seu discurso de abertura, usando luvas de pelica, definiu o voto oposicionista: "O Movimento Democrático Brasileiro [MDB] saúda os eminentes representantes da Aliança Renovadora Nacional [Arena] e presta-lhes a homenagem de sua sinceridade ao proclamar que sairá deste recinto, nem vencido nem muito menos convencido, pois haverá esperança para a liberdade enquanto restar um homem sobre a face da terra, e a democracia é o povo, e o povo, sendo eterno, é indestrutível."

Quem era Geisel

      Ernesto Geisel nasceu em 3 de agosto de 1908 em Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul e, aos 17 anos, ingressou na Escola Militar do Realengo (RJ).

     Iniciou cedo sua carreira política. Era tenente e tinha 22 anos, quando participou da vitoriosa revolução de 1930. No ano seguinte, foi nomeado secretário do Interior do Rio Grande do Norte e, em 1932 tornou-se secretário da Fazenda, Agricultura e Obras Públicas da Paraíba.

     Com a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, quando os ministros militares vetaram a posse do vice-Presidente João Goulart, Geisel, então chefe da Casa Militar do governo provisório de Ranieri Mazzili, manteve firme sua posição de respeito à ordem constitucional, convencendo seus companheiros a aceitar a fórmula intermediária proposta pelo Congresso, que era a emenda parlamentarista.

     Entre 1964 e 1967, chefiou a Casa Militar do governo Castelo Branco. Depois, entre 1967 e 1969, foi ministro do STM-Superior Tribunal Militar. Deixou esse cargo para assumir a presidência da Petrobrás que, sob sua direção, ganhou novo fôlego e novos rumos.

     Geisel parecia estar prevendo a crise de abastecimento que viria anos depois. Foi em sua administração que a Petrobrás incrementou a pesquisa de novas jazidas e consolidou a abertura e funcionamento de novos poços petrolíferos, sobretudo com a instalação de plataformas submarinas, que se considerava, até então, caras e ineficientes.

     Paralelamente, utilizou a Petroquisa para implantar novos polos petroquímicos e, através da Braspetro, firmou convênios com o Iraque, o Egito e o Equador para prospecção e extração de petróleo nesses países. Malgrado a presença da tecnoburocracia, que viciou a administração pública, aumentando os custos e comprometendo o crescimento patrimonial, a verdade é que a Petrobrás passou a ser respeitada no mundo pela sua qualificação técnica, a par com as maiores empresas do ramo.

     Geisel era, pois, o homem certo no momento exato. Assumiu a presidência da República em meio ao embargo do petróleo determinado pelos países árabes e sua experiência foi de suma importância para que o Brasil atravessasse essa longa crise com o mínimo de danos possível.

     Era casado com dona Luci Markus e tinha dois filhos: Amália Luci e Orlando.

O Ministério

     O ministério de Geisel ficou assim constituído: Relações Exteriores, Azeredo da Silveira; Justiça, Armando Falcão; Fazenda, Mário Henrique Simonsen; Indústria e Comércio, Severo Gomes, substituído mais tarde por Pedro Calmon de Sá; Agricultura, Alysson Paulinelli; Transportes, Dirceu Nogueira; Interior, Rangel Reis; Trabalho e Previdência Social, Arnaldo Prietto; Educação e Cultura, Ney Braga, substituído depois por Euro Brandão; Saúde, Mário Machado;

     Planejamento, João Paulo dos Reis Veloso; Comunicação, Euclides Quandt de Oliveira; Minas e Energia, Shigueaki Ueki; Exército, general Dale Coutinho, depois, general Sílvio Frota e general Fernando Bethlem; Marinha, almirante Azevedo Henning; Aeronáutica, brigadeiro Araripe Macedo; Casa Militar, general Hugo Abreu; Casa Civil, Golberi do Couto e Silva; SNI (Serviço Nacional de Informações), general João Batista Figueiredo.

     Algumas considerações deve-se fazer sobre a equipe de governo. A primeira é sobre a continuidade da tecnoburocracia, colocando-se técnicos em cargos técnicos. A segunda é a maior utilização de civis em cargos civís, diminuindo a militarização do ministério, ao contrário do que aconteceu no governo Médici.

     No mais, permanece a estabilidade do ministério já verificada no governo anterior. Severo Gomes foi substituído por Calmon de Sá por razões puramente burocráticas. Euro Brandão assumiu em lugar de Ney Braga para que este fosse indicado governador biônico no Estado do Paraná.

     Na Casa Militar, a nomeação de Hugo Abreu foi circunstancial. O escolhido era o general Dilermando, que sofreu um acidente, ficando impossibilitado de assumir.

     Apenas no ministério do Exército o período foi tumultuado, e bastante. O general Dale Coutinho veio a falecer, sendo substituído pelo general Silvio Frota, da "linha dura". Este, sendo um postulante à sucessão presidencial, e não encontrando apoio de Geisel, rompeu com o governo disparando contra o regime e causando um clima de instabilidade que custou a ser vencido. O período restante foi preenchido, então, pelo general Fernando Bethlem.

A crise mundial do petróleo

     O general Ernesto Geisel tomou posse em 15 de abril de 1974, para um mandato de 5 anos, e o futuro político do país parecia promissor. Ainda nesse mês de abril, as tropas do Exército sufocaram a guerrilha do Araguaia, o último foco de luta armada no Brasil. Dois meses depois é firmado o acordo com o Paraguai para a criação da Hidroelétrica de Itaipu (a maior do mundo), prometendo resolver o problema energético no centro-sul do país.

     Ficava, entretanto, uma sombra escura projetando-se sobre o futuro, e esta era representada pelo embargo do petróleo, imposto pelos países árabes, ao qual, posteriormente aderiram também os países sul-americanos com produção suficiente para exportar.

     Contemos a história desde o início. Terminada a Segunda Guerra Mundial, em 1945, os judeus passaram a comprar terras na antiga Palestina, seu lugar de origem e, em 1947, a ONU-Organização das Nações Unidas, recém-criada, numa sessão presidida pelo chanceler brasileiro Osvaldo Aranha, autorizou a criação do Estado de Israel, soberano, com território próprio e governo constituído, depois de quase dois mil anos de peregrinação.

     No dia seguinte, os países árabes, seus arqui-inimigos, declararam-se em guerra contra Israel, numa atitude puramente retórica, já que não tinham condições, naquele momento, de se lançar a uma luta armada. Era, portanto, mais uma ação de beligerância do que de guerra.

     A partir de então, foi-se organizando uma frente militar árabe, com auxílio da União Soviética. Essa frente era liderada por Egito, Jordânia e Síria, com apoio do Iraque, Kuwait, Arábia Saudita, Argélia e Sudão, e esperava a oportunidade para uma ofensiva sobre o território israelense.

Os confrontos decisivos

     Foi, entretanto, Israel que tomou a iniciativa do ataque, no confronto que ficou conhecido como "Guerra dos Seis Dias". Armados pelos Estados Unidos, os israelenses, em 5 de junho de 1967, aniquilaram a Força Aérea egípcia, atacando depois a faixa de Gaza e o norte do Sinai.

     Além da derrota, os árabes perderam para os israelenses preciosos territórios habitados, representados pela Faixa de Gaza, a Cisjordânia e as Colinas de Golã. Nos territórios ocupados, os habitantes árabes tiveram, a partir de então, de viver subjugados aos seus inimigos.

     A ONU ordenou a Israel a devolução dos territórios ocupados, não sendo atendida. Hordas de palestinos fogem desses territórios, indo refugiar-se na Jordânia, Egito e Síria, criando-se nestes países fortes tensões sociais. Era iminente um novo confronto.

     Em 6 de outubro de 1973 inicia-se aquela que veio a chamar-se a "Guerra de Yom Kipur" por ter-se iniciado quando os judeus comemoram Yom Kipur (Dia do Perdão). Desta vez, foram os árabes que atacaram, com sucesso inicial apreciável, pois, dado ao jejum e ao recolhimento, os israelenses estavam despreparados para responder esse ataque de forma pronta e fulminante.

     Todavia quando Israel conseguiu contra-atacar, iniciou-se uma conflagração violenta e perigosa, exigindo interferência da União Soviética junto aos árabes e dos Estados Unidos junto a Israel, para pôr fim ao conflito. Foram 19 dias de terror, com enormes perdas em instalações, material bélico e vidas humanas.

O embargo do petróleo

     Chegamos, finalmente, à parte que nos afeta. Se na "Guerra dos Seis Dias" os árabes se prepararam apenas para a vitória, já na "Guerra de Yon Kipur" havia planos traçados para enfrentar uma derrota que, afinal acabou acontecendo. E essa operação foi executada com maestria, sufocando a economia mundial, provocando inflação até nos países de primeiro mundo, alguns dos quais tiveram de lamber a poeira do chão para garantir o suprimento de petróleo, obrigados que foram a repudiar Israel, que foi, assim, submetido a um parcial isolamento.

     Ainda em 1973, os países árabes, representados por Arábia Saudita, Kuwait, Irã, Iraque, Emirado de Abu Dhabi, Argélia, Catar e Líbia decidiram reduzir sua produção de petróleo, provocando o conseqüente aumento de preços. Matavam, assim, três coelhos com uma só cajadada: economizavam suas reservas, que não eram eternas; arrecadavam mais dólares com menos trabalho; e, finalmente, usavam o petróleo como arma política contra Israel, que perdia, assim, seu apoio de retaguarda.

     Até o inicio do embargo, o barril de petróleo custava em torno de 2 dólares. Logo após subiu para 10 dólares e, em 1982, seu preço atingia 33 dólares, ou seja, 16 vezes acima do valor original.

     O embargo, pois, havendo se iniciado ao fim do governo Médici, atravessou todo o período Geisel, afetando também o governo de seu sucessor. Administrar essa crise era como dirigir um caiaque por entre as corredeiras: um simples deslize, uma manobra em falso, e tudo estaria perdido.

Em busca de alternativas

     Se bem que o petróleo continuava sendo uma fonte importante e imprescindível de energia, já não era mais possível depender quase que exclusivamente dele. Urgia ativar outras fontes de energia alternativas e, ao mesmo tempo, diminuir nossa dependência externa no suprimento de petróleo.

     O pior é que a crise se instalou de um dia para o outro, mas as soluções, quaisquer que fossem, demandavam tempo para planejamento, construção da infraestrutura, encomenda de maquinaria, etc. Estávamos no início de uma longa guerra econômica, e o mundo todo não havia se preparado para isso.

     Nessa época, nossa produção interna de petróleo estava na ordem de 200 mil barris/dia e o consumo era de 700 mil barris/dia. Além da dificuldade em colocar novos pedidos, devido ao embargo, as importações tinham de ser pagas em dólares, ao preço do dia, e nossas exportações de mercadorias minguavam em face da crise internacional. O ministério do Planejamento previa um valor anual de exportações em torno de 20 bilhões de dólares, dos quais pelo menos 8 bilhões seriam gastos na compra de petróleo.

     Entre as soluções buscadas dentro de um novo planejamento estava em colaborar com a Bolívia para a instalação de um polo de desenvolvimento que lhe permitisse extrair e exportar para o Brasil o seu gás natural; reativar no Brasil poços de pequena produtividade que antes davam prejuízo mas agora, com os novos preços e a escassez de óleo, passaram a ser rentáveis; aumentar a prospecção de petróleo, inclusive em áreas que, pela distância ou pela menor probabilidade de sucesso, estavam sendo postas de lado; buscar toda fonte de energia possível e imaginável e colocá-la a serviço do país. Finalmente, como não podia deixar de ser, promover intensa economia de energia, evitando todo e qualquer desperdício.

Os contratos de risco

     No dia 9 de outubro de 1975, o presidente Ernesto Geisel ocupa uma rede de televisão e rádio para um grave pronunciamento à nação. Fala de sua passagem pela direção da Petrobrás, de sua defesa ao monopólio mas considera a excepcionalidade do momento, que vem a exigir medidas duras para enfrentar a crise.

     Logo vem o primeiro impacto. O presidente anuncia o aumento dos preços do combustível refinado: a gasolina sobe 25 por cento e o óleo diesel 10 por cento.

     Depois, anuncia outra grave decisão, qual seja, a entrega de áreas previamente delimitadas a empresas internacionais para que estas, com seu equipamento e sob risco próprio, façam a prospecção de novas jazidas petrolíferas, garantindo-lhes vantagens na exploração dos poços porventura abertos. Ainda assim, adverte, qualquer sucesso nesse empreendimento, somente será sentido em cinco ou seis anos, não resolvendo a crise imediata.

      Ele já sabia, e muito bem, a forte reação de seu discurso nos jornais e na opinião pública, por isso, havia providenciado um arrocho na censura, cortando na origem qualquer manifestação de desagrado.

     Ainda assim, a Tribuna da Imprensa, conseguiu abrir manchete em primeira página: "Prevaleceu o interesse das multinacionais". E em editorial, também transportado para a primeira página, seu diretor, Hélio Fernandes, comenta: "O monopólio estatal pode ter sido mantido na forma. Mas no conteúdo ele foi esmagado e a Petrobrás violentamente atingida. Não existe nenhuma forma de coexistência do monopólio da Petrobrás e dos contratos de risco."

     A censura passa a agir com rigor na Tribuna de Imprensa, nos semanários como o Movimento, Pasquim, Opinião e outros. Os jornais, todos eles, assim como a mídia eletrônica, ficam expressamente proibidos de publicar qualquer matéria envolvendo petróleo, Petrobrás e contratos de risco, assim como ficam, também, impedidos de informar os leitores sobre essa proibição.

     Não obstante, as notícias chegavam aos grupos estudantis ou políticos e, em seguida à população, transmitidas boca a boca ou por folhetos. Como quem conta um conto aumenta um ponto, muitas distorções ocorreram nesse processo rudimentar de comunicação e, assim, foi o governo quem mais perdeu com a censura.

Surge o Proálcool

     No mesmo ano de 1975 é lançado o Proálcool-Programa Nacional do Álcool, com objetivo de utilizar álcool hidratado como alternativa em veículos leves, construídos ou adaptados para esse fim.

     Como tudo mais que foi planejado, esse programa também requeria tempo. Era preciso criar linhas de crédito especiais, delimitar áreas de lavoura para a plantação de cana-de-açúcar, aguardar pelo menos um ano e meio para o corte, criar infra estrutura nas indústrias automobilísticas para a produção de carros e, por fim, convencer o consumidor: "Carro a álcool – um dia você vai ter um", é o que dizia a propaganda.

     O programa lentamente foi se firmando, mas havia outras providências a tomar, entre elas, a de evitar que os veículos não adaptados utilizassem álcool irregularmente, aumentando desproporcionalmente o consumo. Os veículos fabricados ou adaptados para tal fim tinham de afixar um selo de garantia no pára-brisa, sem o que os postos estavam proibidos de fazer o abastecimento.

     Com o petróleo aumentando continuamente de preço, a produção e venda de álcool passou a ser viável economicamente mas o programa sofreu contínuas interrupções, minando sua credibilidade. Em certo momento, a expressão "você ainda vai ter um" passou a soar como uma ameaça e não mais como um voto de confiança.

     Ainda assim, mesmo nos tempos de maior sucesso, havia uma forte oposição de grupos que consideravam absurdo desperdiçar terra própria para a produção de alimentos, transformando-a em produtoras de combustíveis.

As eleições gerais de 1974

     Já dissemos que um dos objetivos da abertura política, lenta, segura e gradual, era motivar o eleitorado, para evitar a repetição de grandes índices de abstenção e votos nulos. O grande teste seriam as eleições gerais a se realizar em 15 de novembro de 1974, para renovação das Assembleias Legislativas, Câmara Federal e um terço do Senado.

     O público atendeu ao chamado, compareceu às urnas e o resultado foi surpreendente. O eleitor, cansado de tantas manobras e casuísmos, votou maciçamente no MDB, partido da oposição. A oposição não conseguiu dominar o Congresso mas fez um avanço tão prodigioso que alarmou as hostes governistas.

     No Senado, das 22 cadeiras em disputa, o MDB arrabatou 17. Só não se tornou maioria porque apenas um terço do Senado estava sendo renovado agora. Na Câmara Federal, o MDB conquistou 160 cadeiras, aproximando-se da Arena, que ficou com 204 vagas. Nas Assembleias Legislativas, fez um total de 330 cadeiras, contra 457 da Arena. Era uma grande promessa para as próximas eleições, quando, seguramente, ultrapassaria o partido do governo.

    Não estava concluída a fusão entre os Estados da Guanabara e Rio de Janeiro, de maneira que os dois continuavam existindo separadamente. Pois foi a Guanabara, outrora o bastião da revolução de 1964, que deu o grande brado de protesto contra o autoritarismo. Para o Senado, foram 1.150.983 votos ao MDB contra apenas 469.378 à Arena; Para a Câmara Federal, foram 1.160.813 votos ao MDB, contra 410.706 à Arena. E na Assembleia Legislativa os resultados foram de 1.174.945 votos para o MDB, contra 414.607 votos para a Arena.

     O governo engoliu os resultados, pois ainda mantinha controle da situação e, se preciso fosse, o AI-5 continuava existindo e bem ao alcance das mãos, podendo ser usado, se necessário, tanto para cassar deputados como para colocar o Congresso ou as Assembleias Legislativas em recesso, cassar prefeitos ou fazer o que lhe aprouvesse. Mas os alquimistas de plantão já estudavam medidas para serem aplicadas em tempo devido para que, nas eleições de 1978, a oposição fosse contida, tanto mais que nelas seriam renovados dois terços do Senado. E essas medidas foram tomadas, como se verá mais abaixo.

As eleições municipais de 1976

     Em 15 de novembro de 1976 realizam-se eleições municipais em todos os municípios do país. Em muitas pequenas cidades, não tendo condições de concorrer, pela força dos caciques locais, o MDB não apresentou candidatos. Em outras, concorreu, mas o sistema de sublegendas (três candidatos por partido) lhe era desfavorável. Registre-se, de passagem, uma nota folclórica. Em uma pequena cidade de Minas, o candidato único da Arena perdeu as eleições, pois os votos nulos eram em maior quantidade que os votos dados a ele.

     Voltemos ao assunto. Abertas as urnas, verificou-se que a Arena conseguiu vencer na maioria dos municípios brasileiros. Na somatória dos votos abrangendo o país inteiro, a Arena ficou com 12 milhões e o MDB com 10 milhões.

     Isto não significa, de maneira alguma, derrota para o MDB, pois justamente nos grandes centros, nos municípios mais politizados, o partido da oposição conseguiu as vitórias mais consistentes, passando a controlar grandes prefeituras e importantes legislativos. Na capital paulista, por exemplo, o MDB fez 13 vereadores, contra apenas 8 da Arena. Essa vitória se multiplicou por outras capitais ou grandes cidades do Brasil.

     Igualmente, o MDB conseguiu fazer os prefeitos de grandes cidades, a despeito do dispositivo de sublegendas. É bom que se diga que, nesse sistema, vence o partido que, na soma das sublegendas, alcançar maior número de votos. Assim, em muitos casos, o candidato da oposição, embora sendo o mais votado, perdeu as eleições, porque, na soma das sublegendas, os governistas obtiveram maior número de votos.

     Aparentemente, o governo federal aceitou os resultados das eleições, como se depreende do pronunciamento feito quatro dias depois pelo presidente Geisel, declarando sua satisfação:

     "Em primeiro, o ambiente em que as eleições transcorreram foi de ordem e tranquilidade, sem maiores alterações no quadro geral do país; em segundo, minha satisfação resulta, também, do grande comparecimento e reduzido número de abstenções. Acho que é um fato de grande relevância porque mostra a motivação que a campanha criou no povo. Embora tenham dito que as restrições no rádio e na televisão iriam prejudicar a campanha, o comparecimento em massa que se verificou foi o grande desmentido. Em terceiro lugar, minha satisfação resulta na grande vitória que a Arena está alcançando em todo o país."

Cortando as asas da oposição

     Para controlar excessos no uso do horário gratuito pelo rádio e televisão, em 1976 foi introduzida a Lei Falcão (o ministro da Justiça era Armando Falcão), pela qual a propaganda política seria feita apenas com fotografias e uma voz em "off" dando uma breve descrição do candidato.

     Todavia, foi também criada uma perigosa exceção. Uma vez por ano, os partidos políticos podiam requisitar horário em cadeia nacional para apresentar, não os candidatos, mas o programa do partido. Usando dessa prerrogativa, o MDB requisitou seu espaço, no que foi atendido.

     Na noite em que se formou a rede, vários "caciques" do partido desfilaram pelas câmaras de TV e se fizeram ouvir pelo rádio, não só apresentando o programa partidário como criticando o governo e as limitações impostas à democracia.

     Até aí, nada de mais. O programa foi gravado antecipadamente e o governo tinha pleno conhecimento de seu conteúdo. Poderia ter barrado a transmissão e não o fez. Na avaliação do palácio, era apenas uma das bravatas oposicionistas, sem maiores consequências.

     O que não se contava é com a reação do público. O programa alcançou altos índices de audiência e, no dia seguinte, passou a ser assunto em todas as rodas, seja nos meios políticos, nas fábricas ou nos botequins.

     Um deputado federal governista narrou sua experiência, vivida logo pela manhã do dia seguinte à transmissão. Durante a viagem entre sua residência e o parlamento, seu motorista olhava, de vez em quanto, pelo retrovisor, como que querendo falar alguma coisa. Por fim, não aguentou mais e disse: "Doutor, o senhor viu que lavada, ontem?"

     Em tal circunstância, o governo não poderia permanecer inerte, sob pena de se desmoralizar. E a resposta veio pesada. Foi cassado o mandato do lider do MDB, deputado Alencar Furtado, assim como foram aplicadas várias outras punições a oposicionistas, com objetivo de demonstrar que o AI-5 continuava em pleno vigor, e o governo estava disposto a usá-lo, sempre e quando achasse necessário.

     Findou-se a paz entre governo e oposição. Daqui para diante, outras medidas excepcionais seriam tomadas para garantir a supremacia do Poder Executivo sobre os demais poderes da República.

O Pacote de Abril

     Aproximavam-se as eleições de 1978 e urgia mexer na legislação eleitoral para evitar medidas "a posteriori" para ajustar os resultados às necessidades do governo. Melhor suportar o desgaste alterando as regras do jogo do que mudar os resultados depois do jogo terminado.

     O pretexto surgiu quando o governo começou a encontrar dificuldades no Congresso para tramitar a reforma do Judiciário, uma legislação tacanha, que encontrou a oposição quase que total de magistrados e juristas, assim como da Ordem de Advogados do Brasil.

     Desta vez o governo dependia da oposição, pois a reforma somente seria possível por emenda constitucional com quorum de dois terços do Congresso, mais do que a Arena, sozinha, podia oferecer.

     O MDB resolveu resistir e enfrentar o governo e o resultado natural foi, novamente, a aplicação do AI-5. O Congresso foi posto em recesso, o que permitia ao governo legislar por decretos. E já que se pretendia alterar a Constituição, incluindo a reforma do Judiciário, o governo aproveitou para, também, modificar outros pontos de seu interesse imediato, incluindo a diminuição do quorum para emendas constitucionais e, também, uma reforma na legislação eleitoral.

     Foi assim que surgiu o chamado "Pacote de Abril", editado em 9 de abril de 1977 com a Emenda Constitucional nº8 acompanhada de uma série de decretos-leis, alterando substancialmente a legislação brasileira. Estes são os pontos principais do pacote:

 

  • O quorum de dois terços para emendas constitucionais, fica reduzido a maioria absoluta (50 por cento mais um);As eleições para governador continuam indiretas, mas o colégio eleitoral é ampliado com delegados escolhidos dentro das Câmaras Municipais.

  • Cria-se a figura do senador biônico. Já nas eleições de 1978, quando serão renovados dois senadores por Estado, o eleitor só poderá eleger um deles, sendo o outro nomeado pelo presidente da República segundo critérios estritamente pessoais.

  • Os pequenos Estados – sobre os quais o governo tem maior controle – passam a ter pelo menos seis deputados federais. Em contrapartida, diminui-se a representatividade dos Estados maiores, mais politizados.

  • O mandato de Castelo Branco havia sido de 3 anos; o de Costa e Silva, 4 anos (não completados em virtude de seu falecimento); o de Médici, 4 anos e meio; o de Geisel, 5 anos. Agora, o mandato do próximo Presidente é ampliado para 6 anos, esticando-se, assim, o processo de abertura.

  • Criou-se um mandato-tampão para os prefeitos e vereadores, de maneira a coincidir com todos os demais mandatos, fazendo-se, então, as eleições gerais em um mesmo dia, e não a cada dois anos, como vinha acontecendo.

     Para mostrar-se popular, o governo aproveitou a oportunidade para alterar a lei do Inquilinato, favorecendo, em parte o locatário. Alterou também a CLT, ampliando as férias para 30 dias corridos, o que representava apenas um artifício. O trabalhador já tinha férias de 20 dias úteis que, somados aos domingos e feriados, quase chegavam aos tais 30 dias corridos.

     A oposição, dentro e fora do Congresso, tentou derrubar as medidas por via judicial, coisa difícil de se conseguir, já que o AI-5 tornava legais (embora ilegítimos) praticamente todos os atos de governo. A OAB, representada por seu presidente, Raimundo Faoro, também enfrentou o governo de maneira contundente, sem obter maiores resultados.

As eleições gerais de 1978

     Depois de todas essas modificações, não se pode mais falar em legitimidade das eleições gerais, realizadas em 15 de novembro de 1978. Tudo transcorre de acordo com o que o governo havia planejado e à oposição resta conformar-se, refazendo suas bancadas apenas para garantir o uso da tribuna, já que lhe seria impossível influir nos acontecimentos.

     No Senado, a Arena conquista 15 cadeiras e o MDB 8. O presidente da República nomeia mais 23 senadores biônicos, de acordo com o pacote de abril, passando o resultado final do pleito para 38 a 8, uma vitória esmagadora. Somados ao outro terço do Senado, que só viria a ser renovado em 1982, a Arena passou a dominar 60 por cento da bancada, restando ao MDB os outros 40 por cento.

     O Estado da Guanabara foi eliminado com a fusão ao Estado do Rio. Em compensação, surge o Mato Grosso do Sul, como desmembramento do Estado de Mato Grosso. Assim, o número de cadeiras no Senado permanece o mesmo, ou seja, 69.

     Na Câmara Federal, Arena ficou com 231 cadeiras, contra 189 do MDB (Pelo Pacote de Abril, o número de vagas, na Câmara, foi aumentado para 410).

     Na soma das Assembleias Legislativas, a Arena ficou com 493 cadeiras e o MDB com 353.

A sucessão presidencial e o fim do AI-5

     Desde o início do governo Médici já se sabia de que o "principe eleito", ou seja, o seu sucessor, já estava escolhido, na pessoa do general João Batista Figueiredo, porém, foi mais difícil do se pensava "endireitar as veredas", preparando o caminho que o postulante deveria percorrer até chegar à Presidência.

     Pelo menos dois outros militares – e estes da linha dura – pretendiam a presidência da República: Hugo Abreu, chefe da Casa Militar, e Silvio Frota, feito ministro do Exército após a morte do general Dale Coutinho. Ambos trombaram de frente com o presidente Geisel e foram demitidos, passando em seguida a trabalhar contra o governo.

     Mais sério foi o caso de Sílvio Frota, que após demitido, iniciou uma operação macartista, anunciando uma lista de supostos "comunistas" que, segundo ele, integravam o governo Geisel, Frota também denunciou um suposto processo de subversão desenvolvido por "comunistas", infiltrados nos jornais e na mídia eletrônica. Embora superado o incidente, este foi, talvez, o momento mais perigoso no processo de abertura política.

     Afastados os concorrentes, restava outro problema. João Batista Figueiredo era general de divisão (3 estrelas) e precisava ser promovido a general de exército (4 estrelas) antes de ser reformado. No Almanaque do Exército seu nome era o quinto colocado, havendo à sua frente os generais Andrada Serpa, Valter Pires, Ernani Ayrosa e Hugo Abreu,. O Almanaque foi atropelado, o nome de Figueiredo passou à frente dos outros e o general conseguiu a sua quarta estrela.

     Daí por diante, não houve dificuldades maiores. João Batista de Oliveira Figueiredo foi indicado, eleito e, finalmente, empossado em 15 de março de 1979.

     O Ato Institucional nº5, que tantos danos causou ao país, foi, finalmente, abolido por Geisel em 1º de janeiro de 1979. Figueiredo assumia o governo, sim, mas teria de governar dentro de um Estado de Direito, respeitando a Constituição e as leis do país. Mas ainda tinha uma vantagem a seu favor: a Constituição de 1969, autoritária deste o princípio, era a esta altura uma colcha de retalhos, carregando todo um "entulho" que somente seria removido dez anos após.

     A ditadura prosseguia, embora sem o AI-5. O período de abertura se encerrara com Geisel. Cabia, agora, a Figueiredo, iniciar o processo de redemocratização do país.

 

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