CAPÍTULO OITO
A DEMOCRACIA "RELATIVA"
GOVERNO JOÃO BATISTA FIGUEIREDO
O
encaminhamento da candidatura de João Batista Figueiredo à presidência da República
não foi um ato circunstancial mas um projeto traçado desde o início do governo
anterior. Com efeito, o general Ernesto Geisel, ao assumir a Presidência, cinco anos
antes, representando sobretudo a ala moderada das Forças Armadas, tinha a função
precursora de realizar a abertura política, a fim de que seu sucessor cuidasse da segunda
etapa, qual seja, o processo de redemocratização.
Dentro desse plano
global, naquela época, o general Figueiredo foi colocado em um dos postos-chave da
República, o Serviço Nacional de Informações, cabendo-lhe acompanhar as reações nos
meios civis e militares e dosar o remédio segundo a reação do paciente. Para outro
ponto vital, que era a chefia da Casa Civil, foi nomeado o general Golberi do Couto e
Silva, o cérebro articulador do processo de abertura. O primeiro foi eleito sucessor de
Geisel e o segundo permaneceu na Casa Civil após a troca de governo, garantindo, desta
forma, a continuidade da transição.
A vocação de Figueiredo
para a democracia vinha de seu pai, o general Euclides Figueiredo, um dos líderes da
Revolução Constitucionalista de 1932, que, sustentando suas convicções, teve de
amargar o exílio na Argentina até a anistia decretada com a convocação da Assembléia
Nacional Constituinte de 1934. Ao falar em abertura, pois, o novo Presidente sempre se
referia à "democracia de meu pai".
Tinha o costume de
circunscrever a democracia a determinados limites: era a democracia relativa, a democracia
do possível, a democracia controlada. Não escondia sua convicção de que uma democracia
só é salutar se for dirigida pelo governo, a fim de "cortar os excessos",
idéia que chegou a defender em uma coletiva dada à imprensa estrangeira. Uma democracia
que não excluia o uso do autoritarismo, conforme uma frase do próprio Figueiredo:
"Infeliz o país que diz não aos seus generais, que diz não aos golpes."
Já em sua primeira
entrevista à Folha de São Paulo, ainda candidato, escandalizou a opinião pública,
defendendo as eleições indiretas à Presidência e reforçando sua opinião com um
exemplo:
"Veja se em muitos
lugares do Nordeste o povo pode votar bem se ele não conhece noções de higiene? Aqui
mesmo em Brasília, eu encontrei, outro dia, num quartel, um soldado que nunca escovara os
dentes e outro que nunca usara um banheiro. E por aí vocês me digam se o povo já está
preparado para eleger o presidente da República?" (Na campanha das diretas, uma
adolescente ironizou a frase usando um cartaz que dizia: "Já sei escovar os dentes;
quero votar pra Presidente.")
Era franco e espontâneo
em suas reações. Ao inaugurar, numa cidade, a "vaca mecânica" que iria
produzir leite de soja para a merenda escolar, experimentou o produto, fez uma careta e
exclamou: "Bah, nenhuma criança vai conseguir beber isto!" Em outra ocasião,
ao tomar conhecimento do atentado no Riocentro, desabafou: "Essa bomba estourou sobre
minha cabeça!" Depois, teve de conformar-se e digerir um inquérito manipulado que
adulterou a realidade, transformando os réus em vítimas, para conter os ânimos da
"linha-dura".
Essa mesma espontaneidade
acabou com a imagem de homem do povo, que vinha sendo criada por seu secretário de
Comunicação Social, Saíd Farah. O Presidente passou a chamar-se simplesmente João
("Plante que o João garante", dizia a mensagem aos lavradores). Figueiredo era
levado a lugares comuns, tomava café com operários, visitava feiras-livres, mantinha
contato com o povo...
Um dia 1º
de dezembro de 1979 deu no que deu: foi vaiado por um grupo de estudantes em
Florianópolis-SC e partiu para uma sessão de capoeira, enfrentando, corpo-a-corpo, os
seus desafetos, e transformando um simples incidente em questão de segurança nacional. A
partir desse dia, deixou de ser João e voltou à sua verdadeira face, a do general
Figueiredo. Após o incidente, sua imagem foi associada a uma musíca, corrente na época:
"João Valentão é brigão, só dá bofetão e não pensa na vida..."
Figueiredo se defende: "Não é possível aceitar insultos e ficar calado."
No projeto político que
lhe foi confiado, fez o que pôde. Encaminhou o processo de redemocratização mas
precisou engolir muitos "sapos". Não teve pulso para conter a linha-dura e, no
caso do Riocentro, perdeu seu grande articulador, o general Couto e Silva, que demitiu-se
ao tomar conhecimento dos rumos que seguia o inquérito. Foi substituido, na Casa Civil,
por Leitão de Abreu, mais do lado de lá. E, no dia da posse do novo Presidente, saiu
pela porta dos fundos para não transferir a faixa ao seu sucessor.
Quem era
Figueiredo
Assim era o general João
Batista de Oliveira Figueiredo, Presidente por direito divino, vivendo seis anos
conturbados, em que dizia preferir "o cheiro dos cavalos ao cheiro do povo" e
que, ao final era o que dizia contava numa "folhinha" os dias que
faltavam para encerrar seu mandato.
João Batista de Oliveira
Figueiredo nasceu no Rio de Janeiro em 15 de janeiro de 1918. Filho de general (numa
família de seis irmãos), aos 11 anos já estava matriculado no Colégio Militar de Porto
Alegre-RS e, no ano seguinte, acompanhando o pai, transferiu-se para o Colégio Militar do
Rio de Janeiro.
Em 1937, aos 19 anos,
forma-se aspirante a oficial na Academia Militar do Realengo, como primeiro da turma. Ao
receber o espadachim, o presidente Getúlio Vargas, presente à cerimônia, lhe pergunta
como conseguiu aplicar-se tanto nos estudos e o cadete responde rápido: "Se não
faço isso, meu pai me põe na cadeia!"
Em 1958 é promovido a
tenente-coronel e em 1961, no governo Jânio Quadros, inicia sua experiência com
serviços de inteligência, ao ser nomeado chefe do Serviço Federal de Informações e
Contra-Informações (precursor do SNI). Com a revolução de 1964, é promovido a coronel
e assume a chefia do SNI, cargo que voltará a ocupar, mais tarde, no governo Geisel. Sua
formação, pois, desenvolveu-se, toda ela, na área da inteligência.
Em 1977, como
"principe-eleito", seu nome já é anunciado por Geisel como sucessor, embora
faltem quase dois anos para a o fim do mandato deste último. Assume em 15 de março de
1979 para iniciar o processo de redemocratização do Brasil.
É casado com dona Dulce
Maria de Guimarães Castro e tem dois filhos: João Batista (Johnny) e Paulo Renato, este
último bem mais conhecido pela mídia.
A difícil
graduação
do processo
Se, por um lado, o novo
Presidente tinha consciência de que o autoritarismo precisava ter um fim, por outro,
discordava dos que pretendiam ir com muita sede ao pote, achando, mesmo, que Geisel teria
se apressado demais no processo de abertura.
Figueiredo ressentia-se
por não ter às mãos, pelo menos no início, os recursos do AI-5, extinto antes de sua
posse: "Eu falei ao Geisel para abrir um pouco a válvula da panela de pressão. Mas
ele veio com aquela mãozona de alemão e abriu demais."
Mas reconhecia também
que era perigoso retardar demasiado o encaminhamento das soluções, por causa das
tensões sociais e políticas e usou de seu estilo "deixe de que eu chuto":
"É para abrir mesmo, e quem quiser que não abra, eu prendo e arrebento."
Como se fosse
continuação do governo anterior (e era), logo nos primeiros momentos, Figueiredo
arregaçou as mangas e pôs as mãos ao trabalho, encadeando uma série de atos
administrativos. Encaminhou o projeto que concedia anistia ampla e irrestrita não só
para os chamados "subversivos", como também para os elementos que faziam parte
do aparelho repressor, impedindo, assim, que uns e outros fossem julgados pelos atos que
praticaram.
A Lei foi sancionada em
28 de agosto de 1979. Era uma anistia de mão dupla. Beneficiou, sim, 4.650 brasileiros
banidos e despidos de sua cidadania, que, assim, puderam voltar à pátria. Mas
beneficiou, sobretudo, aquela multidão de agentes da repressão, que em momento algum
precisaram saír do país, e que agiram à solta, prendendo, torturando e matando; sobre
estes se estendia também o manto protetor da anistia, o que lhes permitiu continuar
agindo, à margem da lei, mas sob as vistas grossas do poder público, que não queria ou
não podia controlar os atos de terrorismo e intimidação.
Em 1981, em regime de
urgência, foi enviada ao Congresso uma lei que estabelecia a reforma política, acabando
com a figura do senador biônico (exceto para os que já estavam empossados) e
restabelecendo eleições diretas para governador. A lei, não apreciada pelos
congressistas no prazo regulamentar, foi aprovada por decurso de prazo, recebendo apenas a
sanção do presidente da República. O decurso de prazo era um resíduo autoritário
garantido pela Constituição de 69, do qual se serviram alguns governantes até a
promulgação da Constituição de 88.
No governo anterior, os
mandatos de prefeitos e vereadores havia sido prorrogado até 1983, permitindo a
coincidência das eleições. Assim, foi possível marcar para 15 de novembro de 1982 as
eleições gerais para governadores e deputados estaduais, para deputados federais e para
a renovação de um terço do Senado, bem como para prefeitos e vereadores. No caso das
prefeituras, continuavam sendo nomeados os prefeitos das capitais e das estâncias
hidro-minerais bem como das cidades consideradas de segurança nacional.
Economia em
declínio
O mesmo fator que ajudou
o presidente Médici a fechar o regime, com apoio ou indiferença popular, é agora o
grande adversário de Figueiredo, dificultando o processo de redemocratização. Seu nome:
Economia Nacional.
O ministro continua o
mesmo, Delfim Neto. Mas a situação, quanta diferença! Da primeira vez, Médici recebera
um país estabilizado pelo governo Castelo Branco, encontrou boa vontade dos investidores
estrangeiros e crédito fácil para realizar obras, muitas delas faraônicas e de
necessidade discutível.
Já, neste momento,
Figueiredo encontra um país em apuros, com aumento contínuo nos preços dos preços do
petróleo, dificuldades para exportar e divida externa crescendo perigosamente. No início
do governo, a inflação era de 40 por cento, em 1981 subiu a 90 por cento e ao fim do
mandato, já havia ultrapassado os 200 por cento. Recebeu o governo devendo 40 bilhões de
dólares e saiu devendo mais de 100 bilhões.
A par com a
inflação, havia a recessão, o desemprego e o arrocho salarial. No Congresso, encontrou
uma reação não experimentada pelos governos anteriores, que obrigava o Presidente a
negociar. Para conter os salários foram emitidos, seqüencialmente os decretos-leis
2.012, 2024, 2045 e 2064, todos retirados a tempo para evitar que fossem rejeitados. Por
fim, o governo conseguiu o apoio do PTB de Ivete Vargas que lhe deu a maioria necessária
e, então, emitiu o decreto-lei 2.065, que passou espremido, mas passou. Os salários eram
contidos, enquanto a inflação corria solta. E o PTB, tal qual na República anterior,
continuava sendo o fiel da balança, negociando seus votos a peso de ouro.
Foi em tal clima que se
realizaram as eleições gerais de 1982, as quais repercutiram de forma variada, conforme
as condições específicas de cada região do país.
Volta o
pluripartidarismo
Ainda no governo
anterior, foram extintas a Arena e o MDB, restabelecendo-se no país o pluripartidarismo,
com um mínimo de exigências para a formação de partidos políticos, e com prazos
relativamente longos para o cumprimento das exigências legais, com o que passou a haver
um grande número de partidos que tinham sua existência apenas consentida.
O pluripartidarismo fazia
parte da estratégia governamental. Com a volta das antigas lideranças, após a anistia,
a oposição rachou em várias facções, quebrando sua unidade. Foram proibidas as
coligações entre partidos e estabeleceu-se o voto vinculado, ou seja, governador e vice,
prefeito e vice, etc., tinham de ser escolhidos dentro do mesmo partido, limitando a
opção do eleitorado.
Isso, aparentemente,
enfraqueceu a oposição e fortaleceu a situação, dado que o Presidente só permitiu a
existência de um partido oficial, o PDS, considerando oposicionistas todos aqueles que
criassem ou se filiassem a outras legendas. Por outro lado, extra-oficialmente, todos os
ocupantes de cargos de confiança dentro do governo tinham de filiar-se ao PDS e autorizar
o desconto em folha de uma contribuição mensal para essa agremiação.
Os principais líderes
oposicionistas formaram, então, os principais partidos da oposição. Como a expressão
"partido" tinha, obrigatoriamente de constar do nome, o MDB passou a chamar-se
PMDB, sendo ironizado pelo ministro paraense Jarbas Passarinho: "Mas essa é a sigla
da Prefeitura Municipal de Belém!"
Leonel Brizola e Ivete
Vargas disputavam separadamente a sigla do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), com todo
o charme que esse nome trazia do período Vargas. Brizola requereu o registro primeiro mas
o STF concedeu o nome a Ivete Vargas, alegando que os documentos apresentados por ele
estavam incompletos. Com Ivete, voltava o tradicional PTB de centro-direita, como linha
auxiliar do governo. Brizola saiu do Tribunal em lágrimas, reuniu seus partidários e
fundou o PDT, um partido de centro esquerda. A esta altura, Leonel Brizola era um
político experimentado e conciliador, não lembrando nem de longe o Brizola dos tempos de
João Goulart.
Esses foram os partidos
com raízes sólidas, e que se desenvolveram através dos tempos. Mais tarde, surgiria
também o PT-Partido dos Trabalhadores, com fundamentos suficientes para subsistir. Ao
contrário dos outros, o PT nasceu pequeno, apoiado firmemente nas bases de sustentação,
e conseguiu crescer até se emparelhar com os maiores, ganhando voz e credibilidade.
No mais, surgiram, em
quantidade, partidos sem expressão, conhecidos, quase todos, como "legendas de
aluguel", dado que não tinham chances de se firmar, servindo apenas para tumultuar o
processo eleitoral e utilizar (ou alugar) o horário político gratuito por rádio e
televisão.
Numa dessas legendas, o
seu presidente, que se auto-intitulava "o candidato dos explorados", foi
condenado e teve prisão decretada. Em outro, o presidente, conhecido pela alcunha de
"Marronzinho" foi processado por crime contra a honra (calúnia, injúria e
difamação). Julgado e condenado, cumpriu pena em uma das cadeias da Grande São Paulo.
Uns poucos partidos eram realmente idealistas, mas não conheciam a
"carpintaria" da política, afundando, assim, em seus próprios ideais.
A abertura foi
ampla, mas não plena. Os partidos comunistas permaneceram proibidos e seus membros se
alojaram nas legendas de oposição, sobretudo no PMDB e, mais tarde, no PT. O fantasma da
Intentona de 35 continuava a ser agitado nos quartéis, dificultando a sua liberação. Os
que tentaram organizar clandestinamente o PCB acabaram sendo presos e só foram anistiados
muitos anos depois, quando se permitiu sua legalização. Luís Carlos Prestes, por sua
vez, fora marginalizado e o nome em evidência passou a ser o de seu opositor, João
Amazonas.
As eleições
gerais de 1982
Os governistas, de roupa
nova, com a sigla do PDS (a imagem da Arena ficara profundamente desgastada) realizavam
sua campanha por todo o país, utilizando a estrutura já existente. Enquanto isso, a
oposição, fracionada em várias legendas, tinha a seu favor a rejeição popular ao
governo em face da crise econômica. Criticar é mais fácil que governar e a linguagem de
palanque seduz mais do que a racionalidade da administração.
Ainda que o problema
central da economia estivesse no embargo do petróleo, atingindo todo o mundo ocidental e
não apenas o Brasil, o fato visível era o empobrecimento cada vez maior da população e
o desemprego causado pela recessão.
Nas grandes cidades,
quase toda família tinha pelo menos um desempregado sendo sustentado pelos demais. E isso
numa época em que não existia seguro desemprego ou qualquer outro sistema de proteção,
além do que, as possibilidades de voltar à atividade eram mínimas, pela falta de oferta
de novas vagas.
Ainda assim, de um modo
geral, as eleições não surpreenderam o governo, que, firmado no coronelismo e na
máquina eleitoral lustrosa e lubrificada, conseguiu a maioria das prefeituras e governos
estaduais. Mas os três maiores Estados do Brasil São Paulo, Rio de Janeiro e
Minas Gerais votaram com a oposição, fazendo os governadores e conseguindo
maioria nas assembléias legislativas, bem como conquistando grande número de
prefeituras.
As tensões sociais
reprimidas começaram a explodir, principalmente em São Paulo, logo após a posse do novo
governador, Franco Montoro que substituía o governador biônico Paulo Salim Maluf
o qual assumiu prometendo governar com pleno respeito aos direitos humanos. Essa
expressão, até então, de simples retórica, precisava agora ser dimensionada, para
fixar-lhe os limites, separando a liberdade de expressão dos atos atentatórios a essa
própria liberdade. Nem o próprio governador sabia exatamente quais esses limites.
Praticamente no dia
seguinte à posse, hordas de desempregados começaram a realizar passeatas de protesto,
principalmente no centro da cidade e na região de Santo Amaro (zona sul de São Paulo),
onde os desocupados se achavam em maior número.
E, é claro, entre eles
se infiltravam agitadores profissionais, provocando quebra-quebras, que o governo federal
atribuía à população como um todo. A mídia fotografou populares arrancando e
destruindo uma placa de rua com o nome do general Euclides Figueiredo, pai do Presidente,
e isso causou transtornos ao novo governador, que mandou substituir incontinente a placa
destruída, enviando novas fotos a Brasília para comprovar a restauração.
O novo prefeito
nomeado para a Capital, Mário Covas, teve de enfrentar um problema semelhante. Ao chegar
à sede da Prefeitura, então no parque do Ibirapuera, encontrou um acampamento de
desempregados montado quase à frente de seu gabinete. Ex-cassado pela revolução,
defensor dos direitos humanos, não considerou o ato como provocação e, deixando de
restabelecer a ordem de imediato, perdeu o controle da situação, ficando com um problema
que não tinha mais condições de administrar.
Pior aconteceu ao
governador Franco Montoro. Aumentando dia-a-dia as arruaças, os manifestantes,
finalmente, marcharam até a sede do governo e, não sendo contidos pela guarda,
derrubaram a cerca do Palácio, espalhando-se pelos gramados e demais áreas externas ao
edifício. Nada mais destruíram, mas o impacto psicológico foi grande, simbolizando a
falta de autoridade do poder público.
De outro lado,
desempregados e sem teto invadiram algumas propriedades públicas, como o Colégio
Stafford, no centro da cidade, já desativado e tombado pelo patrimônio histórico mas
abandonado. Como o governo relutou em desalojar os invasores, o local transformou-se num
imenso cortiço, o maior de São Paulo, assim permanecendo até os dias de hoje. Sem
resolver o problema social, pois seus moradores permaneceram miseráveis, acrescentou-se
um problema policial, por transformar-se, o local, em foco de criminalidade, sobretudo
tráfico de drogas.
Por toda a cidade,
a situação era tensa. Durante semanas, as casas comerciais tinham de funcionar com as
portas semicerradas, com funcionários atentos para fechá-las ao menor indício de
distúrbios.
Aos poucos, o
governo sentiu a necessidade de repor a disciplina e a polícia começou a agir, algumas
vezes com violência além do necessário, dando combustível aos adversários.
Foi um teste de
fogo para os novos governos em todos Estados em que a oposição venceu. Após longo tempo
de ostracismo, eles recuperavam o poder e precisavam fixar seus próprios parâmetros,
estabelecendo os limites justos para que a liberdade não se transformasse em anarquia.
Conseguiram, mas deu trabalho e, com isso, perderam um pouco do charme que tinham ao fazer
simplesmente oposição.
Terror à
sombra do poder
O governo anterior,
de Ernesto Geisel, agiu duramente contra os dois lados do confronto político-militar que
se instalara no país. Ao mesmo tempo que liquidou com as guerrilhas e movimentos de
contestação ao regime, também desativou os órgãos de repressão usando com eles a
mesma energia, inclusive com a demissão de seu ministro da Guerra, general Silvio Frota,
e do comandante do 2º Exército, general Ednardo DAvila Melo,
representantes da "linha-dura" do Exército.
A verdade, porém, é que
desativou os órgãos de repressão mas não cuidou de desmontá-los, de sorte que, ao
início do governo Figueiredo, todo o aparelho se achava em plenas condições de atuar,
agora à margem da lei mas ainda sob a sombra da impunidade, numa escalada de violência
objetivando impedir a redemocratização do país.
A série de atentados
ocorridos desde então durou um ano e meio e tinha articulação cuidadosa, como se
depreende da perfeita sincronia com que eram realizados. Em 27 de agosto de 1980 três
bombas explodiram em pontos diferentes do Rio de Janeiro. Na OAB-Ordem de Advogados do
Brasil, uma delas arrancou o braço da secretária, Lida Monteiro da Silva, que morreu ao
chegar ao hospital; na Câmara Municipal, outro petardo atingiu o assessor José Ribamar e
mais cinco pessoas, sendo que Ribamar perdeu um braço e a visão do olho esquerdo; a
terceira explodiu no jornal Tribuna da Luta Operária, sem maiores conseqüências, além
do susto e da intimidação. No dia seguinte, uma carta-bomba, endereçada ao
superintendente da Sunab, foi desativada a tempo.
Por todo o ano os
atentatos continuaram a ocorrer. Várias bancas de jornais, que vendiam semanários
oposicionistas, foram incendiadas, em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e
outros Estados. A sede do jornal Hora do Povo foi parcialmente destruída por duas bombas,
assim acontecendo, também, com a Tribuna de Imprensa.
"Este é um
jornal que renasce das cinzas, literalmente ironiza Helio Fernandes após a
destruição da Tribuna de Imprensa por várias bombas Não é força de
expressão, estamos trabalhando no meio de escombros, não há nada que esteja em pé, a
não ser a nossa cabeça, cada vez mais lúcida e serena."
Uma semana depois, na CPI
do Terror, o mesmo Hélio Fernandes depõe: "A Tribuna foi atingida por duas
espécies de explosivos. Um, objetivo, e outro, subjetivo. O explosivo objetivo foi o TNT.
Mas o explosivo subjetivo foi a IMPUNIDADE NACIONAL, pois só a certeza da impunidade pode
levar a atentados monstruosos como esse praticado contra a Tribuna, na semana
passada".
Em Minas Gerais, bombas
explodiram, por exemplo, em um cinema de Belo Horizonte, no Sindicato dos Jornalistas, no
jornal Estado de Minas, no Forum Milton Campos, na sede da OAB e no interior do Estado. Em
São Paulo, o alvos principais foram os sindicatos e no Rio Grande do Sul atingiram até a
casa de um juíz, como que contestando a validade da Justiça como poder.
Isso é apenas uma
pequena amostra do que ocorreu naquele pequeno espaço de tempo. Não citamos, por exemplo
as bombas no Hotel Everest, onde se achava hospedado Leonel Brizola, na Escola de Samba
Acadêmicos do Salgueiro, no escritório do jurista Sobral Pinto, em agências bancárias,
em locais públicos, por todos os pontos do país. Foram centenas de ameaças e
tentativas, entre as quais pode-se confirmar pelo menos 40 atentados efetivos em pouco
mais de um ano.
Entre todos, seguramente,
nenhum atentado ganhou tamanha repercussão como o do Riocentro, em 30 de abril de 1981,
pretendendo causar pânico e morte durante um espetáculo musical em que se comemorava a
passagem do Dia do Trabalho. Não era um atentado comum, mas um complexo em que bombas
explodiriam em vários locais do Riocentro e só não causou a tragédia planejada por
incapacidade técnica de seus realizadores. Uma delas chegou a detonar na casa de força
mas não cumpriu seu objetivo que era o de causar a escuridão e o pânico na sala de
espetáculos.
Outra bomba a que
trouxe à tona todo escândalo explodiu dentro de um Puma, no colo do sargento
Guilherme Pereira do Rosário (no Exército, especialista em ativação e desativação de
bombas) causando-lhe morte instantânea; foi atingido também seu companheiro de
"artes", capitão Wilson Luís Chaves Machado, que perdeu uma das pernas.
O sargento, que morreu em
"acidente de trabalho", teve funerais de herói, com honras militares e a
bandeira nacional sobre o caixão; já o capitão recebeu uma perna mecânica e desfilou
na parada de 7 de Setembro, à frente de um batalhão. Foi rapidamente promovido, até
chegar ao posto de coronel.
O Jornal Nacional,
da TV Globo, noticiou a existência de mais duas bombas dentro do Puma. No dia seguinte,
teve de desmentir a notícia, já que o assunto vinha sendo tratado pelas autoridades como
segredo de estado.
Um inquérito foi
aberto na área militar, designando-se para chefiá-lo o coronel Luís Antônio do Prado
Ribeiro, que renunciou à missão ao perceber que não poderia fazer um trabalho sério
sem ferir o "espírito de corpo", incriminando companheiros de farda. Assumiu,
então, a chefia o coronel Job Lorena de SantAnna, que deitou e rolou, fazendo uma
montagem rudimentar dos acontecimentos e concluindo pela inconclusão: não se podia
apurar os mentores do atentado, atribuído a elementos de esquerda.
"Aparatosa
encenação escreve na época o jornalista Villasboas Corrêa montada para a
divulgação dos resultados do IPM do Riocentro, desde o cenário armado com
meticulosidade calculada, à exibição profusa de slides até a ingênua esperteza da
escolha do dia e da hora, exatamente quando o Congresso Nacional mergulha na sonolência
de um mês de recesso não procurou colar a estampilha da credibilidade numa peça
política e quase confessadamente política, nos seus objetivos e na sua proposta. (...)
Um documento que chega a ser constrangedor na sua fragilidade de porcelana, que não
suporta o piparote de uma crítica, que não aguenta o tranco de uma análise."
Uma
investigação
extra-oficial
O coronel Dickson
Grael, ex-diretor do Riocentro, afastado alguns dias antes do atentado, pôs-se a
investigar, sozinho, o outro lado da história, propiciando à imprensa os esclarecimentos
que o inquérito não conseguia dar. Reuniu, inclusive, uma série de documentos, como
carta solicitando policiamento para o show; ordem de serviço do 18º Batalhão
da PM, determinando o policiamento; ato do comandante geral, demitindo o comandante do 18º
Batalhão que deu essa autorização (a ordem de policiamento foi suspensa em seguida);
auto de exame cadavérico do sargento morto, acompanhado de fotos; e até foto de um
pedaço de porta do Puma onde se deu a ocorrência, a qual foi recolhida por Dickson Grael
e encaminhada ao Juiz Auditor da 3ª Auditoria do Exército.
A investigação do
coronel Grael aponta para alguns acontecimentos que se encadeiam: o seu afastamento da
direção do Riocentro, dias antes do atentado; o afastamento do responsável pela
segurança, tenente Cesar Wachulec no próprio dia do show e alteração no plano de
segurança, deixando a descoberto o policiamento da casa-de-força, onde explodiu uma das
bombas; dos 30 portões de saída, 28 ficaram trancados durante o show, restando apenas
dois para a evacuação do público, cerca de 20.000 pessoas, quando se instaurasse o
pânico; não havia sequer uma ambulância no local (o capitão ferido foi transportado em
um carro particular pela neta de Tancredo Neves, dona Andrea Neves da Cunha). E vai por
aí.
A Justiça Militar, após
o julgamento do processo, optou pelo seu arquivamento, por falta de provas conclusivas
quanto aos autores do atentado. O único voto contrário ao arquivamento foi o do
almirante Júlio de Sá Bierrenbach, que insistiu depois pela reabertura do processo,
alegando que pasmem! - nem sequer tinha sido ouvida a principal testemunha, o
capitão Machado, o único que viu como as coisas aconteceram. Sem resultado.
Somente em setembro de
1999, dezoito anos depois, o inquérito do Riocentro foi aberto, e pra valer. Oficiais que
prestaram depoimento no IPM-Inquérito Policial Militar confirmaram que o atentado foi
praticado por radicais do DOI-CODI do Rio de Janeiro, "com a conivência da alta
hierarquia do antigo regime com a mentira".
O capitão Machado (hoje
coronel), apontado anteriormente como vítima, agora figura na condição de réu e
co-autor do atentado. E um novo nome surge: o do general Newton Cruz, na ocasião chefe do
SNI, denunciado pela Justiça Militar, por falso testemunho. Aos poucos, a verdade vai
sendo restabelecida. Pelo menos, para uma retificação da História.
O Presidente
vacila
Não se deu bem o
general-Presidente João Batista Figueiredo em seu posicionamento em face ao caso do
Riocentro. Desejando contemporizar, evitando atritos com a linha dura, deixou o inquérito
correr à solta por conta do Exército, sem usar sua influência, como presidente-militar
que era; como representante, que era, do Sistema; como Comandante Supremo, que era, das
próprias Forças Armadas.
Até seu ministro-chefe
da Casa Civil, general Golberi do Couto e Silva, geralmente conciliador, sensato, prudente
e tranqüilo, desta vez, perdeu a paciência e demitiu-se do cargo, diante da passividade
do Presidente, sendo substituído por Leitão de Abreu, mais próximo à
"linha-dura". O general Diogo Figueiredo, irmão do Presidente recusou-se a ler
os resultados do inquérito frente a seus comandados conforme ordem do 1o
Exército por considerá-lo irreal e distorcido.
Em 8 de maio de
1991, dez anos após o incidente, Figueiredo divulga uma longa mensagem à imprensa,
tentando se defender, e dizendo, entre outras coisas: "Preservei a autonomia soberana
da Justiça. Na época, antes mesmo de iniciados os procedimentos de inquéritos, declarei
que não ingeriria no caso, que respeitaria de forma absoluta e isenta qualquer caminho
que as investigações e o posterior julgamento tomassem. (...) Se não tivesse agido
dessa forma teria comprometido de forma irremediável a única estratégia possível para
atingir o objetivo maior de meu governo, de restaurar o Estado Democrático de Direito no
Brasil."
Pelo menos ao público
externo, Figueiredo sempre se disse indefinido com relação ao episódio, analisando as
duas probabilidades: "Se foi do lado de lá, não poderia ser mais inteligente; se
foi do lado de cá, não poderia haver burrice maior."
O ponto positivo no
atentado do Riocentro foi o de que ele gerou forte clamor popular, fazendo retrair as
forças de repressão que, após seu "canto do cisne", começaram a declinar nas
atividades terroristas.
O ponto negativo é que a
autoridade do presidente da República, chefe supremo das Forças Armadas, saiu bastante
enfraquecida do episódio, perdendo em certo ponto o apoio dos liberais que, aos poucos,
foram se afastando do governo, abrindo espaço para a entrada dos radicais.
Isolando o
vice-Presidente
Envolvido em crônicos problemas de coluna, Figueiredo teve ainda de enfrentar um enfarto
do miocárdio e, em 1983, voltou a internar-se em um hospital de Cleveland (EUA) para
colocar uma ponte de safena e outra de mamária. Em ambos os casos foi substituído por
seu vice, Aureliano Chaves, mas em ambos os casos, também, cuidou de afastar os seus
ministros do convívio com seu substituto. Alguns viajaram, estrategicamente, em missões
oficiais e outros, levou-os consigo aos Estados Unidos, por conta e ordem do Tesouro
Nacional.
Ainda assim, não se viu
livre de um sério incidente, em 1983. Achando-se investido como Presidente em exercício,
Aureliano Chaves deu algumas instruções ao ministro da Previdência Social, Jarbas
Passarinho, um dos poucos que ficaram em Brasília, e este recusou-se a cumpri-las,
declarando que só receberia ordens do presidente Figueiredo. Irritado, Aureliano
demitiu-o e Passarinho recusou-se a acatar a demissão, alegando que "um ministro é
nomeado em português e demitido em latim [ad-nutum] mas só por quem está habilitado a
fazê-lo".
Assim que soube do
acontecido, o presidente Figueiredo deu razão ao ministro, desautorizando o
vice-Presidente. Com isso, criou uma situação irreversível, afastando de seu convívio
não só o vice, como todo o bloco de apoio que ele representava.
Na forma de costume, o
vice-Presidente recebeu convite para participar das comemorações do Dia do Soldado, em
25 de agosto. Depois, por instruções de Figueiredo, o seu ministro do Exército, general
Valter Pires, enviou novo ofício cancelando o convite. Afora a falta de polidez, nenhum
reparo havia a fazer por essa atitude inusitada, porquanto as festividades do Dia do
Soldado são restritas à caserna e, como tal, o único convite obrigatório, pelo
protocolo, é dirigido ao presidente da República, comandante supremo das Forças
Armadas.
Acontece que,
aproximando-se as comemorações de 7 de Setembro, Aureliano também não recebeu o
convite para estar presente ao desfile. Aí, a coisa complica, porque a vice-presidência
da República é cargo e não função. Seu titular não é um eventual a ser chamado em
casos de substituição ao Presidente. Ele é participante ativo do governo, desde o dia
de sua posse até a posse de seu substituto e assim, protocolarmente, sua presença
a cerimônias públicas não é uma questão de gosto mas de obrigação de governo.
Incontinente, Aureliano
oficiou aos organizadores do desfile, advertindo-os de que continuava vice-Presidente
constitucional e não iria tolerar a quebra do protocolo. Diante disso, o convite lhe foi
encaminhado mas, durante o desfile, tanto o presidente Figueiredo quanto sua comitiva
ignoraram por completo a presença de Aureliano Chaves, que permaneceu no palanque
completamente isolado. Aureliano não perdoou a grosseria, que serviu para afastá-lo,
ainda mais, do bloco presidencial.
O governo e o
trabalhador
Durante todo seu governo,
João Batista Figueiredo fugiu ao diálogo com o trabalhador brasileiro e, quando se
lembrou dele, foi para aplicar o arrocho salarial determinado pelo Decreto-Lei 2065.
Não evitou, porém, que
estourassem greves reivindicatórias, todas julgadas pela Lei de Greve implantada pela
ditadura militar e, por conseguinte, todas elas declaradas ilegais. O governo tinha
inclusive o poder de interferir nos Sindicatos e não hesitou em fazê-lo, quando lhe
conveio.
Os momentos de maior
tensão social ocorreram nas greves dos metalúrgicos do ABCD (Santo André, São
Bernardo, São Caetano e Diadema) em 1979 e 1980, quando a cidade de São Bernardo do
Campo virou praça de guerra, com a Polícia Militar e a Polícia Civil tomando a cidade
por terra, enquanto helicópteros do Exército faziam vôos de reconhecimento e de
intimidação. O direito de ir e vir dos grevistas foi, a toda hora contestado e, em
certos momentos, foi-lhes impedido até realizar suas Assembléias.
Em 1979, o movimento
grevista foi rápido. Iniciou-se em 14 de março e encerrou-se 13 dias depois, em 27 de
março, o que não impediu a intervenção do ministério do Trabalho no Sindicato,
afastando temporariamente o presidente Luís Inácio da Silva (Lula).
Já a segunda greve, em
1978, custou 65 dias de tensão para os trabalhadores e também para a polícia, trazendo,
como conteúdo adicional, uma instabilidade ao regime, pelo que se tornou um dos momentos
mais delicados dentro do processo de transição.
De seu lado, o governo
insistia na aplicação, com todo o rigor, de uma lei de greve ilegítima e irreal, que
impedia as montadoras de veículos e demais empresas metalúrgicas de negociarem com os
sindicatos. Se pudessem fazê-lo, os problemas teriam sido resolvidos mais rapidamente.
Já os trabalhadores,
desta vez, haviam se organizado melhor para suportar um movimento mais prolongado,
inclusive com coleta de contribuições e de alimentos, para sobrevivência sua e da
família.
Entre polícia e
trabalhadores, havia um trabalho pacificador, que era desenvolvido pelo senador Teotônio
Vilela, de Alagoas, e pelo suplente de senador Fernando Henrique Cardoso. Um e outro,
representavam o algodão entre os cristais, para evitar a quebra.
Permanecendo todo o tempo
em São Bernardo do Campo, os dois estabeleciam contatos freqüentes, ora com os
comandantes da operação policial, ora com os líderes dos grevistas, empenhando-se para
evitar um confronto que seria fatal, com prejuízo maior para este últimos, que detinham
a razão, mas não detinham a força.
Mais uma vez, ocorreu
intervenção no Sindicato e Lula foi afastado. "Desta vez, eu garanto que ele não
voltará mais", declarou o ministro Murilo Macedo.
Não voltou, tudo bem,
mas na prática a liderança permaneceu nas mãos de Lula e era com ele que tinham de ser
feitos os contatos e tomadas as decisões. Assim, a intervenção foi um rompante que não
produziu qualquer efeito prático.
Por fim, trabalhadores e
empresas começaram a se cansar. Em 8 de abril, a greve encerrou-se em São Caetano do
Sul. Em 1º de maio, contrariando a proibição dos órgãos de segurança,
realizou-se em São Bernardo uma passeata com mais de 100 mil pessoas, que terminou com
uma concentração no Estádio de Vila Euclides (Depois, esse local seria fechado aos
grevistas, por determinação do governo). No gramado, um grupo deles estava desenhando,
com os próprios corpos, a palavra DEMOCRACIA, quando foram interrompidos pela polícia, a
golpes de cassetete.
Em 5 de maio ocorreram
choques entre polícia e grevistas por toda a cidade com 50 feridos. Nesse dia, terminava
a greve em Santo André e os trabalhadores voltavam às fábricas.
Restavam São Bernardo do
Campo e Diadema. "No dia 11 de maio o texto é de uma publicação oficiosa
dos sindicalistas premidos pela intransigência dos empresários e do governo,
acossados por violenta repressão policial, com seus líderes encarcerados e sem
perspectiva de receber o salário referente aos dias parados, os metalúrgicos de São
Bernardo do Campo e Diadema decidiram voltar ao trabalho. A greve durara 41 dias."
Lula chegou a ficar preso
na sede do DEOPS por algum tempo, mantendo um relacionamento razoável com o seu diretor,
delegado Romeu Tuma. Foi Lula que deu aos cárceres do DEOPS o apelido de "Pensão do
Tuma".
Conclusão
Este é um breve resumo do governo Figueiredo, mas nele falta a parte mais importante. É
a grande manifestação popular representada pelo movimento das "Diretas-Já" e
as conseqüências decorrentes desse despertar da cidadania.
Tão importante foi esse
período, que merece um capítulo aparte, seja pela vibração popular que há muito não
se via, seja pelas reações do governo, preparado para viver uma ditadura, mas totalmente
despreparado para enfrentar uma "crise de democracia". Então, nos encontramos
novamente no próximo capítulo. Até lá.