CAPÍTULO ONZE
OS ANOS DE CHUMBO
VIOLÊNCIA, TORTURA E MORTE

     Maria de Oliveira Soares pode entrar para o livro de recordes como a mais jovem terrorista da História. Foi presa com um ano e meio de idade, em companhia dos pais, Eleonora Menicucci e Ricardo Prata Soares, acusados de participar de um movimento de guerrilha urbana, a AP (Ação Popular), que se supunha ser responsável por assaltos a bancos e a supermercados.

     O caso de Maria foi inusitado pela pouca idade da menina, mas não era uma exceção: abundam nos processos contra a repressão os registros sobre a prisão de crianças e de outros familiares de suspeitos, os quais, embora alheios às supostas atividades do acusado, eram submetidos a tortura psicológica e, muitas vezes, física, para obrigar o indiciado a confessar seus delitos ou delatar outras pessoas que faziam parte do grupo.

     Embora a repressão política tenha se iniciado em abril de 1964, logo após o movimento militar, ela tornou-se mais evidente e saiu do controle após a edição do Ato Institucional nº5, em 13 de dezembro de 1968, o qual suprimiu os direitos de cidadania, dando poderes totalitários ao Sistema que governava o país.

     Vale relembrar as advertências então feitas pelo vice-presidente da República, Pedro Aleixo, na reunião que discutia o fechamento do regime, segundo depoimento dele ao historiador Hélio Silva:

     "Porque o que se verifica, na prática, é que a pessoa do presidente da República, não sendo omnímoda [ilimitada], delega aos seus auxiliares as suas atribuições para a execução dos atos de governo. (...) Assim, a autoridade se transmite até o último elemento da cadeia, que pode ser o mais indigno beleguim policial." E esses beleguins estavam por toda parte, fazendo coisas de que até Deus duvida e que nem o diabo autorizou a fazer.

     A escalada da violência começou quando o governador de São Paulo, Roberto de Abreu Sodré, se recusou a colocar a polícia estadual na repressão política. Não desejando polemizar com este seu aliado, o governo federal optou por autorizar o Exército a criar sua própria linha de frente na capital paulista, organizando-se então a OBAN – Operação Bandeirante – dirigida pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, a qual ficou encarregada de investigar, prender, interrogar e completar os inquéritos de todos elementos considerados suspeitos de atividades subversivas dentro do Estado.

     A OBAN tornou-se com isso um valioso laboratório de ação anticomunista, que propiciou mais tarde a formação dos DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna), subordinados ao Exército. O primeiro desses aparelhos surgiu da própria OBAN, instalando-se em um edifício da rua Tutóia, em São Paulo. O segundo, como se pode imaginar, foi inaugurado no Rio de Janeiro, no edifício do 1º Batalhão de Polícia do Exército, bairro da Tijuca, zona norte da cidade.

     A experiência com essas duas unidades especializadas na repressão ensejou a criação de órgãos semelhantes por todo o país, numa ação plenamente eficiente do ponto de vista militar. Acontece que os métodos violentos e arbitrários utilizados pelas equipes fugiram por completo do controle do poder central, transformando-se os órgãos de repressão num estado dentro do Estado. Nem nos campos da Itália, durante a Segunda Guerra Mundial, o Exército ousou ir tão longe no trato com seus prisioneiros. E, neste caso, os assim considerados "inimigos" eram os próprios brasileiros e, sendo impossível a fiscalização pela sociedade civil, ninguém estava a salvo do arbítrio.

     Com efeito, a expressão "subversivo" era aplicada não só a terroristas, mas a simples simpatizantes do comunismo. Ou podia ser aplicada a qualquer outro cidadão que fosse apontado como tal, já que estavam suspensos os direitos de cidadania, entre eles o habeas-corpus. Era o chamado "crime de opinião", banido de todas as nações civilizadas do planeta, mas cultivado no Brasil com ardor religioso, desde a Intentona de 1935, cuja história, visivelmente distorcida, era mantida viva nos quartéis.

     Contrariando também o direito internacional, o crime imputado a um cidadão era muitas vezes estendido a toda sua família; com efeito, chegava-se a prender mulher, filhos ou parentes do suspeito para usá-los, seja na obtenção de informações, seja para exercer pressão psicológica sobre o acusado, quando a tortura física, por si, não era suficiente para subjugá-lo.

     Censurados os meios de comunicação, estes pouco conseguiam apurar e, do que sabiam, nada podiam publicar. Destarte, a maioria da população brasileira, desconhecendo os porões da repressão, acreditava mesmo ser o Brasil "uma ilha de tranqüilidade em meio a um mundo turbulento", expressão de propaganda cunhada pelo governo Médici, justamente no período em que a repressão corria solta nos porões da ditadura.

     A verdade só começa a aparecer após a extinção do AI-5, em 1º de janeiro de 1979, três meses antes de o presidente Ernesto Geisel transmitir a faixa presidencial ao general João Batista Figueiredo. Os processos judiciais, a partir daí, registram com toda a intensidade o horror vivido nos "anos de chumbo". Os corpos – ou as ossadas – dos desaparecidos começam a ser encontrados, anos mais tarde, enterrados sob nome falso ou como indigentes, mas com características que permitem sua identificação.

     Ainda que com asco, é preciso mergulhar nesse mar de lama podre para conhecer de perto o que foi o período repressivo, mantendo viva a memória para evitar que, um dia, a História venha a se repetir, em tom de farsa.

A legitimação da repressão

     Há uma primeira ressalva a fazer, importante para a preservação da verdade, fugindo ao libelo vulgar que distorce os fatos e transforma o regime militar em uma "caixa de Pandora", a raiz de todos os males com que se defronta o Brasil entre 1964 e 1985.

     A revolução (ou golpe de estado) de 1964 é um desdobramento natural resultante da incompetência ou inapetência política do presidente João Goulart, que não assume na plenitude a sua autoridade de chefe de governo, permitindo a ingerência de movimentos subversivos que se organizam para a tomada do poder, com ou sem Jango, muito provavelmente sem ele.

     Agora que estamos algumas décadas distantes dos acontecimentos que levaram ao movimento militar, ninguém mais duvida de que a posse de Jango propiciou o desenvolvimento de conspirações de esquerda e de direita: as primeiras envolviam o governo constituído, ou seja, o Presidente, seu "staff" e uma parte das Forças Armadas fiéis a ele; as outras contavam com a participação de parte da sociedade civil, de parte das Forças Armadas, de órgãos de comunicação, de alguns governadores de Estado, de uma parte significativa do empresariado e com envolvimento inequívoco dos Estados Unidos, por seu embaixador, Lincoln Gordon, e pelo assessor, general Vernon Walters. Todo mundo conspirava.

     Conquistado o poder pela força, a radicalização do processo, no primeiro momento, seria inevitável, ganhasse a esquerda ou a direita. É uma constatação elementar essa que, quem toma o poder, seja por uma revolução ou por um golpe de estado, a primeira coisa que faz é isolar os vencidos, anulando sua força e neutralizando a possibilidade de reação.

     Foi isso o que aconteceu após as revoluções de 30 e de 32; ou após intentona comunista de 35, ou após o golpe do Estado Novo em 37, ou após o "putsh" integralista de 1938.

    A derrubada do presidente Getúlio Vargas, em 1945, fugiu à regra, mantendo na ativa os participantes do governo anterior. E deu no que deu: todos os vencidos estavam presentes na 3ª República (1945-1964), ensejando uma situação de instabilidade político-militar que agitou o país por 19 anos, desaguando no movimento militar de 1964.

     Em 1964, a esquerda ou a direita, uma delas acabaria tomando o poder. Venceu quem demonstrou maior organização e competência. E era legítimo que, assumindo o poder, os novos mandantes cuidassem da limpeza da área, consolidando o movimento. Como bem disse o general Figueiredo, "ninguém ensina soldado a dançar balê" e o primeiro Ato Institucional – que deveria ser o único – forneceu meios para a ação repressiva após vitorioso o movimento.

     Embora fosse um período preocupante, tínhamos a palavra do presidente Castelo Branco de que haveria eleições livres em outubro de 1965, o que dava credibilidade e apoio ao movimento militar. Essas eleições não ocorreram. O mandato de Castelo Branco foi prorrogado para 1967 e, após o Ato Institucional nº2, o Presidente tornou-se refém do Sistema, não podendo evitar o prolongamento do regime, que tinha planos de ficar para todo sempre, ou até que uma força maior o derrubasse.

A legitimação dos
movimentos armados

     Entra aqui a segunda evidência. Também não é uma proposição, é um axioma, uma verdade que não precisa ser provada e que independe da opinião ou vontade de cada um.

     Toda ação causa uma reação. A radicalização de uma das facções leva a idêntico processo o lado oposto, na tentativa de reequilibrar as forças. Enquanto o governo pós-revolucionário tentava enquadrar os chamados "subversivos", mas acenava com o breve restabelecimento da democracia, havia uma esperança de retorno da oposição às atividades políticas, o que mantinha a temperatura em nível de fervura, mas não de explosão.

     Por outro lado, o fato de o presidente Castelo Branco ter mantido a liberdade de imprensa até as últimas conseqüências, suportando críticas muitas vezes além do admissível a um presidente da República, permitiu cortar no nascedouro muitas das arbitrariedades que sempre acontecem em tais períodos.

     Já com a edição do AI-5, em dezembro de 1968, acabaram-se as esperanças de um retorno normal ao processo democrático, tornando natural e até legítimo o surgimento de movimentos contestatórios à ditadura pelo único canal possível naquele momento, qual seja, o de guerrilhas e ações de força, como seqüestros e assaltos a bancos.

     Era a moeda de troca. Com seqüestros, se obrigava o governo a soltar prisioneiros; com o dinheiro arrecadado nos assaltos, financiava-se a contra-revolução; com as ações de força procurava-se desalojar os que se apropriaram do poder e dele não queriam sair.

     Não há, pois, anjos nessa história. Todos tinham culpa em cartório. Da direita ou da esquerda, todos usaram de processos radicais visando atingir seus objetivos. No enfrentamento entre forças militares e guerrilheiros, não havia escolha: era matar e morrer. Tornava-se legítima a violência de um e outro lado, uns procurando manter o status, outros tentando revertê-lo.

     Já não se pode dizer o mesmo da tortura implantada dentro do Sistema. Os torturadores estavam lidando com prisioneiros desarmados, subjugados, entregues à sua guarda e proteção e sobre estes indefesos cidadãos cometiam violências injustificáveis, acobertados pela impunidade. A tortura é, pois, um crime atroz, degradante, humilhante e hediondo, sobretudo quando cometida por agentes do Estado, cuja missão é a de preservar a lei e a ordem.

A escalada da violência

     Nada aconteceu do dia para a noite. O desenvolvimento da violência nos aparelhos do Estado foi progressiva e chegou ao paroxismo, pela falta de um órgão controlador que lhes detivesse os passos e pusesse um paradeiro à coerção ilegal.

     A convivência, que era difícil no período Castelo Branco, tornou-se quase impossível após Costa e Silva assumir o poder. Forças policiais dos Estados agiam duro contra qualquer manifestação pacífica, realimentando o ódio e gerando novas passeatas de protesto que se desenrolaram por todo o ano de 1968, no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Minas Gerais, mas também pelo país afora.

     Depois, veio o período de caça às bruxas, com agentes duplos infiltrados nas escolas, nos ambientes de trabalho e, sobretudo, nos órgãos de comunicação, que, como formadores de opinião, sofriam uma vigilância redobrada. A partir daí, surge a inversão de valores, que transforma a delação em virtude e a fidelidade em um vício a ser extinto.

     Não faltaram também, como instrumentos de incentivo à delação, os IPMs (Inquéritos Policiais-Militares) e as CGIs (Comissões Gerais de Inquérito). Os primeiros eram restritos às atividades militares. Mas as CGIs foram instaladas em todos os órgãos de governo, inquirindo, um a um, os servidores, do diretor ao faxineiro. O contato começava com um chavão manhoso: "Nada temos contra você, muito pelo contrário, você foi até elogiado pelos seus colegas que já prestaram depoimento..." E seguia com uma série de perguntas capciosas para arrancar do depoente alguma informação desavisada que pudesse comprometer os demais.

     Por fim, organizado o sistema repressivo, este passa à fase mais aguda, que é a da prisão sem culpa formada e da tortura, transformando o ser humano em peça descartável e o Estado no "grande irmão", onipresente, onisciente e onipotente, reunindo em si, a um só tempo, os três poderes da República, manipulados pelos "beleguins", que se sentiam à vontade para prender, julgar e executar a sentença, tudo à margem dos mais comezinhos princípios de justiça.

O torturador transforma-se, com o tempo, num anormal, um caso psiquiátrico. Forçado, no início, a praticar a tortura por dever do ofício, com o tempo torna-se um viciado, bestializado, e o que antes lhe causava repulsa passa a ser um instrumento de prazer. A prática da tortura o transtorna da mesma forma que o narcótico transtorna um drogado. Ou, como dizem os estancieiros gaúchos, "cão que experimenta sangue de ovelha, não serve mais para pastorear". É o caso dos torturadores.

O macartismo, ou
a "caça às bruxas"

     Joseph Raymond McCarthy (1908-1957) era um senador americano que, nos anos de após-guerra, ganhou notoriedade por denunciar a suposta presença de comunistas em todas as atividades do governo dos Estados Unidos, inclusive no Departamento do Estado, assim como nos meios de comunicação, os quais, segundo ele, pervertiam a opinião pública.

     Surgiu, então, naquele país, a Comissão de Atividades Antiamericanas (uma espécie de Comissão Parlamentar de Inquérito), que convocava, inquiria e julgava suspeitos de atividades comunistas, incentivando a delação, para aliviar a pena de uns e incriminar outros na rede de suspeitos que ia, a cada dia, aumentando. Era o período chamado de "macartismo".

     Entre as vítimas do macartismo havia muita gente famosa, como o ator e diretor Woody Allen; entre os acusadores aparecem nomes igualmente de destaque como o do produtor Walt Disney. E a simples participação em um desfile de 1º de maio (May Day) era suficiente para enquadrar alguém como simpatizante do comunismo.

     Essa explicação, um tanto longa, se fez necessária para introduzir o leitor numa das fases mais insidiosas, embora menos violenta, da repressão no Brasil, que foi o macartismo. Oduvaldo Viana (pai), o criador da radionovela brasileira, encontrava-se entre as primeiras vítimas. Foi demitido da Rádio Nacional num "listão" que incluia também Heitor dos Prazeres, Ghiaroni, Mário Lago, Jararaca e Dias Gomes. As novelas de Oduvaldo continuaram sendo retransmitidas pela Rádio Nacional mas o nome do autor foi omitido, configurando-se em apropriação de direitos autorais. Oduvaldo Viana Filho teve censurada a sua obra-prima, "Rasga Coração", pelo que a divulgação do texto era feita em serões literários.

     No jornalismo, para citar alguns exemplos, Osvaldo Peralva teve de exilar-se na Alemanha e, durante longo tempo, atuou como correspondente da Folha de São Paulo no Exterior. Josué Guimarães escondeu sua identidade usando um pseudônimo e passou a ganhar a vida vendendo títulos de pecúlio, até que foi reconhecido e preso.

     Quando o general Silvio Frota afastou-se do governo Geisel denunciando a presença de comunistas em órgãos do governo e meios de comunicação (igual ao procedimento do senador McCarthy), a Folha de São Paulo teve de afastar inopinadamente Tarso de Castro e todo o pessoal que editava o suplemento "Folhetim", montando uma equipe de emergência para seguir com o trabalho. No mesmo momento, o "Jornal dos Jornais", escrito por Alberto Dines – o precursor do "ombudsman" no Brasil – foi suspenso "por razões técnicas" e nunca mais voltou a ser publicado.

     Em certo momento, a própria direção do jornal se refugiou no exterior, ficando a chefia de redação, por oito anos, nas mãos do jornalista Boris Casoy.

O macartismo no rádio

     Ao pesquisar dados sobre o macartismo nos meios de comunicação, dois nomes surgem em evidência como delatores: os dos apresentadores Cesar de Alencar e Flávio Cavalcanti, apontados um e outro como responsáveis pela demissão, em um primeiro momento, de 149 funcionários da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, muitos deles arrolados posteriormente em Inquérito Policial Militar como participantes de uma suposta célula do PCB na emissora.

     Não era preciso provar, bastava fazer a acusação, que os militares encarregados do inquérito cuidavam do resto. Ainda que o resultado final fosse a absolvição, os radialistas, a essa altura, já tinham perdido seus empregos, sem condições de retorno à profissão, num campo de trabalho restrito e, de certa maneira, controlado pelo Ministério das Comunicações, que podia aplicar sanções às emissoras, suspendendo temporariamente as transmissões e até cassando seu alvará de funcionamento.

     Outro nome apontado como macartista é o do cantor Wilson Simonal. Muito embora ele negue tudo, atribuindo as acusações a inveja de seus ex-colegas pelo sucesso alcançado, existem algumas evidências de que o cantor tenha participado do processo de delação.

     Em 1974 Simonal foi julgado e condenado a cinco anos e quatro meses de prisão por seqüestro e extorsão. Depondo nesse inquérito, o agente do Dops carioca, Mário Borges, declarou: "Simonal é há muito tempo informante do Dops e de outros órgãos policiais, tendo fornecido várias vezes informações positivas sobre atividades subversivas."

     Por fim, encontramos, entre outros, o radialista de São Paulo Randal Juliano, com sua vida profissional ligada à rede de "Emissoras Unidas de Rádio e Televisão", (Rádios Panamericana, Bandeirantes, Record e São Paulo, mais a TV Record). Randal leu e comentou uma notícia falsa segundo a qual, em um show de Caetano Veloso e Gilberto Gil, estes teriam cantado uma paródia do Hino Nacional.

     Era mentira, mas serviu de mote para que a repressão agisse. Randal foi convidado a assinar um depoimento de acusação e o fez. Em seguida, Caetano Veloso foi preso em seu apartamento da Avenida São Luís e Gilberto Gil em outro local da cidade. Concluído rapidamente o laudo de culpa, os dois foram colocados em um avião e deportados para a Europa com recomendação de que não voltassem mais ao Brasil, sob pena de acontecer-lhes algo pior.

     Entrevistado em 1992 pelo apresentador Jô Soares, Randal Juliano confirma ter assinado, no Exército, o depoimento que resultou na deportação dos dois artistas, mas garante que o fez em boa fé, iludido por seus produtores, que plantaram a notícia como verdadeira. Assegurou que jamais teria lido a nota, "se soubesse que Caetano e Gil iam ser prejudicados por ela..." Acredite quem quiser, tanto mais que as "Emissoras Unidas" eram um ninho da ultra-direita em São Paulo.

Missão quase impossível

     Em 12 de outubro de 1968, dois meses antes de ser editado o AI-5, o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) de São Paulo, recebeu uma missão de guerra, qual seja, a de prender um grupo perigoso de meliantes comunistas, encantonados no sítio de Murundu, a 15 quilômetros de Ibiúna, no interior de São Paulo.

     Seria cômico, se não fosse trágico. Com as organizações estudantis colocadas fora da lei (só eram permitidos grêmios estudantis autorizados a funcionar como linha auxiliar do governo), um punhado de estudantes independentes escolheu o sítio de Murundu, de propriedade de Domingos Simões, para ali realizar o 30º Congresso da UNE – União Nacional de Estudantes.

     Era um grupo de 700 pacíficos adolescentes, sem qualquer armamento, que só estavam se reunindo na clandestinidade porque lhes fora subtraído o direito de associação garantido em todas as constituições brasileiras, inclusive na de 1967, em vigor na época. Nada mais reivindicavam que o direito de pensar, de se reunir, e de preservar as tradições da UNE.

     Delatados pelo vizinho, o sitiante Miguel Góis (que não se perca pelo nome) o DOPS montou uma operação destacando três equipes policiais fortemente armadas, com retaguarda da Força Pública (Polícia Militar), comandadas pelos delegados Paulo Bonchristiano, Orlando Rosante e Ivo Barsotti. Eram cerca de 300 homens (215 segundo a polícia), incluindo civis e militares.

     Caminhando por trilhas encharcadas, os policiais fizeram um cuidadoso cerco à área, para depois avançar, preparados para uma violenta ação armada, quando se depararam com meninos escolares de mãos limpas, incrédulos com o que viam. Conta o delegado Bonchristiano:

     "Nós estávamos preparados para enfrentar gente armada, guerrilheiros perigosos. Quando vimos, era um bando de adolescentes com frio, amarelos, passando fome, sem a menor chance de resistir."

     A Folha de São Paulo, no dia seguinte, abre a manchete: "Congresso da UNE: todos presos" e publica, em quase meia-página, uma foto de cena campestre, com cabritos e bodes pastando, enquanto policiais militares apontam seus fuzis-metralhadores contra um punhado de meninos assustados, com as mãos sobre a cabeça. Monte Castelo estava conquistado!

     Foram todos presos e, entre eles, os líderes estudantis José Dirceu, presidente da União Estadual de Estudantes; Luís Travassos, presidente da UNE; Vladimir Palmeira, presidente da União Metropolitana de Estudantes; e Antônio Guilherme Ribeiro Ribas, presidente da União Paulista de Estudantes Secundários.

     Os líderes foram encaminhados ao DOPS e os demais encarcerados no Presídio Tiradentes, onde hoje fica a estação Tiradentes do Metrô, todos numerados, fotografados e fichados como bandidos (Foi com uma dessas fichas que, mais tarde, identificaram o "criminoso político" José Genoino, preso na região do Bico do Papagaio, antes de iniciar-se a guerrilha do Araguaia).

     Vinte e cinco anos depois, o delegado Bonchistiano, que comandou a operação, voltou ao sítio em companhia do já deputado José Dirceu e lá os dois encontraram o mesmo Domingos Simões, sitiante que deu acolhida aos jovens da UNE, com barbas brancas, boné cubano e olhar parado no espaço.

     "Lembra-se de mim ?" pergunta o delegado, e Simões responde: "É claro que me lembro, companheiro, foi você que prendeu os meninos lá no sítio." E completou: "Olha, companheiro, isso não mudou nada. Estamos na mesma porcaria [não foi esse o termo] mas eu continuo lutando." E o delegado desabafou:

     "Fizemos tudo isso para que? Prendemos os estudantes, lutamos, defendemos a revolução [golpe de 64] e o Brasil está assim, desse jeito. (...) Hoje eu não acredito em mais nada."

     Depois da "Operação Murundu", muita água correu por baixo da ponte e muitas novas gerações de cabritos e bodes voltaram a pastar nos mesmos campos. Vieram os movimentos guerrilheiros e a conseqüente repressão a eles. Simões – o dono do sítio – entrou para a VPR – Vanguarda Popular Revolucionária. Foi preso na OBAN e, como era de costume, levaram também prisioneiras sua mulher Neusa e suas duas filhas, criminosas por laços de sangue.

     "Fui muito torturado – conta ele – arrancaram uma unha de minha mão, me bateram com cacetete, me quebraram três costelas com pauladas e deram choques no meu ouvido. Fiquei meio surdo."

     Só pra lembrar: o governador de São Paulo, naquele momento da Operação Murundu, era o mesmo Roberto de Abreu Sodré, citado tópicos atrás. E posou de vitorioso com a "Tomada de Monte Castelo": "Agi com energia para reprimir a agitação e a subversão, quando determinei, após horas de angústia e apreensão, a prisão de estudantes subversivos que participavam do Congresso da UNE." Qual a verdadeira face de Sodré: esta, revelada na entrevista, ou aquela, cuja recusa em colocar a polícia paulista na repressão, originou a criação da OBAN?

Vida e morte de Lamarca

     Carlos Lamarca era capitão no 4º Regimento de Infantaria, em Quitaúna, região da Grande São Paulo, especialista em operações anti-guerrilha. Um dia, em janeiro de 1969, saiu do quartel com dois caminhões lotados de soldados e armamentos para um suposto treinamento e nenhum deles voltou. Fundaram um movimento guerrilheiro, a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) e tentaram, sem sucesso, iniciar operações de guerrilha camponesa, no litoral sul de São Paulo. Da junção da VPR com a Colina, outro movimento armado, surgiu a VAR-Palmares.

     Descontente com o rumo do movimento, Lamarca filiou-se ao MR-8, transferindo sua ação para o nordeste, mais precisamente para o Estado da Bahia.

     Com objetivo de prendê-lo, e ao seu grupo, foi montada a "Operação Pajussara", comandada pelo major (hoje general) Nilton Cerqueira, que realizou seguidas e infrutíferas tentativas de eliminar o movimento guerrilheiro. A terra era inóspita e os soldados não tinham treinamento de sobrevivência na catinga.

     Uma última tentativa trouxe melhores resultados. Os guerrilheiros, senão presos ou executados, foram pelo menos desbaratados, impedindo a continuidade da ação armada. A companheira de Lamarca, Iara Iavelberg, morreu em seu esconderijo. A versão oficial é de suicídio, havendo, entretanto a possibilidade de ter sido fuzilada, acontecimento comum nesses confrontos.

     Restava Lamarca. Em 6 de agosto de 1971 foi preso José Carlos de Sousa (cognome de Rocha) que, "traumatizado", (expressão contida no relatório), deu as coordenadas para encontrar o chefe. Chegando à localidade de Pintada (nome suposto, que consta do relatório militar), deram de cara com o que restava do grupo guerrilheiro, ainda dormindo. Iniciou-se a fuzilaria, com vantagem para as tropas legais.

     "Você é Lamarca?" – pergunta o major Cerqueira, confrontando o rosto de um moribundo com a foto que trazia às mãos. "Sim, sou o Lamarca". "O que você acha disso?" volta a perguntar o major. "Sei quando perco."

     E a cena se encerra com uma lição de moral, dada pelo major Cerqueira: "Você é um traidor do Exército Brasileiro." Não houve resposta. Lamarca estava morto.

     A morte ocorreu em 17 de setembro de 1971 e, seguindo recomendação da censura, os jornais foram sucintos no seu noticiário, com linguagem própria de "press-release": "Carlos Lamarca, considerado o mais perigoso terrorista do país, foi morto em tiroteio com as forças de segurança", etc. etc.

Relembrando "Os Sertões"

     Apenas para registro: o governador da Bahia, naquele instante, era Antônio Carlos Magalhães que, embora fiel aos governos militares, nada teve a ver com a operação, que foi planejada e realizada inteiramente por forças do Exército. Mas, como governador, era responsável pela miséria que continuava a existir no sertão baiano.

     Com efeito, um dos pontos mais objetivos do relatório militar é a narrativa das condições de vida na caatinga, lembrando um pouco Euclides da Cunha em relação a Canudos:

     "Ficou demonstrado que o povo do interior, embora vivendo nas mais miseráveis condições, ainda repudia e, até mesmo, odeia o emprego da violência que os terroristas querem impor. Resta, contudo, a dúvida de saber até quando persistirá com esta concepção, de vez que não vê e nem sente, na prática, em curto prazo, solução para seus mais prementes e comezinhos problemas, podendo assim tornar-se presa fácil a qualquer impregnação de doutrinas espúrias."

     Mais de 70 anos após a morte de Antônio Vicente Mendes Maciel (Antônio Conselheiro), o místico de Canudos, a situação no sertão baiano permanecia idêntica. Cuidou-se de exterminar o foco visível da luta armada, mas ficaram ainda enraizadas as condições sociais que levaram ao confronto do Vaza-Barris. O povo continuava sendo apenas um acidente histórico, excluído da vida nacional, aparecendo apenas como apêndice em relatório de operação militar.

     Desse jeito é mesmo difícil combater a utopia comunista, que só não encontrou guarida nessa multidão de desvalidos pelo controle que, sobre os miseráveis, exercem os coronéis do sertão, resquícios da velha Guarda Nacional, que ainda conseguem manter sólidas as suas áreas de influência política.

Vida e morte de Mariguella

     Carlos Mariguella nasce em Salvador-BA em 1912 e, em sua trajetória, participa de quatro repúblicas. Na primeira (1889-1930), é apenas um estudante; na segunda (1930-1945), adota o comunismo como regra de fé e prática: participa da Intentona de 35, é preso, foge, é recapturado, preso novamente e, finalmente, libertado em 1945, quando, ao início da 3ª República (1945-1964), elege-se deputado-constituinte. Assina a Constituição de 46 mas, em seguida, o Partido Comunista do Brasil é posto fora da lei e seu mandato é cassado, junto com o de outros 14 parlamentares, incluindo Jorge Amado e Luís Carlos Prestes.

     Expulso do PCB em 1967, funda a ALN – Aliança Libertadora Nacional e, juntando-se ao MR-8, participa do seqüestro do embaixador americano no Brasil, Charles Elbrick, quando é ferido, mas consegue sobreviver. Volta em seguida a São Paulo, onde inicia uma operação de guerrilha urbana, auxiliado por frades dominicanos, que lhe davam guarida e com quem ele mantinha freqüentes contatos.

     No Rio de Janeiro, agentes da repressão seqüestraram dois frades dominicanos (Frei Ivo e Frei Fernando) que foram levados a dependências da Marinha, onde se achava, naquele momento, o delegado Sérgio Paranhos Fleury, do DOI-CODI. Vítimas de intimidação física e psicológica (berros e palavrões, seguidos de aplicação de instrumentos de tortura), os dois frades deram a informação procurada: Marighella escondia-se sob o cognome de Ernesto e podia ser encontrado em São Paulo na Livraria Gráfica e Editora Duas Cidades, na Alameda Casa Branca (Região da Avenida Paulista).

     Voltando, então a São Paulo, em 4 de novembro de 1969, Fleury monta a "Operação Bata Branca" que resulta na morte de Carlos Marighela. A versão da polícia era de que ele fora morto dentro de um fusca, quando tentava atirar contra a polícia. Os laudos do inquérito apresentam uma série de detalhes que contestam essa versão.

     De início, vários policiais e um transeunte foram atingidos por armas da própria polícia, o que indica ter havido um tiroteio para todos os lados e não apenas para o carro onde se dizia estar Marighela. O relatório policial registra a apreensão, junto a Marighela, de uma única arma com 5 balas intactas, não fazendo referência a cápsulas usadas. Não houve, portanto o aludido confronto armado. Uma falange de Marighela foi recolhida a 10 metros de distância do carro, o que indica que ele se encontrava na rua quando recebeu os tiros, "porque falange não anda" conforme disse o promotor.

     Com a morte de Marighela em 69, e de Lamarca em 71, eliminam-se os dois principais focos contestação armada. Resta apenas a guerrilha do Araguaia que, por ser mais complexa, não será tratada aqui. Vale apenas lembrar que, nela, ressurge a figura fiel do "cabo" Anselmo, agente duplo usado pela primeira vez para amotinar marinheiros e desestabilizar o governo João Goulart, dando pretexto para o golpe de 64. Na repressão, volta a atuar com sucesso o delegado paulista Sérgio Paranhos Fleury, na época a autoridade máxima da repressão.

O macartismo volta
em São Paulo

     Os profissionais de imprensa em São Paulo sempre desconfiaram dos setorialistas encarregados da cobertura nos meios militares, os quais, por vontade própria ou coagidos, eram usados para mandar "recadinhos" aos demais jornalistas. Essa promiscuidade entre dois setores que, a bem público, deveriam ser independentes, tornou-os suspeitos de andar em mão dupla, atuando como delatores de seus próprios companheiros de trabalho.

     Fora do bloco, mas agindo na mesma linha, estava o jornalista Cláudio Marques. Era diretor do Diário de Comércio e Indústria, jornal destinado à classe empresarial; tinha uma coluna no Shopping News, semanário de circulação controlada, distribuído gratuitamente, e atingindo sobretudo a classe média; por fim, apresentava um programa diário de 10 minutos pela TV Bandeirantes, sob o patrocínio da Construtora Adolfo Lindenberg, cujo proprietário era também diretor da TFP-Tradição, Família e Propriedade, um órgão religioso de atividade radical da ultra-direita.

     Jovem, bem aparentado e vestindo-se com apuro, poderia passar por um Rodolfo Valentino tupiniquim. Mas seu campo de atividades era outro. Nos jornais, sobretudo no Shopping News, insinuava atividades subversivas de colegas de imprensa. No programa de TV, destinado à classe média-alta, exibia imagens de obras de arte, dando nome do proprietário, valor de mercado e outros informes de investimento. Mas, paralelamente a essas informações triviais, distilava seu veneno, incriminando outros jornalistas, que acusava de usar sua influência para desenvolver propaganda contra o regime.

     Tudo isso propiciou uma reescalada de violência no DOI-CODI, em outubro de 1975, atingindo sobretudo a TV e, dentro dela, os profissionais mais conhecidos e destacados.

     Assim é que, no dia 24, já estavam presos incomunicáveis (sem acesso aos advogados) George Duque de Estrada, Rodolfo Konder, Sérgio Gomes, Marinilda Marchi, Frederico Pessoa da Silva, Ricardo de Morais Monteiro, José Pola Galé, Luís Paulo da Costa e Anthony de Christo. Nesse mesmo dia foram presos e levados ao DOI-CODI também os profissionais Paulo Sérgio Markun e Diléa Markum. Com exceção de Duque de Estrada, todos os demais foram vítimas de tortura.

A morte de Vladimir Herzog

     Ao reestruturar seu departamento de jornalismo, a TV Cultura, então dirigida por Rui Nogueira Martins, convidou para dirigi-lo o jornalista Vladimir Herzog, um judeu norte-americano radicado no Brasil e que já trabalhara na primeira fase do telejornalismo dessa emissora.

     Aceito o convite, seu nome, como de praxe, foi encaminhado ao SNI-Serviço Nacional de Informações, que esmiuçou a vida do jornalista e, por fim, deu sinal verde para que ele fosse contratado.

     Foi então que iniciaram-se as investidas de Cláudio Marques, já mencionado acima, tanto por artigos no Shopping News como por seu programa da TV Bandeirantes. Cláudio Marques se defende: "Não fui o primeiro nem o último a abordar a linha, quando menos estranha da programação jornalística da TV Cultura de São Paulo. Não fui o primeiro nem o único a perceber que a TV Cultura primava pela apresentação de programas de cunho nitidamente comunizante, às escâncaras, e, o que é pior e que motivou nossa revolta, com o financiamento do governo do Estado."

     No mesmo dia em que o casal Markum fora preso, a intenção era também a de prender Herzog. Só não o fizeram porque o setorialista da área militar, Paulo Nunes, mal-visto entre os colegas, assumiu a custódia do jornalista, comprometendo-se a apresentá-lo ao DOI-CODI no dia seguinte. E cuidou bem do "objeto" custodiado, tanto que foi dormir na própria casa de Herzog.

     No dia seguinte, 25 de outubro de 1975, logo de manhã, os dois foram àquele departamento policial. Paulo Nunes foi barrado na entrada e Vladimir Herzog foi conduzido à sala de interrogatórios. À noite, já estava morto.

Não souberam
montar a cena

     A morte de Vladimir Herzog, dada como suicídio, tem uma foto divulgada à imprensa mas a cena, mal montada, não resiste a uma primeira análise.

     Qualquer tresloucado que pretenda acabar com a própria vida, trata de fazê-lo de forma tal a anular qualquer possibilidade de arrependimento. Ou se atira do último andar de um edifício, ou amarra uma pedra ao corpo antes de se atirar a um rio, ou se pendura no galho mais alto de uma árvore.

     A foto divulgada para comprovar o suicídio de Herzog chega a ser surrealista. O cinto está amarrado no vão mais baixo da grade, de maneira que a vítima, para cumprir seu intento, teve de se ajoelhar! E, acrescente-se, prisioneiros do DOI-CODI não usavam cintos ou fivelas e lhes eram tirados até os cordões dos sapatos. Ao seu lado, na cena montada, há uma cadeira que poderia ser utilizada para alcançar uma grade mais alta. No chão, uma cópia rasgada do depoimento, para dar a falsa impressão de um arrependimento tardio. E, se precisasse de algo mais, a perícia revelou mais tarde a existência de dois sulcos em seu pescoço, como se ele tivesse se suicidado duas vezes.

     O depoimento de Herzog, cheio de remendos, mostra o quanto foi difícil redigi-lo de próprio punho e a foto, já o dissemos, choca à primeira vista pelas incongruências que apresenta. Examinando a foto do corpo e o fac-símile do depoimento é possível montar uma trajetória verossímil da curta e trágica passagem de Herzog pelo DOI-CODI.

     Vladimir Herzog foi coagido a redigir aquele documento e, ao receber a cópia a que tinha direito, rasgou-a na presença de seus interrogadores que, num ato impensado, se atiraram contra ele, estrangulando-o. Depois foi montada e fotografada a cena simuladora de suicídio.

     A semana que se seguiu foi difícil para os jornalistas, para a polícia e até para o próprio governo central. Desde o enterro, foi montada pela polícia a "Operação Gutenberg", para controlar os ânimos dos profissionais de imprensa. Os setorialistas, como de hábito, enviavam recados telefônicos ao Sindicato, mostrando o desagrado da área militar com as reuniões havidas em sua sede. Diga-se, a bem da verdade, que eram reuniões informais da sociedade civil e não uma assembléia permanente de jornalistas, como interpretavam os militares).

     A missa de 7º Dia foi transformada em culto eucumênico, celebrado pelo Cardeal D. Paulo Evaristo Arns, pelo rabino Henry Soebel e pelo pastor Jaime Wright. Segundo o Cardeal, dois secretários do governador Sodré o procuraram, tentando dissuadi-lo de realizar o ato. Depois, um esquema policial fechou todos os acessos à Catedral da Sé, o que não impediu uma presença maciça dos que já se achavam dentro do anel de segurança. Era uma multidão que lotou a Catedral e uma parte da Praça da Sé. E os participantes receberam recomendação de sair em grupos de cinco, em silêncio e sem responder a eventuais provocações.

     Durante esse culto eucumêmico, o presidente da República esteve em São Paulo, primeiro no Palácio dos Bandeirantes e depois no Aeroporto de Congonhas. E só embarcou de volta após receber notícias de que a operação policial terminara sem incidentes.

     O mesmo presidente Geisel enviou ao comandante do 2º Exército, general Ednardo, uma advertência de que não toleraria uma segunda morte dentro das dependências do DOI-CODI. E não tolerou. Três meses depois, morre nesse local o operário Manoel Fiel Filho e Geisel, de imediato, demite o general Ednardo D’Ávila Melo, desativando (mas não desmontando) os aparelhos de repressão.

Epílogo

     Muita coisa deixa de ser contada, e o que consta deste capítulo foi colocado de forma desalinhavada, com várias lacunas importantes, que o espaço limitado não permite preencher.

     Este capítulo, que encerra os "Cem Anos de República", foi o mais difícil de ser escrito em toda a obra e, ainda assim, não permite uma visão global de todos os confrontos e excessos havidos nos "anos de chumbo".

     Mas então, por que publicá-lo? Porque, em meio ao agitado noticiário sobre o ambiente turbulento em que vivemos hoje, sempre aparecem cidadãos desavisados a sonhar com o retorno de um regime forte para acabar com os males que afligem a nação brasileira.

     Se você é um deles, pare e raciocine. Nos 10 anos de vigência do Ato Institucional nº5 também havia violência, não só aquela dos órgãos de repressão, como também a do esquadrão da morte, organizado pelo mesmo delegado Paranhos Fleury, atingindo criminosos notórios e, igualmente, muitos inocentes vítimas do arbítrio. Havia também impunidade, tanto que uma lei foi votada (a lei Fleury) só para livrar da cadeia o referido delegado.

     Havia corrupção, tanta como nos dias de hoje, gerada em torno do próprio governo, sobretudo à sombra do Sistema Financeiro da Habitação, mas não só nele. Havia influência de poder e malversação do dinheiro público. Tudo isso só veio a tona a partir de 1979, quando foi extinto o AI-5, permitindo que a imprensa denunciasse o lixo que, durante longos anos, foi varrido para debaixo do tapete. E o peso dessa divulgação tamanho que solapou os fundamentos do regime militar, o qual caiu de maduro com as eleições (indiretas) de 1985.

     Se a democracia tem suas falhas, e muitas, ainda não se inventou um regime alternativo a ela. Somente com a imprensa livre, com o direito à livre associação em categorias profissionais, classes sociais, grupos de interesse comum, etc., é possível o fortalecimento da cidadania.

     E este é o centro da questão: Uma nação se liberta fazendo o uso pleno da cidadania, assumindo a consciência de que é possível mudar tudo, desde que a opinião pública se conscientize e se movimente para obter essa transformação.

     Uma das falácias divulgadas pelos regimes fortes é a de que os órgãos de comunicação dirigem a opinião pública, mas a verdade é o contrário disso. Os jornais incentivam as "cartas à redação" para pautar seus assuntos conforme a reação dos leitores. As estações de rádio abrem canais de comunicação para auscultar o pensamento dos ouvintes. E os produtores de TV permanecem de olho fixo nos índices do Ibope para formar a sua grade de programação. Alguns programas jornalísticos tem até recursos para modificar a matéria no ar, esticando assuntos que dão maior índice de Ibope e encurtando outros que, naquele momento, estão fazendo o índice despencar.

     O público é que decide o que deve ler, ouvir ou ver. Desconhecer as tendências de seu público pode ser fatal a um órgão de comunicação. Assim, você, como eu, é um formador de opinião, agindo em mão dupla. Ao mesmo tempo em que é influenciado, também tem a possibilidade de influir. Faça uso dessa força. Esse é o único caminho viável para reformular o país, criando condições melhores de vida às gerações futuras.

Veja também:

FIM DO QUARTO VOLUME E DOS
"CEM ANOS DE REPÚBLICA"

 
 
 

.
www.pitoresco.com/historia
.