Iara, símbolo dos
anos de chumbo

Exumação do corpo da companheira de Carlos Lamarca revive a tragédia de uma geração que optou pela luta armada 

Norma Couri
JB-Online
5 de outubro de 2003

O sonho desfeito

     Cadáveres não faltam para quem quiser desenterrar a geração que lutou por um sonho mas teve sua história roubada. Mais de 30 anos depois, o fim da maioria dos desaparecidos durante a ditadura permanece misteriosa como a história daquele Brasil.

     Iara Iavelberg é apenas um entre os mais de 400 cadáveres registrados.

     Há 13 dias os Iavelberg conseguiram a exumação do corpo da companheira do capitão Carlos Lamarca, que há 33 anos foi enterrada na ala dos suicidas do Cemitério Israelita do Butantã em São Paulo. Iara tinha 26 anos e Lamarca, o guerrilheiro mais procurado do país, 33.

A versão

      Segundo a versão oficial, Iara, encurralada no banheiro de empregada de um apartamento em Pituba, na Bahia, teria dado um único tiro no peito durante o cerco policial que esvaziou o edifício. Ela empunhava um 38 ao ser descoberta por um menino de 12 anos, que obteve a permissão do coronel Luis Arthur de Carvalho para apanhar o material da escola.

     Um vizinho, Paulo Rezende, disse que transportou Iara com vida e entre dois policias, mas ela morreu a caminho do hospital.

     Era 20 de agosto de 1971. O corpo ficou um mês na geladeira numa estratégia macabra para atrair Lamarca, que acabou assassinado a 17 de setembro pelo então major Nilton Cerqueira, em Brotas de Macaúba, sertão baiano.

Os fatos

     O enterro foi uma operação militar. O caixão veio lacrado da Bahia para São Paulo, a família só viu o rosto de Iara pelo visor. A polícia alegava que o corpo poderia ser roubado servindo de estandarte da esquerda. Só permitiu a presença da mãe, Eva, do pai, David e da irmã, Rosa.

     Os dois irmãos da Iara, Samuel (codinome Moraes) e Raul (codinome Marcio), exilados no Chile de Salvador Allende, só voltariam com a anistia. Um colega apareceu e saiu preso.

     Desapareceu o laudo do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues onde o legista Charles Pittex acrescentou um ponto de interrogação: ''Suicídio?''. O médico Lamartine Lima afirmou que ouviu do sargento do Corpo de Fuzileiros Navais, Rubem Otero, a confissão do assassinato de Iara com uma rajada de metralhadora. Otero já morreu.

Resgate  de
uma história

     Há duas semanas Iara continuava enterrada sem a lavagem do corpo na quadra 26 do Cemitério, com os pés voltados para a lápide perto do muro, numa ala desonrosa para os judeus, a dos suicidas. A família conseguiu a exumação do corpo depois de 13 anos de insistência. Só o laudo do professor Daniel Munhoz, do Instituto Médico Legal da USP, dirá a verdade sobre a morte de Iara.

     O advogado da família, o deputado Luis Eduardo Greenhalgh (PT-SP), tem certeza de que ela foi morta.

     ''Várias testemunhas ouviram dois tiros e não aquele único do alegado suicídio''.

      Greenhalgh reabriu o caso processando a Sociedade Chevra Kadisha responsável pelo Cemitério.

Vlado teve tratamento
diferenciado

     O rabino Henri Sobel, presidente da Congregação Israelita Paulista, impediu, quatro anos depois da morte de Iara, o enterro do jornalista Vladimir Herzog na ala dos suicidas, como alegava o laudo do Doi-Codi.

     ''Vlado tinha marcas de tortura '',explica, '' mas ninguém viu o corpo de Iara, e as autoridades ortodoxas aceitaram a versão oficial de suicídio''

     A irmã caçula, Rosa, tinha 21 anos quando soube, pelo rádio do carro, que Iara havia morrido. Rosa era a única entre os quatro irmãos que não estava na clandestinidade ou no exílio.

Um drama familiar

     ''A exumação é um ato político mas minha família merece reparação: meu pai morreu há cinco anos sem saber, e minha mãe morreu há três meses com 80 anos dormindo com luz acesa, sofrendo de pânico e pesadelos horríveis''

     O irmão Samuel, fotógrafo, 57 anos, nunca acreditou na hipótese de suicídio.

     ''Do jeito que ela gostava da vida...E até hoje todos os casos alegados pela ditadura foram contestados''.

     Ele acredita que a irmã tenha morrido metralhada. O outro irmão Raul, especialista em informática, 54 anos, saiu do país em março de 1970 quando sua chefe imediata, a hoje ministra das Minas e Energia, Dilma Roussef, foi presa.

A contestação
ao regime

     Eles pertenciam primeiro à Polop (Política Operária) depois à Vanguarda Armada Revolucionária (VAR) que rachou com a opção de Iara e Lamarca, luta armada na Vanguarda Popular Revolucionária e no MR-8.

      No ano seguinte, um bilhete de Samuel anunciava a morte de Iara.

     ''Desde o início duvidamos, as versões que ouvimos da Europa foi de morte sob tortura. Quando recebi uma carta dela no Chile respondi pedindo que ela e Lamarca saíssem do país e se preservassem como quadros, a clandestinidade era equivocada. Acho que ela nunca recebeu''.

A volta ao passado

     A exumação foi dos piores momentos de sua vida.

     ''Vi no que a Iara se transformou. Senti uma tristeza enorme em ver aqueles ossos enegrecidos. Nossa luta era para mudar o país.

     "As pessoas não têm memória mas hoje essa violência, a falta de respeito pelo outro é fruto da ditadura, da tortura. A elite continua lamentável, o povo pagando o preço''.

     O rosto de Iara está numa foto no Centro Maria Antonia em São Paulo entre os mártires da exposição sobre os horrores do Holocausto e das ditaduras argentina e brasileira.

Convivendo com
fantasmas

     Também confunde-se com Carla Camuratti que viveu Iara no filme de Sergio Rezende, ''Lamarca''. No vídeo de 1994, ''Iara, Lembrança de Uma Mulher'', Renato Sacerdote filmou Mariana, hoje com 31 anos, no papel da tia: ela estava na barriga da irmã de Iara, Rosa, quando se anunciou o suicídio.

     Sacerdote tinha dez anos quando Iara morreu. Mas fez questão de gravar o depoimento do ex namorado e hoje Chefe da Casa Civil, José Dirceu, falando da ''supermulher''; da amiga da Faculdade de Psicologia Tutinha ( Maria Magaldi) dizendo que, como os vietcongs, só dava para fugir para a frente''.

     Há também o depoimento de Maria do Carmo, da VPR contando que não conseguiu cumprir a combinação que fez com o marido de um matar o outro se a polícia chegasse: o marido preferiu suicidar-se e Maria do Carmo foi presa e torturada.

     O sargento do Exército Darcy Rodrigues repetiu uma frase de Lamarca:

     ''Morrer é fácil, difícil é conviver com nossos fantasmas até o fim da vida.''

Quando a verdade fala
mais alto

      Quem desvendou a história de Iara foi a jornalista Judith Patarra que passou oito anos ouvindo 140 testemunhas e reconstituindo a morte na Bahia, onde Lamarca criou um foco guerrilheiro para conscientizar camponeses. Seu livro Iara (Rosa dos Tempos) foi guia para Sacerdote e Rezende.

     Judith ouviu a versão oficial do próprio coronel Luis Arthur mas acredita que possa ter sido forjada.

     ''Hoje, dizem que o tal garoto que viu Iara e a arma era afilhado do coronel''.

     Está convencida de que roubaram a história de Iara, e a do país, e está disposta a reescrever seu livro depois da saída do laudo.

     ''Naquela época ninguém falava a verdade''.

No reduto da
"Maria Antônia"

     Judith traz de volta os anos 60, que encontraram Iara prestando vestibular para Psicologia e estudando na rua Maria Antonia, símbolo de agitação, existencialismo, passeatas, amor livre, coquetéis molotov.

     Descreve uma Iara feminina, carinhosa, namoradeira que se casou aos 16 anos com um médico, cunhado do legista Isaac Abramowitz, comprometido cm laudos que acobertavam mortes sob tortura.

     Saiu do casamento cinco anos depois, virgem e revolucionária, com os codinomes Rita, Célia, Cláudia, Tânia.

     Freqüentava festas na casa de Chico Buarque na rua Buri, namorou o poeta Antonio De Francheschi e apaixonou-se por líderes revolucionários como José Dirceu, amigo de José Arantes morto em 1970 e namorado de Aurora, morta com o torniquete que afundava o crânio, conhecido como Coroa de Cristo.

     No radio, ouvia Geraldo Vandré, Pete Seeger, Joan Baez, Bob Dylan, Roberto Carlos. Nas telas, Terra em Transe e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro de Glauber, A Chinesa de Godard censurada.

O soldado Lamarca

     Iara era bonita, não via problema em ser revolucionária e cortar os cabelos com Jambert. Gostava de roupas.

     Quando foi para a Bahia com Lamarca pediu a Tutinha que lhe comprasse um arsenal de guerrilheira no Armazém do Exército: cantil, coturnos, mochila. Achava que as paixões fortaleciam o guerreiro. Tinha uma foto de Che na kitchenette da rua Maria Antonia.

     Enquanto isso Carlos Lamarca, ex integrante das tropas da ONU no Suez, dava curso de tiros às bancárias do Banco Brasileiro de Descontos. Assaltos a banco, explosão de postos de gasolina, roubo de dinamite.

     Quando o capitão da Infantaria Carlos Lamarca desapareceu da unidade onde servia levando armas e munição, virou traidor. Para Iara era Quixote e herói. ''Recuar para quê?'', dizia. ''É o momento de fazer história''.

O guerrilheiro Lamarca

     Carioca filho de um sapateiro, rosto encovado, Lamarca, codinomes João, César, Cláudio e Cid, arrancou dezesseis dentes e fez operações plásticas para driblar a repressão. Iara brincava: ''Você é o mais belo Frankstein'' e, com a cápsula que Lamarca carregava consigo para o caso de ser apanhado: ''Cuidado com seu veneninho''.

     Lamarca mandou a mulher Maria Pavan e os filhos para Cuba e apaixonou-se por Iara. Ela, que não podia ter filhos, pretendia ter alguns com ele.

     O irmão Samuel diz que Lamarca era pedra bruta lapidada por Iara, que dava lições de Marx, Rosa de Luxemburgo, Lênin. Lamarca dava em troca colares de dentes de cavalo a Iara. Na caatinga baiana eles faziam treinamento. ''Não quero, não posso sair do país, vou até o fim'', Iara dizia.

Por trás do ufanismo,
as sombras

      Um ano antes de sua morte, o Brasil ganhou a Copa. Metade do país entoava ''Pra Frente, Brasil''. A outra metade mergulhava nas sombras: o governo Médici levou 4.460 militantes aos tribunais militares.

     Entre 64 e 79, 40% dos réus tinham menos de 25 anos, mais da metade universitários. Os ''aparelhos'' caíam. Ninguém viu o corpo de Iara mas na página 507 do livro, Judith conta: ''O governador ( Antonio Carlos Magalhães) examinou Iara morta, mórbido ultraje devassando o corpo indefeso, sobriedade fingida, 'que mulher linda era' ''.

     Lamarca não mordeu a isca do corpo embalsamado de Iara, mas foi morto por causa dos diários que enviou para ela com o militante João Lopes Salgado, repassados a César Benjamim, apanhado numa blitz no Jardim de Alá. César fugiu abandonando o fusca com a maleta e os diários.

     O Exército já sabia que o capitão estava na Bahia e pelos diários deduziu o local. Os diários são um relato revolucionário e apaixonado:

     ''Estejamos onde estivermos, sempre uma realidade a transformar...'', ''isso(Iara) é o que de mais lindo me aconteceu na vida...'', ''vamos lutar e vamos nos encontrar''.

A versão oficial

     A história oficial está contada na Operação Pajussara com a qual o II Exército fez o cerco aos dois em 1971. Reproduz os mapas dos esconderijos e conclui:

     ''Foi destruído o mito terrorista representado por Lamarca''. E conta o último diálogo (questionado) entre o então major do Exército Nilton Cerqueira e Lamarca:

     Cerqueira: ''Você é Lamarca?''

     E Lamarca: '' Sei quando perco''.
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