Fantasmas do Araguaia

Texto e Imagens:
LEANDRO LOYOLA
Revista "Época" (O Globo)
Edição 302 - 01.03.2004


Soldados descobertos por ÉPOCA mostram onde enterraram
guerrilheiros e o governo ordena escavações

Confira a seguir um trecho desta reportagem, que pode ser lida na
íntegra na edição da revista ÉPOCA de 01/mar/2004


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Na foto, uma das primeiras patrulhas a chegar ao Araguaia


     A lei mais sagrada nas matas do Araguaia era ''ver, ouvir e calar'', como ordenavam, logo de cara, os comandantes militares aos soldados que chegavam à região para combater a guerrilha do PCdoB.

     O mandamento foi seguido à risca. Trinta anos depois, o Brasil ainda sabe muito pouco sobre o que aconteceu naqueles confins amazônicos entre a noite de Natal de 1973 e o fim de 1974. Esse período marca a investida decisiva do Exército no extermínio do mais organizado foco de combate ao governo desde Canudos.

     Nenhum dos 35 guerrilheiros que restavam na área (eram mais de 70 dois anos antes) sobreviveu para contar sua versão da história. Os militares que participaram da chacina fecharam-se e a campanha do Araguaia sumiu dos documentos oficiais. Não apareceram nem cadáveres para que as famílias pudessem enterrar seus mortos. Até hoje, apenas um corpo foi identificado.

      Esse silêncio é rompido agora com o depoimento de quatro soldados que atuaram na repressão à guerrilha em Xambioá. Durante 11 dias eles contaram a ÉPOCA como guerrilheiros foram presos, mortos e enterrados. Mais do que isso: apontaram os locais onde corpos de pelo menos quatro jovens combatentes foram sepultados. Os depoimentos inéditos jogam um pouco de luz sobre esse período de sombras.

     ''É a primeira vez que militares que participaram do combate decidem colaborar'', diz Nilmário Miranda, secretário nacional dos Direitos Humanos, que esteve na área em Xambioá a convite de ÉPOCA e também ouviu os soldados. ''A área que eles apontaram como o local das covas era desconhecida e os depoimentos são consistentes.''

     O lugar será isolado imediatamente pelo governo. Nesta semana chegam à região um grupo de antropólogos forenses argentinos liderado por Luiz Fondebrider (o homem que escavou e identificou os restos mortais de Che Guevara na Bolívia) e uma equipe brasileira com radares para fazer reconhecimento e começar a busca dos corpos. Também participarão membros da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos e representantes das famílias.


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     No ano passado, a Justiça Federal deu ganho de causa aos familiares dos desaparecidos e obrigou as Forças Armadas a revelar todos os seus arquivos sobre o Araguaia. Mas o governo federal recorreu da decisão, adiando a abertura dos segredos.

     Nos bastidores, no entanto, continuaram intensas negociações. Foi acertado um pacto com os militares: ninguém precisa entregar nomes de executores, nem contar como tudo aconteceu - basta que surjam informações seguras dos locais onde podem ser encontrados corpos, para resgatá-los e entregá-los às famílias. Uma comissão secreta formada por membros do Exército, da Marinha e da Aeronáutica foi incumbida de revirar arquivos atrás de informações da guerrilha. O prazo para a entrega do material termina em 4 de abril.

     Até hoje as Forças Armadas não assumem a luta do Araguaia. Foi a partir de 1966 que militantes do PCdoB começaram a chegar à região. O objetivo era instalar-se por ali e, com o tempo, cooptar a população para criar uma área autônoma no coração do Brasil.

     Alguns deles eram guerrilheiros treinados na China. A maioria, porém, era de estudantes universitários engajados na militância das cidades que se mudaram para o campo sem maior preparo

 
 
 

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