A lei mais sagrada nas matas do Araguaia era ''ver, ouvir e
calar'', como ordenavam, logo de cara, os comandantes militares aos soldados que chegavam
à região para combater a guerrilha do PCdoB.
O mandamento foi seguido à risca. Trinta anos
depois, o Brasil ainda sabe muito pouco sobre o que aconteceu naqueles confins amazônicos
entre a noite de Natal de 1973 e o fim de 1974. Esse período marca a
investida decisiva do Exército no extermínio do mais organizado foco de combate ao
governo desde Canudos.
Nenhum dos 35 guerrilheiros que restavam na
área (eram mais de 70 dois anos antes) sobreviveu para contar sua versão da história.
Os militares que participaram da chacina fecharam-se e a campanha do Araguaia sumiu dos
documentos oficiais. Não apareceram nem cadáveres para que as famílias pudessem
enterrar seus mortos. Até hoje, apenas um corpo foi identificado.
Esse silêncio é rompido agora com o
depoimento de quatro soldados que atuaram na repressão à guerrilha em Xambioá. Durante
11 dias eles contaram a ÉPOCA como guerrilheiros foram presos, mortos e enterrados. Mais
do que isso: apontaram os locais onde corpos de pelo menos quatro jovens combatentes foram
sepultados. Os depoimentos inéditos jogam um pouco de luz sobre esse período de sombras.
''É a primeira vez que militares que
participaram do combate decidem colaborar'', diz Nilmário Miranda, secretário nacional
dos Direitos Humanos, que esteve na área em Xambioá a convite de ÉPOCA e também ouviu
os soldados. ''A área que eles apontaram como o local das covas era desconhecida e os
depoimentos são consistentes.''
O lugar será isolado imediatamente pelo
governo. Nesta semana chegam à região um grupo de antropólogos forenses argentinos
liderado por Luiz Fondebrider (o homem que escavou e identificou os restos mortais de Che
Guevara na Bolívia) e uma equipe brasileira com radares para fazer reconhecimento e
começar a busca dos corpos. Também participarão membros da Comissão Especial de Mortos
e Desaparecidos Políticos e representantes das famílias.